Quando a Argentina se olhou no espelho,

a imagem refletida não foi nada bonita.
Marcelo Piñeyro 

Cineasta argentino que aborda em sua obra os anos de chumbo de seu país.

O Brasil ainda não se olhou no espelho. E feito um Dorian Gray hedonista ainda tenta manter sua beleza intacta, buscando esconder o quadro cheio dos horrores de seu passado sob o manto das instituições democráticas de seu presente.

Todos os males estão lá, na Lei de anistia reafirmada pelo STF, anistiando torturadores; nos documentos secretos, escondendo as atrocidades dos agentes do estado contra o povo, confinados na legalidade sutil do carimbo de Sigilo eterno.

Todos os males estão lá, ocultados nos quartos escuros das sinistras mansões Dorianas que modernamente se transvestem em Palacetes e Delegacias do judiciário, suntuosos prédios de Ministérios e nos quartéis de fortalezas militares ultrapassadas. E tal qual o retrato também vertem sangue e envelhecem enrugando-se pelo insensível Gray, pelo insensível Brilhante, longe dos olhos e dos corações brasileiros. 

O Brasil é feio?  Não! O Brasil ainda não se convenceu de que, ao contrário do personagem de Wilde, o segredo de seu encanto está exatamente na retirada do lençol que encobre suas entranhas e não o deixa seguir adiante, enfrentando seus medos, aprendendo com seus erros e reconhecendo seus verdadeiros heróis, aqueles que num tempo sombrio corajosamente marcharam na cadência de um hino que clamava por ficar a Pátria livre ou morrer por ela.

 O Brasil começa a jogar luz sobre o retrato e a mirar o espelho com a instalação da Comissão Nacional da Verdade.

Essa Comissão foi criada pela Lei 12528/2011 e instituída em 16 de maio de 2012, com a finalidade de apurar graves violações de Direitos Humanos ocorridas entre 18 de setembro de 1946 e 5 de outubro de 1988.

No Estado de São Paulo também se instituiu a Comissão da Verdade estadual com o objetivo de promover a apuração e o esclarecimento público das graves violações de direitos humanos e agressões aos direitos da cidadania praticadas no período de 1964 a 1985.

 A Zona Norte da cidade de São Paulo é uma região altamente militarizada que abriga o cemitério de Perus, a famosa Vala de Perus. Esse território, portanto, tem repercussão na história e no paradeiro de vários presos políticos, desaparecidos nas mãos da ditadura. Também é uma região que atualmente vive a cultura da violência oficial contra a população mais pobre de sua comunidade. Um vício gestado nos porões dos órgãos de repressão na época do militarismo.

Nesse terreno nebuloso foi onde o Motoboy, Eduardo Luiz Pinheiros, morreu com traumatismo craniano e hemorragia três horas após ser abordado por policiais militares e levado para a 1ª Companhia do 9º Batalhão, na Casa Verde. E onde o adolescente, Douglas Rodrigues, de 17 anos, foi morto com um tiro no peito disparado por policial da Força Tática, quando passeava com o irmão de 13 anos no Bairro do Jaçanã.

Assim perdem-se centenas de vidas e o retrato fica mais horroroso dia após dia.

Lembrar e debater o 31 de Março, desvendar o Regime Ditatorial, dar ciência aos mais jovens de que, quem amou seu País jamais o deixou; é garantir um futuro de Paz, de respeito aos direitos humanos e de cidadania plena. Portanto, ao fazer a reflexão desse tema em 2014, meio século depois dessa verdadeira diáspora brasileira, cada um de nós estará colaborando para pintar um quadro eloquente da beleza desse esplendoroso Brasil, onde o Sol da liberdade nasce para todos, todos os dias e assim, a estaremos ssegurando que a aurora de nossa democracia jamais seja impedida de brilhar com seus raios fulgidos novamente.