Esse post vai defender a grande heresia política que está estampada no título. Não importa se é "direita" ou "esquerda", cristão conservador ou socialista progressista - se você escolheu um time, você está fazendo do mundo um lugar pior. E o meu principal argumento é a reação dos diversos "times" ideológicos dominantes com relação a duas situações políticas em dois países do oriente.

Há dois anos ocorreu no Irã algo muito parecido com o que agora está ocorrendo no Egito - pessoas foram às ruas em massa para protestar basicamente contra duas coisas: a autocracia de seu regime, que prende, tortura e mata pessoas por crimes de opinião, e a corrupção do regime que loteia a riqueza do país como se fosse uma propriedade privada de sua classe dominante. Do ponto de vista ideológico os governos do Irã e do Egito são tão diferentes quanto possível. Do ponto de vista de quem vive diariamente sob o seu jugo, são a mesma exata e nojenta realidade: regimes autocráticos que usam os mesmo expedientes, a mesma mecânica, a mesma tortura. A ideologia é apenas o verniz intelectual sobre uma dinâmica social idêntica.

Ainda mais semelhante foi a forma com que os protestos começaram, como se espalharam através da internet, e como se espalhou feito pólvora na juventude secular e, até esse momento, bastante alienada da política pela situação de seus países. Outro ponto de semelhança foi como em ambos os casos o movimento arregimentou gente de toda classe - secularistas, religiosos, jovens, velhos, classe média, políticos. A única diferença objetiva entre esses dois levantes é o fato de que o governo iraniano foi mais competente em reprimir violentamente os seus manifestantes.

Entretanto a reação dos diversos grupos ideológicos sobre os dois levantes foi muito diferente. Quando os iranianos se levantaram contra a fraude eleitoral que garantiu a reeleição de Mahmoud Ahmadinejad, os conservadores do ocidente bateram palmas, os neocons se rejubilaram, a direita cristã americana e a direita secular brasileira, Israel e os seus defensores, os grupos secularistas do oriente médio, todos clamaram por apoio à revolução verde. A esquerda européia, os islamistas xiitas, a esquerda sulamericana, todos descartaram o movimento como "revolta oligárquica", acusaram de ser fomentado por estrangeiros, de ser uma revolta das classes altas, e que o povo estava realmente feliz com o regime.

Quando os egípcios se levantaram, inspirados por Tunis, contra o terror imposto pelo governo egípcio sobre o país, a esquerda se rejubilou, os liberais americanos clamam para que o governo corte a ajuda financeira ao exército egípcio, a esquerda brasileira os chama de revolucionários (*), o PSTU envia uma pessoa - cuja coragem eu até admiro, pois a situação está feia para estrangeiros lá - para cobrir a Revolução Egípcia. Já a direita americana e os neocons se encolhem de medo e começam a espalhar sua paranóia anti-islâmica, "meu deus, e a Irmandade Muçulmana, os terroristas? Isso é igual à revolução iraniana em 79!". Israel e seus defensores se preocupam "e os tratados? e a segurança do estado israelense? Forças estrangeiras estão envolvidas: o Hammas e o Irã!"(**), a direita brasileira olha torto, com todas as suspeitas possíveis "nós sabemos quem de fato está por trás dessa insurreição?".

O fato é que para certos grupos ideologicamente engajados, o regime egípcio é "amigo dos nossos amigos", se comporta bem com Israel, colabora com os Estados Unidos, enquanto o regime iraniano é "inimigo dos nossos amigos" - ataca Israel e denuncia os Estados Unidos. Para os outros grupos ideologicamente engajados a situação é exatamente oposta: o Irã é "inimigo dos nossos inimigos" e o Egito é "amigo dos nossos inimigos".

Note: acredito que a maioria dessas pessoas não estão agindo de má-fé intelectual, nem são ignorantes sobre a situação. Mas acredito que o véu do engajamento ideológico intoxica o julgamento. A afiliação ideológica e o engajamento parecem ter uma correlação direta com uma troca da lógica pela paranóia, do raciocínio por um comportamento de manada.

Há bastante evidência empírica em estudos de psicologia e neurociencia de que nossas decisões morais são tomadas em grande parte não por um julgamento intelectual detalhado, mas por "gut feeling", sob influencia de regiões do cérebro ligados a frustração e recompensa, conformação social e rejeição(***). Em alguns experimentos mesmo o julgamento de um fato bastante objetivo e lógico, com uma resposta única e bastante bastante óbvia (perguntas do tipo "esta figura geométrica é maior do que aquela?" "qual dessas figuras encaixa naquele buraco?") pode ser fortemente afetado pela necessidade de se conformar ao grupo social. Pessoas sob forte pressão social podem de fato ver e perceber outra coisa e raciocinar de forma diferente ao olhar para os mesmos fatos objetivos(****).

Eu tenho a impressão que o comportamento de pessoas muito fortemente engajadas em alguma doutrina ou ideologia tem alguma forte relação com essa necessidade de conformação à norma do seu grupo. Há uma pressão por certas conclusões - conclusões tomadas antes do raciocínio, antes dos fatos, antes das evidências. Não importa se há ou não evidência se a Irmandade Muçulmana defende o terrorismo, há uma pressão ideológica para que se conclua que Israel corre perigo se o status quo do Egito for perturbado. Não importa se há evidência de que a "Revolução Verde" no Irã não é apenas uma "revolta das oligarquias" mas um movimento bastante pervasivo na sociedade iraniana, há uma forte pressão ideológica para que se conclua que qualquer dissidência é um movimento de ricos insatisfeitos, fomentado por Israel.

O pior que pode acontecer com uma mente sã, hábil e saudável é ser cooptada pelo engajamento político-ideológico e delegar seus raciocínios à lógica de grupo, passar a ajustar os raciocínios e fatos às conclusões, e não o contrário. Grande parte dos nossos problemas são resultados dessa tendênca desastrosas, e grande parte de nossas disputas e contradições públicas são resultado de dois lados que resolveram ignorar os fatos e assumir conclusões automáticas. E como é impossível chegar a um acordo com alguém que já em conclusões prontas, sobra aos grupos denunciarem-se mutuamente em público ao invés de tentar obter um compromisso lógico. Isso aconteceu nas eleições americanas de 2008, nas eleições brasileiras do ano passado, em cada uma das grandes controvérsias públicas pelas quais o nosso país e outros passaram nos últimos anos... aliás, eu poderia até dizer que esse tem sido o principal motor da política por um longo tempo.

Faça um favor a si mesmo: se esforce para questionar a si próprio. Se esforce para questionar o seu grupo. Se esforce para questionar seus autores favoritos. Se esforce para que o guia principal de suas decisões e convicções sejam a lógica e os fatos. Não tenha respostas prontas. E abandone o engajamento ideológico o mais rápido que for capaz. Não se engane: é muito difícil. Como o físico Richard Feynman disse uma vez "you must not fool yourself, and you are the easiest person to fool". Mas vale a pena o esforço. 

Notas de rodapé:

(*) de fato são revolucionários, mas não são os 'revolucionários' que os marxistas do PSTU gostariam que eles fossem...

(**) Essa é a MAIOR BESTEIRA que eu ouvi nos últimos tempos - para a informação dos paranóicos de plantão, para começo de conversa a Irmandade Muçulmana sempre condenou o terrorismo e defende a não violência (com exceção do conflito com Israel, claro). Além disso, a Irmandade Muçulmana e os xiitas iranianos SÃO INIMIGOS. Al-Qarawadi, um dos membros mais influentes da Irmandade Muçulmana (que é sunita!) já chamou os aiatolás xiitas do Irã de apóstatas e é proibido de entrar no Irã. Sim, a Irmandade é islamista, defende o estabelecimento de um regime teocrático e é hostil a Israel, mas nada está tão longe de uma entidade terrorista ligada ao Irã quanto a Irmandade Muçulmana! E por fim, e mais importante de tudo: a Irmandade não está por trás dos protestos. Membros da irmandade participaram sim dos protestos, mas como coadjuvantes, participantes secundários. A grande massa não está lá por razões religiosas.

(***) O Cortex Anterior Cingulado, uma área do cérebro que sempre se mostra ativa em experimentos ligados a rejeição social e conformação ao grupo, aparece também em experimentos associados a resolução de dilemas morais. Em breve vou colocar umas referências aqui. Preciso organiza-las. Talvez as descreva em outro post. 

(****) Há um experimento clássico em que você mostra um conjunto de figuras para o indivíduo e pergunta qual delas é a maior. As figuras são de tamanhos claramente diferentes e uma fração quase unanime das pessoas acertam a resposta quando questionadas individualmente. Então você repete o experimento colocando a pessoa em uma platéia com vários atores que estão orientados a dar em voz alta a resposta errada. A porcentagem de pessoas que conforma sua resposta à resposta errada do grupo, basicamente ignorando a evidência visual clara, é enorme. Não me lembro os números mas vou colocar aqui mais tarde. O Cortex Anterior Cingulado se ativa durante esses experimentos, e mais fortemente nas pessoas que conformam sua resposta à resposta errada do grupo.

E veja: é muito difícil não se conformar. Já fizeram informalmente esse experimento comigo, e eu fiquei tremendamente confuso em relação a qual era a figura maior por vários minutos antes de dar a resposta certa. Depois de um tempo olhando as figuras fiquei até com vergonha. A diferença de tamanho era enorme. 

Post Scriptum:

1) É claro que o engajamento político, no sentido de engajamento nas atividades políticas, é algo positivo. Se você se engaja em participar ativamente das decisões na sua cidade, no seu país, se você participa honestamente do processo político e não é um cidadão passivo, você está fazendo certo. Me refiro nesse post ao engajamento em uma ideologia, um sistema doutrinário político que apresente respostas prontas para os problemas. Isso é o que você deve tentar banir do seu mundo. 

2) É claro que ao tomar decisões você vai pesar valores subjetivos. Alguém que julgue que justiça social é mais importante que liberdades individuais vai tomar decisões diferentes de alguém que pense o contrário, ainda que esteja diante dos mesmos fatos objetivos. O que é importante é que os dados e fatos objetivos sejam racionalmente examinados antes que as conclusões resultantes desse exame racional sejam submetidas ao crivo dos seus valores subjetivos, de forma  intelectualmente honesta.