Marcha da Maconha

29 de Maio de 2011, por Desconhecido - 44 comentários

Eu não sou usuário de drogas ilícitas, nem estava presente durante a marcha da maconha, nem sei se sou favor das reivindicações do grupo que a organizou. Entretanto me incomodei bastante com o resultado da manifestação. Me incomodei com os excessos da Polícia Militar e da Guarda Civil Metropolitana, que são óbvios e patentes nos vídeos que assisti(*), mas me incomodei ainda mais com a decisão judicial que permitiu a ação dos policiais e GCMs.

Taxar de apologia ao crime a legitima manifestação de pessoas que acreditam que uma lei deve ser alterada é ridículo.

Eu não sou advogado nem estudante de direito e por isso tenho uma sincera dúvida a respeito do conceito de apologia ao crime. Por favor me corrijam os que entendem do assunto se o raciocínio abaixo estiver errado:

1) Apologia ao crime é algo complicado de definir, porque algo que não é um fato concreto não pode ser crime. Apologia ao crime é dizer algo como "eu acho que a Suzane von Richthofen tinha mesmo que matar os pais", um crime concreto. Para mim é difícil conceber como a defesa de algo que não é um fato concreto, já perpetrado no passado e tipificado como crime, pode ser considerada apologia ao crime. Nesse sentido, dizer "eu acho que todo mundo deveria matar os pais" não é apologia ao crime. Não aconteceu, não é concreto. Prossigamos mesmo assim. 

2) Não obstante a objeção acima, suponha que se entenda que apologia ao crime é discursar incentivando uma prática criminosa. Ainda assim, mesmo que a marcha estivesse incentivando o uso da maconha, isso não seria apologia ao crime. Por uma razão simples: o uso de maconha não é crime no Brasil. Apenas seria apologia ao crime incentivar o tráfico de drogas. Há quem diga "mas o uso pressupõe o tráfico ou o plantio, portanto incentivar o uso continua incentivando o crime". Opa! Lógica um pouco nebulosa essa. O que está em jogo é o uso da maconha, não a forma como ela foi adquirida. O ato de usar maconha não é crime. 

3) Mas ainda que se entenda que incentivar o uso de maconha é apologia ao crime, a marcha da maconha não era isso. Era apenas uma manifestação pública pedindo a regulamentação do uso de maconha, do seu porte e comércio.

4) Mas ainda que se entenda que manifestar-se pela regulamentação do uso de drogas é apologia ao crime, não se pode condenar ninguém antes do fato. Antes de acontecer a marcha, ninguém fez apologia a nada. Ninguém disse absolutamente nada. O máximo que se pode fazer é deter e processar as pessoas que, durante o evento, se manifestaram assim ou assado. Um crime é um fato concreto, já perpetrado, não uma expectativa a respeito do que pode acontecer no futuro.

A regulamentação ou não do uso da maconha não é um assunto sobre o qual eu tenha uma opinião objetiva. Isso é algo que deve demorar para acontecer e é um assunto sobre o qual muitos dados ainda devem ser tomados e estudados. Apesar de eu tender a ser a favor, acho que inexiste um modelo de descriminalização adequado para a atual situação precária do atendimento de saúde no Brasil.

Mas o que está em jogo é muito mais importante do que isso: é a liberdade do indivíduo de manifestar publicamente suas crenças a respeito das leis de seu país. Não é possível que defender uma mudança em uma lei seja considerado apologia ao crime!

Propor uma reforma constitucional deve ser considerado alta traição contra a nossa lei maior? E os partidos que defendem a reforma política estão atentando contra o sistema eleitoral e devem ser dissolvidos como organizações criminosas? E as pessoas que são contra o estatuto do desarmamento devem ser presas como perigosas defensoras do uso de armas de fogo?

Um simples exame de casos extremos mostra como é ridícula essa posição!

Muita gente diz: "bem feito, era só um bando de maconheiros". Eu fico impressionado com essa reação. Eu até concordo que há uma fração daqueles manifestantes com as quais eu provavelmente não me relacionaria, e que levam vidas que eu não aprovo. Mas isso não importa!

Não importa se quem está se manifestando é um maconheiro, um pastor evangélico, um bêbado, um santo, um pai de família ou um velho tarado. O fato de um sujeito ser usuário de maconha não é razão para que suas liberdades civis sejam diminuídas. Todas as pessoas têm pleno direito, garantido pela constituição, a manifestar-se publicamente sobre o que quer que julgue justo.

 

(*) Há um vídeo no site da Folha em que um homem está tranquilamente caminhando sobre a calçada, sozinho. Ele não está se manifestando, não está segurando placas, não está gritando, não está fazendo absolutamente nada além de caminhar na calçada. Provavelmente era um dos manifestantes, mas naquela situação ele estava obviamente apenas indo embora. Um PM se aproxima, dá uma rasteira nele, derrubando-o no chão, e o arrasta pela camisa. O homem se debate e sai correndo. O PM o persegue e, de repente, um GCM o derruba com uma voadora no peito. Eu sinceramente duvido que isso esteja de acordo com os procedimentos de controle de multidões da tropa de choque. Ao final da sequencia se observa a razão da ação: destruir o equipamento fotográfico que o homem carregava.

Aqui está o vídeo. Assista o trecho do instante 1:07 até 1:30:

{{video:http://www.youtube.com/watch?v=fCfxshW2OME&feature=player_detailpage#t=67s}}

 

 



Não frequente a USP. Não é seguro.

18 de Maio de 2011, por Desconhecido - 1818 comentários

Todos já devem ter ficado sabendo da tragédia anunciada que aconteceu no estacionamento da FEA ontem a noite. Um estudante reagiu a um assalto e foi baleado na cabeça, morrendo no local. 

A USP é erma, cheia de rotas de fuga, frequentada por gente razoavelmente bem remunerada, sem polícia, com pouca iluminação pública,… é um belo convite. E esse convite foi respondido com um recente aumento do número de ocorrências no campus. Parece óbvio que uma quadrilha de sequestros relâmpago têm agido na Cidade Universitária desde o começo do ano, além de outros assaltos e ocorrências. Era uma questão de tempo até que alguém reagisse e fosse baleado.

Não é a primeira vez que a USP passa por uma onda de crimes (houve uma onda de estupros em 2002) e não é a primeira vez que alguém morre na USP, e nem é a primeira vez que alguém é baleado.

De um lado, assim como nas ocasiões passadas, a resposta da Reitoria é de que não pode fazer nada sem o aval do Conselho do Campus. De outro, sabemos que há um setor da universidade – que apesar de minoritário é bastante barulhento, e parece ter influencia nos conselhos que decidem esse tipo de coisa – que é absolutamente contra qualquer presença policial no campus.

É difícil para mim entender porque algumas pessoas associam qualquer presença da PM, mesmo com uma simples ronda preventiva, com repressão ideológica. Será que elas acham que os policiais vão entrar nas salas de aula para checar que tipo de conteúdo está sendo ensinado? Será que vão confiscar livros suspeitos na biblioteca? Será que pessoas serão presas por serem filiadas a partidos de esquerda? A fantasia uspiana é tão densa que causa paranóias poderosíssimas.

Também é difícil para mim entender como o reitor pode ser tão fraco e bunda-mole. Ele é responsável pela administração dessa universidade e, ainda que não caiba a ele tomar decisões finais, ele tem poder de influenciar os conselhos responsáveis por essas decisões. Eu não consigo acreditar que ele tenha tão pouco poder como afirma. Afinal, ele foi capaz de invocar poderes externos para ser nomeado reitor mesmo sem ter sido eleito... Pouco influente ele não é.

Enfim. Nada vai mudar. A USP continua a mesma ilha da fantasia, anacrônica, ideologicamente congelada no tempo, com a mesma administração fraca e inapta de sempre, lentamente desmoronando, no ritmo uspiano de sempre. 

Por isso ouça meu conselho: não frequente a USP. Não é seguro, e não vai se tornar seguro tão cedo. 

 

 



O Lixo como fator de luta.

17 de Abril de 2011, por Desconhecido - 66 comentários


A essa altura todos já sabem mais ou menos o que aconteceu na USP - a empresa terceirizada responsável pela limpeza, que está em processo de falência já faz uns meses, deu um calote nos seus funcionários, dizendo que a USP não teria dado o dinheiro. Por isso os funcionários entraram em greve. Nada mais justo - é o que todo mundo diria nessa situação. Você me paga, eu trabalho. Você não me paga, eu não trabalho. 

Num primeiro momento eu acredito que todos por aqui se sensibilizaram com a situação dos funcionários. Não é fácil ganhar pouco e trabalhar duro, e de repente se ver sem pagamento. Essas pessoas não têm reservas ou economias. Elas não têm ao que recorrer para comprar comida se o seu salário não é depositado. Quem ganha R$ 600,00 por mês não tem como fazer poupança. Acredito que qualquer aluno estaria disposto a participar de um movimento sério para exigir que a USP pagasse essas pessoas imediatamente – como me parece que é legalmente a obrigação dela fazer, me corrijam se estou errado – e depois perseguir compensação na justiça junto à empresa que deu o calote.

Eu estaria plenamente disposto a tomar a limpeza dos prédios da minha unidade nas minhas próprias mãos, e juntar um grupo de estudantes para fazer uma faxina diária no prédio, para que os funcionários terceirizados não precisassem trabalhar sem receber. Eu estaria plenamente disposto a tentar conseguir assitência jurídica para eles. A criar uma rede de assistência e distribuir cestas básicas para eles. Ajudar a pressionar a reitoria por uma solução imediata, e por uma revisão dos editais de licitação para que as próximas empresas a serem contratadas fossem devidamente investigadas e houvesse critérios de exclusão para evitar outras picaretagens do tipo. Enfim... perseguir, de maneira séria e dentro da lei, soluções para o caso e assistência para essas pessoas enquanto a coisa não se resolvesse.

Até que... de repente lixo. Um certo grupo – minoritário e isolado – de estudantes e funcionários decidiu que era uma excelente idéia “ajudar” essas pessoas espalhando lixo por algumas unidades, depredando banheiros e até jogando papel higiênico usado pelos corredores da FFLCH. E a reação de todo mundo é: qual é o ponto? Em que isso ajuda? Que possível consequencia de espalhar lixo no corredor pode ser benéfica, ou avançar a possibilidade de resolver a questão?

Nenhuma! Vandalizar a escola causa antipatia, afasta pessoas sérias da causa, não acelera em nada o processo de resolver o problema e causa prejuízo para o patrimônio da escola. Grande idéia, não?! A única possível vantagem é chamar atenção. Mas atenção negativa vale? Qualquer atenção?

Um “limpaço” não chamaria a mesma atenção? E não passaria a imagem exatamente contrária? As pessoas não se solidarizariam com os estudantes que desceram do salto para limpar o chão para ajudar pessoas que realmente têm necessidades?

A imagem externa dos estudantes da USP já é a de um bando de mimadinhos que gostam de quebrar tudo e fazer birra uma vez por ano. Essa imagem não é acurada mas, se de fato um grupinho resolve agir segundo o estereótipo uma vez por ano qual é o sinal que se manda para a sociedade? De que vale a pena se solidarizar com qualquer causa que essas pessoas defendam?

A verdade é que uma parte dessas pessoas que estimulam o vandalismo como tática de luta não estão querendo resolver o mesmo problema que o pessoal da limpeza. O pessoal da limpeza quer os seus salários e seu emprego de volta. Os vândalos querem o fim dos salários e empregos. Eles pouco se importam se essas pessoas vão receber ou não, eles querem usá-los como os pobres martirizados pelo sistema capitalista. O lixo nos corredores serve muito mal aos propósitos dos funcionários que estão sem salário, mas não foi concebido para isso. Foi concebido para perturbar a ordem, ameaçar a estabilidade, servir à mobilização contra “tudo o que está aí”.

Bom, isso é o que a gente vê cotidianamente na USP. A gente já conhece o vandalismo da universidade como tática de mobilização e sabe que, além de uns transtorninhos para a comunidade universitária uma vez por ano, ele tem pouco efeito no mundo real.

É uma pena... muita coisa poderia ser feita para ajudar de fato essas pessoas a obter de fato o que querem: seus salários e alguma segurança nos seus empregos. Além disso essa era uma grande oportunidade para rever a forma como a USP tem contratado empresas de limpeza e para entender porque essa não é a primeira vez que um contrato de terceirização dá problema. Talvez porque as empresas mudam e os donos não...

Mas ninguém vai fazê-lo porque a turba já cooptou a questão para suas causas particulares. Qualquer dissidente é um “fascista, escravagista”. Eles têm o “monopólio da luta”, com os métodos deles, com os objetivos deles, e com os resultados que a gente já conhece faz tempo. 

 



O engajamento político-ideológico faz do mundo um lugar pior.

6 de Fevereiro de 2011, por Desconhecido - 99 comentários

 

Esse post vai defender a grande heresia política que está estampada no título. Não importa se é "direita" ou "esquerda", cristão conservador ou socialista progressista - se você escolheu um time, você está fazendo do mundo um lugar pior. E o meu principal argumento é a reação dos diversos "times" ideológicos dominantes com relação a duas situações políticas em dois países do oriente.

Há dois anos ocorreu no Irã algo muito parecido com o que agora está ocorrendo no Egito - pessoas foram às ruas em massa para protestar basicamente contra duas coisas: a autocracia de seu regime, que prende, tortura e mata pessoas por crimes de opinião, e a corrupção do regime que loteia a riqueza do país como se fosse uma propriedade privada de sua classe dominante. Do ponto de vista ideológico os governos do Irã e do Egito são tão diferentes quanto possível. Do ponto de vista de quem vive diariamente sob o seu jugo, são a mesma exata e nojenta realidade: regimes autocráticos que usam os mesmo expedientes, a mesma mecânica, a mesma tortura. A ideologia é apenas o verniz intelectual sobre uma dinâmica social idêntica.

Ainda mais semelhante foi a forma com que os protestos começaram, como se espalharam através da internet, e como se espalhou feito pólvora na juventude secular e, até esse momento, bastante alienada da política pela situação de seus países. Outro ponto de semelhança foi como em ambos os casos o movimento arregimentou gente de toda classe - secularistas, religiosos, jovens, velhos, classe média, políticos. A única diferença objetiva entre esses dois levantes é o fato de que o governo iraniano foi mais competente em reprimir violentamente os seus manifestantes.

Entretanto a reação dos diversos grupos ideológicos sobre os dois levantes foi muito diferente. Quando os iranianos se levantaram contra a fraude eleitoral que garantiu a reeleição de Mahmoud Ahmadinejad, os conservadores do ocidente bateram palmas, os neocons se rejubilaram, a direita cristã americana e a direita secular brasileira, Israel e os seus defensores, os grupos secularistas do oriente médio, todos clamaram por apoio à revolução verde. A esquerda européia, os islamistas xiitas, a esquerda sulamericana, todos descartaram o movimento como "revolta oligárquica", acusaram de ser fomentado por estrangeiros, de ser uma revolta das classes altas, e que o povo estava realmente feliz com o regime.

Quando os egípcios se levantaram, inspirados por Tunis, contra o terror imposto pelo governo egípcio sobre o país, a esquerda se rejubilou, os liberais americanos clamam para que o governo corte a ajuda financeira ao exército egípcio, a esquerda brasileira os chama de revolucionários (*), o PSTU envia uma pessoa - cuja coragem eu até admiro, pois a situação está feia para estrangeiros lá - para cobrir a Revolução Egípcia. Já a direita americana e os neocons se encolhem de medo e começam a espalhar sua paranóia anti-islâmica, "meu deus, e a Irmandade Muçulmana, os terroristas? Isso é igual à revolução iraniana em 79!". Israel e seus defensores se preocupam "e os tratados? e a segurança do estado israelense? Forças estrangeiras estão envolvidas: o Hammas e o Irã!"(**), a direita brasileira olha torto, com todas as suspeitas possíveis "nós sabemos quem de fato está por trás dessa insurreição?".

O fato é que para certos grupos ideologicamente engajados, o regime egípcio é "amigo dos nossos amigos", se comporta bem com Israel, colabora com os Estados Unidos, enquanto o regime iraniano é "inimigo dos nossos amigos" - ataca Israel e denuncia os Estados Unidos. Para os outros grupos ideologicamente engajados a situação é exatamente oposta: o Irã é "inimigo dos nossos inimigos" e o Egito é "amigo dos nossos inimigos".

Note: acredito que a maioria dessas pessoas não estão agindo de má-fé intelectual, nem são ignorantes sobre a situação. Mas acredito que o véu do engajamento ideológico intoxica o julgamento. A afiliação ideológica e o engajamento parecem ter uma correlação direta com uma troca da lógica pela paranóia, do raciocínio por um comportamento de manada.

Há bastante evidência empírica em estudos de psicologia e neurociencia de que nossas decisões morais são tomadas em grande parte não por um julgamento intelectual detalhado, mas por "gut feeling", sob influencia de regiões do cérebro ligados a frustração e recompensa, conformação social e rejeição(***). Em alguns experimentos mesmo o julgamento de um fato bastante objetivo e lógico, com uma resposta única e bastante bastante óbvia (perguntas do tipo "esta figura geométrica é maior do que aquela?" "qual dessas figuras encaixa naquele buraco?") pode ser fortemente afetado pela necessidade de se conformar ao grupo social. Pessoas sob forte pressão social podem de fato ver e perceber outra coisa e raciocinar de forma diferente ao olhar para os mesmos fatos objetivos(****).

Eu tenho a impressão que o comportamento de pessoas muito fortemente engajadas em alguma doutrina ou ideologia tem alguma forte relação com essa necessidade de conformação à norma do seu grupo. Há uma pressão por certas conclusões - conclusões tomadas antes do raciocínio, antes dos fatos, antes das evidências. Não importa se há ou não evidência se a Irmandade Muçulmana defende o terrorismo, há uma pressão ideológica para que se conclua que Israel corre perigo se o status quo do Egito for perturbado. Não importa se há evidência de que a "Revolução Verde" no Irã não é apenas uma "revolta das oligarquias" mas um movimento bastante pervasivo na sociedade iraniana, há uma forte pressão ideológica para que se conclua que qualquer dissidência é um movimento de ricos insatisfeitos, fomentado por Israel.

O pior que pode acontecer com uma mente sã, hábil e saudável é ser cooptada pelo engajamento político-ideológico e delegar seus raciocínios à lógica de grupo, passar a ajustar os raciocínios e fatos às conclusões, e não o contrário. Grande parte dos nossos problemas são resultados dessa tendênca desastrosas, e grande parte de nossas disputas e contradições públicas são resultado de dois lados que resolveram ignorar os fatos e assumir conclusões automáticas. E como é impossível chegar a um acordo com alguém que já em conclusões prontas, sobra aos grupos denunciarem-se mutuamente em público ao invés de tentar obter um compromisso lógico. Isso aconteceu nas eleições americanas de 2008, nas eleições brasileiras do ano passado, em cada uma das grandes controvérsias públicas pelas quais o nosso país e outros passaram nos últimos anos... aliás, eu poderia até dizer que esse tem sido o principal motor da política por um longo tempo.

Faça um favor a si mesmo: se esforce para questionar a si próprio. Se esforce para questionar o seu grupo. Se esforce para questionar seus autores favoritos. Se esforce para que o guia principal de suas decisões e convicções sejam a lógica e os fatos. Não tenha respostas prontas. E abandone o engajamento ideológico o mais rápido que for capaz. Não se engane: é muito difícil. Como o físico Richard Feynman disse uma vez "you must not fool yourself, and you are the easiest person to fool". Mas vale a pena o esforço. 

Notas de rodapé:

(*) de fato são revolucionários, mas não são os 'revolucionários' que os marxistas do PSTU gostariam que eles fossem...

(**) Essa é a MAIOR BESTEIRA que eu ouvi nos últimos tempos - para a informação dos paranóicos de plantão, para começo de conversa a Irmandade Muçulmana sempre condenou o terrorismo e defende a não violência (com exceção do conflito com Israel, claro). Além disso, a Irmandade Muçulmana e os xiitas iranianos SÃO INIMIGOS. Al-Qarawadi, um dos membros mais influentes da Irmandade Muçulmana (que é sunita!) já chamou os aiatolás xiitas do Irã de apóstatas e é proibido de entrar no Irã. Sim, a Irmandade é islamista, defende o estabelecimento de um regime teocrático e é hostil a Israel, mas nada está tão longe de uma entidade terrorista ligada ao Irã quanto a Irmandade Muçulmana! E por fim, e mais importante de tudo: a Irmandade não está por trás dos protestos. Membros da irmandade participaram sim dos protestos, mas como coadjuvantes, participantes secundários. A grande massa não está lá por razões religiosas.

(***) O Cortex Anterior Cingulado, uma área do cérebro que sempre se mostra ativa em experimentos ligados a rejeição social e conformação ao grupo, aparece também em experimentos associados a resolução de dilemas morais. Em breve vou colocar umas referências aqui. Preciso organiza-las. Talvez as descreva em outro post. 

(****) Há um experimento clássico em que você mostra um conjunto de figuras para o indivíduo e pergunta qual delas é a maior. As figuras são de tamanhos claramente diferentes e uma fração quase unanime das pessoas acertam a resposta quando questionadas individualmente. Então você repete o experimento colocando a pessoa em uma platéia com vários atores que estão orientados a dar em voz alta a resposta errada. A porcentagem de pessoas que conforma sua resposta à resposta errada do grupo, basicamente ignorando a evidência visual clara, é enorme. Não me lembro os números mas vou colocar aqui mais tarde. O Cortex Anterior Cingulado se ativa durante esses experimentos, e mais fortemente nas pessoas que conformam sua resposta à resposta errada do grupo.

E veja: é muito difícil não se conformar. Já fizeram informalmente esse experimento comigo, e eu fiquei tremendamente confuso em relação a qual era a figura maior por vários minutos antes de dar a resposta certa. Depois de um tempo olhando as figuras fiquei até com vergonha. A diferença de tamanho era enorme. 

Post Scriptum:

1) É claro que o engajamento político, no sentido de engajamento nas atividades políticas, é algo positivo. Se você se engaja em participar ativamente das decisões na sua cidade, no seu país, se você participa honestamente do processo político e não é um cidadão passivo, você está fazendo certo. Me refiro nesse post ao engajamento em uma ideologia, um sistema doutrinário político que apresente respostas prontas para os problemas. Isso é o que você deve tentar banir do seu mundo. 

2) É claro que ao tomar decisões você vai pesar valores subjetivos. Alguém que julgue que justiça social é mais importante que liberdades individuais vai tomar decisões diferentes de alguém que pense o contrário, ainda que esteja diante dos mesmos fatos objetivos. O que é importante é que os dados e fatos objetivos sejam racionalmente examinados antes que as conclusões resultantes desse exame racional sejam submetidas ao crivo dos seus valores subjetivos, de forma  intelectualmente honesta. 

 



A Revolução Egípcia

31 de Janeiro de 2011, por Desconhecido - 1Um comentário

Nos últimos dias eu tenho acompanhado, atônito e sem fôlego, os fatos que ocorreram na Tunísia e no Egito. É inacreditável o quão rapidamente um movimento popular foi capaz de colocar um país inteiro sob suas asas incendiando o legítimo descontentamento daquele povo em uma ação contra a tirania de seus regimes. Para aqueles fãs de ficção científica que leram sobre as guerras digitais nas páginas de William Gibson isso é inacreditavelmente similar ao que 20 anos atrás era só ficção científica.

Como bem lembrado pelo jornalista Sultan Sooud al Qassemi (uma das melhores fontes sobre o assunto no twitter) , o que está acontecendo agora não é exatamente inédito em espírito. Há pouco mais de 21 anos o ditador romeno Nicolae Ceauşescu teve que fugir do comitê central do Partido Comunista Romeno em Bucareste por  causa de uma multidão que exigia sua renúncia na praça central da cidade. O mesmo acontece hoje no Egito, quando mais de 2 milhões de pessoas (2 milhões!!!) se reúnem na praça Tahrir (adequadamente chamada em português "praça da Liberação") exigindo uma coisa e apenas uma coisa: o fim do regime autoritário liderado por Hosni Mubarak. Como na Romênia 21 anos atrás, os egípcios na praça Tahrir não têm líderes, não foram convocados por nenhuma oposição, não foram alimentados por nenhuma ideologia. Apenas atenderam a um chamado anônimo que se espalhou de boca em boca: veja demonstrar sua insatisfação com o regime. Mas há algo de diferente: enquanto os romenos tiveram de contar com rádios estrangeiras para espalhar as notícias, os egípcios e tunísios têm a internet, o twitter, o facebook, mensagens sms, telefones celulares, o youtube e toda forma de comunicação ubíqua, disponível no bolso a qualquer momento, para transmitir qualquer informação instantaneamente. Imediamente datas e horários de protestos podem ser anunciados para milhões de pessoas, informações sobre a posição de forças repressoras podem imediamente ser obtidas, o horror da repressão violenta pode imediatamente ser transmitido para milhões por vídeos e fotos.

Os protestos foram convocados para o dia 25 de janeiro, no twitter e facebook. Levou apenas 4 dias, de 25 a 29 de janeiro, para que os egípcios fossem capazes de arregimentar um número suficiente de manifestantes para que pudessem desmantelar completamente as forças policiais leais ao regime. Apenas segundos foram suficientes para que o mundo todo soubesse que os confrontos tiraram a vida de 100 pessoas na madrugada do dia 29. Levou apenas mais 3 dias para que o número de manifestantes saltasse de 20 mil para mais de 2 milhões hoje na praça Tahrir. Através de sms os jovens egípcios puderam organizar comitês de vigilância para seus bairros, para defender suas propriedades e famílias. Ouvi mais de um egípcio no twitter dizer: me sinto mais seguro ao andar hoje pelas ruas do Cairo do que em qualquer outro dia. Voluntários organizaram o trânsito, cuidaram da limpeza das ruas e governaram a cidade na ausência do estado - tudo organizado pela internet e pelos sms.

A queda de Mubarak é uma questão de tempo. É impossível um governo sobreviver a uma tão grande insurreição popular. Aqui no ocidente tudo é observado com temor. O Egito é um país central no mundo árabe. Qualquer coisa que aconteça lá ressoa em todos os outros países da região. Lá estão as melhores universidades que formam os jovens árabes, os mais influentes intelectuais, a mais influente diplomacia e a cultura árabe mais complexa e sofisticada. Quem são essas pessoas que hoje dominam as ruas do Cairo? Quem são seus líderes? É uma revolta fundamentalista? É como no Irã em 1979? O mundo ainda não entendeu direito como é que se descobre quem são essas pessoas: converse com elas! Leia tudo o que elas dizem! Você pode entrar em contato direto com as pessoas que estão nas ruas no dia-a-dia dessa revolução através da internet. Isso é inédito na história do mundo. Você pode saber exatamente o que os motiva e o que eles querem.

Não, isso é muito importante entender, essa não é uma revolta fundamentalista islâmica, é uma insurreição popular contra um tirano. Não é um movimento como a revolução iraniana em 1979. As pessoas que estão lá na praça Tahrir são, como a reportagem da Al Jazeera English costuma dizer, "from all walks of life", cristãos, muçulmanos, secularistas, islamistas, comerciantes, estudantes, marxistas, liberais, operários de fábricas, jovens liberais, que vivem vidas ocidentalizadas, mulheres de burca, mulheres de cabelos soltos e roupas ocidentais, intelectuais, líderes religiosos, civis, militares... é, enfim, o povo egípcio. O colunista do New York Times Nicholas Kristoff relata ouvir de um manifestante na praça Tahrir: "nós queremos o que vocês têm na América! Nos ajude a ter democracia!". O produtor do Democracy Now! Sharif Abdel Kouddous descreve o que a multidão cantava "muslim, christian, we're all egyptian" ("muçulmano, cristão, somos todos egípcios"). 

Outra coisa importante de entender: esse movimento não tem líderes, até agora ninguém tomou a frente como organizador, mentor ou líder de nada (ao contrário dos protestos no Irã em 2009, onde Mir-Hosein Musavi era claramente o líder político dos protestos). Surgiu espontaneamente, quando a notícia do que houve na Tunísia convenceu os egípcios de que um regime autoritário pode ser derrubado por uma insurreição em grande parte pacífica.

Isso é o que traz mais medo, porque no vazio do poder causado pela queda de Mubarak não há alguém que o substitua e a revolta pode ser sequestrada por fundamentalistas. Mas eu não acredito nisso. Pelo que se vê as pessoas dizendo, não é isso que vai acontecer. A principal força religiosa conservadora que tem participado dos protestos é a Irmandade Islamica, um movimento islamista bastante tradicional que existe a mais 90 anos na região. Mas eles não são os líderes da revolta, e vários de seus líderes já anunciaram publicamente que não buscam sequer participar de um governo pós-Mubarak. Claro que qualquer governo vai ter que ter o apoio deles e eles provavelmente vão acabar participando, mas nada que não seja um governo de união nacional - com cristãos, muçulmanos, conservadores, moderados e secularistas juntos - será estável, e é para isso que o ocidente deve estar alerta.

O mais importante a se esperar de tudo isso é que o povo egípcio poderá, pela primeira vez, escolher o que vai acontecer e quem estará governando. É muito provável que o resultado dessa revolução seja um governo eleito pelo voto direto. E é muito provável que o Egito não seja o último país árabe a passar por uma transformação profunda esse ano. 

Post scriptum: fontes para acompanhar esses acontecimentos. 

A melhor fonte para acompanhar o que acontece no Egito agora é a internet. Esqueçam as agências de notícias ocidentais. A única agência de notícias capaz de dar notícias acuradas sobre o que acontece lá é a Al Jazeera English. Recomendo acompanhar o live blog para notícias em cima da hora, e assistir o stream ao vivo da televisão

Mas a melhor fonte continuam sendo os twitters. Eu fiz uma lista no twitter e adicionei algumas boas fontes. Os principais são os jornalistas Sultan Al Qassemi (@sultanalqassemi) em Dubai e Mona Eltahawy (@monaeltahawy) em New York, os jornalistas da Al Jazeera que estão no dia-a-dia da praça Tahrir (mesmo depois de serem presos): Dan Nolan (@nolanjazeera) e Ayman Mohyeldin (@aymanM), e o já citado Sharif Kouddos (@sharifkouddos). Mas há muitos outros, especialmente pessoas que não são jornalistas e estão todos os dias na praça junto com os manifestantes, como Shereef Abbas (@shereefabbas) e Amr El Beleidy (@beleidy) . Há muitas outras boas fontes que não estão na minha lista, mas é tudo o que eu consigo acompanhar sem ficar doido.

As hashtags do twitter para acompanhar isso tudo são #jan25 (em referência ao dia em que tudo começou), #egypt, #sidibouzid (uma referência à cidade na Tunisia onde tudo começou). Mas seguir a tag #egypt é quase impossível! São centenas de tweets por segundo!