"Exaltado seja o Filho, nosso salvador;
s
ua soberania seja suprema, sem rival algum.
Q
ue seja o pastor dos homens, suas criaturas"

Cântico cristão? Não. É um trecho do Enûma Eliš, poema épico babilônico que, entre outras coisas, narra a batalha entre Marduk - uma espécie de deus dos ventos e tempestades -  e Tiamat - deusa primordial associada a águas caóticas - e a subsequente criação do mundo e da humanidade e o estabelecimento de Marduk como o rei dos deuses e presidente sobre a assembléia de deuses. Marduk era o Filho - no sentido de que não pertencia às primeiras gerações de deuses, e era o salvador, no sentido de que salvara esses deuses - seus pais - da fúria de Tiamat, que pretendia destruí-los. 

Tudo bem, eu distorci um pouco uma tradução do acadiano para o inglês (obviamente eu não sei ler acadiano, aliás... nenhuma língua antiga) para encaixar as coisas. O inglês traz:

"Most exalted be the Son, our avenger;
Let his sovereignty be surpassing, having no rival.
May he sheperd the black-headed ones(1), his creatures" 
--- The Ancient Near East, Volume I - an anthology of texts and pictures, James Pritchard

 

Segundo o próprio tradutor, "black-headed ones" é um termo comum em acadiano que significa raça humana. E de "vingador" para "salvador" foi uma pequena aposta. Não sei se o termo original permite essa tradução. 

Obiviamente esse trecho de hino religioso foi produzido em um contexto muito diferente do cristianismo, muitos e muitos séculos antes do início dessa religião e para decorar um mito muito diferente do mito cristão. 

Entretanto é bastante conhecido entre os estudiosos do antigo oriente próximo que havia bastante intercâmbio cultural entre esses povos, e que há paralelos interessantes entre textos babilônicos, inclusive o Enûma Eliš, e trechos do antigo testamento, uma compilação de textos hebraicos. O cristianismo, que rapidamente se transformou em religião greco-romana, recebendo todo tipo de influencia dessa outra cultura, nasceu no oriente próximo, como uma seita apocaliptica judaica e obviamente carregou consigo boa parte dessa herança.

Para mim é um quase inevitável ficar imaginando se esse tipo de hino religioso não fazia parte do estoque cultural daquelas pessoas, se eles não conheciam esses termos e até que ponto a imagem do Filho divino, do pastor, do salvador, não eram parte de uma memória cultural  que eventualmente achou expressão no apocalipticismo judaico e na nova seita que nascia com a morte do pregador galileu Yeshua de Nazaré.