Reflexões acerca de relações humanas na sociedade globalizada

25 de Setembro de 2017, por BADI



Capital Social: O que é Capital Social

21 de Setembro de 2017, por BADI

 

Imagem Site Social Media- Raquel Recuero jornalista

Capital Social[1] - O que é Capital Social

Escopo da analise

Um crescente número de evidências empíricas sugere que a densidade das redes sociais e instituições e a natureza das interações interpessoais que está subjacente, significativamente afetam a eficiência e a sustentabilidade dos programas de desenvolvimento. No entanto, os canais exatos que monstram o impacto o qual este "capital social" nos resultados do desenvolvimento apenas começaram a ser explorados, e muitas lições a serem extraídas dessas observações para o design do programa e a implementação ainda necessitam ser formuladas. Para ajudar a avançar o entendimento teórico e a relevância prática deste conceito, o Banco Mundial lançou em outubro de 1996 a Iniciativa de Capital Social (SCI) com generoso apoio financeiro do Governo da Dinamarca. A Iniciativa tinha três objetivos: (1) avaliar o impacto do capital social sobre a eficácia do projeto;(2) Identificar formas pelas quais a assistência externa pode ajudar no processo de capital social formação; E (3) contribuir para o desenvolvimento de indicadores de monitoramento do Capital Social e metodologias para medir seu impacto no desenvolvimento. A equipe SCI solicitou propostas de estudo de gerentes de tarefas e pesquisadores  Dentro do Banco, e um Comitê Diretor selecionou 12 propostas de financiamento (de 40 propostas recebidas). Os estudos selecionados representam uma ampla metodologia, espectro (análise quantitativa e qualitativa) e tem uma ampla cobertura da área geográfica e setorial. Os trabalhos examinam o papel do capital social nos níveis micro, meso e macro.Seis estudos (números 1 a 6) se concentram em demonstrar empiricamente a contribuição do Capital Social para o sustento das famílias, seja diretamente pelo aumento da renda, ou Indiretamente através da melhoria do acesso aos serviços.Cinco estudos (números 7 a 11) se concentram no processo de acumulação e destruição do capital social, e visam identificar os fatores críticos neste processo e se isso pode ser afetado por intervenções de doadores e política. O estudo final (número 12) reúne as lições aprendidas sobre a medição capital social e desenvolve uma ferramenta de avaliação de capital social.

 

Sobre questionamentos do uso da palavra “Capital”

O capital social é um insumo e um resultado de ação coletiva. Na medida em que as interações sociais são desenhadas para produzir um resultado mutuamente benéfico, a quantidade ou a qualidade dessas interações provavelmente aumentará. Em outras palavras, capital social tem boas características públicas que têm implicações diretas para a otimização de seu nível de produção. E, como outros bens públicos, tenderá a ser subproduzido por causa da internalização coletiva incompleta das externalidades positivas inerentes à sua produção.Por fim, o capital social compartilha vários atributos com outras formas de capital. No entanto, em primeiro lugar, não é fácil produzir, uma vez que requer um investimento - pelo menos em termos de tempo e esforço, senão dinheiro - que pode ser significativo.

 

Capital social: do conceito à sua medição

Claramente, uma grande variedade de indicadores de capital social estão disponíveis e foram utilizados nos estudos da SCI para medir o capital social e seu impacto. Cada uma dessas medidas tem um seu lugar no contexto específico em que foi usado. Devido à forte natureza contextual de capital social, é improvável que seja possível identificar alguns "melhores" indicadores que possam ser usados em todos os lugares. Entretanto, evidenciando casos micro e meso; o impacto do capital social se manifesta através da melhor troca de informações (sobre tecnologia ou credibilidade de contratos), maior participação na concepção, implementação e monitoramento do serviço de sistemas de entrega e ação coletiva mais efetiva.  A magnitude do efeito do capital social difere de configuração para configuração, mas em várias análises, onde algumas comparações quantitativas foram possíveis, o efeito do capital social sobre os resultados provou ser tão importante quanto o efeito de outros ativos, como capital humano e físico. A análise qualitativa, como o estudo de caso no Mali, documentou igualmente a presença de capital social cognitivo (confiança) pode ser tão importante quanto a capital humano (habilidades técnicas) dos trabalhadores.

 

  • O quadro conceitual

O capital social de uma sociedade inclui as instituições, as relações, as atitudes e valores que governam as interações entre pessoas e contribuem para o desenvolvimento econômico e o desenvolvimento social.

 A noção de que as relações sociais, as redes, as normas e os valores importam no funcionamento e o desenvolvimento da sociedade tem sido presente na economia, sociologia, antropologia e literatura de ciência política. Somente nos últimos 10 anos, no entanto, a idéia de capital social foi apresentada como um conceito unificador incorporando essas visões multidisciplinares. O conceito tem sido muito estimulado pelos escritos de estudiosos como James Coleman (1988, 1990) e Robert Putnam (1993). Eles e muitos outros escritores, tentaram definir rigorosamente o capital social e identificar limites conceitualmente sólidos e praticamente úteis do conceito (veja as revisões em Grootaert 1997, Portes 1998, Woolcock 1998 Narayan 1999, Serageldin e Grootaert 2000, Woolcock e Narayan 2000).

 

O Escopo, Formas e Canais de Capital Social

O conceito de capital social pode ser visto ao longo de três dimensões. Eles são seu escopo (ou unidade de observação), suas formas (ou manifestações), e os canais através dos quais afeta o desenvolvimento.

Embora existam vestígios distintos do conceito em escritos anteriores, a análise do capital no nível micro é geralmente associado a Robert Putnam (1993). Em seu livro seminal sobre associações cívicas na Itália, Putnam define o capital social como características da organização social, como redes de indivíduos ou famílias, e a normas e valores associados, que criam externalidades para a comunidade como um todo.

Putnam originalmente considerou essas externalidades como sendo apenas de natureza positiva, mas ele e outros já reconheceram que externalidades negativas podem resultar de interações interpessoais, como demonstrado por certos grupos de interesses ou, em casos extremos malévolos como a Máfia na Itália ou os Interahamwe, em Ruanda. Em tais situações, o capital social beneficia os membros da associação, mas não necessariamente os não-membros ou a comunidade em geral.

Ao expandir a unidade de observação e ao introduzir um componente vertical para capital social, James Coleman (1990) abriu a porta para uma mais ampla - ou "meso" - interpretação do capital social.

A definição do autor sobre capital social o distingue como "uma variedade de diferentes entidades que se consiste em algum aspecto da estrutura social, e que facilita a certas ações de atores - atores pessoais ou corporativos - dentro da estrutura “ Nesse caso, considera-se implicitamente as relações entre os grupos, e não os indivíduos.

Esta definição amplia o conceito para incluir associações verticais e horizontais e o comportamento dentro e entre outras entidades, como empresas. As associações verticais são caracterizadas por relações hierárquicas e uma distribuição de energia desigual entre membros.

A terceira e mais abrangente visão do capital social inclui o social e o ambiente político que molda a estrutura social e permite que as normas se desenvolvam. Além dos relacionamentos em grande parte informais, e muitas vezes locais, horizontais e hierárquicos dos dois primeiros conceitos, esta visão também inclui o macro nível mais formalizado, ou seja, as relações e estruturas institucionais, como o regime político, o estado de direito, o sistema judicial e liberdades civis e políticas. Este foco nas instituições baseia-se naTrabalho de Douglass North (1990) e Mancur Olson (1982), que argumentaram que tais instituições têm um efeito crítico na taxa e padrão de desenvolvimento econômico.

Existe um forte grau de complementaridade entre as associações horizontais e hierárquicas e instituições macro, e a sua coexistência maximiza o impacto do capital sobre resultados econômicos e sociais. Por exemplo, as macro instituições podem fornecer um ambiente propício em que as associações locais podem desenvolver e florescer; associações locais podem sustentar as instituições regionais e nacionais e adicionar uma medida de estabilidade para eles. Um certo grau de substituição também é inerente ao aspecto interligado dos três níveis de capital social. Por exemplo, um forte do estado de direito resulta em contratos reforçados que podem tornar as interações locais dependentes de reputação e formas informais de resolver conflitos menos críticos para o desenvolvimento empresarial. Apesar do afrouxamento dos laços sociais a nível local sugeriria que em um nível micro o capital social foi enfraquecido, esse efeito deve ser pesado contra o contrabalanceamento. Assim como do efeito a nível nacional.

 

As Formas do Capital Social

Seja no nível micro, meso ou macro, o capital social exerce sua influência sobre o desenvolvimento como resultado das interações entre dois tipos distintos de capital social - estrutural e cognitivo. O capital social estrutural facilita o compartilhamento de informações e ação coletiva e tomada de decisão através de papéis estabelecidos, redes sociais e outras estruturas sociais complementadas por regras, procedimentos e precedentes. Como tal, é um construção relativamente objetiva e observável externamente. O capital social cognitivo se refere à normas compartilhadas, valores, confiança, atitudes e crenças. É, portanto, um assunto mais subjetivo e um conceito intangível (Uphoff 2000).As duas formas de capital social podem ser, mas não necessariamente, complementares. A cooperação entre os vizinhos pode basear-se em um vínculo cognitivo pessoal que não pode ser refletido em um arranjo estrutural formal. Da mesma forma, a existência de uma comunidade a associação não prova necessariamente de fortes conexões pessoais entre os seus membros, quer porque a participação em suas atividades não é voluntária ou porque é a existência superou o fator externo que levou à sua criação.

A interação social pode tornar-se capital através da persistência de seus efeitos, o que pode ser assegurado tanto no nível cognitivo quanto estrutural. Por exemplo, uma associação esportiva incorpora os valores e objetivos da interação social que a iniciou, mas o capital social cognitivo criado pela repetida interação social pode sobreviver ao fim da temporada esportiva e tem efeitos duradouros entre, e até além, dos membros originais.

 

Os Canais do Capital Social

Qualquer forma de capital - material ou não material - representa um ativo ou uma classe de ativos que produz um fluxo de benefícios. O fluxo de benefícios do capital social - ou os canais através dos quais afeta o desenvolvimento - inclui vários elementos relacionados, tais como compartilhamento de informações e ação coletiva mutuamente benéfica e tomada de decisões.Como parte do esforço da SCI para fornecer uma base conceitual unificadora para a seus estudos, Paul Collier investigou o conceito de capital social de uma economia de perspectiva. Ele sugere que o capital social é economicamente benéfico porque as interações sociais geram pelo menos uma das três externalidades. Facilita a transmissão de conhecimento sobre o comportamento dos outros e isto reduz o problema do oportunismo, facilita a transmissão de conhecimento sobre tecnologia e mercados e isso reduzem as falhas de mercado na informação. Finalmente, reduz o problema da equitação livre e, portanto, facilita a ação coletiva.  Collier distingue se a interação social é recíproca ou unidirecional; e se é organizado ou informal. Por exemplo, a transmissão do conhecimento pode depender do agrupamento de informações, que ocorre através de interações recíprocas, como redes (informais) e clubes (organizados), ou sobre cópia, que só requer interação unidirecional.Pode-se esperar que as implicações do capital social para os pobres variem de acordo com sua tipologia. Por exemplo, o processo de cópia pode ser intrinsecamente igualado, pois se considera que as redes podem tender a excluir os pobres porque têm menos conhecimento para a pesquisa.Vários estudos de caso do SCI destacam o papel do compartilhamento de informações. O estudo dos comerciantes agrícolas em Madagascar é um bom exemplo: comerciante melhor conectado tinha melhores informações sobre os preços e sobre a credibilidade dos clientes, e eles gostam de maiores vendas e margens brutas sobre suas transações como resultadas. Além de atuar como fóruns para troca de informações, redes e associações e facilitar a ação coletiva e a tomada de decisões, aumentando os benefícios da conformidade com comportamento esperado ou aumentando os custos de descumprimento.

 

[1] Trata-se de tradução livre e mixagem de dois documentos publicados pelo Banco Mundial - (The World Bank Social Development Family Environmentally and Socially Sustainable Development Network, 2001) e (Smith & Scrivens, 2013). Tradução Jéssica Medeiros



POLÍTICA PÚBLICA COMO FERRAMENTA DO MERCADO: Programa Bolsa Família e Programa

18 de Setembro de 2017, por BADI

Programa Bolsa Família

O Programa Bolsa Família possui características interessantes que demonstram como uma inciativa que trata de fatores tão essenciais à sobrevivência humana, na ausência da variável comunitária, acaba colaborando para a formação desse pressuposto Sujeito de Diretos, submetido as regras da globalização.

 

A respeito deste aspecto, a pesquisa que aborda a Influência do Bolsa Família sobre o Comportamento de Consumo da Baixa Renda (Da Gloria Cardoso Ferreira & Christopoulos, 2012), indica a evolução dos hábitos da população atendida pelo programa para uma lógica de alocação de recursos, que não se limita às categorias de produtos mais simples do mercado.

Verifica-se que a proporção da renda destinada às categorias alimentação, educação, fumo e vestuário se reduziu em todas as faixas de renda no período 2002 a 2008, para não beneficiários e beneficiários. Já as categorias habitação, higiene, recreação e cultura, transporte e serviços pessoais passaram a representar uma parcela maior das despesas de consumo. Com relação às categorias despesas diversas e saúde, não foi possível estabelecer um padrão entre os grupos analisados. (GLORIA CARDOSO FERREIRA DA & CHRISTOPOULOS, 2012)

Esses dados em confronto com a aferição do impacto sobre os padrões de consumo das famílias brasileiras (Rocha, 2015), revelam-se ainda mais significativos como indicadores dessa postura consumista, quando se constata a posição inalterada dos gastos relativos com os itens de educação.  

Verifica-se que as variações nos dispêndios com as categorias de consumo diante do PBF foram significativas tanto no meio rural como no urbano, em termos absolutos, sendo que não houve alteração apenas dos gastos com alimentação, educação, higiene e despesas diversas, nos domicílios rurais, considerando o NNM. (Rocha, 2015)

Nesse quadro esboça-se uma relação bem característica do mercado globalizado na qual os usuários secundarizam os elementos mais básicos nas necessidades humanas (alimentação e higiene) e, até mesmo, aqueles estabelecidos como condicionantes para permanência no PBF (educação e saúde), em busca de atender a desejos mais subjetivos, não orgânicos (recreação, cultura, serviços pessoais).  

Alguns elementos podem denotar com maior clareza a observação desse movimento, nas descrições abaixo, extraídas do trabalho de (Da Gloria Cardoso Ferreira & Christopoulos, 2012): 

Quando questionados sobre quais seriam os alimentos que não se classificam como fundamentais, mas que são aspirados e ocasionalmente adquiridos pelos respondentes, os seguintes foram mencionados: iogurte (Danone), biscoitos comuns e biscoitos recheados, chocolate, sorvete, pães industrializados. As entrevistas permitiram verificar que esses itens não estão na lista de necessidades primárias dos beneficiados, mas constam na lista de alimentos desejáveis no carrinho de compras.

Verificou-se ainda que aqueles respondentes que recebem valores mais altos do benefício (em torno de R$ 120,00) passaram a consumir esses produtos com mais frequência, pois, uma vez que o Programa não é a única fonte de renda dessas famílias, o valor do benefício, de certa forma, desonera o orçamento, de modo a permitir que itens dessa categoria sejam adquiridos; (DA GLORIA CARDOSO FERREIRA & CHRISTOPOULOS, 2012)

 

Discorrendo ainda sobre os aspectos similares das entrevistas realizadas, cabe abordar os produtos considerados pelos beneficiados do Programa Bolsa Família como objetos de desejo no que tange ao consumo. Todos os entrevistados mencionaram os eletrodomésticos como a principal aspiração quando os produtos de primeira necessidade deixaram de ser o foco. Nesse sentido, foram mencionados os seguintes itens, classificados também como bens duráveis: televisão, geladeira, forno de microondas, máquina de lavar roupas, computador e casa própria. Fora da classificação de bens duráveis, mas ainda na classificação de objetos desejados pelos participantes da pesquisa, foram ainda mencionados: roupas, sapatos e viagens. (GLORIA CARDOSO FERREIRA DA & CHRISTOPOULOS, 2012)

Aqui também vale destacar o aumento nos gastos com vestuário detectado nos levantamentos de Rocha (2015): 

"... eles dizem, ainda, que o gasto com bens para crianças, especialmente com roupas, também tende a aumentar. No entanto, os resultados encontrados não apontam elevação da parcela de dispêndio referente à alimentação, embora o aumento dos gastos com vestuário tenha se verificado." (Rocha, 2015)

Claro, o destaque é feito, com a ressalva de que a pesquisadora não estudou o tipo, a qualidade ou a motivação das compras, para determina-las no campo das necessidades por agasalhamento ou em virtude de acompanhar a moda, fatores alheios ao interesse de seu objeto de estudo.  

Todavia, ainda que se formule a questão por meio destes dados indiretos de (Rocha, 2015), as informações aportadas por (Da Gloria Cardoso Ferreira & Christopoulos, 2012), com certa plausibilidade, permitem o entendimento do comportamento de consumo dessa população, tendo o padrão consumista como responsável pelo incremento na demanda por esses artigos.   

Tanto assim que não surpreende as recomendações (Gloria Cardoso Ferreira Da & Christopoulos, 2012), no que tange a importância desta parcela popular para mercado de bens de consumo, inclusive, na linha de pensamento de diversos autores citados neste trabalho, para quem as empresas que ignoram o potencial de consumo de bens e serviços pelos pobres estão arriscando a longevidade de seus negócios. 

" Os depoimentos coletados deixam claros a aspiração e o interesse de indivíduos pertencentes às classes mais baixas (C, D e E) de consumirem com maior frequência produtos que vão além da base da pirâmide de necessidades proposta por Maslow (1987). Esse fato confirma o referencial teórico pautado neste trabalho, que busca reforçar a ideia de que as classes mais baixas não são atendidas apenas com itens básicos (PRAHALAD; HART, 2002).  Assim, cabe como alerta para as grandes empresas, salientar que não considerar classes mais baixas, principalmente as classes como alvo de suas ações empresariais, sobretudo no que se refere a produtoras, distribuidoras e comerciantes de bens de consumo, pode configurar o que se conhece como miopia de marketing, reduzindo potenciais retornos aos seus investimentos." (DA GLORIA CARDOSO FERREIRA & CHRISTOPOULOS, 2012)

E é na perspectiva do entendimento deste Programa como formador de agentes de consumo, que se pode prevê-lo exatamente na direção contraria da formação do cidadão autônomo que se deseja fomentar na concepção dessa política.

Bibliografia:

GLORIA CARDOSO FERREIRA DA, M., & CHRISTOPOULOS, T. P. (1 de Novembro de 2012). A Influência do Programa Bolsa Família sobre o Comportamento de Consumo da Baixa Renda. Administração Pública e Gestão Social. Viçosa: Journal of Public Administration & Social Management. doi:. doi:https://doi.org/10.21118/apgs.v4i2.104

MDS, M. d. (07 de 11 de 2016). O que é Bolsa Familia. Fonte: Bolsa Familia: http://mds.gov.br/assuntos/bolsa-familia/o-que-e

Rocha, M. A. (2015). Impacto do Programa Bolsa Família sobre os padrões de. Viçosa: Tese (doutorado) - Universidade Federal de Viçosa. Fonte: http://www.locus.ufv.br/bitstream/handle/123456789/6877/texto%20completo.pdf?sequence=1&isAllowed=y

 De Braços Abertos

  Programa De Braços Abertos2

Claro, não vamos discutir aqui aquilo que o atual Prefeito, João Dória, fez na Cracolândia, enviando a Tropa de Choque para enxotar a população local como cães sem dono, simpleesmente porque estamos tratando de Politicas Publicas e essa atitude nada tem a ver com Tema em questão.
Então, entrando no assunto; exemplo que pode caracterizar em concreto o enviesamento ou a nulidade do tema Comunidade nas ações dos governos, encontra-se no fato que aludi anteriormente para o Programa Bolsa Familia e o tratamento da Prefeitura de São Paulo com relação ao problema da população da Cracolândia.

E a faceta que gerou o interesse por especificar esse recorte da realidade paulistana, como elemento enriquecedor na reflexão sobre a importância deste olhar para o campo das Políticas Públicas, se encontra na simplicidade de demonstrar a desatenção do poder público com o assunto, tão somente pelo confronto entre a visão comunitária do prefeito sobre o problema e o tratamento individualizante adotado para a sua solução, como veremos a seguir.

Na entrevista concedida em 26/05/2014, pelo então Prefeito Fernando Haddad, ao economista e jornalista, Bruno Manso53, percebe-se muitos indicativos de uma possível Comunidade Cracolândia, mesmo que o administrador não explicite diretamente a palavra ou qualquer de suas derivações.

No levantamento sobre a população da Cracolândia, a Prefeitura identificou que cerca de 70% eram ex-presidiários. Pessoas que passaram anos encarcerados e que foram morar no centro ao deixar a prisão. Alguns se tornaram lideranças nas ruas da Luz. A partir desses dados, o prefeito e sua equipe compreenderam algo fundamental que muitos nunca vão entender.

A Cracolândia não é apenas um lugar, um território, mas é acima de tudo uma espécie de sociedade alternativa. Aqueles que passam a viver no local constroem uma nova identidade, formam outros laços, estabelecem regras e hierarquias. O crack é uma espécie de “soma”, droga que permite aos frequentadores daquele mundo suportar a nova rotina.

Esse ponto é fundamental. A Cracolândia resiste porque é o local do exílio para histórias mal vividas na cidade.  A vida anterior é tão pesada que a nova passa a ser aceita mesmo quando vivida em função do crack. É o caso dos ex-presidiários e de muitos moradores de rua. As prisões colocam nas ruas, diariamente, pessoas sem amigos e renegados pelos parentes. Não são aceitos pela sociedade, não conseguem novos empregos. A Cracolândia é a única que os recebe de braços abertos. Não é à toa que permanece a tantas investidas do poder público. Também não é à toa que o nome do programa, escolhido pelos frequentadores do local, foi De Braços Abertos. (Haddad , 5 descobertas de Haddad na cracolândia e a queda dos mitos. “A solução ao alcance das mãos”, diz ao blog, 2014)

Como se observa no diagnóstico de Fernando Haddad, expõem-se com muita nitidez os indícios de uma Comunidade Cracolândia, com os seus elementos de reconhecimento, identidade e pertencimento, conforme definições acadêmicas que esmiuçaremos em tópico especifico, inclusive, com a possibilidade de esses laços afetivos constituírem-se mais fortes e profundos do que aqueles estabelecidos pelas drogas. Mas, em que pese haver certa ciência sobre esse fato, tal dimensão social, como notamos regularmente, não aparece focada nas formulações primordiais dessa Política Pública.

Na apresentação sobre o Programa DBA[1], realizada pela Secretaria da Saúde, em 2015, denota-se que, apesar de os estudos demonstrarem indícios muito claros do afluxo das pessoas para esta região não apenas em busca de drogas, mas por uma vida comunitária, como se depreende da entrevista do prefeito, os eixos a partir de onde se constituiu todo Plano de ação são tratados sempre no nível do indivíduo. Tanto assim, que em nenhum momento se encontra a palavra Comunidade ou alguma derivação de seu radical referenciadas no texto do programa.

E esse direcionamento, conduzido para o resgate da cidadania a partir do particular, é o encaminhamento tradicional nas concepções das políticas em geral, até porque, não há por parte do poder Público a preocupação de produzir conhecimento sobre as origens, conservação ou sobre os efeitos causados pela desintegração comunitária nas pessoas.

Caso o elemento, Comunidade, se mostrasse como um dos fatores determinantes do problema, certamente, o retorno a uma vida comunitária ganharia centralidade para o desenvolvimento das ações na concepção dessa política.

Contudo, ao analisar os objetivos do plano constata-se prontamente a ausência dessa preocupação entre os formuladores da política, não apenas porque a palavra ou qualquer referência direta ou indireta inexista nesta apresentação, mas também pelo fato de expressar-se sempre no esteio de uma lógica individualizada.

Objetivo

  • Implantar ações intersetorias e integradas nas áreas de assistência social, direitos humanos, saúde e trabalho;
  • Construir a rede de serviços para atendimento aos usuários; sob a ótica da redução de danos, pela oferta de moradia e emprego;
  • Disponibilizar serviços de Atenção Integral a Saúde;
  • Fortalecer a rede social visando a inserção dessa população nas políticas públicas;
  • Estimular a participação e apoio da sociedade.

Nesses objetivos é perceptível que se disponibiliza serviços e oportunidades para que cada cidadão da Cracolândia os acesse a partir de um impulso de vontade individual e, caso tenha sucesso (abandonar ou controlar o vício, empregar-se e etc.…), espera-se um movimento de saída da localidade e de completa desvinculação com os antigos parceiros, ou seja, o que se busca é a desintegração total da Comunidade.

Dartiu Xavier da Silveira, psiquiatra e ex-coordenador do programa Braços Abertos, em entrevista ao site HuffPost Brasil[2] ao criticar a intervenção policialesca da prefeitura atual, reforça textualmente o problema social como a causa dessa situação e a idéia de oferecer condições ao sujeito na condição de individuo:

E qual foi a eficácia do programa Braços Abertos?

“No governo anterior, muitas pessoas só de terem um lugar para morar, um trabalho para ir, comida para se alimentar, elas pararam de usar drogas. A droga é consequência de uma miséria social. Ela não é causa desse problema. É isso que as pessoas precisam entender. Não é pegar a pessoa forçadamente e jogá-la em uma clínica para parar de usar droga e depois ela volta a ser miserável? Com essa estratégia você não resolve o problema de uso de drogas. Estamos vendo um retorno à estaca zero, sem dúvidas. É um retorno à política de dor e sofrimento, como era chamado na época do Kassab, e é muito parecida com o programa do governo, do [Geraldo] Alckmin, que é uma estratégia baseado na intervenção forçada”.

Existem outras experiências que comprovam a eficácia das políticas de redução de danos, como do Braços Abertos?

“Isso já foi testado no mundo inteiro. Esse tipo de intervenção forçada é de baixa eficácia. A eficácia está na associação de toda a questão psicossocial. Não adianta você artificialmente e forçosamente pedir que o indivíduo pare de usar drogas. Você tem que oferecer condições de ele melhorar de vida...”

E assim sendo, pode-se entender que mesmo quando se compromete com o Fortalecimento de uma Rede Social, uma expressão possível de açabarcar o entendimento de um olhar comunitário impregnando a concepção dos objetivos da Política Pública “ De braços abertos”;  o organismo (Rede Social) ali apresentado não tem referencia nos habitantes da Cracolândia como Comunidade, como um tecido a ser fortalecido, mas trata-se de um conjunto exterior de agentes de socialização que atuarão para inserir os elementos da população Cracolândia, nas Políticas Públicas.

Sendo assim, na lógica do que tenho explicitado nesse tópico, considero notável que o Plano não preveja qualquer amparo para remover esse grupo como uma comunidade ou reagrupar aqueles membros em recuperação dentro de uma concepção de reforma dessa própria comunidade com novos valores e objetivos.

E, seguindo nessa linha de raciocínio, não é difícil imaginar que, sem esse cuidado, desprovido da segurança comunitária, a almejada vida do indivíduo pós Cracolândia, seja outra que não a solidão num abrigo do município ou num quarto de hotel pago pelo programa da prefeitura, fadada ao retorno para onde se é recebido De Braços Abertos, para o reencontro da identidade, do reconhecimento e do sentimento de pertença, para a Comunidade, enfim.

Claro, mais consistente e de melhor resultado do que a simples e infrutífera ação policial promovida pela atual gestão, ainda assim, se depara esse tratamento individualizante, visto que se reconhece o avanço no estágio de recuperação provendo as condições para esse afastamento do núcleo, como se percebe na reportagem de Veja São Paulo[3], que acompanhou por um mês o trabalho de varrição de ruas e praças e entrou nos abrigos contratados pela gestão municipal.

Nas próximas semanas, a Guarda Civil Metropolitana deve fazer a remoção da “favelinha”. Além disso, nove famílias que atualmente vivem na Pensão Azul, um dos hotéis em situação mais periclitante, serão realocadas para outro endereço, na Freguesia do Ó. Outros moradores em melhor situação também serão encaminhados para estabelecimentos fora da Cracolândia. Até maio, a prefeitura pretende pôr na rua os trailers que levarão o De Braços Abertos a seis regiões da capital. Fazem parte dessa lista os bairros de Cidade Tiradentes, Santana, Vila Mariana, Santo Amaro, Jaguaré e M’Boi Mirim.

Como pode constatar essa peça jornalística expõe histórias daqueles que conseguiram dar um passo adiante e foram premiados com a vida longe da Cracolândia. E além dessa situação, o periódico mostra também o retrato do sucesso espelhado na ex-modelo que, com o suporte de programa de televisão, venceu o vício e sonha com o retorno para uma vida ativa, reinserida na sociedade, restituída como individuo com autonomia de consumo no mercado[4].   

E, não obstante a desconsideração da existência desse provável entrelaçamento comunitário nas relações dessa população, o projeto apenas resvala na ideia de atendê-la como um grupo, quando se dispõe a promoção de melhorias nas condições estruturais da região, buscando o beneficiamento da "Comunidade" Cracolândia, com a criação do Espaço Helvetia.

Nesse empreendimento a destinação de energia e recursos visou revitalizar a localidade degradada, reformando os espaços públicos e construindo equipamentos de segurança e lazer:

ESPACO HELVETIA

  • Requalificação do espaço público
  • Restabelecimento da iluminação em dez vias, com reposição da fiação
  • Reforma do Largo Sagrado Coração de Jesus
  • Construção de academia A Céu Aberto
  • Construção da Base Comunitária da Polícia Militar, que atua com a GCM
  • Iluminação das calçadas nos arredores do Santuário do Sagrado Coração de Jesus

Muito embora, o resultado dessa iniciativa beneficie utilitariamente também os moradores da Cracolândia, está claro que, neste conjunto de obras, nenhuma delas contempla qualquer identidade comunitária dessa população.

Não se encontra nem ao menos a instalação de banheiros químicos, muito menos a pretensão de construir um espaço mínimo para garantir o asseio pessoal desses habitantes ou edificação de espaço próprio para o tratamento do vício, sendo, portanto, a intervenção realizada em unidade móvel ou cadastramento para transporte para clinicas distantes.

O que se constata no projeto, são obras que, em verdade, requalificam essa parte da cidade como se os moradores da Cracolândia fossem simplesmente invisíveis, pois que, poderiam ser concebidas independentemente deles e em qualquer tempo. E aqui, cabe muito bem o registro, trata-se de empreendimentos listados num projeto que os tem como foco principal.

E assim se define a requalificação desse território em face dessa política objetivar, de fato, a retirada de todos esses habitantes da localidade para devolve-la ao legitimo dono que, no entendimento dos gestores, é a cidade. Nessa perspectiva, se considera licito o retorno da Helvetia, a condição de um lugarejo voltado para transeuntes ou residentes, que convergem ou se estabelecem nesta área, apenas pela facilitação de seus negócios particulares ou pela vida idiotizada em seus apartamentos, sem laços comunitários.

Creio ser desnecessário avaliar mais profundamente esses dados ou analisar outros aspectos dessa Política Pública, pois, os elementos apresentados já são suficientes para atingir o intento dessa discussão, que era demonstrar a despreocupação com o conceito de comunidade por parte dos agentes públicos, mesmo quando evidentes, como nesse caso.

Claro que, denominar a Cracolândia como Comunidade pode parecer exagero, porém, se assim o fiz, talvez exageradamente, ainda que tal denominação esteja baseada nos indícios aportados pelos estudos referenciados pelo Prefeito, essa forma categórica permitiu-me caracterizar mais esteticamente o problema. Até porque, nesse e em outros casos, como no próprio Bolsa família, se faz notória a carência de informações especificas para um tratamento mais adequado do termo, conforme exigido nesse tipo de discussão.

Por outro lado, ainda dentro dessa lógica, a argumentação em nada perde a sua validade, visto que, não obstante recorrer a um suporte de evidencias supostamente frágil; a razão de tal procedimento se enquadrada cabalmente no foco de meu debate, que é justamente o fato de essa condição social (Comunidade) não se encontrar devidamente abordada nas pesquisas dos governos, comprovando per si o desprezo por sua importância na elaboração das políticas públicas.

 

[1] Disponível em <(http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/upload/saude/DBAAGO2015.pdf)>

[2] Nessa entrevista, Xavier da Silveira comentou que as intervenções na Cracolândia, foram um retorno à estaca zero, desfazendo todo o vínculo que fora construído na gestão anterior. Disponivel em <http://www.huffpostbrasil.com/2017/05/24/acao-de-doria-na-cracolandia-e-midiatica-diz-ex-coordenador-d_a_22108146/>

[3] “Cracolândia: programa da prefeitura tem hotéis insalubres e viciados que recebem sem trabalhar” (Farias & Yarak, 2015)

[4] “A ex-modelo Loemy Marques, de 25 anos, completou quatro meses de internação em uma clínica em Sorocaba para tratamento contra o vício em crack…A nova fase deve durar até agosto... e agora sonha em ser psicóloga com especialização em dependência química”. (Farias & Yarak, 2015) 

 

Bibliografia:

da Silveira, D. X. (24 de Maio de 2017). Ação de Doria na Cracolândia é 'midiática', diz ex-coordenador do Braços Abertos. Vozes, Mulheres e Notícias - HuffPost Brasil. (B. Rosa, Entrevistador) Acesso em 30 de Maio de 2017, disponível em http://www.huffpostbrasil.com/2017/05/24/acao-de-doria-na-cracolandia-e-midiatica-diz-ex-coordenador-d_a_22108146/

Farias, A., & Yarak, A. (28 de Março de 2015). Cracolândia: programa da prefeitura tem hotéis insalubres e viciados que recebem sem trabalhar. (Abril, Ed.) Acesso em 30 de Maio de 2017, disponível em Veja São Paulo: http://vejasp.abril.com.br/cidades/cracolandia-sp-bracos-abertos/

Haddad , F. (2014 de Maio de 2014). 5 descobertas de Haddad na cracolândia e a queda dos mitos. “A solução ao alcance das mãos”, diz ao blog. Blog No Divã. (B. P. Manso, Entrevistador) Fonte: http://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/sp-no-diva/cinco-descobertas-de-haddad-na-cracolandia/

Haddad, F. (15 de 01 de 2017). Plano de Governo Haddad Prefeito 2012 - UM TEMPO NOVO PARA SÃO PAU-LO. São Paulo, São Paulo, Brasil. Fonte: https://jornalggn.com.br/sites/default/files/documentos/programa_de_governo_haddad.pdf

PMSP, S. d. (24 de 11 de 2016). De Braços Abertos. Fonte: Prefeitura de São Paulo:  http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/upload/saude/DBAAGO2015.pdf

 

 

 

 



O Estagio Perigoso do Golpe

2 de Abril de 2016, por BADI - 0sem comentários ainda
 
Nos estamos entrando numa parte perigosa desse processo golpista. Não digo isso pela passeata midiática, pois que, ela teve sua função no processo e, absolutamente nada representa, alem de uma peça na engrenagem. De modo que, do meu ponto de vista, cumpriu apenas um ritual, já estabelecido de ante mão,muito longe da espontaneidade que, por questões estratégicas deve-se a ela imputar. E muito menos tem a importância de força motriz de qualquer processo, ate porque nenhuma proposta se encontra ali elaborada e também nenhuma ligação social ou objetiva ou de ideal que a mantenha perene. Portanto, trata-se de massa amorfa que se desfaz com o click, igual a como se trata um programa submetido ao seletor de canais de uma tv.
Mas, o perigo encontra-se num elemento que ainda não esta no jogo.
A politica é uma disputa por corações e mentes. Guarde isso.
Ha anos tenho alertado sobre o discurso que propunha o abandono da politica. O advento das redes sociais, desse novo meio tecnológico, que é a internet, que deu vez a uma Politica, Apolítica. Uma ideologia, sem ideologia. Um lado, sem lado. Um mundo de classes, sem classes. Um mundo de elites, sem explorados. Uma farsa, enfim.
No discurso fantástico, sonhava-se com a possibilidade de viver esse mundo, já estabelecido, apenas o alterando pelo consenso do Bem, numa reunião entre homens de vontades boas e comuns.
Imaginavam poder viver o mundo sem conflitos. Um mundo técnico e razoável que se imporia sobre o sistema de injustiça, apenas pela simples vontade de mudança e por ser certo, o outro mundo, o bom.
O Erro da direita foi exatamente buscar apropriar-se desse discurso.
Esse espectro da sociedade não percebeu mas, nesse modelo, perdeu complemente o protagonismo. Houve uma inversão dos valores. Como ser um Politico, num mundo Apolítico? Como ter um lado, num mundo sem lados?
Um exemplo marcante dessa alteração de papeis, encontra-se no fato de políticos da direita, principalmente, diariamente, subirem a tribuna e discursarem sobre a elaboração feita pelo editor no jornal da manhã. No fundo, suas palavras não são mais suas e suas credibilidades dependem da sintonia de seu discurso com aquilo dito pela tv na noite anterior. Ora, é fato notório que antigamente dava-se exatamente o contrario. Os jornais repercutiam a posição do politico. Não havia como pautar um Jânio Quadros, um Carlos Lacerda, apesar de jornalista, um Tancredo Neves ou um Juscelino Kubsticheck. Eles davam o tom da Democracia ou do Golpe.
Tambem sempre alertei que esse tal mundo, tão sonhado nesse tipo de proposta insossa, estava caracterizado em algumas instituições: Na igreja, nas forças armadas e no Judiciário. Estavam la os elementos, sem ideologia (politica), sem partido, técnicos, bons, buscando sempre o Bem da sociedade, porque lhes era a essência do existir. Bem, eu creio que isso explica as vaias sofridas por Alckimin e Aecio Neves na passeada do dia 13 e sua expulsão do local exigida por aqueles de quem esperavam afagos e aplausos. Perceberam tardiamente que não são os condutores do Processo e, pelo contrario, são reféns dele. Alias, muito mais reféns do que o PT, Lula ou Dilma. Para esmaga-los basta uma manchete. Resta portanto, analisar as demais instituições que podem ocupar esse espaço. A igreja enveredou pelo caminho da institucionalidade - politica. Embrenhou-se por essa teia apoderando-se de partidos. Nesse aspecto, sempre alertei tambem que, nessa caminhada, a igreja torna-se uma instituição politica e deixa de ser uma opção religiosa. Ha esse erro contido nessa estrategia, pois, a igreja, citada aqui de forma genérica, se desfaz como instituição religiosa e rapidamente se vê ordenada e orientada como um Partido. Pode-se perceber claramente essa metamorfose nessas igrejas protestantes, que já se esfacelam em diversas vertentes, submetidas a logica da disputa de votos. Então, quando completamente caracterizadas nesse espectro, serão reconhecidas na mesma condição da Politica, como já hoje ocorre com muitos pastores. Nesse ponto, destaco as vaias para Malafaia durante seu discurso entre os seus supostos correligionários.
O Exercito guarda certa experiencia em ocupar os espaço da politica. Por outro lado, essa mesma experiencia trouxe-lhe a desventura de perder a hegemonia ideológica de poder, que sustentava desde o tempo da proclamação da republica. Os anos vividos na Ditadura abriu fissuras em seu comando que titubeia muito mais para a neutralidade do que para o golpe. É quase certo que somente entrara na aventura novamente se o fato estiver consumado. Se portara no papel de Garante do Poder a quem o levar.
O judiciário vem dando mostras de maior protagonismo, contudo, não tem experiencia para o comando. Sendo um poder fechado, enclausurado, respirando apenas a sua própria rotina e voltado tão somente para o seu próprio interesse, como é a essência da burocracia, pela qual se guia integralmente, desconhece qualquer outro modo de vida, de pensar, de saber, de amar. Portanto, não se revela um poder com capacidade de ocupar por longo período o espaço da politica.
Então, esse golpe colocado em marcha sera preconizado pela Politica. Serão os Politico, com ideologia e lado, quem darão o golpe. Eles o farão manobrando aqueles sem politica e sem lado que as redes sociais trouxeram para o jogo. Contudo, o estagio perigoso esta em saber quem são os políticos que manobrarão a massa amorfa. Quem convencera essa gente de ser o Apolítico, Guerreiro Salvador, ungido por Deus e defensor da Lei, da moral e dos bons costumes.
Esse é um problema que a direita ainda não resolveu pelo que se viu na reunião midiática de domingo. O nosso Hitler ainda não apareceu para empolgar as massas e dar-lhes consistência.
Candidatos despontam no poder Judiciário. Primeiro, o estabanado Joaquim Barbosa - O furioso. E, agora, Sergio La Fajuta Moro, um Juiz bem mais midiático, desde o cabelinho repartido, terninho engomado, ate o sapato lustroso. Mas, tanto um quanto outro, burocratas de alta estirpe, certamente, carentes de verve politica para construir pontes e aliados podem servir para o Golpe, mas nunca para administra-lo depois.
Contudo, a politica é uma disputa de corações e mentes.
Muita gente, quando observa uma massa de pessoas marchando na rua, logo a identifica com o Povo. E é neste ponto que entramos num estagio perigoso do Golpe.
Ha essa primeira constatação. Politicamente, os corações e mentes ainda estão em disputa aberta. Mesmo entre aqueles que acompanham a televisão para saber qual sera o dia para fazer um selfie na rua. E muito mais entre o Povo verdadeiro, que os acompanha pela TV aberta, esperando o jogo que foi adiado para que o manifestante possa fazer seu passeio sem perder nenhum lance.
O Perigo esta no povo. Na historia do Brasil, a rigor, o povo nunca participou verdadeiramente do poder. Tudo foi sempre feito num acordo de elites e, mais recentemente, se introduziu um novo personagem, um representante mais popular, ampliando o espectro do acordo. Essa representação, nunca foi alem da mediação. E pode-se afirmar, uma mediação moderada, apesar do incomodo daqueles que sempre sentaram a mesa para desfrutar de tudo, dando ares de coxa suculenta a unha do pé da galinha que tiverem de ceder num prato, com garfo, faca e guardanapo, quando o certo seria deixarem as migalhas caírem no chão, por descuido.
Mas, é necessário atentar-se para o fato de que, muito mais, bem mais, do que a unha do pé da galinha, ou faca e o garfo, a massa amorfa se move histrionicamente mesmo, é pela proximidade do povo. Na verdade nua e crua do coração e da mente, não lhes afeta a unha do pé da galinha, nenhuma falta lhes faz, ate porque, outras vezes, por descuido, deixaram cair para fora de seus pratos, pedaços mais suculentos do bife e nem conta se deram do desperdício. O Problema esta na cor, no sexo, na opção sexual, na religião, no mal cheiro desse mundo que fede em seu nariz prenunciando um cadáver de seu modelo de sociedade, de sua ideologia. Esse é o real problema.
O Problema é o Povo. É imprevisível saber se o povo vai querer fazer o seu próprio destino dessa vez. E muito mais desconhecido ainda se, ao decidir entrar no jogo, o fara tal qual a massa amorfa que lhe aponta caminhos de ódio, violência e desprezo pela politica.
 

 



BRASIL - ZONA NORTE DE SÃO PAULO: MEIO SÉCULO E O RETRATO DE DORIAN GRAY AINDA ESTÁ SOB O MANTO DA HIPOCRISIA

26 de Abril de 2014, por BADI

 

Quando a Argentina se olhou no espelho,

a imagem refletida não foi nada bonita.
Marcelo Piñeyro 

Cineasta argentino que aborda em sua obra os anos de chumbo de seu país.

O Brasil ainda não se olhou no espelho. E feito um Dorian Gray hedonista ainda tenta manter sua beleza intacta, buscando esconder o quadro cheio dos horrores de seu passado sob o manto das instituições democráticas de seu presente.

Todos os males estão lá, na Lei de anistia reafirmada pelo STF, anistiando torturadores; nos documentos secretos, escondendo as atrocidades dos agentes do estado contra o povo, confinados na legalidade sutil do carimbo de Sigilo eterno.

Todos os males estão lá, ocultados nos quartos escuros das sinistras mansões Dorianas que modernamente se transvestem em Palacetes e Delegacias do judiciário, suntuosos prédios de Ministérios e nos quartéis de fortalezas militares ultrapassadas. E tal qual o retrato também vertem sangue e envelhecem enrugando-se pelo insensível Gray, pelo insensível Brilhante, longe dos olhos e dos corações brasileiros. 

O Brasil é feio?  Não! O Brasil ainda não se convenceu de que, ao contrário do personagem de Wilde, o segredo de seu encanto está exatamente na retirada do lençol que encobre suas entranhas e não o deixa seguir adiante, enfrentando seus medos, aprendendo com seus erros e reconhecendo seus verdadeiros heróis, aqueles que num tempo sombrio corajosamente marcharam na cadência de um hino que clamava por ficar a Pátria livre ou morrer por ela.

 O Brasil começa a jogar luz sobre o retrato e a mirar o espelho com a instalação da Comissão Nacional da Verdade.

Essa Comissão foi criada pela Lei 12528/2011 e instituída em 16 de maio de 2012, com a finalidade de apurar graves violações de Direitos Humanos ocorridas entre 18 de setembro de 1946 e 5 de outubro de 1988.

No Estado de São Paulo também se instituiu a Comissão da Verdade estadual com o objetivo de promover a apuração e o esclarecimento público das graves violações de direitos humanos e agressões aos direitos da cidadania praticadas no período de 1964 a 1985.

 A Zona Norte da cidade de São Paulo é uma região altamente militarizada que abriga o cemitério de Perus, a famosa Vala de Perus. Esse território, portanto, tem repercussão na história e no paradeiro de vários presos políticos, desaparecidos nas mãos da ditadura. Também é uma região que atualmente vive a cultura da violência oficial contra a população mais pobre de sua comunidade. Um vício gestado nos porões dos órgãos de repressão na época do militarismo.

Nesse terreno nebuloso foi onde o Motoboy, Eduardo Luiz Pinheiros, morreu com traumatismo craniano e hemorragia três horas após ser abordado por policiais militares e levado para a 1ª Companhia do 9º Batalhão, na Casa Verde. E onde o adolescente, Douglas Rodrigues, de 17 anos, foi morto com um tiro no peito disparado por policial da Força Tática, quando passeava com o irmão de 13 anos no Bairro do Jaçanã.

Assim perdem-se centenas de vidas e o retrato fica mais horroroso dia após dia.

Lembrar e debater o 31 de Março, desvendar o Regime Ditatorial, dar ciência aos mais jovens de que, quem amou seu País jamais o deixou; é garantir um futuro de Paz, de respeito aos direitos humanos e de cidadania plena. Portanto, ao fazer a reflexão desse tema em 2014, meio século depois dessa verdadeira diáspora brasileira, cada um de nós estará colaborando para pintar um quadro eloquente da beleza desse esplendoroso Brasil, onde o Sol da liberdade nasce para todos, todos os dias e assim, a estaremos ssegurando que a aurora de nossa democracia jamais seja impedida de brilhar com seus raios fulgidos novamente.