Cada vez que você usa um serviço Google, você alimenta com dados um dossiê sobre você na internet.

Todos nós temos direito à privacidade (conforme as leis do lugar em que vivemos), mas é também nosso direito abrir mão da privacidade (novamente, conforme as leis locais).

Para as pessoas que decidem conservar sua privacidade online, tanto quanto possível, um grande problema é poder utilizar os serviços mais populares, como Gmail e Facebook, sem abrir mão completamente de sua privacidade.

Eu quero dar uma dica específica ao Gmail. O Google oferece vários serviços, em especial a conta de email gratuita Gmail e o buscador Google. Essa empresa obtém lucro através da venda de publicidade nas páginas gratuitas que oferece a você, junto com os serviços.

Para os publicitários, um anúncio "dirigido" - ou seja, que é apresentado somente para espectadores que têm certas características pré-definidas - é muito mais valioso que um anúncio para ser visto por todos. Por isso, o Google (e as empresas de internet em geral, que possuem esse modelo de negócios) procuram agregar informações sobre seus usuários, traçando seu perfil, e oferecem aos publicitários o serviço de publicar seus anúncios de forma dirigida.

Novamente, para quem aceita perder esse aspecto de sua privacidade - ou seja, para quem concorda em que exista um dossiê de suas atividades na internet - isso não é problema. Eu, pessoalmente, não gosto dessa perda, e estou procurando minimizar o prejuízo.

Para entender como o Google cria esses dossiês, é preciso entender que, do ponto de vista do buscador Google, há uma grande diferença entre um usuário logado e um não logado: para o usuário logado, o Google pode oferecer anúncios dirigidos, e pode adicionar as frases de busca usadas no dossiê da pessoa, permitindo dirigir anúnicos de forma mais focada, no futuro. Isso porque o login da pessoa permite ao Google consultar o dossiê correto para "dirigir" os anúncios. Já para o usuário não-logado, o Google só pode dirigir anúncios de acordo com as frases de busca da sessão atual, pois sem o login, ele não sabe associar o uso do buscador com um dossiê específico.

(Tecnicamente, o Google poderia correlacionar as frases de busca de um usuário não-logado com um perfil, a partir, por exemplo, do endereço IP do computador. Mas isso não é feito, atualmente. De modo que é possível explorar essa brecha e evitar que o Google adicione suas frases de busca ao seu dossiê pessoal, caso você use o Gmail, evitando logar no serviço através do navegador.)

Eu, por exemplo, utilizo o cliente de email Thunderbird. É gratuito e de código-fonte aberto. Eu tenho configuradas diversas contas de email nele, incluindo contas no Gmail. Ao mesmo tempo, uso o buscador Google cotidianamente. Apesar de o Google ter a possibilidade técnica de correlacionar meu uso do buscador com meu uso do Gmail, ele não faz isso: minhas buscas só mostram anúncios "dirigidos" de acordo com minha sessão atual, e de acordo com um serviço novo do Google chamado Account Acitivity (https://www.google.com/settings/activity/), que produz relatórios sobre o uso dos serviços do Google, eles acham que eu nunca uso o buscador deles.

Dessa forma, eu uso Gmail, e uso o buscador Google ao mesmo tempo, e no entanto o meu uso do buscador nunca alimenta o dossiê que o Google tem sobre mim.

Como eu disse antes, esta é apenas uma dica específica sobre como diminuir sua perda de privacidade ao usar o Gmail. Não creio que seja possível ter privacidade completa usando o Gmail, mas muitas outras medidas podem ser tomadas, como sempre apagar emails já lidos (ou seja, evite arquivar no próprio Gmail - grave uma cópia no seu disco rígido, se precisa guardar uma informação), ou encriptar suas mensagens sempre que possível. Assim que puder, eu detalho essas e outras maneiras de diminuir a perda de privacidade usando serviços online.