O Sem-Noção manda lembranças!

13 de Outubro de 2008, por Desconhecido - 0sem comentários ainda

Hoje em dia, no Brasil, em quase todos os lugares e momentos, há um Sem-Noção aprontando das suas.

 

Repare bem na fila única do banco: Sempre chega o Sem-Noção e fica por ali, se fazendo de perdido, alegando que não está entendendo a fila para o caixa. Só que o camarada sempre entra ou fica próximo da cabeceira da fila, ou seja, está se fazendo de inocente, mas nunca fica numa posição de desvantagem, na rabeira da fila. Se as outras pessoas da fila comerem mosca, o Sem-Noção fatalmente se aboleta numa posição privilegiada e dá um nó em todo mundo. O Sem-Noção adora gente de boca aberta para ele poder aprontar livremente das suas. Quanto maior a boa-fé dos outros, mais o Sem-Noção se fortalece.

 

O Sem-Noção também costuma aparecer muito em lugares cheios de gente como cinemas, teatros, shoppings, estádios de futebol, bem como em metrôs e ônibus. Aparece de várias maneiras, mas em se tratando de celular, o Sem-Noção se supera. O mau uso que faz do aparelho é gritante. Parece que realmente faz de tudo para aparecer. A começar pelo toque. O toque do celular do Sem-Noção é sempre o mais estridente, esdrúxulo e alto possível. Ao atender, depois de deixar que o toque irrite a todos os que estão por perto, o Sem-Noção fala aos berros, como se outros precisassem saber dos seus assuntos particulares.  

 

Em conduções cheias, o Sem-Noção apronta uma atrás da outra. Não sabe se comportar, nem se posicionar em meio ao aglomerado de pessoas. O Sem-Noção é aquele que solta o peido mais fedido,  bem no momento de maior tensão e lotação, deixando os que estão por perto atordoados em meio à nuvem amarela.

O Sem-Noção é aquele que espirra bem na cara ou  por sobre as cabeças dos outros passageiros, sem a menor cerimônia e sem nem pensar em pedir desculpas.

O posicionamento do Sem-Noção é algo irritante. Se precisar estar perto da porta para descer, ele fatalmente estará bem sentado, o mais longe possível da porta. Quando o ônibus, trem ou Metrô vai partir, sai como um tresloucado, atropelando a tudo e a todos.

Se vai demorar a descer, o Sem-Noção fica justamente na porta de saída, barrando a passagem e atrapalhando a vida dos outros. Ou então no meio do corredor, sem lembrar que os outros podem estar querendo passar por ali. Ou seja, o Sem-Noção se caracteriza fortemente por conseguir sempre estar no lugar errado na hora errada e na posição mais atrapalhada possível. Se está sentado na condução lotada, o Sem-Noção jamais pensa em ceder o seu rico lugarzinho a alguém mais necessitado que ele, como uma gestante ou um idoso.  Os outros nem existem para o Sem-Noção. Quem são os outros?

 

O Sem-Noção também não usa qualquer palavrinha mágica no dia-a-dia. Por favor, desculpe, obrigado e com licença, não fazem parte do deu ridículo vocabulário. 

 

Os fumantes já são Sem-Noção por natureza, todos devem concordar. Agora, o fumante Sem-Noção é aquele que não respeita os não-fumantes, fumando em lugares impróprios e fechados, empestando todos os ambientes pelos quais passa. O Sem-Noção fumante é foda, literalmente.

 

Nos locais de trabalho também existe o Sem-Noção, sempre pronto a fazer tudo o que pode para desandar a maionese e acabar com o espírito de equipe. O Sem-Noção é aquele colega que reclama de tudo, que nunca colabora espontaneamente com os demais. Que nunca faz a sua parte bem feita. Que não se comunica. Que nunca responde em tempo hábil às demandas que cabem a ele. O Sem-Noção no trabalho é um estorvo para os que convivem com ele.

 

Por fim, nem é preciso dizer que o Sem-Noção está em muito mais lugares e ocasiões do que pude retratar aqui. Isso é só uma amostra da sua capacidade de destruição. Na política, então, o Sem-Noção nada de braçada, impulsionado pelo voto do eleitor Sem-Noção, outra  figura bastante deletéria – infelizmente - também muito presente no Brasil. Mas isso são outras histórias... 



Elucubrações matinais no 702-U

7 de Outubro de 2008, por Desconhecido - 77 comentários

Apesar da habitual lotação do 702-U, e de estar em pé, nesta manhã consegui um lugarzinho um pouco mais confortável, uma vez que me encaixei numa pequena área envidraçada, próxima à catraca. Pelos menos não tomaria tantos pisões, empurrões e encoxadas, e ficaria mais protegido de eventuais gatunos e mãos-leves, presenças freqüentes nesse horário.

Nessa privilegiada posição, podia ir contemplando a paisagem da Av. Rebouças, os pontos de ônibus lotados, as pessoas se engalfinhando na porta de entrada para tentar um lugarzinho no busão em que eu me encontrava, além do trânsito caótico de veículos, que trafegam fora do corredor exclusivo de ônibus.

Em alguns muros da avenida, podia ler pichações contrárias ao sistema eleitoral brasileiro e ao resultado parcial das eleições paulistanas.
A frase que mais me chamou atenção foi: “Quem tem fome não consegue votar direito!” ou algo equivalente. Foi aí que fiquei pensando em como seria melhor se o voto fosse facultativo, quando, em tese, só votariam as pessoas realmente preocupadas com a política nacional. Donde se conclui que as escolhas seriam mais sensatas e os eleitos não seriam tão sofríveis quanto os últimos resultados apontaram, principalmente os vereadores.
Por dedução, com eleitos mais decentes, teríamos mais chances de minimizar as agruras da enorme parcela do povo brasileiro que não come direito e não tem acesso à educação. Quem sabe aí conseguiríamos, nas eleições futuras, ter um quorum espontâneo de eleitores muito maior e mais qualificado. Quem sabe? Apenas elucubrações mentais matinais, a bordo do sofrível 702-U, que é - entra prefeito e sai prefeito - apenas mais uma linha de ônibus esquecida de Sampa, que, como tantas outras, transporta apenas trabalhadores e estudantes, além de muitos idosos e crianças, que, faça frio ou faça chuva, logo cedo precisam se dirigir aos hospitais públicos do SUS, para as consultas e exames agendados há meses.

Essa linha, como quase todas as outras, não transporta parentes de políticos, muito menos pessoas das classes A e B.Então, melhorar pra quê?

Mas o meu trajeto ainda estava pela metade, quando me deparei com outra cena marcante: No ponto de ônibus da Faria Lima, em meio à multidão de passageiros, notei um jovem gordo e forte, moletom e camiseta imundos e rasgados, pés descalços, cabelos emplastados de sujeira, com um enorme chico-doce nas mãos. Além dessa triste situação, o que mais me chamou a atenção, é que o rapaz vasculhava as lixeiras e andava soberano por entre todas as pessoas do ponto, que lhe abriam passagem incontinenti, a maioria por receio talvez. Apesar de seu triste estado de abandono e exclusão, o jovem mantinha um ar digno, possivelmente respaldado pelo enorme cacete de madeira que levava consigo. Ele havia descido tanto, que de alguma maneira se encontrava acima das pessoas comuns. Como tudo de pior já lhe acontecera, agora nada mais importava, estava imunizado contra desgraças. Os outros que o temessem e o respeitassem, pois ele já não tinha mais nada a perder, nem podia descer mais baixo. Nossa sociedade que o engolisse, já que o criara apenas com descaso, abandono e sofrimento.



RSVP - A "Caras" de Sampa

30 de Setembro de 2008, por Desconhecido - 0sem comentários ainda

Vi por estes dias, a veiculação da propaganda da revista RSVP, a qual, pelo que entendi, deverá ser um suplemento da famigerada Caras, que tratará especificamente de assuntos relacionados ao Grand Monde paulistano. Uma espécie de roteiro gastronômico, de compras e serviços, especialmente voltado aos bem-nascidos e bem-vividos da paulicéia. 

Tudo bem, tal publicação terá certamente o seu seleto público e, com o tempo, talvez venha a rivalizar com a Vejinha, outro balcão de anúncios suntuosos para bolsos abastados e gostos duvidosos.

Em minha modéstia suburbana, fico a conjeturar se é desse tipo de publicação que São Paulo, a grande São Paulo - a mãe que não rejeita ninguém, mas trata muito mal a maioria de seus filhos – estaria necessitando.

É notório que São Paulo tem um lado chique e cool no último. Mas também é notório para os menos hipócritas ou alienados, que é uma cidade cujas periferias estão impregnadas pelas mazelas sociais mais desumanas e torpes que podem afligir os cidadãos.

São Paulo precisa, isso sim, de publicações honestas e diversificadas, que mostrem tudo de bom que a cidade tem (E olha que São Paulo tem muitas pessoas decentes e coisas boas e simples, que não aparecem em guias finos como esse), mas também tudo aquilo em que ela precisa melhorar.

Falta atendimento digno e humano em hospitais e postos de saúde. Faltam creches e escolas bem equipadas e professores motivados. Faltam habitações decentes e obras de urbanização das regiões pobres e favelizadas. Falta transporte público rápido e eficiente, pois a maioria das obras viárias, quando são feitas, visam apenas melhorar o tráfego dos automóveis particulares. Faltam opções de lazer, esporte e arte para as crianças e jovens. Por outro lado, sobra criminalidade, tráfico de drogas e práticas corruptas e ilícitas. Falta vergonha na cara da classe dirigente de São Paulo para, em todas as instâncias diretivas e decisórias, agir com responsabilidade e espírito público, visando realmente melhorar as precárias condições de vida da maioria dos paulistanos. Mas não se preocupe. Nada disso estará na RSVP. Lá o mundo é cor-de-rosa e perfumado. E as pessoas são bronzeadas, malhadas, saradas e botocadas. As mulheres têm os cabelos lisos e sedosos e os homens sempre usam gel. 

Quanto aos leitores da RSVP, esses não precisam de nada que o Estado possa oferecer. Já têm transporte individual, terrestre e aéreo. Têm segurança particular, muito bem treinada e pronta para agir na incômoda presença de cidadãos comuns. Têm os melhores atendimentos que o dinheiro pode propiciar. Estudam nas melhores escolas, freqüentam os points chics indicados na revista. Não precisam do Estado. Vivem em redomas e condomínios fechados. Que se danem os comuns, jogados aos leões da violência urbana. Os VIP´s vivem muito bem em Sampa. Aliás, os ricos vivem muito bem em qualquer lugar do mundo, até na cadeia. Lêem Caras, Vejinha e RSVP, e ficam antenados quanto aos lugares a que podem ir, sem ter de passar o constrangimento de resvalar ou ombrear com gente de verdade. Chega às raias da indecência termos publicações voltadas apenas para o maravilhoso mundo dos grã-finos, em meio a todo o mar de injustiças e aberrações sociais que vivemos em São Paulo e no Brasil.      

 

PS: Fiquei curioso - sem a menor necessidade, diga-se - quanto ao que pudesse significar RSVP, e descobri o seguinte:

 

R.S.V.P. vem do francês: "respondez s`il vous plait", que significa "responda, por favor". A pessoa que enviou o convite deseja saber se você vai aceitá-lo ou não, ou seja, ela quer saber se você vai comparecer ao evento”.

Fonte de pesquisa: http://pessoas.hsw.uol.com.br/questao450.htm

 

Sigla bastante comum no dia-a-dia, e de fácil compreensão para o paulistano médio. Acho que só eu não sabia! 



Dia mundial sem carro (Na garagem)

23 de Setembro de 2008, por Desconhecido - 55 comentários

Na última segunda-feira, pasmem, foi comemorado o dia sem carro. Reconheço que estava por fora sobre o evento, que aliás é mundial. Penso que se a manifestação deu certo, talvez tenha sido no Japão ou na Escandinávia, porque em Sampa foi o horror de todas as segundas, um pouco pior do que o normal, também não sei explicar o motivo.

 A única coisa que pude constatar é que, além dos candidatos a prefeito, que naquele dia fizeram a campanha aparentemente (pelo menos diante das câmeras) sem carro, todo o resto da cidade se engarrafou adoidado pelas artérias entupidas da cidade que nunca pára. Não sei aonde ela quer chegar e a quem esse jeito besta de ser quer impressionar, mas São Paulo tem essa pecha de nunca parar.

Talvez seja não parar de criar atrocidades, injustiças sociais, maus tratos aos seus cidadãos,  talvez seja nunca parar de a cada dia deixar mais crianças sem escola decente, sem merenda decente e sem professores motivados.

É, como vemos, São Paulo não pára de crescer, e, para muitos hipócritas, pouco importa a forma como a cidade está crescendo, o que vale é que está inchando, quase explodindo. Para quem tem dinheiro e detém o poder político e financeiro, é, sim, uma cidade muito boa para se viver, pena que esses são a minoria muitíssimo privilegiada.

Para o povão (Puta maioria esmagadora), sobra só os descalabros do crescimento desordenado e da falta de solidariedade reinante numa cidade já bastante inóspita para se viver.

Voltando à vaca fria, o dia sem carro foi mais uma mostra disso. São Paulo deu uma grande banana para a iniciativa cidadã, pondo o grosso da sua frota na rua.

Mas isso eu vi e senti na prática. Não me lembro de nenhum importante meio de comunicação tê-lo noticiado.

E dá-lhe hipocrisia. E vamo que vamo, que Sampa não pode parar. Eu, particularmente, só queria uma rede de vez em quando, inspirado só um pouquinho pelo bom baiano Dorival.              

A epifania de Homer Simpson

18 de Setembro de 2008, por Desconhecido - 0sem comentários ainda

Havia muito tempo não assistia nada dos "Simpsons", pois, apesar de ser um desenho muito criativo e honesto, achava que já tinha dado tudo que podia dar.No entanto, zapeando, vi que passava "Simpsons - o filme" em um dos canais e, por escolha da minha filha, acabei assistindo.  No filme, Homer é execrado pelos seus vizinhos e amigos, devido às suas atitudes egoístas, pouco ecológicas e nada conscientes.    Homer, aliás, sempre foi o retrato mais realista de grande parte dos homens modernos, doa isso a quem doer. E é aí que sempre residiu o charme dos "Simpsons", a sua contundente crítica a comportamentos estúpidos e egoístas, sem noção mesmo, que permeiam largamente o nosso dia-a-dia.O que eu particularmente estava deixando de ver, é que Homer talvez seja o maior professor atual sobre como não devemos nos comportar, apesar do seu enorme coração, que sempre faz com que ele se redima no final. É o anti-herói da modernidade, que faz muita babaquice, mas tem hombridade suficiente, ao contrário da maioria na vida real, para perceber seus erros e ao menos tentar corrigi-los.Resumindo a ópera, no longa-metragem em questão, Homer acaba, através de mirabolante experiência xamânica, tendo uma epifania, ou seja, descobrindo num átimo aquilo que deveria ter aprendido desde criança, que devemos viver e pensar coletivamente, pois a vida só tem sentido dessa forma. Depois de conscientizado, Homer volta à sua "Springfield" e consegue, ao seu modo amalucado, salvar toda a cidade. Acho que todos ainda temos muito a aprender com a imensa estupidez dos "Simpsons", retrato grotesco, pronto e acabado do ser humano atual. Viva Homer!