Na quarta aula vimos alguns dos efeitos de digitalização e tecnologia de rede sobre o universo de comunicação científica. Nesta aula veremos como bibliotecas, as editoras e pesquisadores reagiram a estas mudanças.

As Editoras contra as Bibliotecas

Em 1991 Reed-Elsevier entrou no mundo digital com uma experiência nova. TULIP era um sistema de distribuição de revistas por meio de discos óticos. As páginas eram disponibilizadas por meio de arquivos TIFF, um formato de imagens. Assim, as bibliotecas não podiam fazer o seu próprio índ/ice por exemplo e a única utilidade era imprimir as páginas. A restrição ainda mais importante porém era o L no acrônimo: em vez de comprar as revistas, as bibliotecas agora licenciaram as revistas. Em vez de legislação de direitos autorais (que, bem ou mal inda dá certas liberdades ao uso para fins educativos e científicos) agora temos legislação contratual.

O objetivo das editoras é claro: reconheçam as realidades do novo mundo digitalizado mas tentam mesmo assim limitar a re-distribuição, não dão acesso ao texto das revistas e restringem até a impressão dos artigos por causa do formato extremamente pesado (posteriormente PDF, um outro formato relativamente opaco, virou a maneira mais comum de distribuir documentos).

Para as bibliotecas a nova estratégica é perigosa:

  1. Obviamente é perigoso de não ser dono da sua coleção de revistas. O papel tradicional de preservação que bibliotecas sempre tiveram fica agora em mãos de empresas comerciciais com interesses de curto prazo.
  2. Um perigo mas sutil é que agora as bibliotecas tiveram que negociar contratos e licenças em vez de um simples compra. Do ponto de vista de gerência negociar um contrato é muito mais complicado.

É por causa deste último ponto (e o aumento desenfreado dos preços escritos na aula anterior) que surgiram os consórcios de bibliotecas para fazer frente contra as editoras. Como qualquer negociação, sempre uma boa idéia se juntar para fortalecer a sua posição de negociação. Guédon descreve o caso do consórcio de bibliotecas Canadenses. O CLA inicialmente teve alguns sucessos expressivas, conseguindo usar o seu poder de barganha contra o ISI-Thomson por exemplo. Mas na avaliação do Guédon, no final das contas as editoras mantiveram basicamente a sua posição de poder. Por causa de rachaduras na frente e preocupações por parte dos bibliotecários de aparecer "não cooperativos", as editoras ainda fazem basicamente o querem.

Uma exemplo é o chamado "grande negócio", a idéia das editoras de oferecer milhares de títulos para um preço somente um pouco maior do que as bibliotecas estavam pagando anteriormente. A final das contas isto é uma mau negócio porque não sobra dinheiro para as bibliotecas comprar revistas de editoras menores ou associações científicas e assim concentra ainda mais o controle da comunicação científica nas mãos das grandes editoras comerciais.

Pesquisadores contra as Editoras

Tendo visto as conseqüências da digitalização para as bibliotecas e a reação das editoras a pergunta surge: como os pesquisadores foram afetados e como reagiram? Alguns cientistas começaram usar as novas tecnologias imediatamente para disseminar os seus textos em escala global. Afinal das contas, visibilidade interesse muito para cientístas e a Web em particular ofereceu a possibilidade de visibilidade em escala global.

No iníco dos anos noventa surgiram algumas revistas científicas novas publicadas eletronicamente. Por causa desta experiência ficou claro para alguns que acesso unversal à literatura não tinha mais nenhum impedimento técnico ou econômico e que as editoras, em vez de ser aliados na "grande conversa científica" na verdade eram adversários querendo proteger o seu modelo de negócios a qualquer custo. Apesar do sentimento de liberação que as novas tecnologias proporcionaram tinha ainda uma grande frustração por depender das editoras e as suas revistas de grande "impacto" ("publish or perish").

É neste clima que o movimento de Acesso Aberto começa, por volta do ano 2000, com uma petição pedindo o acesso livre um ano após a data de publicação. Em retrospecto a petição foi ingênuo (as editoras simplesmente ignoraram) mas serviu para colocar a questão na mesa. Em dezembro de 2001, numa reunião patrocinado pelo Instituto da Sociedade Aberta do George Soros, um grupo de cientístas fizeram a declaração de Budapest, afirmando que a hora chegou para liberar acesso à literatura científica para todos.

Dois caminhos para Acesso Aberto

Desde o início do movimento AA há pelo menos duas visões de como se aproximar ao ideal de participação de todos às conversas científicas. Um caminho é adequar as revistas científicas às novas realidades da era digital. O outro caminho seria por meio de chamados repositórios*, onde os próprios autores depositam os seus trabalhos.

O caminho do aperfeiçoamento das revistas levou a revistas e editoras completamente novas como PLOS (tendo um modelo de negócios do tipo NGO) e também editoras comerciais como Hindawi (com modelo de negócio comercial). Até as editoras tradicionais tiveram que ceder e em 2008 da ordem de 30% permitam o depósito em repositórios por parte dos autores. Novas questões surgem: qual é a versão canônica do artigo? Se a versão canônica é a versão preparada pela editora, como citar uma
determinada página, se a versão canônica ainda está atrás dos muros das editoras?

Enquanto isso, a tecnologia dos repositórios ficou mais difundido. A partir de 2003 e 2004 as bibliotecas, ao exemplo dos repositórios especializados e pioneiros como Arxiv, começaram implementar repositórios institucionais. Era a volta do papel tradicional de bibliotecas de arquivamento do conhecimento. Mas o que aconteceu foi que para justificar os custos da gestão do sistema todo e qualquer produção das Universidades começou ser depositados nestes repositórios institucinais. Acoplado a interfaces de busca e navegação falhas, isto levou a uma diluição (do ponto do vista do pesquisador) do material "nobre". Já que o que um pesquisador quer e precisa é visibilidade, repositórios instituicionais perderam o sentido para ele.

Resumindo: o movimento para Acesso Aberto é uma das consequências surpreendentes da era de digitalização. Assim como a Imprensa mudou fundamentalmente a sociedade 500 anos atrás a digitalização vai mudar a nossa e o movimento de AA é um dos manifestações destas mudanças.