A crise bibliográfica

Vimos o crescimento no volume de comunicação científica no século 19 e o primeiro surgimento das editoras comercicias na segunda aula. Agora estamos no final do século 19 e a chamada segunda revolução industrial e cada vez mais revistas do tipo industrial e para profissionais. Assim como a Segunda Guerra Mundial é a guerra dos físicos, a Primeira Guerra Mundial é a dos químicos. Sobretudo após a Primeira Guerra todo mundo se dá conta que a circulação de conhecimento científico é de grande valor estratégico. Assim, os franceses tentam isolar cientistas alemães entre as guerras mundiais mas não conseguem impedir o fluxo de informações e o crescimento da ciência alemã.

Após a II Guerra Mundial o "GI bill" (todo veterano tem direito à educação superior) e a corrida científica na Guerra Fria levam a um rescimento de um fator 3 no número de faculdades e universidades americanas. A produção científica cresce igualmente e as revistas científicas não conseguem acompanhar o ritmo: tem tempos de espera de 1 até 3 anos até um manuscrito é publicado. Tem todo tipo de gargalo e o diálogo científico não ocorre mais via journais, mas via conferências, correspondência (de volta ao sistam postal!), re-prints, etc.

A quantidade de informações é tanto que fala-se da "crise bibliográfica" e possíveis soluções. Existem várias idéias: Wilhelm Ostwald e o seu "World Brain", O MeMex  de Vannevar Bush. São todos ambientes onde toda informação seria acessível num único "lugar". Mas uma ferramenta que realmente foi implementada e que terá uma influência decisiva na comunição científica a própria ciência é o "Science Citation Index" de Garfield.

Science Citation Index

A idéia é usar as citações (conexões entre artigos) para fazer sentido da literatura. Tradicionalmente organizava-se a literatura em categorias, disciplinas, etc. Com o crescimento da literatura as classificações teriam que ficar cada vez mais especializadas e assim, como um cientista podia acompanhar a literatura fora da área da sua especialização? Com um índice de citações um pesquisador podia achar pesquisa relacionado de uma maneira alternativa à simples categorias. Em vez de impor uma classificação de cima, as citações reflitam muito melhor quais cientistas e áreas são relacionados.

Mas nos anos 50 não existia a tecnologia para implementar a idéia e as pessoas não se interessaram muito até o Nobel de medician Joshua Lederburg  ajudou Garfield começar um projeto. Por necessidade, Garfield somente levou em conta o que considerou os jornais mais importantes. A lei de Bradford diz que a distribuição de artigos interessantes é uma lei de
potência: vai achar a grande maioria num conjunto relativamente pequena de jornais. Garfield se sentia assim justificado escolher uma fração dos jornais.

As escolhas do Garfield vão influênciar profundamente o mundo de comunicação científica: a necessidade prática virou realidade. Garfield cortou as revistas  e "ciência" em geral em dois pedaços: ciência de núcleo e o resto. Bibliotecas no mundo inteiro se sentiram obrigados pelos seus clientes de comprar os jornais de núcleo, os escolhidos pelo Garfield e o seu instituto e deixar a cauda longa da distribuição de lado.

Robert Maxwel e a mina de ouro

Nos anos 70 um outro fenômeno está ocorrendo. Robert Maxwell tinha se dado conta que o SCI de Garfield tinha criado um mercado "in-elastico": as bibliotecas precisavam comprar os jornais no SCI *independente* do preço. Maxwell comprou a pequena editora Pergamon Press e começou comprar pequenas jornais de associações. Mudou a língua de todas para inglês, mudou o título para algo do tipo "International Jornal of..." e, crucialmente, instituiu um novo tipo de revisão por pares melhor (mais transparente, dois revisores etc.). Com a melhoria da qualidade conseguiu colocar grande parte dos seus jornais no SCI e após uns anos podia começar aumentar os preços basicamente a vontade.

Esta mina de ouro foi logo descoberto também pelo Elsevier, Springer e as outras associações (APS, ACS, etc.) levando a um aumento de preço geral dos jornais.

O ciclo de conhecimento nestas alturas funciona assim:

  1. Dinheiro público financia pesquisa.
  2. Cientistas precisam ser viśiveis para progredir na carreira e fazem tudo para publicar nas melhores revistas.
  3. As melhores revistas e editoras exijam que os direitos autorais são *dados*, de graça (!), a elas.
  4. As editoras usa os cientistas para fazer revisão por pares, de novo de graça (!).
  5. As editoras gastam um pouco de dinheiro fazendo as revista.
  6. As editoras vendem revistas para as bibliotecas para o preço que querem.
  7. Dinheiro público é gasto comprar revistas.


O resultado é que as editoras levam 40% de lucro neste ciclo. Este é a máquina de dinheiro que Maxwell inventou.

Na quarta aula, veremos os primeiros efeitos da digitalização de documentos e tecnologia de redes.