Hoje em dia, no Brasil, em quase todos os lugares e momentos, há um Sem-Noção aprontando das suas.

 

Repare bem na fila única do banco: Sempre chega o Sem-Noção e fica por ali, se fazendo de perdido, alegando que não está entendendo a fila para o caixa. Só que o camarada sempre entra ou fica próximo da cabeceira da fila, ou seja, está se fazendo de inocente, mas nunca fica numa posição de desvantagem, na rabeira da fila. Se as outras pessoas da fila comerem mosca, o Sem-Noção fatalmente se aboleta numa posição privilegiada e dá um nó em todo mundo. O Sem-Noção adora gente de boca aberta para ele poder aprontar livremente das suas. Quanto maior a boa-fé dos outros, mais o Sem-Noção se fortalece.

 

O Sem-Noção também costuma aparecer muito em lugares cheios de gente como cinemas, teatros, shoppings, estádios de futebol, bem como em metrôs e ônibus. Aparece de várias maneiras, mas em se tratando de celular, o Sem-Noção se supera. O mau uso que faz do aparelho é gritante. Parece que realmente faz de tudo para aparecer. A começar pelo toque. O toque do celular do Sem-Noção é sempre o mais estridente, esdrúxulo e alto possível. Ao atender, depois de deixar que o toque irrite a todos os que estão por perto, o Sem-Noção fala aos berros, como se outros precisassem saber dos seus assuntos particulares.  

 

Em conduções cheias, o Sem-Noção apronta uma atrás da outra. Não sabe se comportar, nem se posicionar em meio ao aglomerado de pessoas. O Sem-Noção é aquele que solta o peido mais fedido,  bem no momento de maior tensão e lotação, deixando os que estão por perto atordoados em meio à nuvem amarela.

O Sem-Noção é aquele que espirra bem na cara ou  por sobre as cabeças dos outros passageiros, sem a menor cerimônia e sem nem pensar em pedir desculpas.

O posicionamento do Sem-Noção é algo irritante. Se precisar estar perto da porta para descer, ele fatalmente estará bem sentado, o mais longe possível da porta. Quando o ônibus, trem ou Metrô vai partir, sai como um tresloucado, atropelando a tudo e a todos.

Se vai demorar a descer, o Sem-Noção fica justamente na porta de saída, barrando a passagem e atrapalhando a vida dos outros. Ou então no meio do corredor, sem lembrar que os outros podem estar querendo passar por ali. Ou seja, o Sem-Noção se caracteriza fortemente por conseguir sempre estar no lugar errado na hora errada e na posição mais atrapalhada possível. Se está sentado na condução lotada, o Sem-Noção jamais pensa em ceder o seu rico lugarzinho a alguém mais necessitado que ele, como uma gestante ou um idoso.  Os outros nem existem para o Sem-Noção. Quem são os outros?

 

O Sem-Noção também não usa qualquer palavrinha mágica no dia-a-dia. Por favor, desculpe, obrigado e com licença, não fazem parte do deu ridículo vocabulário. 

 

Os fumantes já são Sem-Noção por natureza, todos devem concordar. Agora, o fumante Sem-Noção é aquele que não respeita os não-fumantes, fumando em lugares impróprios e fechados, empestando todos os ambientes pelos quais passa. O Sem-Noção fumante é foda, literalmente.

 

Nos locais de trabalho também existe o Sem-Noção, sempre pronto a fazer tudo o que pode para desandar a maionese e acabar com o espírito de equipe. O Sem-Noção é aquele colega que reclama de tudo, que nunca colabora espontaneamente com os demais. Que nunca faz a sua parte bem feita. Que não se comunica. Que nunca responde em tempo hábil às demandas que cabem a ele. O Sem-Noção no trabalho é um estorvo para os que convivem com ele.

 

Por fim, nem é preciso dizer que o Sem-Noção está em muito mais lugares e ocasiões do que pude retratar aqui. Isso é só uma amostra da sua capacidade de destruição. Na política, então, o Sem-Noção nada de braçada, impulsionado pelo voto do eleitor Sem-Noção, outra  figura bastante deletéria – infelizmente - também muito presente no Brasil. Mas isso são outras histórias...