Porque pessoas aderem a uma religião?

10 de Fevereiro de 2009, por Desconhecido - 1717 comentários

Essa pergunta surgiu em uma conversa com meus colegas de grupo de pesquisa em torno de uma mesa de café, feita por um convicto, esclarecido e muito bem justificado ateu para um convicto e esclarecido budista.

 Eu não tentei responder, porque acho que a minha resposta seria insatisfatória, além de longa e chata. Mas fiquei pensando nas minhas próprias experiências religiosas - que foram profundas - e resolvi escrever sobre o assunto aqui. 

Eu experimentei ter uma vida profundamente religiosa por alguns anos, já na minha idade adulta e quando eu já estava na faculdade, depois de uma infância e adolescência bastante seculares. Por pouco não entrei para um seminário - eu tinha o firme propósito de tornar-me padre por boa parte desse período. Hoje tenho uma vida bastante secular novamente e uma visão religiosa que seria anátema para a minha própria doutrina anterior e uma visão muito secular do universo. O que me levou a essa segunda transição não vêm ao caso - o que me interessa aqui é a primeira.

Conheci nesse período pessoas em todo espectro: os fanáticos, os moderados, os piedosos, os indiferentes, os místicos, os pragmáticos, os engajados e os que só frequentavam a missa no domingo. A maioria de todos eles seguia uma religião apenas como herança cultural. Uma bagagem que eles não questionaram e levaram adiante. Esses não me interessam muito, porque fazem parte de um mecanismo mais simples e mais impessoal. O que me interessa são aqueles que tornaram-se religiosos depois de adultos.

Em uma primeira aproximação superficial pode-se achar que essa é uma decisão doutrinária. Duas doutrinas sobre o mundo se opõe, com suas premissas e suas conclusões, e o embate filosófico entre as duas idéias é que resulta em uma decisão. Como se internamente  dois eus argumentassem pró e contra uma visão religiosa ou secular do universo, apresentando razões para crer ou não na existência de uma realidade espiritual, do espírio que sobrevive à morte, de deus ou deuses e de princípios morais derivados dessa realidade extra-material. 

Eu acho essa visão sobre o processo de aproximação de uma pessoa da religião muito imprecisa. Aliás, creio que ela está de fato errada. O conjunto das pessoas que possuem tempo ou subsídio intelectual para tomar uma decisão desse tipo é muito menor do que o conjunto das pessoas que realizam essa decisão. A conversão religiosa não é resultado de um diálogo filosófico. Mesmo porque a impressão que tenho é que a maioria das pessoas que usaram esse processo para decidir quando não são atéias possuem doutrinas religiosas bastante abstratas e bem pouco relacionadas à uma prática religiosa. Conheço pouquíssimas pessoas que disseram ter aderido a uma prática religiosa porque lá encontrou respostas lógicas e objetivas (curiosamente, quase todos são espiritas). 

Antes de ser doutrina, antes de ser mitologia, antes de ser um conjunto de afirmações sobre a natureza das coisas, uma religião é rito e experiência. Eu acredito que a maioria esmagadora das decisões religiosas são movidas pela experimentação mística. 

Há uma quantidade inumerável de termos usados por religiosos e estudiosos da religião para descrever essa experimentação mística: é o númen, o numinoso, a experiência religiosa, a sensação oceânica, a comunhão com os santos, a santificação do cotidiano, a metanóia, a epifania, a experiência do que é "totalmente outro", etc... É fato que os religiosos experimentam algo quando seguem seus ritos, e é fato que essa sensação é poderosa - pois que isso os convence de ter se encontrado com poderes divinos ou realidades últimas. 

Essa sensação, não consigo achar palavras em português, of being overwhelmed depois do contato com algo que se supõe ser divino ou  espiritual é parte central da religiosidade de um grande número de pessoas. E que já foi central na minha religiosidade. A repetição de ritos para fazer essa sensação presente periodicamente vêm muito antes, creio que até tenha vindo antes na história da religião, da especulação teológica e da criação de doutrinas metafísicas. 

Há um outro mecanismo que eu acho que também é frequente, mais do que a identificação doutrinária, mas que é bem menos do que a identificação mística. É a identificação social. Participar de um pequeno grupo religioso, acolhedor, compreensivo e disposto a socializar de forma carinhosa com um novo membro é uma situação social muito confortável para ser ignorada. E não é infrequente que a experiência mística esteja exatamente relacionada a essa aceitação social e não a ritual algum.

Enfim... creio que a dificuldade da maioria dos ateus de entender porque pessoas se espiritualizam e aderem a religiões ou rituais religioso é o fato de imaginarem esse processo como um processo racional de comparação de doutrinas. Não é. É um processo subjetivo de procura de experiências psicológicas e, em menor escala, um processo de busca de validação social. 



Congo, Gaza, Darfour.

29 de Janeiro de 2009, por Desconhecido - 33 comentários

O mundo as vezes parece em tormenta e a capacidade humana de cometer atrocidades parece infinita. Ler coisas como a que a Yuna Ribeiro reproduziu no blog dela, de alguém que presenciou isso pessoalmente no Congo, ler coisas que acontecem em Gaza, não ler e não saber nada sobre o que acontece em Darfour as vezes nos dá a impressão de que não existe mesmo esperança alguma para o mundo e que de fato não há interesse algum da parte de ninguém para fazer muita coisa (exceto talvez nos conflitos mais glamourosos, como o de Gaza). 

 Eu não vou entretanto tentar aqui argumentar o que devemos fazer ou não para ajudar, nem postar links para abaixo-assinado, nem nada disso. O texto da Yuna Ribeiro já é suficientemente  tocante e eu não tenho essa capacidade de escrever coisas emocionantes. O que eu quero fazer é tentar pensar no assunto apenas. Escrever as coisas que me ocorrem de primeiro pensamento sobre o que cabe a uma pessoa como eu fazer, qual é a minha postura filosófica diante do mundo como é. 

Em primeiro lugar, é claro que eu gostaria que num passe de mágica todas as mulheres violentadas do Congo fossem espiritualmente elevadas ao paraíso, honradas e curadas, e que seus atacantes sejam entregues ao julgamento com os maiores rigores possíveis. Mas isso não acontece. Então permitam-me simplesmente não falar sobre o que deveria acontecer nem sobre o mundo ideal que eu cultivo nos sonhos, nem sequer ficar tentando medir qual é o grau de crueldade do que ocorre lá. Meu assunto não são as mulheres do Congo. Meu assunto sou eu e o resto do mundo diante das mulheres do Congo. 

 O que salta aos olhos em todos os conflitos dessa natureza é a aparente extrema inércia do mundo diante deles. A nossa percepção aqui é de que ninguém faz nada. Temos na Africa paises esfacelados por guerras civis onde atrocidades como essa que ocorre no Congo ocorrem sistematicamente por pelo menos uns 20 ou 30 anos. Porque ninguém vai lá e conserta?

Todos sabemos (ou talvez estejamos errados, todos cheios de certezas) a origem dos conflitos, sabemos da dominação européia e etc, da economia e os fãs do Jared Diamond (eu sou um deles) sabem até do papel da economia local e suas consequencias ambientais. Não é essa minha pergunta. A minha pergunta é: porque ninguém vai lá e conserta?

Eu só consigo pensar em uma resposta me colocando no papel de um governante mundial, com poderes de chegar lá e fazer qualquer coisa que fosse necessária. O que eu faria para estabilizar socialmente um lugar? 

A única conclusão a que eu chego é: não faço a menor idéia. Eu não posso chegar de fora e estabelecer uma polícia com um exército superior. Eu não posso chegar e invadir o lugar, expulsar as facções beligerantes e colocar um amigo meu no poder (isso definitivamente só funcionava na antiguidade clássica). Eu não posso apenas enviar milhares de médicos para tratar as vítimas e ignorar o conflito armado.

Há um povo, esse povo tem um país. Esse país está esfacelado e em guerra civil. Essa guerra civil inclue armas modernas, exercitos primitivos e pessoas ignorantes e supersticiosas sistematicamente se matando pelo controle político. Possivelmente esse conflito todo é motivado pela incapacidade da economia do país de manter em paz esses vários grupos. É catástrofe enlatada. Como se restabelece um país? Como se transforma um conjunto de tribos rivais se matando em um lugar estável? Não consigo pensar em nada a não ser de que esse é um processo que levou 1000 anos para ocorrer na Europa naturalmente - do inferno pós queda do império romano até os primeiros estados nacionais estáveis no fim da idade média.

Eu não faço idéia do que eu faria, e fico aliviado de a decisão não depender de mim. E se não depende de mim, qual é a atitude mais acertada para alguém que não pode agir nessa escala nacional, mas apenas na escala de um único individuo?
 
Quando eu ouço coisas como isso que acontece no Congo, ou em Darfour, ou outras tragédias em outros lugares, tendo a pensar duas coisas: (1) isso é uma situação extraordinária que exige a minha atenção, (2) estou frustrado por causa de quão limitada é a minha capacidade de agir objetivamente quanto a isso. Mas eu acho que isso é enganar a mim mesmo. 
 
Primeiro, isso não é extraordinário, isso é a regra. Extraordinário é viver em paz, em segurança e ter capacidade de ter acesso ao que está acontecendo assim tão longe. Claro que isso que acontece no Congo está no rabo da gaussiana de crueldade, mas ainda assim, há mais pessoas vivendo coisas mais parecidas com isso do que vivendo com a minha qualidade de vida. Mesmo aqui ao lado da minha casa. A aquisição da paz, da segurança alimentar, da tranquilidade de se viver em um país que te defende, onde impera uma certa segurança, do respeito aos gêneros, raças e etc, é uma aquisição recente para a maioria dos povos do mundo que as possui.
 
 Pensar nisso pode provocar várias reações. Uma é o desânimo e a depressão, e a conclusão de que a única maneira de evitar saber que essas coisas existem é suicidar-se ou isolar-se dessa realidade. Essa é a reação errada. Porque alguém que vivesse nos séculos XX, XIX, XVIII e assim sucessivamente, pensaria o mesmo. No entanto nossa situação global apenas melhorou desde essa época e cada vez mais pessoas conseguem ter acesso à segurança e a estabilidade, mesmo que de forma limitada e lenta.
 
Outra reação possível é abandonar sua própria vida e engajar-se em fazer algo de concreto lá no Congo. Isso é nobre e desejável, mas nem todo mundo pode fazer isso. Eu não tenho motivação para fazer isso. Talvez eu seja menor que outras pessoas por isso. Certamente eu sou. Mas não consigo fazê-lo.
 
Outra reação é indignar-se violentamente e bradar em todo lugar quão doente é o mundo. Mas a indignação pura e simples, sem algo que a dome e a use para algo útil, é uma coisa destrutiva, que não ajuda em nada. Agir apenas com essa comoção toda apenas traz prejuízos a você mesmo e não ajuda em NADA as mulheres do Congo. 
 
 Outra reação é fazer o que puder sobre o assunto daqui mesmo . Isso hoje em dia é um pouco mais possível do que era uns anos atrás, mas ainda assim é bem limitado. Achar que vamos mudar a situação postando em blogs, ou mesmo conseguindo uma reportagem exclusiva de 15 minutos sobre isso no jornal nacional, é ser tolo e ingênuo. Todos nós assistimos tragédias globais na televisão e não fazemos muita coisa quanto isso. Mas isso não tira o mérito de fazer - é melhor que as pessoas saibam e que isso seja divulgado pelos meios mais modernos possíveis do que isolarmo-nos da realidade como eu argumentei acima. 
 
Fazer o que posso daqui de onde estou, com consciência das limitações tremendas e mesmo assim não desanimar é dificil. Mas eu acho que é a única forma de se manter são. Se pensarmos na inefetividade da indignação pessoal, se chegarmos a conclusão de que é isso e que há pouco a se fazer objetivamente por aquelas pessoas, vamos acabar em um estado emocional muito pouco produtivo para nós mesmos e para essas pessoas. Essa não é a atitude certa. A atitude certa é fazer o que puder, o que estiver a seu alcance, mas vivendo a própria vida, e lembrar que a civilização é um processo lento, mas estável, e um dia  vai chegar naquele lugar.
 
É melhor ter serenidade e tentar entender o que ocorre lá e porque ocorre. Entender as pessoas e o que as move. Entender quais são as alternativas. E com serenidade tomar as ações que você concluir que pode para fazer o que estiver a seu alcance.

A indignação serena mas ativa é a  única forma não auto-destrutiva que eu acho possível para alguém lidar com o Congo, com Gaza ou com Darfour.


A única coisa que importa na religião

18 de Janeiro de 2009, por Desconhecido - 55 comentários

"Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós, porque esta é a lei e os profetas."
-- frase atribuída ao rabino Jesus de Nazaré, por um de seus supostos discípulos no evangelho de Mateus.

Essa frase acima é frequentemente chamada regra de ouro do cristianismo. Mas não é. É a regra de ouro do pensamento religioso oriental durante a era axial, como essa imagem veiculada por aí pela internet ilustra. A descoberta desse princípio, na minha opinião, é que tranformou a história da religião e marca a transição de uma prática religiosa centrada no rito, na imitação da natureza e na religião estatal em uma religião com raízes morais e antropológicas.

Tenho dois comentários sobre essa regra de ouro, um moral, pessoal e que não interessa a ninguém (mas farei da mesma forma) e outro mais geral. 

 O primeiro é: essa idéia é a única coisa que de fato importa em todo o pensamento religioso da história. É sobre essa regra moral que toda metafísica deveria versar e TODO o resto é acessório: deuses, deus, heróis, mitos, espíritos, leis, ritos, expectativas messiânicas e o caramba.

 O segundo comentário é: é meio surpreendente para mim que esse princípio tenha se iniciado de maneira independente por todo oriente, ainda que com milhares de anos de separação. Eu não acho que tenha sido assim. Claro que dessa lista de religiões dessa figura temos que excluir as modernas e as derivadas de alguma fé anterior. Islã, jainismo, cristianismo, unitarianismo (?), budismo, Sikh e fé Baha'i são ou religiões muito jovens ou são claramente derivadas, portanto não contam. Mas o taoismo, o confucianismo, o judaísmo, o hinduismo e o zoroastrismo são suficientemente antigas e tiveram origens suficientemente independentes para que seja surpreendente a presença do mesmo pensamento em todas elas. 

Quem será que inventou essa idéia, e espalhou por todas as religiões do oriente? 



Vou me tornar assassino. Quer me acompanhar?

13 de Janeiro de 2009, por Desconhecido - 1313 comentários

Eu estou recrutando pessoas para participar do meu bando. Nós vamos matar pessoas, assaltar bancos, atear fogo em residências e praticar terrorismo. Mas calma... Nós vamos fazer isso por uma causa, pela luta proletária e contra a burguesia internacional. Não estaremos cometendo crime algum, e se alguém tentar nos prender, pediremos asilo político.

 Parece idiota? Pois é exatamente isso que aconteceu ontem, quando o ministro Tarso Genro concedeu asilo político a Cesare Battisti, um homem condenado por matar quatro pessoas na Itália na década de 70, quando militava no PAC - Proletari Armati per il Comunismo. O ministro considerou que é perseguição política tentar fazer um militante comunista pagar pelo crime de homicídio, finalmente consolidando o fato que no Brasil militantes de esquerda são inimputáveis. Só falta colocar isso na constituição.

 Eu, sinceramente, não tenho simpatia alguma por militantes comunistas. Mas àqueles que têm peço o seguinte exercício mental: esqueça que ele é um militante e quais foram as ocasiões e motivos que levou Batistti a planejar e executar quatro homicidios e focalize-se apenas nesse fato. Você concederia asilo político a um assassino comum? E porque então concederia a um assassino, só porque ele é militante? No que diz respeito ao crime que ele cometeu, pouco importa se foi por briga de futebol ou por militancia, ele matou quatro pessoas e tem que ser preso. Ponto final. 

 Não há negociação alguma quando se trata de homicídio. Quando a participação de uma pessoa em um homicidio é determinada, não existe possíveis atenuante que possam ser aceitos pela nossa moral ocidental senão a doença mental ou a legítima defesa. Homicidio por razões políticas é daqueles crimes em que é difícil pensar em muitos outros que podem ser mais ofensivos e imorais. Talvez o estupro seguido de morte. Certamente o genocídio. Mais algum? Não há muitos.

Não prender o Cesare Battisti é tão absurdo quanto não prender o assassino do Chico Mendes ou da Dorothy Stang. Não me interessa qual é a militancia politica de quem matou ou de quem foi morto, se houve um homicidio, o perpetrador tem que ser preso, se foi por razões políticas, tem que ser preso por mais tempo.


 



Adotando um vereador

11 de Janeiro de 2009, por Desconhecido - 1Um comentário

O jornalista Milton Jung motivou recentemente um projeto de acompanhamento de vereadores por blogueiros.

 Eu estou acompanhando o vereador Gabriel Chalita, do PSDB, em São Paulo - SP. Para participar verifique os seguintes links:

http://vereadores.wikia.com/

http://stoa.usp.br/vereadores/weblog/

Twitter: @adoteumvereador