Nos últimos dias eu tenho acompanhado, atônito e sem fôlego, os fatos que ocorreram na Tunísia e no Egito. É inacreditável o quão rapidamente um movimento popular foi capaz de colocar um país inteiro sob suas asas incendiando o legítimo descontentamento daquele povo em uma ação contra a tirania de seus regimes. Para aqueles fãs de ficção científica que leram sobre as guerras digitais nas páginas de William Gibson isso é inacreditavelmente similar ao que 20 anos atrás era só ficção científica.

Como bem lembrado pelo jornalista Sultan Sooud al Qassemi (uma das melhores fontes sobre o assunto no twitter) , o que está acontecendo agora não é exatamente inédito em espírito. Há pouco mais de 21 anos o ditador romeno Nicolae Ceauşescu teve que fugir do comitê central do Partido Comunista Romeno em Bucareste por  causa de uma multidão que exigia sua renúncia na praça central da cidade. O mesmo acontece hoje no Egito, quando mais de 2 milhões de pessoas (2 milhões!!!) se reúnem na praça Tahrir (adequadamente chamada em português "praça da Liberação") exigindo uma coisa e apenas uma coisa: o fim do regime autoritário liderado por Hosni Mubarak. Como na Romênia 21 anos atrás, os egípcios na praça Tahrir não têm líderes, não foram convocados por nenhuma oposição, não foram alimentados por nenhuma ideologia. Apenas atenderam a um chamado anônimo que se espalhou de boca em boca: veja demonstrar sua insatisfação com o regime. Mas há algo de diferente: enquanto os romenos tiveram de contar com rádios estrangeiras para espalhar as notícias, os egípcios e tunísios têm a internet, o twitter, o facebook, mensagens sms, telefones celulares, o youtube e toda forma de comunicação ubíqua, disponível no bolso a qualquer momento, para transmitir qualquer informação instantaneamente. Imediamente datas e horários de protestos podem ser anunciados para milhões de pessoas, informações sobre a posição de forças repressoras podem imediamente ser obtidas, o horror da repressão violenta pode imediatamente ser transmitido para milhões por vídeos e fotos.

Os protestos foram convocados para o dia 25 de janeiro, no twitter e facebook. Levou apenas 4 dias, de 25 a 29 de janeiro, para que os egípcios fossem capazes de arregimentar um número suficiente de manifestantes para que pudessem desmantelar completamente as forças policiais leais ao regime. Apenas segundos foram suficientes para que o mundo todo soubesse que os confrontos tiraram a vida de 100 pessoas na madrugada do dia 29. Levou apenas mais 3 dias para que o número de manifestantes saltasse de 20 mil para mais de 2 milhões hoje na praça Tahrir. Através de sms os jovens egípcios puderam organizar comitês de vigilância para seus bairros, para defender suas propriedades e famílias. Ouvi mais de um egípcio no twitter dizer: me sinto mais seguro ao andar hoje pelas ruas do Cairo do que em qualquer outro dia. Voluntários organizaram o trânsito, cuidaram da limpeza das ruas e governaram a cidade na ausência do estado - tudo organizado pela internet e pelos sms.

A queda de Mubarak é uma questão de tempo. É impossível um governo sobreviver a uma tão grande insurreição popular. Aqui no ocidente tudo é observado com temor. O Egito é um país central no mundo árabe. Qualquer coisa que aconteça lá ressoa em todos os outros países da região. Lá estão as melhores universidades que formam os jovens árabes, os mais influentes intelectuais, a mais influente diplomacia e a cultura árabe mais complexa e sofisticada. Quem são essas pessoas que hoje dominam as ruas do Cairo? Quem são seus líderes? É uma revolta fundamentalista? É como no Irã em 1979? O mundo ainda não entendeu direito como é que se descobre quem são essas pessoas: converse com elas! Leia tudo o que elas dizem! Você pode entrar em contato direto com as pessoas que estão nas ruas no dia-a-dia dessa revolução através da internet. Isso é inédito na história do mundo. Você pode saber exatamente o que os motiva e o que eles querem.

Não, isso é muito importante entender, essa não é uma revolta fundamentalista islâmica, é uma insurreição popular contra um tirano. Não é um movimento como a revolução iraniana em 1979. As pessoas que estão lá na praça Tahrir são, como a reportagem da Al Jazeera English costuma dizer, "from all walks of life", cristãos, muçulmanos, secularistas, islamistas, comerciantes, estudantes, marxistas, liberais, operários de fábricas, jovens liberais, que vivem vidas ocidentalizadas, mulheres de burca, mulheres de cabelos soltos e roupas ocidentais, intelectuais, líderes religiosos, civis, militares... é, enfim, o povo egípcio. O colunista do New York Times Nicholas Kristoff relata ouvir de um manifestante na praça Tahrir: "nós queremos o que vocês têm na América! Nos ajude a ter democracia!". O produtor do Democracy Now! Sharif Abdel Kouddous descreve o que a multidão cantava "muslim, christian, we're all egyptian" ("muçulmano, cristão, somos todos egípcios"). 

Outra coisa importante de entender: esse movimento não tem líderes, até agora ninguém tomou a frente como organizador, mentor ou líder de nada (ao contrário dos protestos no Irã em 2009, onde Mir-Hosein Musavi era claramente o líder político dos protestos). Surgiu espontaneamente, quando a notícia do que houve na Tunísia convenceu os egípcios de que um regime autoritário pode ser derrubado por uma insurreição em grande parte pacífica.

Isso é o que traz mais medo, porque no vazio do poder causado pela queda de Mubarak não há alguém que o substitua e a revolta pode ser sequestrada por fundamentalistas. Mas eu não acredito nisso. Pelo que se vê as pessoas dizendo, não é isso que vai acontecer. A principal força religiosa conservadora que tem participado dos protestos é a Irmandade Islamica, um movimento islamista bastante tradicional que existe a mais 90 anos na região. Mas eles não são os líderes da revolta, e vários de seus líderes já anunciaram publicamente que não buscam sequer participar de um governo pós-Mubarak. Claro que qualquer governo vai ter que ter o apoio deles e eles provavelmente vão acabar participando, mas nada que não seja um governo de união nacional - com cristãos, muçulmanos, conservadores, moderados e secularistas juntos - será estável, e é para isso que o ocidente deve estar alerta.

O mais importante a se esperar de tudo isso é que o povo egípcio poderá, pela primeira vez, escolher o que vai acontecer e quem estará governando. É muito provável que o resultado dessa revolução seja um governo eleito pelo voto direto. E é muito provável que o Egito não seja o último país árabe a passar por uma transformação profunda esse ano. 

Post scriptum: fontes para acompanhar esses acontecimentos. 

A melhor fonte para acompanhar o que acontece no Egito agora é a internet. Esqueçam as agências de notícias ocidentais. A única agência de notícias capaz de dar notícias acuradas sobre o que acontece lá é a Al Jazeera English. Recomendo acompanhar o live blog para notícias em cima da hora, e assistir o stream ao vivo da televisão

Mas a melhor fonte continuam sendo os twitters. Eu fiz uma lista no twitter e adicionei algumas boas fontes. Os principais são os jornalistas Sultan Al Qassemi (@sultanalqassemi) em Dubai e Mona Eltahawy (@monaeltahawy) em New York, os jornalistas da Al Jazeera que estão no dia-a-dia da praça Tahrir (mesmo depois de serem presos): Dan Nolan (@nolanjazeera) e Ayman Mohyeldin (@aymanM), e o já citado Sharif Kouddos (@sharifkouddos). Mas há muitos outros, especialmente pessoas que não são jornalistas e estão todos os dias na praça junto com os manifestantes, como Shereef Abbas (@shereefabbas) e Amr El Beleidy (@beleidy) . Há muitas outras boas fontes que não estão na minha lista, mas é tudo o que eu consigo acompanhar sem ficar doido.

As hashtags do twitter para acompanhar isso tudo são #jan25 (em referência ao dia em que tudo começou), #egypt, #sidibouzid (uma referência à cidade na Tunisia onde tudo começou). Mas seguir a tag #egypt é quase impossível! São centenas de tweets por segundo!