Perplexidade continua

9 de Junho de 2009, por Desconhecido - 77 comentários

Eu ainda estou perplexo com o que houve ontem. Sabe, eu descrevi aqui minha inquietação e acho que até me interpretaram de uma forma equivocada, como se eu fosse a favor de ver a polícia espancando todo mundo.

Mas não é isso. O que me deixa perplexo é a forma como deixamos o recrudescimento do caos aqui dentro provocar uma reação tão violenta. Como deixamos o mundo da fantasia crescer aqui a ponto do encontro com a realidade ser tão chocante. 

Sim! Foi uma reação provocada! Não foi uma repressão gratuita. Mas que reação! Sim, é uma reação legítima da lei sobre a desordem. Mas que reação!

 Será que era necessário deixar chegar a esse ponto? Será que era inevitável? Claro que ontem, quando os manifestantes decidiram fazer o trancaço, sabendo que a polícia estava lá esperando, já era inevitável. Eu previa isso desde semana passada quando o trancaço foi anunciado. 

Mas será que se voltássemos anos atrás e ficássemos menos maravilhados por ver uma mulher reitora  - uma péssima representante do seu gênero - e enxergássemos que ela era inapta para o trabalho, isso não poderia ser evitado? Dentre tantas mulheres! Tantas reitoras possíveis!

A reitoria da USP age faz anos com total inaptidão ao tentar negociar com os grevistas. Suas atitudes  legitimam os radicais, permitem a baderna de acontecer e enquanto ela foge para a Europa no início da greve, os radicais fazem barricadas. 

A reitoria reclama que não fica sabendo dessas atividades. Claro que não! Eles vivem em outro mundo. Afinal, se administram a universidade e não sabem o  que acontece por aqui em boa coisa isso não poderia acabar. 

Se tivessemos outra reitoria mais competente, essa barbárie não precisaria acontecer hoje. A coisa teria sido manejada quando era manejável, anos atrás. Antes da invasão da reitoria. Antes dos outros diversos trancaços que houveram anos atrás.

 

 



E a resposta da irracionalidade...

8 de Junho de 2009, por Desconhecido - 2020 comentários

Depois da comemoração que eu postei mais cedo, agora algo lamentável. Hoje a USP se tornou o palco da irracionalidade. A manada falou mais alto de novo. A lei e a ordem um dia tinham que chegar na universidade e entrar em choque com o mundo da fantasia lá de dentro. A realidade bateu à porta de forma violenta, mas a violência foi provocada.

Quem acompanha de longe pode querer comparar o que aconteceu hoje com os acontecimentos de 1968. Mas o conflito entre a polícia e os manifestantes hoje no campus da Cidade Universitária não é da mesma natureza do que aconteceu 40 anos atrás. Hoje a lógica se inverte - os totalitários estão dentro da Universidade e quem está em busca de defender a constituição e a democracia são os policiais que vieram para cumprir uma ordem judicial.

Quem acompanha de perto vê barricadas, cerceamento da liberdade, patrulhamento ideológico que chega até o limite da agressão física e de ameaças de sequestro. É preciso ir bem perto para ver como uma parte podre desse movimento grevista age de forma mafiosa e criminosa. Eu tenho amigos que sofreram ameaças de morte por protestarem contra os piquetes. Uma garota foi agredida na História por querer passar pelas barricadas e usar as salas de aula.

Ninguém queria ver esse tipo de coisa dentro do campus. O recurso à ilegalidade por parte desse pessoal é de longa data: fechamento de portões, barricadas, violência e destruição do patrimônio público, invasões de prédios, são coisas que já fazem parte do cotidiano da USP já faz muito tempo. A ação pela recuperação da legalidade foi muito protelada, por medo de que a sociedade interpretasse mal imagino.

É preciso que as pessoas entendam: o que houve na USP não foi repressão a um movimento legítimo, foi a ação da polícia contra pessoas que estavam cometendo um crime.

Parte das pessoas que participam do movimento de greve não entendem o que está acontecendo e não vêem a ilegalidade dos atos. Infelizmente o aprendizado teve que vir dessa forma.

A quem tinha esperanças de que as coisas se resolvessem de forma racional e que os estudantes que desejam negociar sobre problemas na universidade o fizessem de forma racional, ordeira e dentro da lei, resta lamentar o que houve.

Certamente os radicais vão usar a ação da PM para tentar legitimar seu movimento. Pode ser que recrudesçam no caos e na violência. Eu espero que não, porque se o fizerem a polícia certamente vai voltar.

Eu espero poder caminhar na USP sem ser ameaçado pelos radicais. Espero poder entrar na minha sala e trabalhar tranquilo. E espero não ter que ver as cenas de hoje novamente. Mas, para ser sincero, não tenho mais tanta esperança nisso.
 
 



Um (pequeno) triunfo da racionalidade

8 de Junho de 2009, por Desconhecido - 88 comentários

Até a manhã de ontem o prédio dos cursos de Geografia e História da FFLCH/USP estavam fechados por barricadas. Barricadas construídas por parte dos alunos com as próprias cadeiras e mesas para impedir o acesso de outra parte dos alunos às salas de aula. Barricadas formidáveis. Algumas tão altas quanto o teto dos corredores, com um intrincado arranjo de ferragens das cadeiras que parecia impossível de ser desmontado sem danificar as mesmas.

Para os alunos que as ergueram as barricadas são simbolos da luta pela mudança. Não são. São um simbolo eloquente da permanência e da perpetuidade de uma luta artificial entre classes que foram criadas por eles mesmos. São simbolos também de não-diálogo, de não-respeito às necessidades e liberdades de outros e da intolerância com a não adesão ao seu movimento. Símbolo ainda de que essa adesão não é decidida pelo indivíduo livre e racional mas pela força mais irracional e violenta que existe: a multidão. A manada. E quem não estoura com a manada é pisoteado.

Saindo um pouco do domínio dos símbolos e retornando ao mundano, as barricadas desrespeitam ainda algo muito mais prático: as leis da sociedade brasileira. E não qualquer lei mas a lei mais fundamental: a Constituição Federal do Brasil. Desrespeita a garantia constitucional de que ninguém deverá ser obrigado a fazer ou deixar de fazer qualquer coisa a não ser por força de lei. Nem pelo estado, muito menos por particulares.

Particulares decidem que a ninguém deverá ser permitido usar as salas e constróem barricadas para impedir isso, não sendo esses particulares proprietários do prédio nem administradores com autorização de seus proprietários. Quando questionados a resposta é apenas uma: ''foi deliberado em assembléia''. E veja: esse mantra é repetido mesmo por aqueles que em assembléia votaram contra as barricadas. As assembléias de uma associação de particulares, de alguma forma, adquirem precedência sobre as leis e sobre os direitos constitucionais de pessoas que nunca declararam sua filiação a essas associações. E lá se vai mais um direito constitucional: o de não ser compelido a associar-se ou permanecer associado a nenhuma associação particular.

Nem todos estão dispostos a se sujeitar a essas ações arbitrárias de terceiros entretanto. Um grupo de alunos daquele prédio, com o auxílio de estudantes de outras unidades - auxílio esse que solicitaram após sofrer agressões em outras tentativas, conseguiram ontem desmontar as barricadas e devolver às salas de aula daquele prédio o objetivo para os quais elas foram construídas. Conseguiram trazer de novo a racionalidade e expurgar a manada.

Ninguém questiona o direito inalienável à mobilização para fins legais, à greve e ao protesto. Muito menos se questiona o fato de que a universidade tem problemas que devem ser endereçados pelos alunos em suas discussões. O que se questiona é o uso da irracionalidade, da ilegalidade, da lógica de manada e do caos como ferramentas para mobilização. Esses atos, antes de ajudar a resolver o problema, apenas os agrava.

É provável que as barricadas sejam reconstruídas e que essa pequena vitória seja apenas temporária. Mas também é provável que após o exemplo desses alunos da História e da Geografia muitos mais se levantem e essa seja uma vitória perene de uma forma diferente de mobilização para resolver os problemas da universidade: a mobilização estritamente legal estimulada pelo raciocínio livre do indivíduo sobre os problemas que deseja resolver.



Paranóia e ilusão auditiva - um estudo de caso

5 de Junho de 2009, por Desconhecido - 33 comentários

Em um texto do C.A. da FFLCH, um autor chamado Antônio cria uma grande celeuma a respeito de uma declaração supostamente facista de um jornalista do SBT, José Nêumanne Pinto.

No dia 04/06 desse ano o jornalista fez um breve comentário sobre a greve na USP no Jornal do SBT. Segundo o blog do C.A. da FFLCH ele teria dito:

O Jornalista José Nêumanne Pinto (...) afirmou em seu editorial na televisão chamado "Direto ao Assunto", que "essa gente deveria levar tiro" da polícia, referindo-se aos funcionários grevistas da USP, apoiados por estudantes e professores

(texto retirado do blog http://www.fflch.usp.br/df/caf/blog/antonio/vejam-exemplo-de-fascismo-no-jornalismo-brasileiro )

Quem em sã consciência apoiaria o jornalista tivesse ele dito tal absurdo? Eu mesmo fiquei assustado quando ouvi falar disso. Achei um exagero ridículo, uma declaração mais do que infeliz. Até assistir no youtube o vídeo original:

http://www.youtube.com/watch?v=xFBfr-8UobU

No vídeo se ouve perfeitamente:

 Essa gente devia tomar tino, você não acha?

Tomar tino, para quem não teve avó, significa tomar juízo, tomar tento. 

Poxa... isso me levou a especular sobre o que leva alguém a entender tiro ao invés de tino. Acho que isso tem muito da paranóia típica desses caras - a tensão é tanta na cabeça deles que até ouvem as coisas errado.

 



USP em greve. Será?

5 de Junho de 2009, por Desconhecido - 3131 comentários

Desde o fim dessa semana alunos e professores da USP estão em greve em apoio aos funcionários. Isso significa que em torno de 50 mil alunos de graduação, 20 mil alunos de pós-graduação e 5 mil docentes estão parados, não frequentam suas atividades e estão protestando, junto com os 15 mil funcionários que estão em greve já faz um tempo. 

Pelo menos é isso que o DCE, a ADUSP e o Sintusp querem fazer a sociedade acreditar com seus comunicados, panfletos e declarações à imprensa.

Bem. Vejamos. Ontem eu, aluno de pós-graduação do Instituto de Física, passei o dia todo na USP trabalhando, junto com praticamente todos os meus colegas do mesmo departamento. A biblioteca da Física estava aberta e operando normalmente, com todos os seus funcionários devidamente lá dentro trabalhando. As secretárias do IF todas trabalhando. A seção acadêmica também. Os alunos de graduação passavam de um lado ao outro com seu barulho habitual, e enchiam salas de aula para estudar e fazer provas. Todos os professores estavam nas suas salas ou dando aula, fazendo o seu trabalho de sempre. 

Pelo menos do Instituto de Física a greve tão noticiada por DCE, Adusp e e  Sintusp está bem longe.

Por curiosidade, acho bom que os repórteres tentem dar uma voltinha no campus. Poli, FEA,FAU, Química, ... todas as unidades parecem funcionar como sempre, sem interrupções. 

Até alguns alunos da ECA e da Letras me disseram que assistiram aula normalmente !! Cursos que, segundo o DCE, estavam totalmente parados. 

Parece que esse pessoal tá sem moral...