Um pouco de tudo, inclusive de mim mesma. Nem tudo vai agradar, mas essa sou eu e as coisas que me cercam. Eu mudei muito, mas e dai? Minha cara e o meu nome continuam a mesma coisa, me interessa fazer o que acredito ser o certo. Ter opinião diferente não obriga ninguém a brigar com ninguém, cada um é livre para pensar, falar e agir como quiser de acordo com o que acredita ser certo. Cada um é responsável pelas consequencias de suas próprias palavras, pensamentos e ações.

Crônica de Millor Fernandes sobre a linguagem usada no dia-a-dia

20 de Novembro de 2013, por Priscila Frohmut Fonseca

Recomendo a todos que depois de ler essa crônica comprem e leiam o livro ''Preconceito Linguistico" de Marcos Bagno. Pra quem gosta de estudar um pouco mais de Português, é claro, tem quem não goste. Pra quem é da área de Letras também recomendo o livro didático ''A Língua que falamos'' escrito pelos professores de Letras da USP, organizado pelo professor e autor Luiz Antônio Silva.

Apesar de eu não falar assim como o autor descreve, o que não falta por aí é gente que se encaixa perfeitamente na descrição feita aqui de como uma pessoa age verbalmente no dia-a-dia. Essa é pra quem gosta de falar palavrão!!!

 

''O Direito ao foda-se!''

(crônica de Millôr Fernandes)

 

O nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional à quantidade de ''foda-se!'' que ela fala.

Existe algo mais libertário do que o conceito do ''foda-se''?

O ''foda-se'' aumenta minha auto-estima, me torna uma pessoa melhor. Reorganiza as coisas. Me liberta.

''Não quer sair comigo? Não? Então foda-se!''

''Vai decidir esssa merda sozinho(a) mesmo? Então foda-se!''

O direito ao foda-se deveria estar assegurado na Constituição Federal.

Os palavrões não nasceram por acaso. São recursos extremamente válidos e criativos para prover nosso vocabulário de expressões que traduzem com a maior fidelidade nossos mais fortes e genuínos sentimentos.

É o povo fazendo sua língua.

Como o Latim Vulgar, será esse Português Vulgar que vingará plenamente um dia.

''Pra caralho'', por exemplo. Qual expressão traduz a idéia de muita quantidade do que ''pra caralho''?

''Pra caralho'' tende ao infinito, é quase uma expressão matemática.

A Via-Lactea tem estrelas pra caralho, o Sol é quente pra caralho, o Universo é antigo pra caralho, eu gosto de cerveja pra caralho, entende?

No gênero do ''pra caralho'', mas no caso, expressando a mais absoluta negação, está o famoso ''nem fodendo!''.

O "Não, não e não!'' é tampouco nada eficaz e já sem nenhuma credibilidade. ''Não, absolutamente não!" o substituem.

O '' nem fodendo!'' é irretorquível, e liquida o assunto. Te libera, com a consciencia tranquila, para outras atividades de maior interesse em sua vida.

Aquele filho pentelho de 17 anos te atormenta pedindo o carro pra ir surfar no litoral? Não perca tempo nem paciência. Solte logo um definitivo '' Danielzinho, presta atenção, filho querido... NEM FODENDO!''. O impertinente se manca na hora e vai pro Shopping se encontrar com a turma e você fecha os olhos e volta a curtir o CD do Lupicínio.

Por sua vez, o ''porra nenhuma!'' atendeu tão plenamente as situações onde nosso ego exigia não só a definição de uma negação, mas também o justo escárnio contra descarados blefes, que hoje é totelmente impossível imaginar que possamos viver sem ele em nosso cotidiano profissional.

Como comentar a bravata daquele chefe idiota senão com um ''é PHD porra nenhuma!'' ou '''ele redigiu aquele relatório sozinho porra nenhuma!''

O ''porra nenhuma'', como vocês podem ver, nos provê sensações de incrível bem-estar interior. É como se estivéssemos fazendo a tardia e justa denúncia pública de um canalha.

São dessa mesma gênese os clássicos ''aspone'', ''chepone'' e mais recentemente o ''prepone'' - presidente de porra nenhuma.

Há outros palavrões igualmente clássicos.

pense na sonoridade de um ''puta que pariu'', ou seu correlato ''pu-ta-que-o-pa-riu!!!'' falados assim, cadenciamente, sílaba por sílaba.

Diante de uma notícia irritante qualquer um ''puta-que-o-pariu!'' dito assim te coloca outra vez em seu eixo. Seus neurônios tem o devido tempo e clima para se reorganizar e sacar a atitude que lhe permitirá dar um merecido troco ou o safar de maiores dores de cabeça.

E o que dizer de nosso famoso ''vai tomar no cú!'' e sua maravilhosa e refroçadora derivação ''vai tomar no olho do se cú!''?

Você já imaginou o bem que alguém faz a si próprio e aos seus quando, passado o limite do suportável, se dirige ao canalha de seu interlocutor e solta: ''Chega! vai tomar no olho do seu cú!''. Pronto, você retomou as rédeas de sua vida, sua auto-estima. Desabotoe a camisa e saia na rua, vento batendo na face, olhar firme, cabeça erguida, um delicioso sorriso de vitória e renovado amor íntimo nos lábios.

E seria tremendamente injusto não registrar aqui a expressão de maior poder de definição do Português Vulgar: ''fodeu!''. E sua derivação mais avassaladora ainda: ''fodeu de vez!''.

Você conhece definição mais exata, pungente e arrasadora para uma situação que atingiu o grau máximo imaginável de complicação? Expressão, inclusive, que uma vez proferida insere seu autor em todo um providencial contexto interior de alerta e auto-defesa. Algo assim como quando você está dirigindo bêbado, sem documentos do carro e sem carteira de habilitação e ouve uma sirene de polícia atrás de você mandando você parar: O que você fala? ''Fodeu de vez!''.

Liberdade, igualdade, fraternidade e FODA-SE!