A essa altura todos já sabem mais ou menos o que aconteceu na USP - a empresa terceirizada responsável pela limpeza, que está em processo de falência já faz uns meses, deu um calote nos seus funcionários, dizendo que a USP não teria dado o dinheiro. Por isso os funcionários entraram em greve. Nada mais justo - é o que todo mundo diria nessa situação. Você me paga, eu trabalho. Você não me paga, eu não trabalho. 

Num primeiro momento eu acredito que todos por aqui se sensibilizaram com a situação dos funcionários. Não é fácil ganhar pouco e trabalhar duro, e de repente se ver sem pagamento. Essas pessoas não têm reservas ou economias. Elas não têm ao que recorrer para comprar comida se o seu salário não é depositado. Quem ganha R$ 600,00 por mês não tem como fazer poupança. Acredito que qualquer aluno estaria disposto a participar de um movimento sério para exigir que a USP pagasse essas pessoas imediatamente – como me parece que é legalmente a obrigação dela fazer, me corrijam se estou errado – e depois perseguir compensação na justiça junto à empresa que deu o calote.

Eu estaria plenamente disposto a tomar a limpeza dos prédios da minha unidade nas minhas próprias mãos, e juntar um grupo de estudantes para fazer uma faxina diária no prédio, para que os funcionários terceirizados não precisassem trabalhar sem receber. Eu estaria plenamente disposto a tentar conseguir assitência jurídica para eles. A criar uma rede de assistência e distribuir cestas básicas para eles. Ajudar a pressionar a reitoria por uma solução imediata, e por uma revisão dos editais de licitação para que as próximas empresas a serem contratadas fossem devidamente investigadas e houvesse critérios de exclusão para evitar outras picaretagens do tipo. Enfim... perseguir, de maneira séria e dentro da lei, soluções para o caso e assistência para essas pessoas enquanto a coisa não se resolvesse.

Até que... de repente lixo. Um certo grupo – minoritário e isolado – de estudantes e funcionários decidiu que era uma excelente idéia “ajudar” essas pessoas espalhando lixo por algumas unidades, depredando banheiros e até jogando papel higiênico usado pelos corredores da FFLCH. E a reação de todo mundo é: qual é o ponto? Em que isso ajuda? Que possível consequencia de espalhar lixo no corredor pode ser benéfica, ou avançar a possibilidade de resolver a questão?

Nenhuma! Vandalizar a escola causa antipatia, afasta pessoas sérias da causa, não acelera em nada o processo de resolver o problema e causa prejuízo para o patrimônio da escola. Grande idéia, não?! A única possível vantagem é chamar atenção. Mas atenção negativa vale? Qualquer atenção?

Um “limpaço” não chamaria a mesma atenção? E não passaria a imagem exatamente contrária? As pessoas não se solidarizariam com os estudantes que desceram do salto para limpar o chão para ajudar pessoas que realmente têm necessidades?

A imagem externa dos estudantes da USP já é a de um bando de mimadinhos que gostam de quebrar tudo e fazer birra uma vez por ano. Essa imagem não é acurada mas, se de fato um grupinho resolve agir segundo o estereótipo uma vez por ano qual é o sinal que se manda para a sociedade? De que vale a pena se solidarizar com qualquer causa que essas pessoas defendam?

A verdade é que uma parte dessas pessoas que estimulam o vandalismo como tática de luta não estão querendo resolver o mesmo problema que o pessoal da limpeza. O pessoal da limpeza quer os seus salários e seu emprego de volta. Os vândalos querem o fim dos salários e empregos. Eles pouco se importam se essas pessoas vão receber ou não, eles querem usá-los como os pobres martirizados pelo sistema capitalista. O lixo nos corredores serve muito mal aos propósitos dos funcionários que estão sem salário, mas não foi concebido para isso. Foi concebido para perturbar a ordem, ameaçar a estabilidade, servir à mobilização contra “tudo o que está aí”.

Bom, isso é o que a gente vê cotidianamente na USP. A gente já conhece o vandalismo da universidade como tática de mobilização e sabe que, além de uns transtorninhos para a comunidade universitária uma vez por ano, ele tem pouco efeito no mundo real.

É uma pena... muita coisa poderia ser feita para ajudar de fato essas pessoas a obter de fato o que querem: seus salários e alguma segurança nos seus empregos. Além disso essa era uma grande oportunidade para rever a forma como a USP tem contratado empresas de limpeza e para entender porque essa não é a primeira vez que um contrato de terceirização dá problema. Talvez porque as empresas mudam e os donos não...

Mas ninguém vai fazê-lo porque a turba já cooptou a questão para suas causas particulares. Qualquer dissidente é um “fascista, escravagista”. Eles têm o “monopólio da luta”, com os métodos deles, com os objetivos deles, e com os resultados que a gente já conhece faz tempo.