Como esse assunto acontece com alguma recorrência eu vou salvar aqui as coisas que escrevi em outros lugares para fins de referência. 

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Eu acredito que estamos melhor sem regulamentação. Vou dar duas séries de argumentos - uma de porque eu sou contra o sistema de regulamentações como um todo e outra de porque eu sou contra a regulamentação da profissão de físico ainda que o sistema de regulamentações não seja desmantelado. 

1) Só existe uma razão objetiva para regulamentar uma profissão: impedir que pessoas não qualificadas exerçam atividades que representam um risco sério caso sejam mal executadas. Qualquer regulamentação que não se baseie nisso só tem um objetivo: criar um clubinho de pessoas que controlam uma série de atividades e impedir o acesso de outras pessoas a essas atividades, gerando uma reserva de mercado.

Isso é prejudicial ao mercado, inibe a geração de empregos e inibe o crescimento de novas áreas de aplicação de conhecimentos antigos, além de aumentar injustificadamente o custo de contratação. 

Isso também é ruim para os profissionais. Uma vez regulamentada a profissão, ficam estabelecidos limites claros para o que aquele profissional faz e o que ele não faz, e é muito provável que se isso se cristalize no mercado profissional. Isso limita as atividades que você pode desenvolver. 

Finalmente, isso é ruim para a profissão. A existência de atividades privativas faz com que os conselhos profissionais obriguem os cursos a ensinarem algumas disciplinas, engessando as estruturas curriculares e preenchendo a grade horário dos estudantes com disciplinas muitas vezes mal colocadas. Por exemplo isso acontece com os cursos de engenharia - por conta da grande quantidade de atividades que são privativas de engenheiros de todas as áreas, todos os cursos são obrigados a ministrar, por exemplo, matérias associadas a construção civil e a projeto de sistemas elétricos, ainda que isso não esteja nem próximo da intenção de um estudante de engenharia de controle e automação ou de engenharia metalúrgica.

2) Acima eu dei razões pelas quais eu sou radicalmente contra o sistema de regulamentação de profissões - que eu acho que deveria ser estritamente limitado a profissões que trazem risco. Mas isso está aí e não há muitas chances de que esse sistema de regulamentação seja posto de lado. Por isso ainda são necessárias razões para não regulamentar a Física ainda que o sistema continue. 

Regulamentar a Física como profissão exige a delimitação de que atividades serão privativas de um físico, que só ele poderia desempenhar. Entretanto, um coisa que salta aos olhos é o fato de que não existe realmente um corpo de atividades acima das quais você pode colocar o rótulo "Física". Física não é um conjunto de atividades ou técnicas mas um conjunto de conhecimentos. Não é como a Medicina, a Fisioterapia, a Engenharia Elétrica, a Enfermagem ou a Geologia - que além de seus respectivos conjuntos de conhecimentos associados possuem um conjunto de técnicas e atividades que as caracterizam. Certamente um físico está habilitado por seus conhecimentos a desempenhar diversas tarefas úteis, mas não são tarefas privativas que qualquer outro profissional não possa aprender e desempenhar com a mesma eficiência.

Pode-se objetar a essa observação dizendo que há sim uma tarefa, que envolve grandes riscos, e que seria primordialmente tarefa dos físicos: dosimetria de radiações e manipulação de elementos radioativos. Eu discordo fortemente dessa visão. Essas não são atividades que exigem todo o conhecimento adquirido em um curso de quatro anos de física, mas que qualquer profissional de física, química, engenharia ou áreas correlatas poderia desempenhar depois de um curso de habilitação. Aliás, essa é uma atividade que a gigantesca maioria dos físicos que eu conheço não está apta a desempenhar por não terem tido treinamento específico.

Finalmente, qual seria o efeito de se regulamentar Física como profissão? 

Seriam dois efeitos:

1) Seria criada uma reserva de mercado para certas atividades, com piso salarial fixado. Muitos vêem isso como vantagem, eu vejo como problema. Hospitais e departamentos de radiologia seriam obrigados a contratar físicos, para empregos incompatíveis com todo o treinamento que esses profissionais possuem. É ridículo supor que exige-se uma formação completa em física para se dosar a radiação de um aparelho de raios X. Basta uma formação de técnico de radiologia. E não se engane - a remuneração vai ser compatível com a de um técnico. Ninguém vai pagar salário de nível superior para fazer isso.

Sobre o piso salarial - físicos não ganham mal. Em uma recente pesquisa da FGV física era o 31º curso superior mais bem remunerado, com salário inicial médio de R$ 3500. 

2) A necessidade de treinamento específico vai fazer com que se insira nos cursos de bacharelado em física disciplinas obrigatórias de instrumentação e dosimetria de radiações, e a gigantesca maioria dos profissionais de física não vão trabalhar nessa área. 

3) Diversas atividades que hoje são desenvolvidas com sucesso por pessoas formadas em física vão ficar de fora da legislação: computação, finanças, projeto de produtos, ... e vão sobrar para a física tarefas menos remuneradas e mais diretamente ligadas ao curso: metrologia, dosimetria, ...

Finalmente, a Fisica não é, nunca foi e nunca será privativa de um clube de pessoas que resolvem delimitá-la. A Física não é delimitável. É IMPOSSÍVEL traçar uma linha e dizer que o que está lá dentro é Física e o que está fora não é. 

Isso não é uma característica apenas da física mas de todo campo que é eminentemente científico e não técnico. Também é impossível delimitar o que um biólogo faz, o que um químico faz, o que um matemático faz, o que um sociólogo faz, o que um estatístico faz. 

Há uma interface tão tênue e tão fluida entre essas áreas que qualquer um é capaz de estudar, aprender e ingressar em qualquer atividade que um físico for capaz de exercer. 

É assim que é, e é assim que tem que ser. Essa é a nossa riqueza e o que realmente diferencia um profissional com uma forte formação científica e quantitativa: não há limitações no que ele pode aprender a fazer.