Um pouco de tudo, inclusive de mim mesma. Nem tudo vai agradar, mas essa sou eu e as coisas que me cercam. Eu mudei muito, mas e dai? Minha cara e o meu nome continuam a mesma coisa, me interessa fazer o que acredito ser o certo. Ter opinião diferente não obriga ninguém a brigar com ninguém, cada um é livre para pensar, falar e agir como quiser de acordo com o que acredita ser certo. Cada um é responsável pelas consequencias de suas próprias palavras, pensamentos e ações.

Diálogos da negação

27 de Setembro de 2007, por Desconhecido - 0sem comentários ainda

Maio de 2007:

- ... eu estava aprendendo a embedar vídeos, era mais fácil do que parecia...

- Como?

- Inserir um vídeo no meio de um texto...

- Não seria "atachar"?

- "Atachar" é "anexar", como você faz no e-mail... "embedar" é fazer um embed, inserir algo, não é a mesma coisa que anexar...

- Eu não sabia disso... em que ano você está?

- ... no segundo, por quê?

- O que mais te ensinam no BCC?

- HEIM? Peraí, que curso você faz?

- Física...

- ... mas o que é BCC?

- Bacharelado em Ciências da Computação... é o seu curso né! no IME!

"Ai meus deuses!"

- HEIM? QUEM TE DISSE QUE EU ESTUDO NO IME? EU FAÇO LETRAS!

- Tá certo, tô sabendo... até mais!

***

Dois dias depois:

- É você que é a aluna do IME?

"Ai meus deuses... e essa agora!"

- Você tá procurando quem?

- Disseram que tem uma aluna do IME por aqui, pela descrição parece que é você...

"AAAAAIIIIII !!! NINGUÉM MERECE !!!"

- Quem foi que falou isso pra você?

- ... é que tem uma coisa estranha acontecendo no computador, eu não consigo imprimir, e eu não sei mexer com Linux...

- ... tá, peraí, foi alguém que faz Física que falou pra você? Me diz qual é o nome daquela ilustre figura.

- ... eu não sei o nome dele, ele disse que é da Física mas não tinha como me ajudar.

"AI MEUS DEUSES, EU NÃO ACREDITO!!! MALDITO!!!"

- Me desculpa, mas eu sou da Letras, te indicaram a pessoa errada... vou dar uma olhada, mas eu não posso garantir nada.

"... ninguém merece!"

***

Dois meses depois:

- ... lá na obra só tem homem trabalhando, tem hora que cansa ficar lá... imagina, você indo pra lá, só uma mulher no meio de uma bando de cueca...

- Bem, deve ser mesmo um porre trabalhar assim... mas o que é que eu ia fazer numa obra de construção?

- Sei lá, eu não conheço muito bem a área de elétrica, sou formado em Engenharia Civil, vou fazer Elétrica depois, quando der uma folga...

- ... eu acho que não entendi o que você disse.

- Mas que curso que você faz mulher?

"MAIS ESSA AGORA... EU MEREÇO..."

- Eu faço Letras meu amigo...

- Eu jurava que você era da Poli.. você tem cara de engenheira!

"P*Q*P* !!! MAIS ESSA NÃO !!!"

- A gente pode mudar de assunto?

- Desculpa, mas eu tinha certeza que você estudava na Poli !!!

***

Uma semana depois:

- ... mas por causa da Lua em Aquário, acho que fica explicado.

- Você já almoçou?

- Eu tô indo agora!

...

- Eu costumo almoçar aqui sempre depois que eu vou no CCE de manhã, aqui fica bem mais perto que o bandejão da Química...

- Com quem você assiste aula hoje?

- ?

- Em que ano você tá?

- ... no segundo, por quê?

- Mas eu não te vi na calourada...

- Quem foi que te disse que eu faço Física, Henrique?

- Parecia.. desculpa.

- Eu falei que faço Letras... esqueceu?

"ENOUGH!!! I GIVE UP!!!"

(Cidade Universitária, São Paulo, Agosto de 2007)



Concreto 2

25 de Setembro de 2007, por Desconhecido - 0sem comentários ainda

O concreto viaduto

 

 

Que dirá o maldito
no meu luto
viaduto de ilusões que
me cercam e me cobrem e
engolem a nação-mundo
que dirá o bastardo do mundo
no esquecido do não dito
quem esquece e não
se apressa pra fazer tudo
tudo aquilo que foi dito
de uma boca
dum maldito de não dito
que não lembra o que disse que
foi dito para os outros
que hoje olham o viaduto
sem carro ônibus bicicleta
os cobriu o viaduto
viaduto vida e casa
que de casa não tem nada
os que tem vida no
viaduto de noite cobertos
no viaduto debaixo
do viaduto
da guerra fome morte miséria
que a ilusão dos
filhos-bastardos-do-mundo criaram
colocou pros filhos-da-miséria
a ilusão que não existe
guerra-fome-morte-miséria
pra além do que conhecem
ou que só existe
pra além do que eles conhecem
miséria que só é minha
miséria que não é minha
miséria que não é de ninguém
mas que é de todo mundo
miséria pra todo (o) mundo.

(Trem Expresso Leste da CPTM, São Paulo, Outubro de 2006)



Ditadura da beleza

19 de Setembro de 2007, por Desconhecido - 0sem comentários ainda

Mulher ao Espelho

(Cecília Meireles)

Hoje, que seja esta ou aquela
pouco me importa.
Quero apenas parecer bela,
pois, seja qual for, estou morta.
Já fui loura, já fui morena,
já fui Margarida e Beatriz,
já fui Maria e Madalena.
Só não pude ser como quis.
Que mal fez, essa cor fingida
do meu cabelo, e do meu rosto
se é tudo tinta: o mundo, a vida,
o contentamento, o desgosto?
Por fora, serei como queira
a moda, que vai me matando.
Que me levem pele e caveira
ao nada, não me importa quando.
Mas quem viu, tão dilacerados,
olhos, braços e sonhos seus
e morreu pelos seus pecados,
falará com Deus.
Falará, coberta de luzes,
do alto penteado ao rubro artelho.
Porque uns expiram sobre cruzes,
outros, buscam-se no espelho.



De idéias e pensamento

17 de Setembro de 2007, por Desconhecido - 0sem comentários ainda

As idéias não surgem da escuridão do nada. É preciso uma faísca, porque no vácuo do pensamento não se cria aquilo que pode se transformar, se remoldar, se adaptar e se balançar nos socos e pontapés da vida na psique pra depois se firmar reerguido e mais forte.

Não somos inferiores, porque ninguém que é necessariamente vivo é superior. O inferior é o que pensa ao mesmo tempo que são muitos os iguais a si mesmo, e que tantos outros que são diferentes são inferiores e precisam de sua orientação de sábio líder para um dia serem iguais ou parecidos consigo.

Experiência - dos muitos anos passados - não é sinônimo de sabedoria, nem causa essencialmente necessária, nem parte inseparável, inerente. A sabedoria não vem da simples passagem dos anos ao nosso redor, porque ver as mudanças sem fazer parte delas, sem se readaptar com elas é ficar parado enquanto o mundo corre e te atropela. A sabedoria real exige que nada seja definitivo, julgado e concluído de uma vez por todas; necessita de visão aberta ao mundo, aos fatos, e às idéias o tempo todo, sendo que a própria Ciência que traz o conhecimento e o avanço, com suas idéias bem formuladas, exige a possibilidade de ter suas idéias revistas, repensadas, permitindo ser adaptada, reformulada e até mesmo derrubada por novas idéias que contradizem aquela anterior.

O conhecimento não está nos livros ou no que alguém disse mas você não viu e nem achou por si mesmo. O que traz o conhecimento é receber informação, absorver o que recebeu sem engolir tudo a seco de olhos fechados ou tapando o nariz pra disfarçar a dúvida. Ter o conhecimento é juntar o que você viu, leu, ouviu, de uma vez só, analisar e ainda acrescentar, mostrar que você é vivo e tem suas próprias idéias.

A vida não está no sangue que corre nas veias, não está na comida que você digere e não está no que os outros falam pra você. As idéias em transformação e reconsideração constante mantém vivo o pensamento. A mente que formou, julgou e se permitiu concluir seu pensamento como definitivo morre. E o corpo sem mente não tem mais vida, se destrói, se corrói, se desfaz e desaparece no turbilhão do tempo em renovação.

(Trem Expresso Leste da CPTM, São Paulo, Setembro de 2006)



O valor do anonimato - e a pseudononímia

16 de Setembro de 2007, por Desconhecido - 55 comentários

Trabalhar no anonimato é um dos grandes privilégios a se ter na vida... Quase ninguém te vê fazer, poucos sabem que você faz, todo mundo vê os resultados e a informação é repassada e compartilhada pelas pessoas sem barreiras nem restrições.

Nos momentos em que o anonimato não é permitido, lançar mão da pseudonímia é um pequenino esforço a mais para que esse ciclo de transmissão de informação não seja quebrado. A partir daí, o pseudônimo já não serve como uma imagem de esconderijo, mas sim como uma ferramenta utilitária.

Sendo uma ferramenta, independente do fato do pseudônimo ser efêmero ou se tornar forte, resistindo ou não ao tempo, o referencial permanece, e se mantêm latente; assim, o ciclo se manteve e se perpetuou, e a ferramenta foi útil em cumprir o seu papel.

(Sala Pró-aluno do CCE, Cidade Universitária - São Paulo, Setembro de 2007)