Nos estamos entrando numa parte perigosa desse processo golpista. Não digo isso pela passeata midiática, pois que, ela teve sua função no processo e, absolutamente nada representa, alem de uma peça na engrenagem. De modo que, do meu ponto de vista, cumpriu apenas um ritual, já estabelecido de ante mão,muito longe da espontaneidade que, por questões estratégicas deve-se a ela imputar. E muito menos tem a importância de força motriz de qualquer processo, ate porque nenhuma proposta se encontra ali elaborada e também nenhuma ligação social ou objetiva ou de ideal que a mantenha perene. Portanto, trata-se de massa amorfa que se desfaz com o click, igual a como se trata um programa submetido ao seletor de canais de uma tv.
Mas, o perigo encontra-se num elemento que ainda não esta no jogo.
A politica é uma disputa por corações e mentes. Guarde isso.
Ha anos tenho alertado sobre o discurso que propunha o abandono da politica. O advento das redes sociais, desse novo meio tecnológico, que é a internet, que deu vez a uma Politica, Apolítica. Uma ideologia, sem ideologia. Um lado, sem lado. Um mundo de classes, sem classes. Um mundo de elites, sem explorados. Uma farsa, enfim.
No discurso fantástico, sonhava-se com a possibilidade de viver esse mundo, já estabelecido, apenas o alterando pelo consenso do Bem, numa reunião entre homens de vontades boas e comuns.
Imaginavam poder viver o mundo sem conflitos. Um mundo técnico e razoável que se imporia sobre o sistema de injustiça, apenas pela simples vontade de mudança e por ser certo, o outro mundo, o bom.
O Erro da direita foi exatamente buscar apropriar-se desse discurso.
Esse espectro da sociedade não percebeu mas, nesse modelo, perdeu complemente o protagonismo. Houve uma inversão dos valores. Como ser um Politico, num mundo Apolítico? Como ter um lado, num mundo sem lados?
Um exemplo marcante dessa alteração de papeis, encontra-se no fato de políticos da direita, principalmente, diariamente, subirem a tribuna e discursarem sobre a elaboração feita pelo editor no jornal da manhã. No fundo, suas palavras não são mais suas e suas credibilidades dependem da sintonia de seu discurso com aquilo dito pela tv na noite anterior. Ora, é fato notório que antigamente dava-se exatamente o contrario. Os jornais repercutiam a posição do politico. Não havia como pautar um Jânio Quadros, um Carlos Lacerda, apesar de jornalista, um Tancredo Neves ou um Juscelino Kubsticheck. Eles davam o tom da Democracia ou do Golpe.
Tambem sempre alertei que esse tal mundo, tão sonhado nesse tipo de proposta insossa, estava caracterizado em algumas instituições: Na igreja, nas forças armadas e no Judiciário. Estavam la os elementos, sem ideologia (politica), sem partido, técnicos, bons, buscando sempre o Bem da sociedade, porque lhes era a essência do existir. Bem, eu creio que isso explica as vaias sofridas por Alckimin e Aecio Neves na passeada do dia 13 e sua expulsão do local exigida por aqueles de quem esperavam afagos e aplausos. Perceberam tardiamente que não são os condutores do Processo e, pelo contrario, são reféns dele. Alias, muito mais reféns do que o PT, Lula ou Dilma. Para esmaga-los basta uma manchete. Resta portanto, analisar as demais instituições que podem ocupar esse espaço. A igreja enveredou pelo caminho da institucionalidade - politica. Embrenhou-se por essa teia apoderando-se de partidos. Nesse aspecto, sempre alertei tambem que, nessa caminhada, a igreja torna-se uma instituição politica e deixa de ser uma opção religiosa. Ha esse erro contido nessa estrategia, pois, a igreja, citada aqui de forma genérica, se desfaz como instituição religiosa e rapidamente se vê ordenada e orientada como um Partido. Pode-se perceber claramente essa metamorfose nessas igrejas protestantes, que já se esfacelam em diversas vertentes, submetidas a logica da disputa de votos. Então, quando completamente caracterizadas nesse espectro, serão reconhecidas na mesma condição da Politica, como já hoje ocorre com muitos pastores. Nesse ponto, destaco as vaias para Malafaia durante seu discurso entre os seus supostos correligionários.
O Exercito guarda certa experiencia em ocupar os espaço da politica. Por outro lado, essa mesma experiencia trouxe-lhe a desventura de perder a hegemonia ideológica de poder, que sustentava desde o tempo da proclamação da republica. Os anos vividos na Ditadura abriu fissuras em seu comando que titubeia muito mais para a neutralidade do que para o golpe. É quase certo que somente entrara na aventura novamente se o fato estiver consumado. Se portara no papel de Garante do Poder a quem o levar.
O judiciário vem dando mostras de maior protagonismo, contudo, não tem experiencia para o comando. Sendo um poder fechado, enclausurado, respirando apenas a sua própria rotina e voltado tão somente para o seu próprio interesse, como é a essência da burocracia, pela qual se guia integralmente, desconhece qualquer outro modo de vida, de pensar, de saber, de amar. Portanto, não se revela um poder com capacidade de ocupar por longo período o espaço da politica.
Então, esse golpe colocado em marcha sera preconizado pela Politica. Serão os Politico, com ideologia e lado, quem darão o golpe. Eles o farão manobrando aqueles sem politica e sem lado que as redes sociais trouxeram para o jogo. Contudo, o estagio perigoso esta em saber quem são os políticos que manobrarão a massa amorfa. Quem convencera essa gente de ser o Apolítico, Guerreiro Salvador, ungido por Deus e defensor da Lei, da moral e dos bons costumes.
Esse é um problema que a direita ainda não resolveu pelo que se viu na reunião midiática de domingo. O nosso Hitler ainda não apareceu para empolgar as massas e dar-lhes consistência.
Candidatos despontam no poder Judiciário. Primeiro, o estabanado Joaquim Barbosa - O furioso. E, agora, Sergio La Fajuta Moro, um Juiz bem mais midiático, desde o cabelinho repartido, terninho engomado, ate o sapato lustroso. Mas, tanto um quanto outro, burocratas de alta estirpe, certamente, carentes de verve politica para construir pontes e aliados podem servir para o Golpe, mas nunca para administra-lo depois.
Contudo, a politica é uma disputa de corações e mentes.
Muita gente, quando observa uma massa de pessoas marchando na rua, logo a identifica com o Povo. E é neste ponto que entramos num estagio perigoso do Golpe.
Ha essa primeira constatação. Politicamente, os corações e mentes ainda estão em disputa aberta. Mesmo entre aqueles que acompanham a televisão para saber qual sera o dia para fazer um selfie na rua. E muito mais entre o Povo verdadeiro, que os acompanha pela TV aberta, esperando o jogo que foi adiado para que o manifestante possa fazer seu passeio sem perder nenhum lance.
O Perigo esta no povo. Na historia do Brasil, a rigor, o povo nunca participou verdadeiramente do poder. Tudo foi sempre feito num acordo de elites e, mais recentemente, se introduziu um novo personagem, um representante mais popular, ampliando o espectro do acordo. Essa representação, nunca foi alem da mediação. E pode-se afirmar, uma mediação moderada, apesar do incomodo daqueles que sempre sentaram a mesa para desfrutar de tudo, dando ares de coxa suculenta a unha do pé da galinha que tiverem de ceder num prato, com garfo, faca e guardanapo, quando o certo seria deixarem as migalhas caírem no chão, por descuido.
Mas, é necessário atentar-se para o fato de que, muito mais, bem mais, do que a unha do pé da galinha, ou faca e o garfo, a massa amorfa se move histrionicamente mesmo, é pela proximidade do povo. Na verdade nua e crua do coração e da mente, não lhes afeta a unha do pé da galinha, nenhuma falta lhes faz, ate porque, outras vezes, por descuido, deixaram cair para fora de seus pratos, pedaços mais suculentos do bife e nem conta se deram do desperdício. O Problema esta na cor, no sexo, na opção sexual, na religião, no mal cheiro desse mundo que fede em seu nariz prenunciando um cadáver de seu modelo de sociedade, de sua ideologia. Esse é o real problema.
O Problema é o Povo. É imprevisível saber se o povo vai querer fazer o seu próprio destino dessa vez. E muito mais desconhecido ainda se, ao decidir entrar no jogo, o fara tal qual a massa amorfa que lhe aponta caminhos de ódio, violência e desprezo pela politica.