Como se ver livre da pseudociência

29 de Janeiro de 2017, por Claudio Geraldo Schon

Há alguns meses eu li uma postagem no facebook que começava assim: "Estudos demonstram que qualquer postagem que começa com estudos demonstram será levada a sério por todo mundo". Mesmo que isso era uma piada (ou melhor, uma metapiada), devemos considerar que há algo de sério nessa afirmaçao. 

Nós somos inundados por conhecimento vindo das mais diversas fontes. Só no facebook pululam canais ditos científicos de diversas origens. Na mais pura natureza anarquista da internet, qualquer um pode criar um canal ou um blog. Pior que isso, todos competem por atençao. Em se tratando de ciência, seria de se esperar que honestidade e domínio do conhecimento fosse pre-requisito para criar um desses canais, mas infelizmente isso nem sempre acontece. Na busca insensata por audiência, muitos desses canais compartilham conteúdos questionáveis, ou por ignorância (no sentido de falta de conhecimento mesmo) ou por má fé. Essa é uma das primeiras fontes da pseudociência.

Pior, alguns desses canais sao mantidos por grupos com diversos matizes ideológicas (grupos religiosos funamentalistas, ou fanáticos por teorias da conspiraçao). Ciência e ideologia nunca andaram muito bem juntas, a possibilidade de questionar suas próprias crenças é fundamental no método centífico e esse tipo de fanático é incapaz de fazer esse tipo de questionamento, portanto tudo o que eles geram é pseudociência.

Mas e o leitor desse material? Como pode se proteger (ou mesmo reconhecer) desse tipo de conteúdo? Afinal de contas, nem todo mundo interessado em ciência conhece os meandros do método científico. Pior, alguns colegas meus pouco se interessam em ensinar o público leigo como a ciência funciona, junta-se a isso a pobreza do ensino de ciências no fundamental e no médio e cria-se um estado propício à propagaçao de idéias absurdas. 

Aqui vao algumas dicas para reconhecer pseudociência:

  1. Desconfie de conteúdos bombásticos. Uma vez li uma postagem que afirmava que o planeta Marte de repente ficaria com um disco tao grande quanto o da Lua, isso é fisicamente impossível.
  2. Resultados científicos legítimos geralmente provêm de fontes confiáveis, importantes revistas científicas, grandes centros universtários ou de pesquisa. Artigos publicados em revistas, em particular, passam pelo processo de peer review (revisao pelos pares), em que outros cientistas, geralmente anônimos avaliam o trabalho antes da publicaçao (mas atençao, alguns autores divulgam seus resultados realmente inéditos em repostórios, antes, portanto, de passar pelo peer review, nem por isso deixam de ser válidos. É importante, nesse caso e sempre que possível, ler a fonte original para formar sua opiniao, pos nem todo mundo que publica esses artigos entende direito o que leu.
  3. Confie na ciência que você aprendeu. É certo que novos resultados que desefiam a ciência clássica podem ser gerados a qualquer momento, mas acredite, a terceira lei de Newton, os principio da conservaçao da matéria e da energia, as reaçoes biológicas básicas que mantém um ser vivo, nao serao abolidas da noite para o dia.
  4. Ciência verdadeira sempre admite o contraditório, assim, desconfie de qualquer postagem que apresente apenas um lado da história, sem questionar o próprio resultado.

Espero que isso ajude.



Oportunidade de tema de doutorado (ou mestrado) em metalurgia

11 de Maio de 2016, por Claudio Geraldo Schon

Estou a procura de um aluno para desenvolver um projeto que vsa estudar a deformaçao plástica de aços inoxidáveis dúplex. O projeto tem recursos já aprovados por meio de um auxílio à pesquisa recém concedido pela FAPESP (o projeto se inicia em julho). Trata-se de um projeto para doutorado, mas seu escopo pode ser simplificado para se adequar a um mestrado, caso haja necessidade. Como se trata de projeto vinculado a auxílio já aprovado, estimo que há boas chances de aprovar uma bolsa de doutorado (ou mestrado) na FAPESP. A fundaçao é reconhecidamente chata com o histórico escolar dos candidatos, portanto nao da para garantir aprovaçao. Caso vocês conheçam algum aluno interessado, por favor, peçam para me contatar. Para ingresso no Programa de Pós-Graduaçao em Engenharia Metalúrgica da Poli é necessários ser aprovado em exame de proficiênca (o próxima tem inscriçoes que se encerram no próximo dia 20). Irei selecionar o candidato por meio de entrevista. Nao é necessário ser engenheiro metalurgista ou de materiais para desenvolver esse projeto (engenheiros mecânicos ou mesmo físicos podem desenvolve-lo bem, desde que tenham vontade).



O que aconteceu hoje (13/12/2015)?

13 de Dezembro de 2015, por Claudio Geraldo Schon

Há gente tentando associar o tal impeachment da Dilma ao impeachment do ex-presidente Collor. Penso que essas pessoas cometem um erro grave. O ex-presidente Collor nao sofreu impeachement por ser corrupto. Que ele era corrupto, todo mundo já estava careca de saber. Me lembro de ter lido uma reportagem, acho que foi no finado Jornal da Tarde, no começo do seu (des)governo, que detalhava todos os esquemas que depois ficaram conhecidos, em particular o papel do PC Farias e a conexao Uruguaia. Me lembro que li tudo aquilo e fiquei com a clara impressao de que isso nao daria em nada. Veio entao a famosa entrevsta do Pedro Collor à Veja. Foi um escândalo, sim (para quem nao sabe, ou se esqueceu, teve um triangulo amoroso no meio). Houve a CPI. Provas eram levantadas e detalhadas nos jornais e revistas semanais e mesmo a globo nao conseguia ficar de fora (conta-se, a portas fechadas, é claro, que todo esse movimento aconteceu porque a camarilha do Collor tinha decidido tomar para si todo o dinheiro da corrupçao, ou seja, todo o discurso moralista era, provavelmente, hipócrita, como agora). Eu acompanhava esses desenvolvimentos nos jornais (televisivos ou nao). Em 1992 eu estava no meio do meu mestrado e tinha coisa melhor para fazer que perder tempo com noticiário. 

Eu estou me usando como exemplo, porque me sinto como um representante da maioria da populaçao, que nao era diretamente ligada aos principais partidos em disputa. Veio entao a conversa sobre o eventual pedido de impeachment. Eu via tudo isso com ceticismo. Via as declaraçoes, mas minha impressao era que os políticos estavam, na verdade, fazendo campanha eleitoral para 1994 e que ninguém pensava seriamente em levar o presidente ao impeachment. É claro que havia gente seria pensando nisso, a maioria da populaçao também ainda nao esquecera o confisco da poupança e a inflaçao havia voltato com força depois do desastre do plano Collor, portanto o apoio que o ex-presidente possuira no início do governo, havia sumido. Haviam também minifestaçoes contra o presidente, mas elas atraiam os militantes de sempre. O DCE, o SINTUSP e a ADUSP faziam retórica contra o Collor, mas, entendam bem, eu nao suportava o sujeito, eu só nao acreditava que o impeachment sairia.

Entao veio o acontecimento que mudou tudo. Em um evento de suposto apoio de 3000 taxistas de Brasilia no dia 13/08/1992, o Collor fez um pronunciamento pedindo que a populaçao vestisse verde-e-amarelo no domingo seguinte (dia 16), em apoio a ele. Eu assisti esse pronunciamento no Jornal Nacional (ainda assistia a Globo às vezes na época) e fiquei possesso. Lembro que prometi a mim mesmo que eu vestiria negro (em sinal de luto pelo país). Eu ia fazer isso espontaneamente, sem que ninguém tivesse dito. Nos dias seguinte, entretanto, os boatos começaram a circular na USP, muita gente tinha chegado à mesma ideia, outras diziam que iriam usar verde-e-amarelo, mas para protestar contra Collor, e nao a favor dele. Ficou agendado que todo mundo se encontrasse naquele anfiteatro que fica ao lado da Filosofia, de onde era gravado um programa ao vivo da TV Cultura no domingo. Foi uma tirada de gênio, dessa forma a imprensa nao poderia esconder. 

Eu fui participar do evento, estive lá. O clima era festivo, como é característico de nossa populaçao. Foi isso o que viabilizou o impeachment. O que eu quero dizer com isso é que o Collor sofreu o impeachment nao foi por causa da corrupcao (apesar desta ter sido a desculpa). Ele sofreu o impeachment, por causa de sua incrivel arrogância, que levou muita gente a decidir lutar ativamente por seu afastamento. 

E quanto a hoje? Como explicar que as manifestaçoes marcadas para hoje fracassaram fragorosamente? A questao evidente é que nas vezes anteriores havia muita gente bem intencionada, que caira no conto da carochinha de que só o governo atual é corrupto nesse pais. Os eventos dos últimos dias (e o comportamento escandaloso dos deputados no Congresso) devem ter convencido esses bem intencionados de que todos os políticos sao corruptos. Nao digo que os índices de popularidade da presidente subiram magicamente, mas sim que os eventos que acontecem em Brasilia tiveram o efeito inverso do discurso do Collor.



Ética

18 de Outubro de 2015, por Claudio Geraldo Schon

Ética e gravidez tem uma coisa em comum. Nao tem sentido dizer que uma mulher está "meio grávida", ou ela está grávida, ou nao está, ou há dúvidas razáveis que necessitam diagnóstico. Da mesma forma, uma pessoa é ética, ou nao é. Os valores sao absolutos. Uma pessoa ética nao estaciona em local proibido, nao dirige em velocidade superior à permitida em uma via pública (mesmo sem radar), nao coloca um aluno para dar aula em seu lugar e nao constrange uma colega, com ameaças, a nao votar a favor de outro para obter benefícios pessoais. Deslizes sao possíveis, afinal ninguém é perfeito, mas a pessoa ética, que comete um deslize, sente uma culpa avassaladora (mesmo sem a possibilidade de ser "pego", recebendo a puniçao devida). A pessoa nao ética, pelo contrário, nao sente a mínima vergonha em cometer seus atos e ainda encontra justificativas para eles. Façam uma análise das pessoas que os rodeiam, vocês verao que eu estou certo.



A glorificação da imbecilidade

12 de Junho de 2015, por Claudio Geraldo Schon

Que os tais "colunistas" da mídia tradicional sāo completos imbecís, nāo há novidade. Nós, que temos um pouco de bom senso, simplesmente ignoramos esses artigos. Tenho uma frase que traduz essa situaçāo: "Quem lê Veja?" (serviria para istoÉ, Exame, e todas as congêneres), que adiciono como comentário a postagens de amigos meus, de esquerda, que reclamam de alguma dessas matérias publicadas. 

O preocupante, no entanto, é que esses sujeitos resolveram pegar no pé da academia. Recentemente um sujeito chamado Rodrigo Constantino, que se define como "um liberal (sic) sem medo de polêmica", publicou um artigo intitulado "Psicólogos sakamotianos" em que critica idéias do Professor Francisco Razzo. Nāo vou entrar no mérito da discussāo, o Prof. Francisco publicou uma réplica a esse comentário que desmonta completamente os argumentos do autointitulado "liberal".

Tomei conhecimento disso por uma rede social, na postagem de um amigo que enaltecia as opiniōes do colunista como uma reaçāo à ideologia esquerdista dominante na academia. Como se trata de amigo sensato (apesar de direitista) eu comentei essa postagem, dando minha opiniāo sobre um dos temas tratados (interaçāo universidade - empresa) que conheço bem. O problema foram os outros comentários, todos de pessoas jovens que tem perfil nitidamente conservador. A um desse comentaristas tive que lembrar que a opiniāo que ele emitia era idêntica à usada pelos parceiros de Mao para justificar a revoluçāo cultural na República Popular da China (duvido que ele tenha entendido a ironia contida nessa afirmaçāo).

Isso apenas demonstra a existência de uma tendência perigosa de certos setores da direita, que vê professores universitários como inimígos e, quiça, como obsoletos. E nāo adianta contraargumentar! Você pode usar qualquer argumento sensato e ele será jogado fora, apenas porque você é professor universitário. E há professores universitários conservadores, acreditem em mim. Isso é preocupante, porque esse movimento nega valor ao argumento, é fundamentalmente fascista (os nazistas usaram essa estratégia no início do movimento) e glorifica a burrice e a truculência.

O pior de tudo é que há colegas meus, professores universitários, que apoiam esses "colunistas". Me pergunto se eles percebem o perigo do que estāo fazendo.