A TIREÓIDE E A OBESIDADE

Anete Hannud Abdo

Dentro do nosso corpo existem diversos órgãos (coração, pulmões, fígado, rins, intestinos, etc), cada um executando determinadas funções para que nós possamos sobreviver. Como numa orquestra, eles precisam funcionar harmonicamente para que nossa saúde seja perfeita.

Mas é na parte da frente e inferior do nosso pescoço que está localizado um órgão pequenino (pesa quase 30 gramas) mas muito poderoso, pois seu mau funcionamento é capaz de desafinar toda essa orquestra: a tireóide.

Você deve estar se perguntando como um órgão de tamanho tão desprezível pode fazer tanto estrago. O segredo é que a tireóide é o que chamamos de glândula: ela produz e lança diretamente no sangue substâncias chamadas hormônios; assim, pegando carona na corrente sangüínea, esses hormônios podem atingir todos os órgãos do nosso corpo. E não é preciso “inundar” o sangue com estes hormônios: basta uma ínfima quantidade chegar a qualquer órgão para influenciar o funcionamento de todas as suas células.

Os hormônios da tireóide, os famosos T3 e T4, são como o pedal do acelerador de um carro: seu excesso ou sua falta, respectivamente, aceleram ou desaceleram o metabolismo, as reações químicas que acontecem no interior das células para gerar energia.

A disfunção mais freqüente da tireóide é o HIPOTIREOIDISMO, situação em que a tireóide produz uma quantidade de hormônios abaixo daquela necessária para o funcionamento normal do organismo, deixando toda a nossa “máquina” mais “lenta”.

No início, o problema pode passar despercebido e só ser diagnosticado através de exames de sangue. A pessoa pode até passar por “preguiçosa”, “sem força de vontade”, pois está sempre se queixando de fadiga, sonolência, dores no corpo, mal-estar, memória fraca, desinteresse pelo trabalho, falta de concentração, raciocínio lento, desânimo até mesmo para realizar as suas atividades do dia-a-dia, e ganho de peso. Mas, conforme vai piorando o grau do hipotireoidismo, podem surgir vários outros sintomas e, nos casos mais graves, se não houver tratamento, a pessoa pode até entrar em coma. Veja alguns destes outros sintomas e sinais do hipotireoidismo: depressão, diminuição da audição, freqüência cardíaca baixa, aumento da pressão arterial, aumento do volume do coração, falta de ar, diminuição da ventilação pulmonar, ronco, apnéia do sono, prisão de ventre, diminuição do volume de urina, dores articulares, fraqueza e dores musculares, cãimbras, diminuição de massa óssea, pele fria, pálida e seca, transpiração diminuída, palmas das mãos amareladas, inchaço, queda de cabelos, cabelos sem brilho, diminuição do crescimento de pelos e unhas, unhas fracas e quebradiças, diminuição de libido, irregularidade menstrual, falta de ovulação e dificuldade para engravidar, abortos espontâneos, anemia, intolerância ao frio, tendência a “queda do açúcar no sangue” (hipoglicemia), aumento do colesterol, diminuição do crescimento e atraso da idade óssea nas crianças.

Como você pode ver, todos estes sinais e sintomas se confundem com os sintomas de muitas outras doenças.

Veja em que situações devemos ficar mais atentos e desconfiar de hipotireoidismo:

  • Mulheres com mais de quarenta anos e homens com mais de sessenta anos (o hipotireoidismo é mais comum entre as mulheres, e é mais freqüente com o avançar da idade, embora também possa aparecer nas crianças).
  • Mulheres no período pós-parto (até aproximadamente seis meses).
  • Antecedente de outras doenças da tireóide (hipertireoidismo, tireoidite).
  • História de radioterapia na região do pescoço.
  • Uso de medicamentos que podem interferir na tireóide (lítio, amiodarona, etc).
  • Depressão refratária a tratamento, síndrome do pânico.
  • Antecedente familiar de doença da tireóide ou de doença auto-imune (a causa mais comum do hipotireoidismo é a tireoidite de Hashimoto, uma doença familiar em que a pessoa fabrica anticorpos contra sua própria tireóide, fazendo com que, aos poucos, ela deixe de fabricar seus hormônios).
  • Perda de massa óssea (osteopenia, osteoporose), aumento do colesterol, e todos os outros sintomas e sinais já descritos acima.

A melhor maneira de saber se você tem hipotireoidismo é procurar seu médico e contar seus sintomas. Através desta conversa e do exame físico ele pode avaliar quais exames serão necessários para se fazer o diagnóstico.

 

Quanto ao aumento de peso causado pelo hipotireoidismo, ele regride com o tratamento, mas também é necessário, além do uso do medicamento, fazer atividade física e ter uma alimentação saudável.

Se você tem hipotireoidismo e está tomando medicamento à base de hormônio de tireóide para repor a deficiência, na dose certa para normalizar as taxas de hormônio no sangue, você não vai ter mais nenhum sintoma. Não há motivo para engordar “por causa da tireóide” se o tratamento está sendo feito corretamente e a taxa de hormônio no sangue está normal.

E se você não tem hipotireoidismo, não está indicado o uso de hormônio de tireóide para emagrecimento. O uso de hormônio de tireóide emagrece quem não tem hipotireoidismo somente se for usado em doses muito acima da necessidade do organismo, levando a um excesso deste hormônio na circulação sanguínea (hipertireoidismo), que pode ter conseqüências desastrosas para a saúde, como arritmias cardíacas, infartes, derrames e até transtornos psiquiátricos. Além disso, o peso que se perde desta maneira não se refere só a gordura; perde-se massa óssea, podendo levar a osteoporose, e perde-se massa muscular, o que diminui o metabolismo e favorece um ganho de peso ainda maior quando se suspende o uso do hormônio, o famoso efeito-sanfona.