O SERPRO e a validação de documentos digitais

11 de Outubro de 2019, por Filipe Saraiva's blog - 0sem comentários ainda

No rascunho do post anterior sobre os documentos digitais no Brasil acabei escrevendo bastante sobre o papel do SERPRO nesse processo – tanto que decidi separá-lo em um post próprio.

Com o lançamento do e-Título foi necessário para o TSE criar uma maneira de validar o documento digital para evitar fraudes. A tecnologia adotada foi o QR Code, que pode ser validado por outro celular também rodando o e-Título.

Tecnologia foi adotado com a Carteira Digital de Trânsito. O SERPRO, produtor do aplicativo, já tinha experiência pois fora o responsável por colocar QR Code na carteira de motorista convencional, impressa, a partir do projeto desenvolvido pela empresa chamado Lince.

Para a versão digital da carteira de motorista o SERPRO apenas aplicou esse projeto, agora renomeado como Vio, que serve tanto identificar essa tecnologia quanto é um aplicativo utilizado para a validação dos documentos. Outro diferencial em relação ao projeto anterior é que o SERPRO trabalha com um modelo de negócios onde ela vende a tecnologia a partir da geração de QR Codes para empresas em geral, não necessariamente públicas.

A partir de então, com o avanço do processo de criação de outros documentos digitais e a necessidade de validá-los, a tecnologia do SERPRO passou a ser utilizada em diferentes projetos. Por exemplo, a validação da carteira funcional dos servidores públicos federais é feita através do Vio, além do documento digital de documentação de carros e da placa veicular do Mercosul.

Projetos ainda em fase de implementação como a ID Estudantil e o Documento Nacional de Identificação também serão desenvolvidos pelo SERPRO e utilizarão o Vio.

Com a experiência acumulada não é estranho que o SERPRO possa avançar sobre a validação de mais documentos digitais, incluindo talvez o próprio e-Título. Inclusive agora, com o temeroso decreto da base de dados unificadas sobre os cidadãos, não resta dúvidas de que a empresa terá um papel a desempenhar nesse cenário.

Ter uma solução unificada de validação de documentos desenvolvida por uma empresa pública como o SERPRO é algo interessante, reduz burocracias, evita retrabalho, e torna o governo mais ágil. O problema é que a empresa é uma das cotadas no projeto de privatizações do governo federal.

Colocaríamos a validação de talvez todos os nossos documentos oficiais em uma empresa privada? Bem, não é de se admirar para quem quer privatizar até a Casa da Moeda.



Os documentos digitais (no plural) do Brasil

6 de Outubro de 2019, por Filipe Saraiva's blog - 0sem comentários ainda

Já faz algum tempo o Brasil está passando por um processo de digitalização dos documentos oficiais utilizados por pessoas físicas. Entretanto, o que antes se anunciava como uma possível convergência dos mais diferentes documentos para um documento único, que serviria para tudo, passou a acontecer a digitalização de cada documento específico através do desenvolvimento de aplicativos para plataformas de celular.

O primeiro desses aplicativos foi o e-Saúde, hoje rebatizado como Meu digiSUS. Nele é possível buscar nas proximidades pontos de atendimento, clínicas especializadas, maternidades, unidades da Farmácia Popular e outros, receber informações sobre campanhas de vacinação, doação de sangue e transplante de órgãos, agendar atendimentos, ver histórico de retirada de medicamentos, e mais. E além delas, o aplicativo também gera o cartão digital do SUS do usuário.

Em seguida, o primeiro documento de identificação formal que ganhou uma versão digital foi o Título de Eleitor, nomeado e-Título. Com ele é possível saber e se identificar em sua seção e zona eleitoral, além de emitir certidões de quitação com a justiça eleitoral e certidão criminal. O projeto desse documento fez o TSE mobilizar o país em grandes campanhas de renovação e cadastramento biométrico da digital dos cidadãos.

Pouco tempo depois a carteira de motorista recebeu uma versão digital desenvolvida pelo SERPRO e chamada Carteira Digital de Trânsito, que substitui a carteira convencional para todos os seus usos.

E não pára por aí: caso você seja um funcionário público federal há o aplicativo SIGEPE, que dá informações sobre vínculo empregatício, mensagens do governo, informações financeiras, férias, e também traz a carteira funcional digital do usuário.

Para aqueles que são trabalhadores de carteira assinada, há a Carteira de Trabalho Digital.

Já caso você seja estudante o governo prometeu lançar, em represália às entidades estudantis nacionais, a carteira estudantil digital chamada ID Estudantil, que servirá como documento de identificação digital de estudante – entretanto, há dúvidas se o projeto vingará.

E depois de todos esses documentos específicos, ainda há o resiliente projeto da Identidade Unificada que também pretende unir outros documentos – agora chamado de Documento Nacional de Identificação, que será, vejam, digital.

Os documentos digitais são muito práticos no dia a dia. Nunca fiz uso de algo muito sério com eles, mas já fui a shows, teatros, cinemas, votei e embarquei em avião utilizando-os. A opção de tê-los em forma de aplicativo de celular barateia o custo de implantação, mas por outro lado restringe o exercício da nossa cidadania para aqueles que tem acesso a esses dispositivos e também às suas plataformas – quem não tem celular ou utiliza algum sistema operacional diferente dos desenvolvidos pela Apple e Google ficam sem acesso aos documentos digitais.

Dado o panorama de documentos tão diferentes, cada um necessitando de um aplicativo específico para funcionar, só me leva a conclusão que além das versões digitais dos nossos documentos também criamos uma versão digital para nossa burocracia.

Mas, de qualquer forma, esse é um problema que a digitalização nunca iria resolver. Afinal, o digital é apenas um espelho do real.



Grupo de Estudos do Laboratório Amazônico de Estudos Sociotécnicos – UFPA

16 de Setembro de 2019, por Filipe Saraiva's blog - 0sem comentários ainda

Eu e o prof. Leonardo Cruz da Faculdade de Ciências Sociais estamos juntos trabalhando no desenvolvimento do Laboratório Amazônico de Estudos Sociotécnicos da UFPA.

Nossa proposta é realizar leituras e debates críticos sobre o tema da sociologia da tecnologia, produzir pesquisas teóricas e empíricas na região amazônica sobre as relações entre tecnologia e sociedade, e trabalhar com tecnologias livres em comunidades próximas a Belém.

No momento estamos com um grupo de estudos montado com cronograma de textos e filmes para trabalharmos e debatermos criticamente. Esse grupo será o embrião para a orientação de alunos de graduação e pós em temas como impacto da inteligência artificial, computação e guerra, cibernética, vigilantismo, capitalismo de plataforma, fake news, pirataria, software livre, e outros.

Aos interessados, nosso cronograma de estudos está disponível nesse link.

E para quem usa Telegram, pode acessar o grupo de discussão aqui.

Quaisquer dúvidas, só entrar em contato!



pelas ruas de Belém

22 de Agosto de 2019, por Filipe Saraiva's blog - 0sem comentários ainda

as vezes
pelas ruas de Belém
não sei se sou eu
ou minha mãe
quem está ali


Reduzindo a pilha

24 de Fevereiro de 2019, por Filipe Saraiva's blog - 0sem comentários ainda

Sou fã de quadrinhos desde criança. As primeiras revistas que ganhei foram na primeira metade dos anos 90, alguns Mickeys, Mônicas, Trapalhões e X-Men. Em 98 comecei a comprar X-Men, Fabulosos X-Men e Wolverine, até os primeiros números da famigerada X-Men Premium. Sem dinheiro, enveredei pelos mangás e histórias fechadas.

Quando a Panini começa a publicar as histórias de super heróis, deu-se início ao lançamento de materiais clássicos que tanto quis ler na adolescência. Grandes sagas dos mutantes, histórias fechadas da DC, e o carro chefe: várias revistas do selo Vertigo. Sandman, Hellblazer, Transmetropolitan, Preacher… a lista era imensa e ainda hoje cresce.

Nessa época já estava no mestrado, me sustentando com uma bolsa de estudos. Morando numa cidade de baixo custo, dividindo contas com a namorada e levando uma vida de pouco luxo, tinha dinheiro para comprar esses materiais.

O resultado é que minha capacidade de comprar quadrinhos superou em muito minha capacidade de lê-los. Penso que dois grupos de motivos levaram a essa situação: a quantidade de material sempre crescente junto com promoções que reduziam consideravelmente os preços, por um lado, e minha atenção mais voltada para a pós, colaborações com software livre e tratar a leitura quase como um ritual, de outro.

Esse último, penso, é o que mais prejudicou meu ritmo de leitura para essas obras. Esse ano iniciei uma mudança nesse hábito (que deve ser mais uma mania, na verdade) após participar do curso de escrita fantástica com o Fábio Fernandes. Em um momento, ele falou sobre como está sempre lendo alguma coisa independente de onde estiver, carregando um livro debaixo do braço, até que começou a descrever uma amiga que para ler precisava estar num lugar sem barulho, com ar puro, fazendo frio, com um café passado, uma lareira acesa e coisas do tipo. Mais ou menos por aí.

Me vi nesse personagem, apesar de não chegar a tanto. Decidi que começaria a ler tudo o que tenho acumulado e evitaria comprar mais quadrinhos enquanto não terminasse esses (ou, pelo menos, que lê-se boa parte).

Por conta disso me deparo com situações curiosas e também um tanto constrangedoras. Na foto acima está o Sandman Edição Definitiva volume 3, ainda no plástico. Quando essa edição foi lançada? Em 2012.

Sim, já fazem 7 anos e nunca nem tirei da embalagem. Quem dera fosse a única: tenho a coleção completa de Preacher, 9 edições, TODAS no plástico. Tenho a coleção completa em inglês de Mobile Suite Gundam Wing: The Origin, 12 edições, só lidas as 2 primeiras. Promethea com 2 edições todas ainda emplastificadas. Entre outras.

Não quer dizer que não lia nada, entretanto. Transmetropolitan devorava assim que chegava (inclusive, é minha série de quadrinhos favorita). O mesmo com Planetary e outros títulos. Recentemente terminei de ler Sala Imaculada, muito boa.

Lição que fica? “Só compre aquilo que consegue ler”? Acho que não. Talvez, tente não transformar o hábito da leitura em um mega ritual. Assim está melhor.

Mas afinal, quem vai atrás de lições em um blog?

PS.: já me perguntaram porque não doo meus livros. Simplesmente, não consigo. Sei que vivemos em tempos onde Marie Kondo luta contra a acumulação e diz que só 30 livros em casa basta, mas ter uma biblioteca é um símbolo especial para mim e que gosto de cultivar. Faço as pazes com minha consciência classe-média dizendo que tudo bem pois não acumulo roupas, nem eletrônicos, minha conta de energia é baixa e não tenho carro próprio. Deve servir pra dar uma equilibrada.