O gosto amargo do chocolate

2 de Outubro de 2015, por Evandro AndakuEm 1997 o economista canadense Michel Chossudovsky publicou o livro “A Globalização da Pobreza – Impactos das Reformas do FMI e do Banco Mundial” em que demonstrava que as grandes corporações transnacionais estavam transferindo suas produções para os países da periferia, e se tornando empresas meramente rentistas, com a cobrança de royalties garantidos com a exploração dos direitos de propriedade intelectual(marcas e patentes). A jornalista Naomi Klein, outra canadense, denunciou, no ano de 2000, em “Sem Logo, a tirania das marcas em um planeta vendido” a maneira como as grandes empresas tornaram a exploração das marcas e não a produção de bens a atividade lucrativa de nosso tempo. Para Chossudovsky “a produção não material subordina a produção material, o setor de serviços apropria-se do valor agregado ao produto manufaturado”. Para Klein, através do processo de branding, as empresas, guiadas por teóricos da administração dos anos 1980, entenderam que mais que produtos, era necessário produzir marcas fortes. Hoje, (02.10.2015) o jornal Le Monde traz uma reportagem sobre uma ação coletiva de consumidores protocolada na Justiça do Estado da Califórnia contra as empresas Nestlé, Mars e Hershey´s pela compra de cacau para seus chocolates produzido com trabalho escravo e infantil na Costa do Marfim (A matéria se encontra disponível no link abaixo reproduzido). Questionada pela agência de informações AWP sobre a ação, a Nestlé respondeu: “Le travail des enfants n´as pas sa place dans notre chaîne de création de valeur”. Ou, em tradução nossa, “O trabalho infantil não se dá em nossa cadeia de criação de valor”. Ou seja, a Nestlé, para se defender da acusação diz que não foi em sua cadeia de produção que se deu o trabalho infantil. E ressalta que sua cadeia de produção se restringe à criação de valor. Em outros termos, a Nestlé assume que não produz produtos, mas apenas produz valor. É o reconhecimento das teses de Chossudovsky e de Klein. Sua defesa é, portanto, covarde, porque tenta se eximir da responsabilidade de sua cadeia produtiva. E é hipócrita porque usa de artifício cínico para dizer que não é produto, mas meramente uma marca.

Link para a reportagem original: http://www.lemonde.fr/entreprises/article/2015/10/02/nestle-mars-et-hershey-s-vises-par-une-plainte-sur-la-traite-des-enfants_4781645_1656994.html