Na terceira aula vimos como a combinação da invenção do chamado "Science Citation Index" e o surgimento de editoras comerciais criou mercados inelasticos e o grande aumento de preços. Se por um lado as dificuldades para acessar informação científico aumentaram, houve um outro desenvolvimento do final do século 20 com um potencial equilibradora : a digitalização de dcoumentos e tecnologia de redes.

A digitalização de documentos e informação em geral começou após a segunda guerra mundial e ainda estamos sentindo os profundos efeitos na sociedade. Ainda estamos no "incunábulo"  da era digital. Isto quer dizer que a sociedade ainda está se adaptando à nova realidade e vai demorar mais para incorporar a nova maneira de pensar que digitilização de informação possibilita.

É interessante tentar enxergar paralelos entre o século 15 e a invenção da imprensa e a atual digitalização de informação. No século 15 livros eram visto como objetos bem estáveis e representavam a memória de uma cultura. Assim, os primeiros livros que foram feitos após a invenção da imprensa eram livros considerados "importantes" ou "grandes obras" como a bíblia. Mas na verade a nova tecnologia era bem adequada para obras de caráter menos duradouro. A forma particular de ficção que chamamos de Romance foi inventado com o Quixote no início do século 17. Durante pelo menos 200 anos, ficção era visto como um passatempo frívolo e meio escandaloso. Poderíamos fazer uma analogia com jogos de computador e videogame hoje em dia. Veja quanto tempo demora para uma cultura absorver e entender as possibilidades de uma nova tecnologia. Sempre demora mais e as mudanças são mais profundas do que conseguimos imaginar.

Nos anos 80 do século vinte surgiu computação pessoal. No presente contexto o que importa é que de repente virou possível para qualquer um fazer processamento de texto e editoração. O que era uma profissão hermético e especializada virou divertimento de massa. É uma revelação para qualquer um que já usou um programa de editoração de ver como a aparência do texto afeta a sua interpretação. Ao mesmo tempo, impressoras viraram muito baratas, democratizando ainda mais a distribuição de textos impressos.

Alguns pioneiros começam no final dos anos 80 experimentar com tecnologia de publicação pessoal para criar novos jornais
científicos. Nestas alturas era praticamente impossível começar um jornal convencional novo por causa dos altos custos iniciais. Veja a experiência do próprio Prof. Guédon que criou o que deve ser um dos primeiros jornais científicos online (um jornal de crítica literário, ainda por cima!). Começou com um simples espaço num servidor ftp onde colocou arquivos Word, WordPerfect e ASCII. As dificuldades para o seu público (pesquidores da área de ciências humanas!) eram enormes: os leitores precisavam aprender ftp, decodificar os arquivos, ter a versão do processador de texto apropriado, etc. etc. O formato da informação em forma digital é muito mais importante do que em forma impressa. Ironicamento o formato com menos dificuldades de transmissão e preservação era o ASCII.

A tecnologia de rede não estava parada e a revista começou usar outras tecnologias de rede como Gopher (desprezando por enquanto a Web, um competidor na época por usar um formato de documento muito limitado). Descobriram o erro quando a Universidade de Minnesota queria impor licenças sobre o uso do software gopher e tudo mundo começou usar a Web. Migraram então os documentos para HTML mas este formato, embora muito adequado para documentos digitais, estava evoluindo muito rápido. Como manter uma revista científica com a pretensão de funcionar como memória de uma comunidade quando é preciso atualizar o formato dos documentos anualmente?

Aqui entra a questão de preservação digital. Livros e material impresso se conserva relativamente bem (em circuntstâncias de "benign neglect" ou neglicência sem maldade). Mas informação digital precisa ser preservado *ativamente* porque as mídas físicas e formatos lógicos mudam tão rápidamente. Tem duas estratégicas básicas: a migração continuada para formatos novos e virtualização dos tocadores. Mas de um ponto de vista mais abrato é preciso o equivalente de monges: uma cultura em volta dos documentos que mantém eles vivos.

Apesar das dificuldades, o fato surpreendente é que foi possível criar uma revista sem as editoras tradicionais e que o acesso à revista foi muito ampliado pelo uso da tecnologia de rede.

Somente uma das muitas dificuldades era a questão de páginas. Como citar o número de página quando o formato não tem este conceito? Texto em forma digital não precisa ser organizado em forma de páginas mas este resquício da era da impressão continua muito vivo na nossa cultura (e na cultura acadêmica ainda mais).

Veja o caso de PDF (page description format), um formato que nega a sua vocação digital e insiste na tecnologia de páginas inventado no século 3 por Orígenes. Não é por acaso que a velha mídia e as velhas editoras - se são forçados pelo mercado
distribuir os seus produtos em forma digital - preferam usar o formato PDF. É o formato que está mais próxima ao mundo da impressão. É claro que não é somente uma questão de velha mídia contra nova mídia. Os próprios consumidores e público demanda tecnologia de transição. Segundo o autor do livro "Libraries of the Future" (1965) o livro tem ainda uma longa e próspero futuro porque o que importa não é tecnologia mas o interface e a página é um interface muito bom.

Na quinta aula veremos como as editoras, bibliotecas e pesquisadores reagiram às mudanças fundamentais do mundo digitalizado.