A blogosfera científica brasileira está há alguns dias num intenso debate sobre a queda no ritmo de produção de posts em praticamente todos os blogs que a compõem. Os principais questionamentos que surgiram foram “o que terá acontecido?” e “onde encontro ideias para blogar mais sobre ciência?”. O Gene Repórter tem um post com os primeiros atos dessa discussão e uma outra página com seus desdobramentos. No twitter é possível encontrar os diálogos sobre o tema a partir da tag #blogciencia.

Eu não sou um blogueiro de ciência (apesar de as vezes me arriscar no tema), e não sei se teria muito a contribuir com as principais perguntas levantadas. O que eu poderia dizer, baseado na minha experiência de manutenção deste blog (que já soma 6 anos de idade), é que há épocas em que você escreve mais, outras nem tanto, que é comum no início nos dedicarmos com mais afinco a alimentar um blog, mas que depois vamos diminuindo a quantidade de posts até chegar numa frequência mais condizente com as demais necessidades do nosso ritmo de vida em um dado momento.

Mas também deve ser levado em conta o tipo de blog que estamos tratando – e quando falo do tipo não estou me referindo ao tema do blog, e sim a sua proposta. Meu blog, apesar de não ser tão velho, bebe um pouco da ideia da primeira geração de blogs de servirem como “diário” virtual de seus autores. Entretanto, ao contrário de eu vir aqui escrever sobre meu dia-a-dia, escrevo sobre projetos que estou desenvolvendo, minha atuação em comunidades de software livre, minha opinião sobre determinados assuntos, etc. Nesse formato, apesar de ser sempre bom ter algo novo para seus leitores, não há uma pressão pela preparação contínua de notícias a serem escritas e disponibilizadas no blog.

Eu tenho a impressão que a ideia de uma “crise” dos blogs de ciência brasileiros, se ela existir, tem a ver mais com os blogs de formato jornalístico, responsáveis por criar e difundir notícias, que não estão necessariamente relacionadas com o dia-a-dia do autor do post enquanto pesquisador. Nesse formato há pressão pela produção de novidade, pela difusão, em grau muito maior do que no modelo diário. Acho que se os blogueiros estão buscando ideias sobre o que escrever, é porque a pressão por essa busca vem do modelo de blogs que eles criaram e geriram, em alguma medida mais próxima das redações de jornais onde há a obrigação diária de ter notícias a serem produzidas e divulgadas.

Entretanto, apesar de eu ter feito essa distinção entre blogs “diário” e “jornalístico”, é de comum acordo que os posts produzidos pelos autores de blogs diários tem informações que servem como notícia para o seu público. Ou seja, mesmo sendo um blog mais pessoal, onde o autor fala daquilo que desenvolve ou está envolvido, a informação produzida ali é de importância para a comunidade que comunga com o autor de um mesmo conjunto de interesses.

No mundo do software livre temos a prática de utilizarmos planets. Um planet é tanto um software (com várias implementações) quanto um conceito – ele agrega os feeds dos blogs de diversos membros de uma comunidade e replíca esses posts. Assim, membros de uma mesma comunidade produzem e fazem circular entre si informação criada muita vezes em blogs do tipo diário, mas que tem importância para aquele grupo.

Posso citar vários exemplos de planets: o dos desenvolvedores do kernel Linux; o da comunidade do KDE (onde sou desenvolvedor); do Gnome (com um belo layout); da comunidade de desenvolvedores de robôs ROS; o da comunidade de software livre do Piauí, que utiliza um plugin do WordPress. E há muitos mais, inclusive fora da área de tecnologia como esse sobre feminismo.

Não há nada que indique que a criação de um planet para os blogs brasileiros de ciência fará com que os blogueiros escrevam mais. Entretanto, há consequências que são interessantes – maior facilidade para seguir e encontrar blogs, maior circulação de posts entre os blogueiros, difusão mais rápidas de novas páginas, criação e fortalecimento de uma comunidade em torno do tema, e mais. Talvez isso ajude os escritores a terem mais ideias sobre o que escrever, mas não é nada garantido. Há também alguns problemas que devem ser equacionados, por exemplo quem seriam os responsáveis por definir que blog entra ou não no planet. Mas isso são questões contornáveis que a comunidade terá que decidir, caso ela siga por esse caminho.