O Software Livre como ecossistema - parte 2

24 de Abril de 2013, por Alexandre Hannud Abdo - 0sem comentários ainda

 

Expandindo as ideias expostas no artigo O Software Livre como ecossistema, escrevi este texto para orientar minha apresentação na II Semana de Software Livre da USP.

Ni!

Das três liberdades positivas do Software Livre, podemos observar três correspondências a partir das quais depreendemos o resto deste texto. A liberdade de estudar possibilita que seu desenvolvimento seja incremental. A liberdade de estudar possibilita que seu desenvolvimento seja recombinante. A liberdade de distribuir possibilita que seu desenvolvimento seja modular.

A partir disso, refletimos sobre algumas semelhanças entre os processos de desenvolvimento da vida, da ciência e do Software Livre

A vida é incremental, recombinante e modular. A ciência é incremental, recombinante e modular. O software livre é incremental, recombinante e modular.

A força motriz da vida é a reprodução. A força motriz da ciência é a reprodução. A força motriz do software-livre é a reprodução.

A vida evolui por pressão seletiva sobre novos organismos. A ciência evolui por pressão seletiva sobre novas ideias. O software livre evolui por pressão seletiva sobre novos códigos.

Na vida, a pressão é a adaptação ao meio e a competição. Na ciência, a pressão é a observação e a lógica. No software livre, a pressão é a eficiência e a lógica.

Cada célula tem em si o código genético de todo o organismo e há mecanismos para trocar com outros. Cada biblioteca organiza em si a literatura de toda sua área e há mecanismos para trocar com outras. Cada distribuição de sistema operacional livre tem em si o código-fonte de todos os seus programas e há mecanismos para buscar outros. Todos pecam pela abundância de informação.

A vida tem longos períodos de conservação entre rápidos e intensos saltos evolutivos. A ciência tem longos períodos de normalidade entre rápidas e intensas mudanças de paradigma. O software livre tem longos períodos de maturação, entre rápidas e intensas janelas de inovação.

A vida é informação. E a informação, é viva? Podemos falar na Evolução da informação?

E seria assim o Software Livre um imperativo da ética científica? Do sentido da vida?

Existe um outro processo de regulação do software. É o software proprietário, onde a informação é tratada como propriedade privada, apesar da sua natureza multiplicativa. Esse processo vale-se de restrições de acesso e de uso da informação, possíveis pela dualidade entre código-fonte e código de máquina – onde converte-se informação compreensível em tecnologia alienante, – e por leis como o direito autoral e as patentes – cuja mera manutenção tem um altíssimo custo, – além de restrições tecnológicas como o DRM – Digital Restrictions Management.

Com isso esse processo obstrui a competição evolutiva – impedindo a recombinação e incrementação, - cria colateralmente dependências unidirecionais e, impedindo o estudo do software, promove a alienação. Também cria uma relação de controle, pois o software tornou-se o intermediário ubíquo da informação na sociedade contemporânea, tendo assim controle direto sobre nossa liberdade de expressão, privacidade e a lente pela qual conhecemos o mundo. Junto a isso, o software também intermedia nossa identidade e, assim, também aspectos materiais da nossa vida. O software torna-se lei e quem o controla, governante.

Assim como uma tecnologia, uma lei pode ser utilizada sem ser compreendida. Mas a democracia exige que os recursos para compreendê-la estejam prontamente disponíveis. Toda lei é de domínio público. Valendo o mesmo para o software, que seja mais ciência.

Software livre, sociedade livre.

Colaboração e democracia

Três pilares organizacionais: transparência, participação, distribuição.

Dois pilares seletivos: validação e mérito. Unificados na biologia pois a aplicação do mérito é a remoção dos inválidos. Na democracia os pilares são os direitos constituintes e os acordos na forma de leis.

Exercício mental; em termos desses pilares, como entender...

  • Licenças livres

  • Disponibilização do código-fonte

  • Controle de versão

  • Comunidades ético-meritocráticas

  • Direito à bifurcação

?

Tópico extra, Software Livre e computação remota: controle, autonomia e federação

Objetos: aplicativos e base de dados.

Ferramentas: código, padrões, protocolos, serviços.

 

Controle: aplicativos em código-aberto para auditar e hospedar.

Autonomia: separação entre aplicativos e base de dados de um mesmo usuário.

Federação: integração entre aplicativos e base de dados em servidores diferentes.

 

Exemplos: Email, XMPP, SIP+WebRTC, OwnCloud, StatusNet/Friendica/Diaspora, Mediagoblin, Tent.io.

Exercício mental; como essas questões se intensificam com computadores móveis.



Acesso aberto? Ciência aberta!

24 de Janeiro de 2013, por Alexandre Hannud Abdo - 0sem comentários ainda

Este texto surgiu de uma resposta a um post no blog do Peter Murray-Rust sobre dificuldades da comunidade de acesso aberto.

Ni!

O movimento de Acesso Aberto sofre, no julgamento de alguns envolvidos, de uma questão crônica de foco incompleto. Ao meu ver, essa questão é mais fundamental que más definições ou divisões do movimento, e conduz a a elas.

Entendo que acesso é apenas um parte da abertura de um sistema. Assim, "acesso aberto" significa apenas "acesso para X aberto", onde X no contexto trata-se da ciência, e é condição necessária mas não suficiente para uma ciência aberta.

E é por isso que, enquanto focar seu discurso apenas sobre acesso, o movimento perde de vista os outros aspectos sem os quais uma abertura efetiva da ciência não pode ser conquistada: participação (alguns chamam de inclusão) e integração (alguns chamam de modularidade).

Em termos políticos, o "acesso aberto" como fenômeno isolado pode ser comparado à existência de "dados abertos" – também uma abreviação de "dados para um governo aberto" – mas sem a perspectiva de um governo aberto.

Em termos de software, o "acesso aberto" por si só é similar a desenvolver um conjunto de "aplicativos de código aberto" sem, contudo, reconhecer o objetivo de construir um sistema operacional livre.

Assim, da forma como vejo, o caminho para atingir consenso e juntar forças pelo "acesso aberto" é, ao invés, questionar como podemos abrir o processo de descoberta científica e a comunidade científica. Qual o tipo de acesso que melhor habilita essa mudança? Isso nos dará diretrizes efetivas para o "acesso aberto".

Por isso, uma crescente fração das vezes que me pedem para falar sobre acesso, eu primeiro refiro-me à ciência aberta, e então desenvolvo a pergunta para que tipo de acesso é necessário para uma ciência aberta. Observando ainda que ele – esse tal "acesso aberto" – traz consigo imediatos benefícios práticos e éticos.

Esse nem sempre é o discurso certo para convencer mais pessoas, mas é o discurso mais convincente para as pessoas certas.

Abraços,

ale



Entrevistas com alguns filósofos que discutem realismo

2 de Janeiro de 2013, por Alexandre Hannud Abdo - 0sem comentários ainda

Ni!

Há algum tempo eu trombei com um blog anglófono onde um professor de filosofia, Peter Gratton, lecionando um curso sobre realismo decidiu entrevistar colegas contemporâneos reconhecidos por seu trabalho no assunto com perguntas suas e de seus alunos.

As entrevistas são bastante dinâmicas e os assuntos abordados pertinentes aos temas atópicos, em particular a entrevista com o Tim Morton, que é um cara que eu gosto muito quando fala de ecologia.

Aqui vão os links:

Ian Bogost

 (autor em filosofia sobre videogames)

Jane Bennett

 (autora em filosofia da ecologia política)

Graham Harman

 (autor em metafísica do real e proponente da filosofia orientada a objetos, também autor de "Prince of Networks" sobre Latour como filósofo)

Levi Bryant

 (autor de livros sobre Deleuze e um dos principais comunicadores do realismo especulativo)

Paul Ennis

 (autor em filosofia da mente e heidegger)

Tim Morton

 (autor de "Ecology without Nature" e "The Ecological Thought")

Uma curiosidade sobre esse grupo, e que o professor discute na introdução de algumas entrevistas, é que todos são engajados na blogosfera e criaram ali uma nova dinâmica de produção filosófica.Abraços, boas leituras e bom janeiro!

ale
b
 d
o



O mito da excelência acadêmica e a curiosidade científica - por Walter F. Wreszinski

10 de Dezembro de 2012, por Alexandre Hannud Abdo - 0sem comentários ainda

Ni!

Este post é apenas para indicar a leitura de um excelente artigo no JorUSP, escrito por um excelentíssimo professor com quem tive o prazer de ter excelentézimas aulas! rsrs

O artigo é este no link a seguir:

O mito da excelência acadêmica e a curiosidade científica

O professor chama-se Walter Wreszinski e, além da boa didática e profunda pesquisa, é conhecido por algumas observações inesperadas, mas bem colocadas, sobre a vida, durantes suas aulas e em conversas.

Abraços,

Abdo



Alguns desafios do Software Livre: autonomia e federação

22 de Maio de 2012, por Desconhecido - 1Um comentário

Ni!

Há duas décadas atrás, um ainda jovem Movimento Software Livre alertava o mundo de que o grande limitante para o avanço das tecnologias e de seu usufruto pleno e ético pela sociedade era o controle sobre o código fonte executado pela imensa maioria dos computadores, praticamente dominados por uma só empresa.

Através do avanço da Internet, impulsionado por tecnologias desenvolvidas pelo movimento, esse domínio caiu e ainda hoje estamos a assimilar mudanças de paradigma muito além do prometido.

Hoje, e de fato já há alguns anos, parte do Movimento Software Livre começou um novo alerta. O grande limitante para o avanço das tecnologias e de seu usufruto pleno e ético pela sociedade ganhou um outro aspecto, o controle dos dados e da interoperabilidade dos aplicativos que os manipulam. Praticamente dominados por três empresas: Google, Facebook e Apple.

Enquanto a resposta anterior foi criar um sistma operacional livre, hoje conhecido por GNU/Linux, a resposta atual iniciou-se com a conceituação de serviço federado e autônomo, o desenvolvimento da licença AGPL, e uma chamada à produção de plataformas que substituam os atuais monopólios.

Explico:

Federado é o serviço que funciona como o email, onde eu posso escolher meu provedor e interoperar com quem escolheu outro naturalmente, através de protocolos estabelecidos por considerações técnicas e sociais e não pelo interesse unilateral da maior empresa.

Pense num usuário do Facebook adicionando um usuário do Google+, ou alguém usando o Google Apps para colaborar com um usuário do Office 360, alguém usando o Twitter para seguir um Tumblr, ou postando uma vídeo resposta no Vimeo para um vídeo no Youtube. Nada disso é possível hoje, pois na ausência desses protocolos, cada serviço origina um grande monopólio para o qual é vantagem manter os usuários dependentes de si, evitando inovações maiores do que a altura dos seus muros, mesmo que elas sejam de interesse dos usuários.

Autônomo, um conceito mais novo, é o serviço onde o provedor não tem controle sobre os seus dados, nem legalmente, nem tecnicamente, podendo os dados inclusive estar hospedados em um outro provedor, com o qual o primeiro interopera através de protocolos estabelecidos por considerações técnicas e sociais e não pelo interesse unilateral da maior empresa.

O email ainda serve de exemplo, pois você pode fazer o download de todas as suas mensagens e carregá-las em outro provedor, como também pode encriptar suas mensagens ao armazená-las, de forma a dificultar o acesso do provedor ao conteúdo delas. Serviços autônomos, contudo, consideram a separação entre serviço e dados de forma ainda mais implícita. Na sua forma mais avançada, você escolhe dois provedores: um que hospedará seus dados e outro que oferece os aplicativos. Você pode, a qualquer momento, trocar seu provedor de aplicativos mantendo os seus dados no mesmo lugar, ou vice-versa. Além dos ganhos evidentes em privacidade, isso promove a concorrência entre ofertas de dados e aplicativos, como também a interoperabilidade dos dados, libertando o usuário da necessidade, e até mesmo da conveniência, de usar um único provedor para todos os serviços.

Mas, mais do que isso, serviços federados e autônomos desbloqueiam uma mágica que ainda hoje a Internet não nos permite usufruir: a possibilidade de processar esses dados para nossas necessidades específicas, ignoradas pela abordagem "uma interface, um algoritmo" dos mega provedores, e todo um mercado de personalização da informação que permanece subdesenvolvido. A princípio isso terá imenso significado para a capacidade de empresas estudarem e transformarem seus processos e produtividade, hoje sequestrados pelas grandes plataformas para qualquer coisa mais moderna do que email.

Essa personalização estende-se da escolha da interface e organização dos dados até os algoritmos que os processam, e mais além com o uso de inferência estatística e inteligência artificial para enriquecer as informações. E assim, aos poucos, essas práticas entrarão também no cotidiano das pessoas, permitindo que o usuário organize as suas informações pessoais da forma como organiza seu pensamento e sua vida, refletindo a individualidade das suas relações e tornando sua experiência mais natural e prazeirosa, reduzindo o stress informacional.

Uma boa metáfora aqui é a moda. Hoje convivemos com apenas três grifes de informação, mas que estão funcionalmente divididas: uma orientada para o trabalho, outra para a vida pessoal e consumo, e por fim uma para o deleite focado na elite. Ou seja, cada domínio da vida só nos dá uma única opção de vestimenta! Estamos, aqui, presos num espaço de extrema subutilização da criatividade humana.

Bem, por uma provocação do Paulo Meirelles a indicar nomes internacionais para convidados do Fórum Internacional de Software Livre deste ano, acabei compilando num email para a lista de discussão do Centro de Competência em Software Livre da USP uma conjunto de projetos que inovaram substancialmente na direção discutida acima, e então o Luciano Ramalho convenceu-me a transformar a lista neste post.

Há um número crescente de projetos inovadores acontecendo no movimento Software Livre relacionados a web, federação, autonomia e mobile. Cada um deles tem potencial real de revolucionar a Internet ou, mais precisamente, as nossas vidas pessoais, profissionais e as empresas.

Se o movimento conseguir aproveitar a vantagem com que já está partindo para quebrar o velho modelo, essa área pode explodir e projetar o software livre como nunca antes. As iniciativas abaixo já estão gerando novos modelos de desenvolvimento e de negócio, simultâneamente ao que revelam sentidos mais profundos de liberdade para o software.

Parece-me fundamental, neste momento, trazer isso para conhecimento do público e dos desenvolvedores brasileiros, que às vezes sinto estarem comendo bola nessa direção, especialmente por ser uma área que está nessa transição para abrir-se como negócio lucrativo ao mesmo tempo em que tem aspectos técnicos extremamente inovadores e finalmente resolve questões éticas com as quais estamos nos debatendo há alguns anos.

Eis a lista de convidados sugeridos, trocado o destaque do nome para os projetos....

StatusNet

http://status.net/

Evan Prodromou

Desenvolvedor do StatusNet - plataforma microblog federada AGPL - e da empresa homônima que vende redes federadas como serviço autônomo.

http://evan.prodromou.name/

Se não puder vir o Evan, peçam pra ele indicar alguém - o statusnet é talvez a rede federada de maior sucesso e relevância depois de email e XMPP.

XMPP/Jingle

http://xmpp.org/

Peter Saint-Andre

Falando em XMPP, que tal convidar o Pierre da XMPP Strandards Foundation e administrador do Jabber.org?

https://stpeter.im/

Media Goblin

http://mediagoblin.org/

Christopher Allan Webber

Desenvolvedor do MediaGoblin - plataforma multimídia federada AGPL - e engenheiro de software da Creative Commons.

http://dustycloud.org/

Se não puder vir o Chris, peçam pra ele indicar algum outro desenvolvedor, tem uma galera forte no MG.

Own Cloud

Algum desenvolvedor do Owncloud - plataforma AGPL para dados pessoais e aplicativos autônomos - que já está sendo vendido como serviço autônomo.

http://owncloud.org/

remoteStorage (Unhosted)

Se rolar também tragam alguém do Unhosted, projeto que está criando protocolos e bibliotecas (remoteStorage) para aplicativos web usarem dados remotos, viabilizando autonomia dos dados.

http://unhosted.org/

Diaspora ou Friendica

Também acho que vale a pena chamar alguém desses projetos, especialmente se o Evan, o Peter ou o Christopher não puderem vir.

http://diasporafoundation.org/

http://friendica.com/

Mobile

Como não dá pra falar de computação sem considerar dispositivos móveis, vale notar também o progresso das plataformas móveis que buscam internalizar os princípios do software livre, federado e autônomo, em sua constituição - ainda que a maioria das demais já tenha na web um ponto de compatibilidade.

O mercado mobile nasceu já em forma de cartel e é violentamente controlado pelas operadoras, e as empreitadas do software livre até então não lograram sucesso, porém falharam gloriosamente indo sempre um passo adiante. Com o amadurecimento dessas e o sucesso do Andoid, empurrado pelo gigante que o desenvolve, há sinais de que esse mercado está mais preparado para receber software livre.

Atualmente a Mozilla vem trabalhando no desenvolvimento do Boot2Gecko, e a Intel com a Linux Foundation no Tizen - herdeiro do Meego e, através deste, do Maemo e do Moblin. Também a Canonical vem aprontando algo nessa direção.

https://www.mozilla.org/en-US/b2g/

http://www.ubuntu.com/devices/android

https://www.tizen.org/

Infraestrutura

Antes de encerrar esta lista, há uma última direção importante de mencionar, que é a infraestrutura livre de computação distribuída para garantir que os provedores federados e autônomos possam dar escala a seus serviços de forma eficiente e confiável.

Dois projetos que merecem atenção aí são o OpenStack e o OpenCompute, ambos relacionados a padronizar hardware e software abertos para esse fim.

http://openstack.org/

http://opencompute.org/

Bem, é isso aí! Evidentemente não estou aqui pra dizer que esses projetos são mais importantes que outros similares, ou que eles abordam um problema mais importante do que, por exemplo, edição de vídeo não linear ou desenho para engenharia, mas eles focam uma área pervasiva que se aproxima de um ponto crítico onde a direção tomada terá grande significado social, político e econômico.

Abraços,

ale

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