Mysterium Tremendum

9 de Setembro de 2008, por Desconhecido - 55 comentários

Uma das bases da religião, segundo o teólogo e antropólogo da religião Rudolph Otto (ver: A Idéia do Sagrado), é o Sagrado, que ele define como algo que causa a sensação do numinoso (do latim: numen, presença ou poder divinos), de algo que é totalmente outro (no original: auseinander, no inglês: whole other), totalmente diferente de mim e entretanto profundamente relacionado comigo. Otto usa também outro termo: mysterium tremendum, a sensação avassaladora de admiração diante de algo, o choque diante do "whole other".  Por outro lado, há quem pense que o cientista é o exato oposto. É alguém para quem não há mysterium tremendum, mas a fria racionalização da experiência humana. A redução, através da devida explicação, de qualquer mistério ou incerteza a uma série encadeada de fatos que dão objetividade e realidade ao universo. Para mim não há nada mais estranho à ciência do que a ausência de admiração e choque, a ausência do numinoso na presença do whole other.

Quando se contempla a natureza com olhos espirituais/filosóficos, o que nos causa admiração? O livro de Jó dá uma pista: "domínio e admiração pertencem a Deus; ele estabelece ordem nas alturas" (Jo 25,3). A história da religião é a história da ordem. Cada mito cosmogônico é uma versão da vitória da ordem sobre algum caos primordial incontrolável e monstruoso. O Bereshit hebraico, o livro do Gênesis para os ocidentais, principia seu mito de criação com a terra vazia e informe e o ruach de deus pairando sobre o abismo e deus, em seguida, segue ordenando o universo: separa o dia da noite, separa as águas,  estabelece terra firme, cria cada espécie de animais, plantas, etc, tudo de maneira a ordenar e categorizar o universo. O Enuma Elish babilônico também inicia com o caos:

"Quando no alto não se nomeava o céu,
e em baixo a terra não tinha nome,
do oceano primordial (Apsu), seu pai;
e da tumultuosa Tiamat, a mãe de todos,
as águas se fundiam numa,
e os campos não estavam unidos uns com os outros,
nem se viam os canaviais;
quando nenhum dos deuses tinha aparecido,  
nem eram chamados pelo seu nome,
nem tinham qualquer destino fixo (...)".

(Note que ele está falando dos planetas: os deuses não tinham aparecido
e não tinham "destino fixo", claramente inspirado nas "rotas" que os planetas
traçam no céu ao longo dos anos em relação às estrelas.) 

 

E Marduk é o deus que derrota o caos, Tiamat e Apsu, e cria a ordem: dá nome ao céu e a terra, separa as águas, cra terra firme (alguma semelhança com a gênese bíblica?), etc. Notem como a oposição entre ordem e desordem é estabelecida e como a ordem do universo provoca admiração nessas pessoas: os planetas em seus "destinos fixos" no céu, as águas devidamente separadas no oceano e nas águas "acima do firmamento", a regularidade das estações e a sua possível predição pela posição das estrelas, etc.

Esse tipo de mysterium tremendum é ausente na ciência? Vamos consultar os cientistas. Permitam-me mais uma citação, atribuida a Richard Feynman:

"Poets say science takes away from the beauty of the stars — mere globs of gas atoms. Nothing is "mere". I too can see the stars on a desert night, and feel them. But do I see less or more? The vastness of the heavens stretches my imagination — stuck on this carousel my little eye can catch one-million-year-old light.A vast pattern — of which I am a part... What is the pattern or the meaning or the why? It does not do harm to the mystery to know a little more about it. For far more marvelous is the truth than any artists of the past imagined it. Why do the poets of the present not speak of it? What men are poets who can speak of Jupiter if he were a man, but if he is an immense spinning sphere of methane and ammonia must be silent?" 

Meus grifos. Eu vejo nessa admiração o mesmo mysterium tremendum, a mesma admiração com o whole other sentida pelos místicos e pelos religiosos. Nesse ponto a ciência está muito mais próxima da religião do que se supõe. Por mais que hajam diferenças fundamentais, por mais que o ceticismo tenha um sério papel na ciência que não se observa na religião e por mais que as religiões estabelecidas e institucionalizadas estimulem muito menos esse sentimento de admiração do que uma religiosidade fria e mecânica, ou um frenesi fanático fatalista e esfomeado de milagres, o que move o homem a produzir uma ou outra coisa é o mesmo sentimento de admiração diante da ordem, da regularidade, da apreensibilidade do universo.

É claro que na ciência e na religião existem aqueles que perderam, ou nunca tiveram, esse senso de admiração. A mim resta me apiedar deles, que transformaram uma fonte inesgotável de prazer para alma em uma fria série de tarefas sem sentido, sem razão de ser. 

 



Campanha para ajudar a wikipedia. Com premios.

24 de Junho de 2008, por Desconhecido - 0sem comentários ainda

Está acontecendo uma campanha para ajudar a wikipedia e outros projetos como a Creative Commons e etc. Os sites BR-Linux e Efetividade estão fazendo uma campanha.

Basta que você que tem um blog ajude a divulgar essa campanha para concorrer a alguns prêmios. Como eu não sou bobo, e também uso muito a Wikipédia, aí está:

 

Ajude a sustentar a Wikipédia e outros projetos, sem colocar a mão no bolso, e concorra a um Eee PC!

…e também a pen drives, card drives, camisetas geeks, livros e mais! O BR-Linux e o Efetividade lançaram uma campanha para ajudar a Wikimedia Foundation e outros mantenedores de projetos que usamos no dia-a-dia on-line. Se você puder doar diretamente, ou contribuir de outra forma, são sempre melhores opções. Mas se não puder, veja as regras da promoção e participe - quanto mais divulgação, maior será a doação do BR-Linux e do Efetividade, e você ainda concorre a diversos brindes!

O Big Bang e a Esquerda Marxista

24 de Junho de 2008, por Desconhecido - 66 comentários

Recentemente a revista Veja fez uma matéria de capa falando sobre as últimas descobertas da cosmologia e etc, e, como resposta, no dia 23 de junho saiu um texto em um site denominado marxismo.org.br sobre a teoria do Big Bang. O texto é assinado por Luiz Bicalho. Procurei saber quem é, mas tudo que eu encontrei na internet ligado a esse nome sugere que ele é um filósofo da UFMG e nada mais.

O texto escrito por ele sugere que a teoria do Big Bang foi criada por um padre para impor sua visão bíblica de um deus que diz fiat lux, et facta est lux, e que a burguesia e o capitalismo são as grandes forças por trás da elevação dessa teoria a modelo padrão da cosmologia apesar de suas óbvias falhas. Transcrevo o texto, que pode ser encontrado no seguinte link:

http://www.marxismo.org.br/index.php?pg=artigos_detalhar&artigo=168

Da “teoria” do big-bang ao universo que não podemos conhecer

A Revista Veja desta semana estampa na capa uma matéria especial sobre o BIG-BANG e coloca que "a ciência está próxima de desvender a origem do universo". Mas por que a burguesia se esforça tanto para nos fazer crer nesse tal Big Bang?


Luiz Bicalho

A “teoria” do big-bang foi formulada originalmente pelo padre e cosmólogo belga Georges Lemaître em 1927. Era uma tentativa de conciliar a explicação bíblica da origem do universo - “e Deus disse: faça-se a luz” - com uma explicação científica. Ela foi retomada por diversos físicos a partir da descoberta feita por Huble (1929) de que o universo estava em expansão.

A teoria permitia predizer a totalidade da matéria em relação à taxa de expansão geral do universo, à taxa de expansão de cada galáxia e também previa uma radiação resultante da explosão, a chamada “radiação de fundo”. Esta radiação foi descoberta em 1965.

Mas existiam problemas na teoria e eles foram se agravando. Para se manter as galáxias “resultantes” da explosão, deveria existir em cada galáxia mais matéria do que se observava. Então, postulou-se a existência de uma “matéria escura” que serviria para aumentar a gravidade dentro de cada galáxia e impedir que ela tivesse se dispersado. No início esta previsão era de que 5% da matéria do universo fosse de “matéria escura”.

O problema é que as medições se tornaram mais precisas e cada vez mais se necessitava de mais matéria escura para preencher o vazio das galáxias. E aí, em 1998, ocorre uma outra descoberta: o universo, as galáxias, afastam-se umas das outras em velocidade muito maior que previa a teoria do big-bang. Então, para ajustar o modelo, passaram a precisar de uma “energia escura” que repelisse as galáxias, mas que não repelisse as estrelas entre elas dentro das galáxias!

O resultado dos cálculos (utilizando a famosa fórmula de Einstein que E=mc²) é que, para tudo funcionar, segundo a teoria do big-bang, 75% do universo é composto por “energia escura” que não se pode detectar, 24% por “matéria escura” que também não pode ser detectada e somente 4% do universo por energia e matéria “normais”, que podem ser observadas. Tudo isso para a gravitação funcionar como funciona e admitir que existiu o big-bang. Todas as “provas” da existência da matéria ou energia escura remetem a medidas gravitacionais – ou seja, como se alguem quisesse provar que 2 mais 2 é quatro porque quatro é dois mais dois.

Alguém poderia perguntar com razão: então o universo não pode ser conhecido? Talvez a resposta mais simples seja a de que a teoria do big-bang deva ser contestada e comecemos a procurar outras teorias que possam explicar melhor o universo. Existem teorias alternativas e um astrônomo sueco (Hannes Olof Gösta Alfvén) propôs um deles, através da física de plasma. Uma de suas contribuições – ondas na coroa solar – foram comprovados recentemente por um satélite japonês. Apesar disso, mais de 95% das verbas de pesquisa disponíveis para astronomia giram em torno de comprovar o big-bang, a matéria e a energia escuras.

Recentemente, veio à luz uma carta de Einstein de 1954 em que ele destaca que “a religião é superstição infantil”. Mas, até hoje, é essa superstição iniciada pelo padre belga que dirige os investimentos na pesquisa astronômica. A que interesses isso serve? Certamente não aos interesses da humanidade!

 

 

Enviei uma resposta ao e-mail de contato do site. Transcrevo o que mandei a eles:

 

Caros autores do site marxismo.org.br,

gostaria de comentar um texto que foi ao ar no dia 23/06/2008, assinado por Luis Bicalho. Nesse texto ele comenta sobre a teoria do big bang e os possívels 'interesses burgueses' que fazem com que essa teoria seja o paradigma dominante da cosmologia apesar de suas 'falhas'.

Em primeiro lugar, deixe-me apresentar, ao contrário do que faz o autor do texto, as mínimas credenciais para falar sobre o assunto. Sou bacharel e mestre em Física pela Universidade de São Paulo e faço doutorado nessa mesma área, nessa mesma universidade. Não sou pesquisador da área de Cosmologia, mas tenho o mínimo conhecimento dessa área exigido pela minha formação acadêmica.

Não vou fazer qualquer comentário sobre o conteúdo ideológico do site, que sinceramente não me interessa. Vou comentar apenas o que tenho competência para comentar: os tremendos erros conceituais e absurdos cometidos pelo autor ao escrever sobre um assunto do qual ele aparentemente ignora o be-a-bá. Não faço isso por questões ideológicas mas por que acredito que a propagação de concepções errôneas como a que o autor do texto afirma é tremendamente prejudicial para uma educação científica decente e precisa, fundamental até para evitar a alienação e promover a sua liberdade com relação ao tipo de carrasco intelectual que se aproveita da ignorância alheia, que creio é o tipo de coisa que os marxistas deveriam desejar.

Não vou dizer que a ciência é independente de movimentos políticos. Isso é óbviamente besteira. Não vou dizer que a ciência não é históricamente determinada nem que seu progresso não está claramente condicinado a variáveis sociológicas. Não vou me furtar a admitir o poder que as agências financiadoras tem, para o bem ou para o mal, de guiar os temas de pesquisa. Não é esse meu objetivo. Meu objetivo é comentar a extrema imprecisão do texto, e o quanto ele demonstra ter sido escrito por alguém que não sabe do que está falando.

Em primeiro lugar, o texto atribui a autoria da teoria do big bang a George Lemaitre e dá razões bíblicas para a formulação da teoria. Isso é um erro. A primeira afirmação de que o universo está se expandindo partiu de Alexander Friedmann em 1922, que mostrou que as equações de Einstein da Relatividade Geral admitiam como solução um espaço-tempo em expansão. Lemaitre refez os trabalhos de Friedmann em 27, e propos a solução de Friedmann como uma explicação para os resultados encontrados por Hubble em 1924, de que as galáxias estavam se afastando. Note que a cronologia proposta pelo texto está errada. E Lemaitre não fez isso por justificativas bíblicas, mas por estrita solução matemática das equações de Einstein.

Não foi senão em 1931 que Lemaitre sugeriu que a solução das equações de Einstein que correspondem a um universo em expansão, conhecida hoje na literatura como métrica de Robertson-Friedmann-Walker, levavam a crer que o universo pudesse ter tido uma origem em um ponto num passado finito, quando aquela métrica descreve um universo infitamente compacto. Note que essa não é a concepção moderna de big bang. O big bang não é uma teoria para a
origem do universo mas para a sua posterior evolução. A partir de um certo ponto no passado a soluçao RFW está errada pois não leva em consideração efeitos da mecânica quântica que passam a ser dominantes e que não se sabe ainda como conciliar com os resultados da relatividade geral. O que a teoria do big bang se propõe a explicar é como o universo evoluir de um certo ponto no passado até hoje.

A teoria do big bang não se estabeleceu completamente até a década de 60 quando suas predições para a existência de uma radiação de fundo em microondas de distribuição uniforme em todas as direções foram empiricamente confirmadas. Não apenas a teoria do big bang permite prever essa radiação, mas permite prever sua uniformidade, e não há outro mecanismo conhecido que possa explicar a existencia de uma radiação uniforme e isotrópica permeando o universo. Além disso é possível prever a formação de núcleos leves que seriam consequencia de um universo em expansão e essas predições são confirmadas experimentalmente.

Logo o texto parte para a afirmação de que foi necessário postular a matéria escura para que galáxias originadas no big bang fossem estáveis. Isso é uma graaaaande confusão. Para começar isso não tem nada a ver com o big bang. O que ocorre é: ao se observar as galáxias, independentes se adotarmos o modelo estático de Hoyle ou o modelo do big bang, nota-se que o movimento observado das estrelas não pode ser explicado apenas pela matéria observável. Por isso deve haver uma matéria não observada, que não conseguimos detectar mas cuja gravidade influencia o movimento dessas estrelas. Esse é o famoso problema empirico das curvas de rotação anômalas que devem ser explicadas mesmo que não se assuma o big bang como modelo para o universo. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. O que até recentemente era necessario recorrer ao big bang para explicar era o fato de que essa matéria tem de ser não-bariônica e não interagir eletromagneticamnete para que a nucleogênese do big bang fosse explicada. Nem isso é preciso mais uma vez que as observações de uma colisão entre aglomerados de galáxia permitiu "observar" diretamente através do efeito de lentes gravitacionais que uma porção de matéria não visível simplesmente atravessa a outra sem qualquer interação de origem não-gravitacional. Então vejam que o problema da matéria escura é um problema experimental que não tem nada a ver com a teoria do big bang.

Além disso o texto diz que para explicar o big bang frente ao fato experimental de que a expansão do universo é acelerada, precisa-se postular a energia escura. Novamente temos confusão. Qualquer que seja o seu modelo cosmológico, você terá de explicar o fato de que mede-se uma expansão do universo acelerada. Uma consequencia óbvia desse fato é de que a densidade de energia do universo é positiva, o que é incompatível com o vácuo do modelo padrão das partículas elementares e sugere a existência de uma certa densidade de energia que não sabemos qual é a origem, e que se denominou energia escura.

O texto segue concluindo então que a cosmologia moderna propõe um universo que não se pode conhecer. Não! A cosmologia moderna mostra uma figura muito interessante de um universo em que ainda há muito o que se explicar. Há muitas propostas bem sucedidas para resolver os problemas da matéria escura e da energia escura e muitos acreditam que estamos perto de explicar a composição dessas contribuições inesperadas para o conteúdo do nosso universo. Mas isso é pesquisa de ponta, e ainda há algum chão antes que essas explicações se estabeleçam por meio de seu mérito experimental.

Para fechar a questão eu gostaria de dizer que é uma pena que as pessoas, no seu afã de criticar veículos de imprensa de orientação ideológica distinta da sua, acabem falando bobagens sobre assuntos que não entendem. É uma pena que só para ser contra a Veja e criticar a sua visão de mundo, vocês tenham que atirar para todos os lados. Se a Veja publicar uma matéria dizendo que o céu do meio-dia de um dia ensolarado é azul, vocês vão escrever um artigo contradizendo isso apesar das evidências que qualquer um pode coletar a favor da teoria do céu azul??

Adiciono ao fim dessa mensagem uma série de links para textos precisos sobre a teoria do big bang, sobre os problemas da matéria e da energia escura, e sobre cosmologia moderna para que vocês leiam, aprendam um pouco e quem sabe parem de propagar concepções errôneas e nos ajude a educar pessoas cientificamente bem formadas, capazes de julgarem por si mesmas, sem a credulidade e a falta de julgamente típica de quem não teve uma educação científica adequada. É isso que eu quero e é o que vocês querem também, não é? Pessoas críticas, capazes de julgar por si próprias ao olharem de forma independente para as evidências, como uma boa educação em ciência ensina a fazer.

Agradeço pela atenção ao ler esse texto,
aguardo resposta,


--
Rafael Calsaverini
=============

Telefones:
Celular: (11) 7525-6222
USP: (11) 3091-6803

e-mail: rafael.calsaverini@gmail.com

Segundo e-mail que mandei porque tinha esquecido de postar os links prometidos:

Desculpem a minha distração,
não colei os links que prometi ao fim da mensagem. Aqui vão eles:

http://www.talkorigins.org/faqs/astronomy/bigbang.html
http://www.eclipse.net/~cmmiller/DM/
http://www.lbl.gov/Science-Articles/Archive/sabl/2007/Nov/darkenergy1.html
http://www.astro.ucla.edu/~wright/cosmology_faq.html

Obrigado pela atenção,

Rafael Calsaverini





Usando SSH Tunnels e Vino para manipular múltiplos computadores.

5 de Maio de 2008, por Desconhecido - 55 comentários

Trabalhar com múltiplos computadores pode ser uma grande dor de cabeça, especialmente se o firewall da sua rede é muito rigoroso.

Vejam o meu caso. Preciso usar 3 computadores para trabalhar: meu laptop, meu desktop no IF-USP e o servidor/cluster do grupo de física estatística. Além disso a rede do IF possui restrições de todos os tipos de modo que eu não tenho acesso SSH direto ao meu computador de trabalho, apenas ao servidor FIG da física geral.

Sempre que eu queria acessar o meu computador preciso primeiro acessar o servidor fig e de lá acessar meu computador via linha de comando. É um saco ter de usar o emacs em modo texto, não poder carregar multiplas janelas e etc e tal. Portanto era um saco ter que programar de casa e usar meu micro a distância.

Além disso, na minha rede em casa eu não tenho acesso às revistas e artigos científicos que tenho na rede da USP, o que torna a vida bem difícil. Sempre que eu quero um artigo preciso acessar um computador da USP (servidor FIG) via SSH, usar um browser modo texto (elinks ou outro) para navegar pela internet e baixar o artigo e depois usar o scp para transferi-lo para o meu computador.

Mas convenhamos: tudo isso é coisa da idade da pedra! Browser modo texto? Para que tanto sofrimento?

Vou mostrar aqui dois tutoriais de coisas que eu comecei a usar recentemente para facilitar minha vida com relação a esses dois problemas.

Como acessar artigos de sua rede doméstica usando um túnel SSH

O SSH é mais do que uma forma de acessar a linha de comando do seu computador remotamente. Ele é todo um protocolo de transferencia de pacotes de forma encriptada. É possível usar o SSH para montar um proxy e acessar a internet através de outro computador.

Vamos ver como fazer isso. Para seguir os passos a seguir vamos assumir que você tem acesso a dois computadores, um deles é um servidor linux localizado na rede da USP ao qual você tem acesso com um usuário comum e que esteja servindo conexões SSH. O outro é o seu pc, fora da rede da USP de onde você quer acessar artigos.

Se você é aluno do IF, antes de tentar isso precisa conversar com o pessoal do departamento de informática e se informar sobre como você pode usar o acesso remoto via ssh. A administração da rede lá é bastante paranóica e o firewall bloqueia qualquer acesso que não esteja devidamente autorizado através de um formulário muito chato. Muito chato mesmo porque a autorização expira o tempo todo e toda hora você tem que acessar o formulário e renovar a conexão. Mas enfim... vamos prosseguir.

1 - No Linux

Se você usa Ubuntu ou Debian, instale no seu o pacote OpenSSH usando o apt-get:

~$ sudo apt-get install openssh-client

Se usa outra distribuição instale esse pacote da forma padrão (pacotes rpm, deb ou mesmo através do código fonte). Procure os pacotes adequados na internet.

Com o pacote instalado use o seguinte comando:

~$ SSH usuario@servidor -D porta:servidor

Onde: usuario é seu nome de usuário, servidor é o endereço do servidor e porta é uma porta local que não esteja sendo usada para outro fim. Escolha por exemplo a porta 3000. No meu caso fica:

~$ SSH rspacals@fig.if.usp.br -D 3000:fig.if.usp.br

O que este comando faz? Ele usa o protocolo SSH para criar um túnel que manda todos os pacotes que chegarem na porta TCP do servidor para a porta 3000 do seu computador. Dessa forma você pode agora usar o endereço localhost:3000 como um proxy para acessar a internet.

Agora abra o firefox e clique em Edit/Preferences (editar/preferências) vá na tab Advanced/Network (avançado/rede) e clique em Settings (configurações). Marque a caixa Mannual Proxy Configuration.

Adicione o endereço localhost e a porta 3000 nos campos FTP Proxy e SOCKS Host e clique em Ok.

Pronto!!! Agora você pode acessar qualquer site de revistas científicas que a USP tenha acesso através do seu firefox.

Lembre-se: DEPOIS DE TERMINAR DE USAR O SERVIÇO, VOLTE AS CONFIGURAÇÕES DO FIREFOX AO NORMAL. É só ir em Edit/Preferences/Advanced/Network e marcar Direct Connection to the Internet ou então colocar o seu proxy anterior.

2 - No Windows

Se você está no windows e precisa fazer a mesma coisa, não se desespere. Há dois caminhos:

- Instale o Cygwin (www.cygwin.com) e repita os passos acima (mais complicado)

- Baixe o PuTTy (http://www.chiark.greenend.org.uk/~sgtatham/putty/download.html).

Na janela Session adicione o endereço do seu servidor no campo Host Name.

Na árvore Connection, clique em SSH e depois em Tunnels. Em destination escreva o endereço do servidor e em Source Port escolha um número de porta (por ex. 3000). Marque a caixa Dynamic e clique em Add.

Volte à janela Session. No campo Saved Sessions escolha um nome para a sua conexão para não ter que fazer isso toda vez. Por exemplo digite SSHTUNEL e clique em Save.

Sempre que precisar usar esse serviço, clique no nome que você escolheu para a conexão e cliqeu em Load. Depois clique em Open. Digite seu nome de usuário e senha.

Configure o Firefox para usar o endereço localhost:3000 como proxy: leia acima como fazer. Note que no Windows as configurações de internet do Firefox ficam no menu Ferramentas e não no menu Editar.

Seja feliz!!!

 

Como acessar remotamente o seu desktop

O Ubuntu vem com um servidor de desktop remoto chamado Vino embutido. É fácil usá-lo.

Para liberar o acesso remoto ao seu desktop clique em Sistema/Preferências/Área de Trabalho Remota. Clique em Permitir que outros acessem a sua Área de Trabalho deixe marcado Permitir que outros controlem a sua Área de Trabalho. DESMARQUE a caixa Pedir Confirmação e MARQUE Exigir senha para acesso e escolha uma senha.

Nessa mesma janela veja o comando que está escrito abaixo de: Usuários podem ver seu desktop com o comando. No meu caso agora é:

vncviewer Cocada:0

Clique eu ok e deixe seu computador logado.

Quando estiver no seu computador remoto e quiser acessar o seu computador de trabalho simplesmente digite:

vncviewer endereço:x

Onde endereço é o IP do computador de trabalho e x é o número escrito acima depois do ':'.

Deve-se abrir uma janela com o desktop do seu computador remoto imediatamente na sua tela.

:D:D:D:D

O número que eu indiquei acima como x é uma indicação da porta em que o servidor Vino está enviando os pacotes para o acesso remoto. Se x=0 é a porta 5900, se x=1 é a porta 5901, etc...

Só há um problema com essa abordagem: a conexão do vnc feita dessa forma é INSEGURA. Qualquer pessoa na internet pode, se quiser, ter acesso aos pacotes que estão sendo transferidos. Além disso, se o seu computador de trabalho estiver debaixo de um firewall rigoroso ou não tiver um IP real na internet (estiver em uma NAT), isso não vai funcionar.

Mas lembre-se do SSH! O SSH é um protocolo encriptado de transmissão de pacotes e eu posso fazer túnels!

Vamos considerar dois casos:

1 - tenho acesso direto de SSH até o meu computador de trabalho e apenas quero tornar a conexão segura

O primeiro passo é criar um túnel que passe os pacotes da porta vnc do seu computador de trabalho até a porta vnc do seu computador remoto. Acima nós fizemos um port forwarding dinâmico. Para fazer o que estamos querendo agora vamos ter de fazer um port forwarding estático:

~$ ssh usuario@servidor -L 590x:servidor:590x

Onde usuario é o seu nome de usuário, servidor é o endereço do seu servidor e, finalmente x é o número que aparece lá em cima na configuração do acesso remoto. Se o comando indicado for vncviewer nome:0, você usará a porta 5900. Caso seja vncviewer nome:1, usará a porta 5901, e assim por diante.

Agora abra o vncviewer:

~$ vncviewer localhost:x

Onde x é o mesmo número acima.

Pronto!

2 - meu computador de trabalho está sob uma NAT ou está sob um firewall muito restritivo

Para fazer essa configuração agora você deve ser capaz de acessar um computador na mesma rede em que o seu e que seja capaz de enxergar diretamente o seu computador. No meu caso por exemplo eu posso acessar o servidor FIG na mesma rede onde está o meu computador de trabalho.

Agora vamos ter de criar um túnel até uma máquina intermediária que passe para o seu computador atual uma porta do seu computador remoto. Vamos lá:

~$ ssh usuario@intermediario -L 590x:computadordetrabalho:590x

usuario é o seu nome de usuário NO COMPUTADOR INTERMEDIÁRIO

intermediario é o endereço do computador intermediário

computadordetrabalho é o endereço do seu computador de trabalho na rede interna do seu trabalho.

x é o número que indica a porta adequada (0, 1, ...).

No meu caso esse comando fica:

~$ ssh rspacals@fig.if.usp.br -L 5900:cocada:5900

Agora abra o vncviewer:

vncviewer localhost:x

Pronto! Seja feliz.

No Windows você pode fazer a mesma coisa usando o PuTTy e o TightVNC.



Eleições americanas

7 de Janeiro de 2008, por Desconhecido - 55 comentários

Durante esses dias os partidos americanos realizam suas convenções para decidir quais serão seus candidatos à presidência dos EUA. E claro que esse é um assunto que nos interessa!!! A economia americana nos interessa, a política externa americana nos interessa, os subsídios agrícolas nos interessam, etc, etc...

Um primeiro ponto sobre as eleições americanas, um ponto importante, que as tornam mais limpas, transparentes e bem mais sérias que as nossas (apesar de eventuais problemas técnicos, como o vexame dos problemas nas eleições de 2000): como a escolha dos candidatos é pública, transparente e com a participação direta dos filiados aos partidos e fiscalização cerrada. As primárias são uma eleição dentro da eleição e são conduzidas com extremo rigor. Não é um acordo entre os caciques do partido.

Nem vale a pena citar outro ponto importantíssimo que é o financiamento das campanhas. Seria humilhante demais para nós pensar nisso.

Vamos ao que eu queria ao escrever esse texto: falar dos candidatos. Em primeiro lugar, falemos do rei do baile, o cara que está comandando o show neste momento, Barack Hussein Obama, candidato pelo partido democrata. Um nome que impressiona logo à primeira vista, por sua ascendência árabe - seu pai era um estudante queniano da Universidade do Hawaii, Barack Hussein Obama Sr. Senador pelo estado do Illinois, atualmente o único senador negro em serviço e o quinto senador negro da história dos EUA.

Obama impressionou por bem mais do que seu nome. Partiu de senador quase desconhecido a candidato mais forte à sucessão em pouco tempo, com uma plataforma fortemente liberal: fim imediato das ações no Iraque, grande extensão do programa de saúde pública, redução de 80% da emissão de gases estufa até 2050, entre outras propostas.

Minhas impressões pessoais. Seria excelente ter um presidente negro nos EUA, que defendesse tão amplamente a retirada de tropas do Iraque e um programa de redução consistente da poluição industrial. Obama parece ser um homem sensato, com opiniões muito humanas sobre os aspectos sociais, e seria um bom ar fresco progressista depois de oito anos de conservadorismo cristão.

Entretanto (inevitavel um severo 'mas' depois de uma série de elogios), ele representa, na minha opinião, um considerável risco econômico. George Bush e uma onda de insanidade fiscal no legislativo americano resultaram em um crescimento acentuado da dívida pública do governo americano - com cortes de imposto fora de hora, relaxamento total das regras orçamentárias rígidas da era Clinton e aumento explosivo de gastos com as guerras e programas de segurança. Obama é um democrata liberal, de uma ala com grande propensão a gastos públicos exagerados e incontidos. Além disso ele inclui entre suas propostas a ampliação de um sistema de saúde pública que já é deficitário e problemático.

A segunda candidata democrata de maior expressão é a esposa do presidente Clinton, Hillary. Hillary é também defensora de uma plataforma liberal, natural que seja assim depois de 8 anos de conservadorismo cristão, e amparada por um distinto trabalho no senado. Sua plataforma é uma versão ligeiramente mais contida que a de Obama. Novamente, seria excelente ter a primeira presidente mulher nos EUA. Por outro lado Hillary Clinton carrega também consigo alguns dos riscos associados a Obama.

Nada se pode saber, entretanto. O marido de Hillary era um democrata que ganhou com uma plataforma de corte de impostos para a classe média e acabou realizando uma austera política fiscal, contendo gastos, instituindo mecanismos de controle orçamentário rigorosos e controlando o deficit público que herdou dos governos Reagan e Bush (pai).

Os outros candidatos democratas com alguma chance são Chris Dodd, John Edwards e Bill Richardson, de quem eu não posso afirmar nada. :P Não os conheço. Mas não me parecem ser muito diferentes do padrão liberal democrata.

Agora ao G.O.P. . Os candidatos republicanos mais expressivos são Rudolph Giulliani, ex-prefeito de Nova Iorque, o religioso conservador Mike Huckabee, o veterano, do Vietnam e do senado, John McCain e o ex-governador de Massachussets, Mitt Romney.

Rudy Giulliani me decepcionou com sua plataforma de governo. Especialmente por defender cortes de impostos num momento em que austeridade fiscal seria o mais sensato. Ele também defende a manutenção das tropas no Iraque, tem uma política autodestrutiva com relação aos imigrantes ilegais. É razoavelmente liberal em assuntos como aborto e união civil homossexual, o que é um ponto positivo. Também é sensível à questões ambientais e é a favor de uma solução menos paternalista para o problema da saúde pública nos EUA e propõe soluções em conjunto com o mercado privado, o que é um ponto muito positivo.

John McCain é um político veterano e experiente. É da ala do partido republicano que clama pelo controle dos gastos. Participou de muitas comissões bipartidárias e é a favor de uma relação mais sensata e menos beligerante entre os partidos, coisa rara hoje em dia por lá. É bem conservador quanto a algumas questões sociais como aborto e é a favor da continuidade das operações militares no Iraque. Um ponto interessante é que McCain foi um dos idealizadores do projeto defendido por muitos democratas de concessão de cidadania aos imigrantes ilegais que se dispusessem a aprender inglês e pagar uma multa. Também defende vistos de trabalho temporário para resolver essa questão espinhosa.

Sobre Huckabee, tenho pouco a dizer. Em essência eu diria que o mundo não suportaria mais um conservador cristão de visão curta no governo dos EUA.

Li pouco sobre Romley. Defende controle nos gastos, mas quer reduzir impostos. Mudou ao longo do tempo sua posição sobre o direito ao aborto, de a favor para contra (talvez para conquistar a ala mais conservadora do partido).

Enfim. Seu eu fosse americano e tivesse que escolher, estaria em dúvida entre Obama, Hillary e McCain. Como não sou, não me esforço muito em tentar adivinhar qual dos três é o ideal, mas ficaria satisfeito com a eleição de um deles.

Nenhum deles é o exato oposto da irresponsabilidade economica e conservadorismo social de Bush (filho). Depois de oito anos de gastos descontrolados e déficit, seria bom ter um bom republicano conservador responsável para consertar o estrago. Ao mesmo tempo, depois de oito anos de um conservadorismo social que ignora as questões relativas aos latinos e que atua de forma destrutiva com relação ao meio ambiente, seria excelente uma brisa de progressismo.

Talvez tenhamos que esperar as próximas eleições para ver nascer um bom candidato centrista, economicamente responsável e progressista nas questões sociais.