O que houve de verdade nas manifestações

10 de Junho de 2009, por Desconhecido - 1212 comentários

Meu ponto final sobre esse assunto. Como prometi antes, não vou mais falar nada sobre o assunto porque esgotei todas as coisas que eu poderia falar e detesto ser repetitivo.

Como eu não estava presente, vou trazer (com autorização do autor) o relato curto nas palavras mas com muitas imagens eloquentes, de um aluno qu estava na manifestação, viu de perto e filmou o que aconteceu na ação da polícia.

Só vou fazer um comentário curto sobre um dos vídeos: se eu fosse um policial encurralado contra um muro por centenas de pessoas gritando ''Fora PM'' , tendo apenas 4 colegas, sem escudo, sem capacete e sem armamento letal, temeria pela minha vida. Como eu poderia saber que ninguém ali está armado? Mesmo que somente com pedras uma multidão dessas destroça 5 pessoas em poucos segundos. 

A parte esse meu comentário, tirem suas próprias conclusões.Segue o relato do Israel Felix, que transcrevo do orkut com autorização dele. 

Entenda o que aconteceu na manifestação
(por Israel Felix)

Meu relato:

Por volta das 14:30 estava no ônibus em direção ao P1, ao chegar lá a PM já havia bloqueado o acesso dos veículos, isso para garantir o direito a manifestação, então eu pensei. PUTZ fudeu vou pegar mol transito então foda-se. Desci do busão e fui acompanhar a manifestação com minha câmera da verdade rsrsrs

A PM estava na esquina da av. Alvarenga aguardando os manifestantes.
 
Foto 1 - Israel
(clique no link para ver a foto no tamanho original)



Chegando lá, não contente em fechar o P1 fecharam a av. Alvarenga
 
Foto 2 - Relato Israel
(clique no link para ver a foto no tamanho original)

Reparem na pequena quantidade de manifestantes no meio da av., o restante deles não estava preocupado em fechar a av e sim em ficar gritando na frente dos PMs que estavam na esquina.
 
Foto 3 - Relato Israel
(clique no link para ver a foto em tamanho original)
 
A PM não estava fazendo nada e até tolerou atitudes excessiva como essa:

Foto 4 - Relato Israel
(clique no link para ver foto em tamanho original)
 
Depois de mais de 2h de interrupção do transito os funcionários e alguns estudantes resolveram voltar para a reitoria. Mas alguns alunos ainda ficaram lá na av. Após uns 5mim decidiram voltar pra reitoria tb. Quando estavam voltando decidiram encurrlarar 5 PMs que estavam em frente a creche, ao lado da FE, (naquele museu que não sei o nome) assim:
 
 (N. do E.: esse é o vídeo a que me refiro no início do post)
 
então obviamente eles chamaram reforços e então... continuação do vídeo acima:
 

Daí pra frente só foi bomba e bala de borracha pra todo lado até chegar na reitoria, cortei o vídeo pq tava muito grande 200mb , mas depois eu tento postar inteiro

 

 

 



Quem trouxe a violência à USP?

10 de Junho de 2009, por Desconhecido - 4949 comentários

Vou ser obrigado a quebrar a minha promessa de não falar mais no assunto. Vou fazer isso porque há um fato novo interessante que, creio eu, não deixa dúvida alguma sobre a pergunta acima - quem trouxe a violência à USP? Quem trouxe a violência não foi a polícia. Essa foi chamada para coibir a violência que já estava instalada. A violência de que fui informado ultrapassa em muito a violência verbal que todo vocês já conheciam. É terrorismo. Ameaça à integridade física. 

O texto que vou postar a seguir foi escrito por alunos da Letras que preferem permanecer anônimos porque têm medo. Eles têm medo do que podem fazer os próprios colegas. E têm razão para isso. Se você quer saber porque têm razão, leia o texto. É grande, mas deve ser lido.

 

Manifesto dos alunos em repúdio ao incidente  envolvendo a turma do período noturno da disciplina FLM0305 Introdução à Tradução do Alemão I no dia 09.06.2009

                                                             São Paulo, 11 de Junho de 2009.

        Este último dia 09 foi um dia triste na história da Universidade de São Paulo. Presentes ou não, todos nós da comunidade USP vimos o poder da força tomando o lugar o poder das palavras: o diálogo foi negado a favor da violência.


        O diálogo, entretanto, manteve-se presente na disciplina FLM0305 Introdução à Tradução do Alemão I durante todo o curso. A viabilidade para realização da prova no dia 09.06, marcada anteriormente ao estabelecimento da greve, e a própria disposição ou não dos alunos em a realizarem também estiveram inclusas em nossos diálogos por meio do fórum de discussões do sistema Moodle (http://moodle.stoa.usp.br). Várias possibilidades foram abordadas e a decisão final foi: quem quisesse ir fazer a prova, que fosse, e quem não quisesse ir ou tivesse o acesso impedido faria uma prova alternativavia Moodle em data ainda a ser definida. A escolha ficou a critério dos alunos, que de maneira alguma seriam prejudicados pelo não-comparecimento. Segundo consta no Júpiterweb há 24 estudantes matriculados nessa matéria no período noturno – 12 alunos compareceram para a prova.


        Próximo ao término da prova, por volta das 20:44 horas, nós, estudantes, de dentro da sala, ouvimos alguém gritar “Hitler!” três vezes. Apesar de que pelo bom-senso ou conhecimento de mundo mínimo parecer desnecessário relatar tal atitude como ofensiva, parece-nos melhor esclarecer que a alusão a um dos maiores genocidas da história da humanidade para uma turma que por vontade própria está realizando uma prova é, para dizer pouco, repugnante. Mas, ainda, falar isso para uma turma de Alemão é de um generalismo absurdo, ignorante e inaceitável. Os estudantes de Letras poderiam lembrar-se (ou conhecer) as palavras do poeta judeu de língua alemã nascido em Czernowitz, que teve os pais mortos pelo regime nazista e foi submetido a trabalhos forçados no campo de concentração: “A língua permanece intacta, sim, apesar de tudo” (adaptação do original).


        Pouco tempo após isso, diversos estudantes abriram a porta para “falar sobre o que havia ocorrido na universidade”. Não foi uma tentativa de dialogar ou argumentar sobre a legitimidade de nossa presença em sala: foi uma série de insultos, baderna e julgamentos de caráter. Os alunos da sala se manifestaram dizendo que estavam lá porque queriam e que aqueles que não estavam presentes, ao contrário do que se gritava (afirmando que estávamos lá “sob coerção de nota”), não sairiam no prejuízo. Cada umcomo indivíduo pensante, como adultos que somos, estávamos lá exercendo aquele  direito que a nossa sociedade ocidental tem como supremo: o direito de livre-arbítrio. Não seria esse o momento dos alunos que se dizem “a favor da democracia” respeitarem o direito de seus semelhantes? O fracasso do diálogo fez com que alguns alunos do Alemão tentassem fechar a porta: medida irrealizável e tomada à flor das emoções.


         Por fim, o que puderam fazer doze alunos quando cerca de cem, mais ou menos, alunos histéricos (fazendo uso aqui da acepção proposta no Dicionário Houaiss “comportamento caracterizado por excessiva emotividade ou por um terror, pânico”) os obrigam, por meio de intimidação verbal e gritaria, a deixarem a sala de aula? – Sair.


         Assim, saímos. Cinco alunos acompanharam a professora até a sala dela para discutir o que tinha acabado de acontecer e também porque temiam maiores retaliações direcionadas à professora. Ao perceberem isso, os estudantes chegaram a mais uma conclusão infundada: os alunos estariam indo para terminar a prova, “bando de puxa-sacos”. Eles vieram atrás desses alunos e da professora, que, temendo pela integridade física dos mesmos, trancou a porta de sua sala. Nisso, os estudantes começaram a bater com excessiva força na porta, como que tentando derrubá-la, e desligaram a luz do andar inteiro. Sentimento dos que estavam lá dentro? Perplexidade. Vinte ou trinta minutos depois os estudantes foram se dispersando e os vigilantes do prédio apareceram para ligar a luz e acompanhar os que estavam dentro da sala até a saída do prédio. Os alunos e a professora saíram, então, chocados, assustados, tristes.


         Foi dada como justificativa da ação a alegação de uma suposta aluna do Alemão ter sido agredida (levado um tapa na cara) pela professora. Isso é uma mentira e uma calúnia. Quem era do Alemão, repetimos, estava lá porque queria: teve direito de escolha. O fato dos estudantes terem reagido sem o menor conhecimento de causa, sem tentar averiguar o ocorrido só mostra como uma inverdade é capaz de manipular muita gente.


         O que fica dessa história toda? Repúdio. Repúdio pela ação autoritária, agressiva e ofensiva dos estudantes com a turma de FLM0305 Introdução à Tradução do Alemão I. Repúdio por no prédio de Letras da “maior universidade do Brasil” o diálogo não ter sido estabelecido, pelo valor da palavra como solucionadora de conflitos não ter sido aceito. E ainda: repúdio pela não-superação dos métodos autoritários e repressores por parte dos estudantes, que, alegando serem esses os métodos da PM, foram, neste caso, os próprios propagadores da irracionalidade e do desrespeito ao indivíduo. Tivesse vindo uma abordagem dessas de um grupo que se reconhece intransigente, seria outra coisa. Mas vindo de pessoas que dizem defender a democracia, o diálogo e, não obstante, os estudantes, é simplesmente inaceitável.


        Os argumentos de que houve uma assembléia para votação da greve e que a maioria votou pelo “sim” não convencem. Assembléia em que algumas centenas de estudantes comparecem para um curso que tem mais de cinco mil estudantes não é representativa. Procuremos outros meios, usemos a tecnologia a nosso favor, há formas de incluir aqueles que não têm disponibilidade de estarem presentes em todas as assembléias. Mas não declarem o favoritismo a uma greve por contraste. E não nos obriguem a aceitar isso.


        Nós sabemos que ao optar por fazer a prova estávamos, inevitavelmente, nos posicionando contra esta greve, mas não tínhamos sido avisados que a mobilização em favor de uma determinada ideologia é compulsória. Preferimos acreditar na autonomia da escolha do indivíduo. Nós lamentamos a truculência da polícia com os estudantes e nosposicionamos, também, contra isso. Porém, não admitimos que o nosso direito de escolha  seja desrespeitado. Quando se tira o direito de escolha de alguém, tira-se sua alma. E não aceitamos que ninguém, nem mesmo os estudantes da Universidade de São Paulo, faça isso conosco.       

Este manifesto foi organizado e apoiado por parte dos alunos da disciplina em questão. Todos os alunos matriculados na matéria foram informados via e-mail sobre feitura do manifesto e receberam previamente uma cópia do mesmo. Nenhum aluno, até momento, se posicionou contrário à publicação desse texto.       

Sem mais,
        Alunos da disciplina Introdução à Tradução do Alemão I
        Letras – FFLCH/USP
        (Reiteramos que nem todos os alunos matriculados na disciplina quiseram comentar o caso. Dessa forma, não podemos afirmar que todos os alunos estão de acordo com este manifesto. Aqueles que estão de acordo optaram pela anonímia por temerem maiores retaliações.)

 

 Me desculpem que eu comente ainda depois desse longo texto, mas não consigo me segurar. O que está descrito aí não é manifestação, não é mobilização estudantil, não é luta por direitos de uma classe qualquer. É terrorismo. É cárcere privado. É violência. São fatos que devem ser descritos em uma investigação criminal, não em um relato de manifestações estudantis. Os que participaram dessa violência contra os alunos dessa disciplina são covardes da pior espécie. São criminosos, não são estudantes.

Foram esses radicais, esses criminosos, que trouxeram a violência para dentro da USP. É por culpa da ação deles que somos obrigados a assistir cenas de guerra. É exatamente guerra que esses radicais procuraram - e conseguiram - para dar legitimidade falsa à essas ações deles. 

O mais terrível é saber que a eles nada aconteceu. Eu sinceramente estou empenhado em tentar convencer as pessoas que sofreram essa violência a dar início a um processo criminal contra esses terroristas covardes. Eu não consigo imaginar outra forma de lidar com isso. A administração da Universidade precisa saber que isso aconteceu, a polícia precisa saber que isso aconteceu e o Ministério Público do Estado de São Paulo precisa investigar e indiciar esses malucos covardes. 

Eu espero, sinceramente, que algum desses caras apareçam aqui para comentar e tentem se justificar. Porque no meu cérebro pequeno eu não consigo imaginar justificativa nenhuma para essa barbárie!! 

 (edit)Estou disponibilizando o PDF do texto original que está sendo divulgado. Imprimam e espalhem em suas unidades. Mostrem ao pessoal que tipo de gente está fazendo isso:

Manifesto de Estudantes contra Violência sofrida na Letras



Perplexidade continua

9 de Junho de 2009, por Desconhecido - 77 comentários

Eu ainda estou perplexo com o que houve ontem. Sabe, eu descrevi aqui minha inquietação e acho que até me interpretaram de uma forma equivocada, como se eu fosse a favor de ver a polícia espancando todo mundo.

Mas não é isso. O que me deixa perplexo é a forma como deixamos o recrudescimento do caos aqui dentro provocar uma reação tão violenta. Como deixamos o mundo da fantasia crescer aqui a ponto do encontro com a realidade ser tão chocante. 

Sim! Foi uma reação provocada! Não foi uma repressão gratuita. Mas que reação! Sim, é uma reação legítima da lei sobre a desordem. Mas que reação!

 Será que era necessário deixar chegar a esse ponto? Será que era inevitável? Claro que ontem, quando os manifestantes decidiram fazer o trancaço, sabendo que a polícia estava lá esperando, já era inevitável. Eu previa isso desde semana passada quando o trancaço foi anunciado. 

Mas será que se voltássemos anos atrás e ficássemos menos maravilhados por ver uma mulher reitora  - uma péssima representante do seu gênero - e enxergássemos que ela era inapta para o trabalho, isso não poderia ser evitado? Dentre tantas mulheres! Tantas reitoras possíveis!

A reitoria da USP age faz anos com total inaptidão ao tentar negociar com os grevistas. Suas atitudes  legitimam os radicais, permitem a baderna de acontecer e enquanto ela foge para a Europa no início da greve, os radicais fazem barricadas. 

A reitoria reclama que não fica sabendo dessas atividades. Claro que não! Eles vivem em outro mundo. Afinal, se administram a universidade e não sabem o  que acontece por aqui em boa coisa isso não poderia acabar. 

Se tivessemos outra reitoria mais competente, essa barbárie não precisaria acontecer hoje. A coisa teria sido manejada quando era manejável, anos atrás. Antes da invasão da reitoria. Antes dos outros diversos trancaços que houveram anos atrás.

 

 



E a resposta da irracionalidade...

8 de Junho de 2009, por Desconhecido - 2020 comentários

Depois da comemoração que eu postei mais cedo, agora algo lamentável. Hoje a USP se tornou o palco da irracionalidade. A manada falou mais alto de novo. A lei e a ordem um dia tinham que chegar na universidade e entrar em choque com o mundo da fantasia lá de dentro. A realidade bateu à porta de forma violenta, mas a violência foi provocada.

Quem acompanha de longe pode querer comparar o que aconteceu hoje com os acontecimentos de 1968. Mas o conflito entre a polícia e os manifestantes hoje no campus da Cidade Universitária não é da mesma natureza do que aconteceu 40 anos atrás. Hoje a lógica se inverte - os totalitários estão dentro da Universidade e quem está em busca de defender a constituição e a democracia são os policiais que vieram para cumprir uma ordem judicial.

Quem acompanha de perto vê barricadas, cerceamento da liberdade, patrulhamento ideológico que chega até o limite da agressão física e de ameaças de sequestro. É preciso ir bem perto para ver como uma parte podre desse movimento grevista age de forma mafiosa e criminosa. Eu tenho amigos que sofreram ameaças de morte por protestarem contra os piquetes. Uma garota foi agredida na História por querer passar pelas barricadas e usar as salas de aula.

Ninguém queria ver esse tipo de coisa dentro do campus. O recurso à ilegalidade por parte desse pessoal é de longa data: fechamento de portões, barricadas, violência e destruição do patrimônio público, invasões de prédios, são coisas que já fazem parte do cotidiano da USP já faz muito tempo. A ação pela recuperação da legalidade foi muito protelada, por medo de que a sociedade interpretasse mal imagino.

É preciso que as pessoas entendam: o que houve na USP não foi repressão a um movimento legítimo, foi a ação da polícia contra pessoas que estavam cometendo um crime.

Parte das pessoas que participam do movimento de greve não entendem o que está acontecendo e não vêem a ilegalidade dos atos. Infelizmente o aprendizado teve que vir dessa forma.

A quem tinha esperanças de que as coisas se resolvessem de forma racional e que os estudantes que desejam negociar sobre problemas na universidade o fizessem de forma racional, ordeira e dentro da lei, resta lamentar o que houve.

Certamente os radicais vão usar a ação da PM para tentar legitimar seu movimento. Pode ser que recrudesçam no caos e na violência. Eu espero que não, porque se o fizerem a polícia certamente vai voltar.

Eu espero poder caminhar na USP sem ser ameaçado pelos radicais. Espero poder entrar na minha sala e trabalhar tranquilo. E espero não ter que ver as cenas de hoje novamente. Mas, para ser sincero, não tenho mais tanta esperança nisso.
 
 



Um (pequeno) triunfo da racionalidade

8 de Junho de 2009, por Desconhecido - 88 comentários

Até a manhã de ontem o prédio dos cursos de Geografia e História da FFLCH/USP estavam fechados por barricadas. Barricadas construídas por parte dos alunos com as próprias cadeiras e mesas para impedir o acesso de outra parte dos alunos às salas de aula. Barricadas formidáveis. Algumas tão altas quanto o teto dos corredores, com um intrincado arranjo de ferragens das cadeiras que parecia impossível de ser desmontado sem danificar as mesmas.

Para os alunos que as ergueram as barricadas são simbolos da luta pela mudança. Não são. São um simbolo eloquente da permanência e da perpetuidade de uma luta artificial entre classes que foram criadas por eles mesmos. São simbolos também de não-diálogo, de não-respeito às necessidades e liberdades de outros e da intolerância com a não adesão ao seu movimento. Símbolo ainda de que essa adesão não é decidida pelo indivíduo livre e racional mas pela força mais irracional e violenta que existe: a multidão. A manada. E quem não estoura com a manada é pisoteado.

Saindo um pouco do domínio dos símbolos e retornando ao mundano, as barricadas desrespeitam ainda algo muito mais prático: as leis da sociedade brasileira. E não qualquer lei mas a lei mais fundamental: a Constituição Federal do Brasil. Desrespeita a garantia constitucional de que ninguém deverá ser obrigado a fazer ou deixar de fazer qualquer coisa a não ser por força de lei. Nem pelo estado, muito menos por particulares.

Particulares decidem que a ninguém deverá ser permitido usar as salas e constróem barricadas para impedir isso, não sendo esses particulares proprietários do prédio nem administradores com autorização de seus proprietários. Quando questionados a resposta é apenas uma: ''foi deliberado em assembléia''. E veja: esse mantra é repetido mesmo por aqueles que em assembléia votaram contra as barricadas. As assembléias de uma associação de particulares, de alguma forma, adquirem precedência sobre as leis e sobre os direitos constitucionais de pessoas que nunca declararam sua filiação a essas associações. E lá se vai mais um direito constitucional: o de não ser compelido a associar-se ou permanecer associado a nenhuma associação particular.

Nem todos estão dispostos a se sujeitar a essas ações arbitrárias de terceiros entretanto. Um grupo de alunos daquele prédio, com o auxílio de estudantes de outras unidades - auxílio esse que solicitaram após sofrer agressões em outras tentativas, conseguiram ontem desmontar as barricadas e devolver às salas de aula daquele prédio o objetivo para os quais elas foram construídas. Conseguiram trazer de novo a racionalidade e expurgar a manada.

Ninguém questiona o direito inalienável à mobilização para fins legais, à greve e ao protesto. Muito menos se questiona o fato de que a universidade tem problemas que devem ser endereçados pelos alunos em suas discussões. O que se questiona é o uso da irracionalidade, da ilegalidade, da lógica de manada e do caos como ferramentas para mobilização. Esses atos, antes de ajudar a resolver o problema, apenas os agrava.

É provável que as barricadas sejam reconstruídas e que essa pequena vitória seja apenas temporária. Mas também é provável que após o exemplo desses alunos da História e da Geografia muitos mais se levantem e essa seja uma vitória perene de uma forma diferente de mobilização para resolver os problemas da universidade: a mobilização estritamente legal estimulada pelo raciocínio livre do indivíduo sobre os problemas que deseja resolver.