Nesta entrevista, o sociólogo Sivamohan Valluvan (Universidade Warwick) discute algumas questões do seu recente livro The clamour of nationalism (Manchester University Press, 2019), que analisa o nacionalismo como força-chave dos movimentos sociais e políticos da modernidade. Além de matizar o entendimento do nacionalismo, conforme conjunturas e horizontes históricos, a discussão avança sobre os impasses das sociedades contemporâneas ao analisar, por exemplo, a musculatura do Estado nacional e de suas políticas de fronteiras diante das forças de desterritorialização do capital e das decorrentes pressões socioculturais e políticas ligadas à intensificação dos circuitos migratórios no mundo pós-colonial. Particularmente interessante é a emergência do nacionalismo contemporâneo a partir das fraturas no multiculturalismo, nos anos 2000, e da reconfiguração do campo das direitas nos anos 2010, com a construção de sujeitos normativos e com a definição do espaço nacional a partir do antagonismo cultural contra os de fora (outsiders). As aproximações e os distanciamentos entre populismo e nacionalismo também são bastante sugestivos, na medida em que sublinham ângulos e pontos de atenção para o debate contemporâneo nas ciências sociais. A entrevista foi conduzida por Luca Manucci, editor e pesquisador da Universidade de Zurique (Suíça).

O material foi originalmente publicado em outubro de 2019 no Political Observer on Populism (POP). A presente tradução foi autorizada pelo autor e pelo editor, a quem agradeço a participação no projeto do blog. A imagem do post vem de um ótimo muralista francês.

 

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POP: Você argumenta que a Europa atravessa um terceiro movimento nacionalista. Quais são os outros dois e quais são os elementos comuns a essas ondas nacionalistas?

Sivamohan Valluvan: Os dois exemplos que mencionei no livro são: primeiramente, o período de expressão do romantismo vinculado aos projetos de construção das nações no início do século XIX, culminando talvez na Primavera dos Povos de 1848; o segundo foi no começo do século XX, no período do mercantilismo protecionista, marcado pela instabilidade do capitalismo e pelo lusco-fusco das autoridades imperiais, causando estragos econômicos, o fascismo, duas guerras mundiais e o processo, que não é de todo desvinculado disso, de construção do contrato do Estado de bem-estar social.
Confesso que soa um pouco errática qualquer tentativa de uma tese histórica definitiva a respeito. Esses dois exemplos, contudo, são úteis para apresentar uma espécie de generalização histórica que ilustra o que eu entendo por nacionalismo. É importante destrinchar as práticas correntes, sob as quais as noções de nação são invocadas pelos mais diversos espectros políticos, daquilo que é entendido por nacionalismo. Em outras palavras, nacionalismo não é simplesmente a dominância da ideia de nação tal como ela aparece na construção da pertença política. Em vez disso, como uma lógica política básica, o nacionalismo diz respeito a exemplos históricos em que a comunidade política imaginada como uma nação é saturada de ansiedade em função das ameaças atribuídas às comunidades e às entidades interpretadas como de fora da nação. Em síntese, contrariamente ao que algumas pessoas afirmam para tentar nos convencer, o nacionalismo é dificilmente um apelo político benigno limitado à manifestação de solidariedade e ao sentimento de companheirismo. Pelo contrário, trata-se de um fenômeno cronicamente convulsionado pelos supostos perigos colocados pelos de fora da nação – é uma questão de ser convulsionado pelas patologias atribuídas à alteridade racial e/ou às forças/entidades externas (por exemplo, a União Europeia) contra as quais a nação encontra sua definição.[1]
Nesse sentido, penso primeiramente nos projetos europeus de construção nacional do período romântico, que selaram o esquema comunitário-individual central da modernidade. Vale lembrar que, idealmente, o romantismo é tão parte da modernidade quanto o iluminismo. De fato, o romantismo marca uma espécie de movimento anti-iluminista, opondo-se ao apelo frio e distante da chamada razão e à santidade abstrata do indivíduo. Contra isso, por meio da ideia de nação, o romantismo recupera uma ênfase sobre o espírito histórico, a pertença coletiva, as essências culturais e mesmo o “reestabelecimento do sagrado”.[2] Como acuradamente notou Arendt, via Edmund Burke, o desmascarador eminentemente conservador da arrogância revolucionária francesa, “o mundo não viu nada de sagrado na abstrata nudez de ser humano”. Aqui, também, é o momento histórico em que as “liberdades do homem”, supostamente defendidas pela modernidade iluminista, se tornaram, na prática, a liberdade da nação e de seu sujeito normativo/majoritário.

O segundo período frequentemente citado na literatura é o começo do século XX, com intenso protecionismo doméstico e uma crescente disputa pelos recursos coloniais. O nacionalismo deste período, impelido pela competição imperial e pela intensificação do antissemitismo em particular, é tipicamente considerado como uma resposta à crise capitalista – entendida a partir de alguns modelos analíticos talvez datados, já que a crise nasceu da tendência monopolista do capital e das tentativas das respectivas burguesias de salvaguardar seus próprios interesses (domésticos e coloniais). Sem dúvida há muito mais coisa em jogo, mas a premissa subjacente à interpretação desse período é uma dimensão econômica ligada aos imperativos capitalistas, ao passo que a versão romântica trata de um impulso mais cultural e ideacional.
A leitura integrada dos dois períodos permitiu que eu desenvolvesse uma definição operacional de nacionalismo como algo pertinente à política contemporânea. Assim, nossas concepções predominantes de comunidade política, se ainda estão vinculadas às noções românticas de nação e dos de fora – que são elementos necessariamente construídos em termos raciais e étnicos – e operam em um cenário de intensa crise capitalista, podem produzir momentos nacionalistas muito avivados. Em outras palavras, o momento que vivemos hoje.
Quero também reafirmar que minha categorização daqueles períodos históricos diz respeito, em um sentido um tanto provincial, aos nacionalismos desenvolvidos na Europa (e, mesmo assim, apenas na Europa Ocidental/Central, de maneira mais substantiva). Como alguém que ensina teoria pós-colonial e como alguém do Sri Lanka, seria errôneo, para não dizer arrogante, apresentar os dois momentos mencionados como, em alguma medida, conceitualmente abrangentes de todos os nacionalismos em outros lugares. Podemos pensar, por exemplo, nos diferentes movimentos nacionais de libertação e descolonização, tal como aparecem em diferentes regiões, ou podemos pensar nos projetos de Estado-nação desenvolvidos após a dissolução soviética. Como muitos reivindicam, é vital que tais histórias nacionalistas distintas tenham a autonomia analítica (ainda que crítica) que elas reivindicam.

 

POP: Hoje, quando pensamos em nacionalismo, olhamos para países como Hungria, Brasil e Estados Unidos, onde o nacionalismo é extremo e agressivo. Mas qual é o impacto de figuras da centro-direita moderada, como Cameron,[3] Merkel[4] e Sarkozy[5]? É possível dizer que essas figuras pavimentaram o caminho para a atual tendência nacionalista por meio da normalização do anti-multiculturalismo?

Sivamohan Valluvan: Fico animado com sua fala. Essas figuras e seus equivalentes em outros lugares foram de fato centrais; e é vital que o papel desempenhado por elas seja devidamente reconhecido para que não compreendamos mal as forças mais amplas que hoje sustentam a chegada ao poder do nacionalismo. Há o perigo de que o esvaziado centrista de hoje, agonizado diante da consolidação do nacionalismo, terceirize o mal-estar, de maneira conveniente e equivocada, a partidos da extrema-direita ou da nova direita. Esse subterfúgio absolve os atores políticos mais importantes e as culturas de mídia e de think tanks que incubaram o fechamento nacionalista. Essa ingenuidade também nos torna rigidamente fixados em apenas uma expressão extrema de violência nacionalista quando, de fato, ampla demagogia, violência de fronteira e recurso a concepções mais restritas de identidade nacional são incorporadas com muito mais eficiência dentro de um discurso político aparentemente mais polido e de “bom senso”.
Por exemplo, como você disse, o amplo giro retórico durante os anos 2000 contra o multiculturalismo (que não é imune a problematizações, mas por motivos anti-racistas) funcionou como uma procuração que permitiu a circulação de alarmes sobre minorias raciais e migrantes. Isso incluiu o medo tóxico em relação aos muçulmanos, como se o problema estivesse ligado à tese do “choque de civilizações” inicialmente propagada pelos neoconservadores e intensificada pela lógica de segurança na guinada da “guerra ao terror”. Incluiu também a formalização de um consenso a respeito da imigração como um mal maior. E incluiu a premissa emergente de que a “classe trabalhadora branca” havia sido negligenciada em meio ao favor do “politicamente correto” concedido às minorias. Enfim, incluiu a normalização de uma série de lugares comuns fundamentais do agora estado imanente do nacionalismo.
Nesse contexto, você está totalmente correto ao mencionar Cameron, Merkel e Sarkozy. Os pronunciamentos sincronizados a respeito da “morte do multiculturalismo”, feitos por esses políticos de destaque, dizem muito do expediente político sustentado por suas posições (as posições encampadas por Merkel mais tarde,[6] durante a atual “crise dos refugiados”, deve exigir uma leitura diferente e mais nuançada). Foi durante esse período que a ideia da “crise do multiculturalismo”,[7] ao lado de apostas oportunistas de uma política anti-União Europeia, tornou-se decisiva para a vantagem eleitoral de muitos partidos de centro-direita. No fundo, acho que as agendas neoliberais advogadas por esses partidos nunca gozaram do status hegemônico popular que eles nos faziam crer que tinham. Em vez disso, foi a capacidade de aproveitar uma política para os emergentes espíritos nacionalistas, animada pelos diversos demônios raciais, que melhor explicou a capacidade dos governos de centro-direita a ocupar os parlamentos da Europa Ocidental nos anos 2000 e 2010.
Também quero dizer que a distinção entre centro-direita e centro-esquerda, nesse contexto, é redundante. Para tomar um momento desanimadoramente risível como exemplo, vale mencionar que a solução oferecida por Hillary Clinton para conter o avanço da extrema-direita é simplesmente manter a política anti-imigração![8] Mais próximo do Reino Unido, as pessoas geralmente esquecem que toda a farsa envolvendo a integração nos governos Blair, apoiada por bajuladores como o EHRC liderado por Trevor Phillips e o Prospect editado por David Goodhart, estava na verdade normalizando uma premissa nacionalista grosseira. Era a premissa de que comunidades de minorias (não apenas muçulmanos) no interior da nação portavam uma cultura estranha prejudicial ao corpo político e, a menos que fossem reformadas por meio de uma “integração” coercitiva, ameaçavam desmanchar a coerência da nação. Também fica implícita, aqui, a alegação de que uma identidade nacional substituta, onde o habitante branco britânico é o sujeito padrão, deve ter primazia. A questão da integração/anti-multiculturalismo era, em outras palavras, a camada aparentemente civilizada de um pressuposto vital para a política nacionalista[9] – ou seja, o outro constitui o único problema com necessidade urgente de reparação, expurgo e/ou de precaução.
Seria negligência minha, em função de minha formação na Escandinávia, não mencionar os recentes eventos na Dinamarca[10] – que permanece como uma vanguarda em conferir a essas compulsões integracionistas a expressão institucional mais violenta. As recentes medidas pró-integração dinamarquesas, implementadas tranquilamente pela atual primeira-ministra de centro-esquerda, Mette Frederiksen, é um sinal angustiante dessa tendência – a chamada “lei dos guetos”[11] formalmente autoriza um código de justiça racialmente estruturado em duas medidas. Para uma projeção sombria e perturbadora dessas tendências distópicas em um futuro próximo, recomendo a leitura do premiado romance sueco de Johannes Anyuru, They will drown in their mother’s tears.[12]

 

POP: Muitos comentaristas vinculam o nacionalismo às crises econômicas, mas essa conexão é baseada no falso pressuposto de que a classe trabalhadora é exclusivamente branca. Se Trump e o brexit não são um fenômeno da “classe trabalhadora”, como eles podem ser melhor descritos e compreendidos?

Sivamohan Valluvan: Trata-se de uma importante correção vis-à-vis a essa cantilena dominante. Acho que o tema pode ser dividido em duas partes. A primeira faz referência ao lugar das explicações econômicas na compreensão das seduções nacionalistas. Em segundo lugar, a atual reabilitação da classe como um exemplo de nossa linguagem política, mas uma reabilitação que, tornando a classe desprovida de seu real conteúdo materialista e socioeconômico, substitui isso por um tratado apologético do direito branco.
Começando pela questão econômica, somos obrigados a revisitar o melhor do cânone marxista. Nação e nacionalismo são interpretados, no marxismo, como pontos de sustentação das contradições de classe terminais do capitalismo, particularmente durante períodos de crise ou de transformação aguda. É comumente dito que a forte ênfase nacionalista em uma unidade coerente coloca as divisões de classe, insuperáveis de outra maneira, em uma suspensão administrável. Se a luta de classes é a fratura fundamental da modernidade, então a nação é a reconciliação fundamental dessa fratura.
Contudo, essa importante intuição marxista foi menos feliz ao tentar mapear como o nacionalismo também opera para além dos termos da proverbial “falsa consciência”. Como afirmou Rabinbach[13], através do sempre utilizado Bloch, “para o marxismo, o problema é que a ideologia fascista não é simplesmente um instrumento de engano, mas o fragmento de um antagonismo antigo e romântico em relação ao capitalismo”, derivado das privações da vida contemporânea. E a inabilidade do marxismo para compreender essa situação, temo, conduz a uma identificação errônea do nacionalismo. Alguns “esquerdistas”, ao encontrar um nacionalismo que consegue pressionar certo frisson de classe populista anti-elite, anti-establishment e mesmo aparentemente anticapitalista, rapidamente exaltam a suposta autenticidade da classe trabalhadora.[14]
Esse fracasso, creio, permitiu que certo tipo de vocabulário de esquerda fosse caricaturado com tanto efeito: vemos hoje uma legião de comentaristas que são melhor descritos como pós-marxistas alegremente alinhados à linguagem do descontentamento da classe trabalhadora, fazendo o jogo do nativismo nacionalista.

E não é apenas a classe que está sendo descrita a partir de fora pelos representantes da elite, conforme o apelo populista, mas ela é empregada apenas como uma premissa para reprimir as supostas ameaças culturais e demográficas[15] enfrentadas pelas pessoas brancas. Isso não apenas nada tem a ver com a política materialista, como igualmente entende as pessoas não-brancas e os imigrantes inteiramente fora da questão de classe – o que, francamente, é um absurdo, já que eles constituem grande parcela do que entendemos por classe trabalhadora. Essa narrativa também falha ao reconhecer que uma vasta parcela do voto nacionalista, de fato, advém das classes médias baixas, aliadas, por sua vez, às ramificações mais ricas dos conservadores das províncias. Deveríamos perguntar a esses apologistas de esquerda: por que eles acham que uma política tão ancorada na sensibilidade de uma pequena burguesia little Englander[16] poderia, de algum modo, ser traduzida como constitutiva de uma rebelião da classe trabalhadora?
Enfim, não consigo pensar em nada mais inútil para a política de esquerda do que essa preguiçosa deferência aos direitos majoritários brancos, apesar de a esquerda continuar seduzida por essas questões. Outras pessoas, sem dúvida, documentaram o longo arco histórico que baliza essas tendências de uma maneira muito mais eficaz do que eu – os escritos recentes de Bhattacharyya, Shilliam e Virdee podem ser particularmente interessantes aos leitores.

 

POP: Fica a impressão de que, partidos nacionalistas chegando ou não ao poder, os discursos nacionalistas se tornaram mainstream e um “novo normal”[17], forçando os limites do que um partido mainstream “respeitável” pode dizer (por exemplo, o Partido Conservador absorveu muitos lugares comuns do discurso do UKIP)[18]. Quais processos permitiram que essas transformações ocorressem?

Sivamohan Valluvan: Este é um tema interessante que, surpreendentemente, não recebeu muita atenção da mídia até, claro, o espetacular racha no Partido Conservador nas últimas semanas. Muito foi dito a respeito da suposta ruptura do Partido Trabalhista de Corbyn e companhia. Mas, desconsiderando os círculos da mídia mais cínica e os figurões centristas que tentaram emplacar essa leitura, há muito está visível que a crise político-partidária mais crônica aflige os conservadores.
Mas, para que possamos entender essa consideração mais ampla a respeito dos conservadores, é importante revisitar a mudanças fundamentais que ocorreram, nos anos 1980, à luz do que foi teorizado por Stuart Hall como o “thatcherismo”. O que geralmente é entendido no Reino Unido como thatcherismo, com casos análogos pela Europa, era um audacioso programa de reformas pró-mercado advogado pelos que hoje chamamos de neoliberais. Mas Hall também observou que esse jogo com o mercado era autorizado por uma mudança dramática rumo a um arranjo que evocava a raça e a nação, seus sujeitos normativos pequeno burgueses e provincianos e as ameaças colocadas a eles – pela União Europeia, pela juventude negra, pelos imigrantes, pelos muçulmanos que formavam culturas paralelas e pelos déspotas estrangeiros que prejudicavam os interesses britânicos. Essas tendências naturalmente sempre foram proeminentes na direita, mas a análise de Hall e de seus colaboradores demonstrava que isso estava rapidamente se tornando um movimento contrário à própria direita (daí a cunhagem de termos hoje marcantes, como “populismo autoritário” e “ditadura parlamentar”).
Resumindo essa longa história, parece que o efeito a longo prazo era que a direita nacionalista se tornaria, com o tempo, o principal métier do partido. Hoje, inclusive, vemos aqueles que anteriormente se apresentavam como neoliberais evangélicos repentinamente agitando a retórica[19] de “fodam-se os negócios”[20], de grande efeito populista. Em outras palavras, a direita formalmente não se apresenta mais como uma fiadora confiável do que resta do capitalismo britânico (seja em sua forma pequeno-burguesa ou corporativa). Em vez disso, como um aparente pivô político, existe um nacionalismo à la brexit (em suas formas defensiva, autoritária e desastrosa) que organiza a direita[21].
Então, retomando sua pergunta, isso parece menos uma questão de o nacionalismo se tornar propriamente mainstream do que um novo mapa político em formação. O que entendemos pelo consenso político de partidos do establishment do período pós-guerra, hoje, sobrevive apenas de maneira residual – no que diz respeito à direita e ao centro. Para mim, esse é simplesmente o resultado de como a política de direita foi orientada durante um longo período.

 

POP: O novo nacionalismo é exclusivamente um fenômeno de direita? Ou ele atravessa todo o espectro político?

Sivamohan Valluvan: Embora a direita pareça dominar o nacionalismo contemporâneo, as formações ideológicas subjacentes a ele se baseiam em cortes que atravessam todo o espectro político – variando de fenômenos de esquerda e liberais a fenômenos conservadores e neoliberais. Reiterando: para mim, o nacionalismo é a base que explica uma ampla variedade de problemas econômicos, culturais e de segurança, construindo uma relação de sentido que sobredetermina a suposta culpabilização dos “de fora” e dos supostamente “estrangeiros”. Portanto, são múltiplas as vertentes ideológicas que abrangem o espectro “esquerda-liberal-direita” e organizam essa cacofonia multiplicadora de racionalidades, símbolos e afetos nacionalistas.
Talvez, aqui, haja dois ângulos que valham a pena enfatizar. Em primeiro lugar, essas diferentes tradições ideológicas implicam coisas diferentes para o nacionalismo e é por isso que acho proveitoso tratá-las separadamente. Então, para mencionar um exemplo interessante, algo que espero que as pessoas gostem no livro é minha tentativa de separar neoliberalismo de conservadorismo. Na minha interpretação, em registro neoliberal, o nacionalismo é forte, confiante, brilhante e economicista; ao passo que, em registro conservador, o nacionalismo implica uma ênfase cultural distinta, que é triste, resignada e grosseira.
Em segundo lugar, são as reivindicações de um nacionalismo de esquerda que tocam meu lado mais pessoal no livro. Isso não apenas constitui uma traição fundamental a qualquer compromisso antirracista e cosmopolita; como também argumento no livro, a esquerda oportunista não pode sequer esperar ganhar algo utilizando esses termos – já que a direita detém as melhores credenciais e a autoridade para triunfar nesse terreno.

 

POP: Você diz que, seguindo Hannah Arendt, o fascismo não é um imprevisto, mas o resultado de um processo em que o Estado existe para a nação. O nacionalismo torna-se, então, a lógica principal e mais tenaz da modernidade. Qual é o papel do Estado-nação na definição do nacionalismo contemporâneo?

Sivamohan Valluvan: Se você não se importar, gostaria de inverter a pergunta. De fato, eu discuto no livro os amplos processos pelos quais o Estado territorial precede a nação, mas, a partir daí, é a nação que “conquista” o Estado. Seria tedioso enfastiar os leitores com uma exegese histórica a respeito dessas circunstâncias (mas eu vivamente recomendaria The nationform: history and ideology, de Balibar[22], como um texto fundamental a respeito). Contudo, como também argumenta Arendt, o nacionalismo não é apenas um conjunto discursivo que, na melhor das hipóteses, nos “desvia” de questões socioeconômicas mais urgentes (e isso é o que muita gente de esquerda ainda costuma dizer). O nacionalismo, antes, é um apelo ativo para que o Estado faça certas coisas em relação aos outros e às fronteiras consideradas problemáticas.
Particularmente importante, aqui, é o endurecimento de “fronteira” desejado, demandado e efetivado pelo nacionalismo. Como muitas pessoas já disseram[23], a própria “crise dos refugiados” é, na verdade, uma crise humana produzida pelas fronteiras do Estado-nação. De modo similar, considere aqui o apelo pelo fim da circulação livre na Europa. O apelo pela “fronteira cotidiana”[24] (notoriamente consagrada nas políticas de “meio hostil” adotadas pelo Ministério do Interior britânico). O apelo por programas de integração mais punitivistas. O apelo por tarifas mais protecionistas. O apelo pela degradação de alguns ganhos legais, ainda que inadequados, referentes aos direitos das mulheres e das minorias. O apelo por atacar as facções traidoras que “sabotam”[25] a vontade da nação. E também o apelo por contornar o procedimento constitucional sempre que ele frustrar os anseios dos de estão por cima.
É importante lembrar isso. Caso contrário, o nacionalismo é visto apenas como um ardil que permite a popularidade da direita, sem que reconheçamos o programa de Estado muito tangível que ele é obrigado a desencadear e/ou intensificar.

 

POP: Para concluir, há muita confusão a respeito de dois conceitos muito debatidos: populismo e nacionalismo[26]. O nacionalismo contemporâneo é geralmente chamado de populismo nacionalista e você argumenta que, quando a política nacionalista campeia influência no mundo contemporâneo, ela é necessariamente populista. Contudo, populismo é um conceito que apenas parcialmente[27] compreende o nacionalismo, além de excedê-lo em função da existência de populismo de esquerda tanto na Europa quanto nas Américas. Não há o risco de criar uma confusão desnecessária quando vinculamos dois conceitos diferentes, tais como populismo e nacionalismo?

Sivamohan Valluvan: Você está correto ao entrever uma tensão não trabalhada no argumento do meu livro. Quero esclarecer que não sou de todo adverso à possibilidade dos populismos de esquerda. Muitos colegas altamente instruídos me impressionaram com os méritos de pensar a possibilidade populista para compreender o que a esquerda tem de melhor.
Mas eu gostaria de pedir algum cuidado aqui. O que me parece frustrante, e acho que você compreende bem, é que os nacionalismos xenoracistas de hoje são classificados por muitos pensadores simplesmente como populismo. Isso não ajuda, na medida em que oblitera as próprias asserções exclusionárias substantivas típicas do nacionalismo contemporâneo. Além disso, essa operação vê a política contemporânea simplesmente como uma espécie de força anti-elite enraizada em descontentamento vago, porém difuso.
O que eu também enfatizaria é que muito do que comumente é chamado de populismo, para mim, parece nacionalismo – dadas as similitudes de família entre o enfático apelo populista a “o povo”, por um lado, e o longo legado, por outro lado, da habilidade do nacionalismo em mediar o modo como intuitivamente entendemos tal apelo a “o povo”. Em outras palavras, o apelo ao povo, central no populismo, é solidamente circunscrito pelo chauvinismo paroquial nacionalista. E isso cria problemas para qualquer tentativa de política populista que não reflita esse entrelaçamento.
Também penso que o trabalho imaginativo requerido para repensar nossas concepções intuitivas de “comunidade política”, que atualmente remetem a quadros comunitários ligados à nação (e formas análogas de raça e etnicidade), requer um grau de complexidade e de sonho que não é facilmente reconciliado com a tendência do populismo para a simplificação.
Dito isso, permaneço aberto ao que o populismo possa significar, desde que entendido pela esquerda e em termos internacionalistas, cosmopolitas e ambientalistas. Além disso, é vital reconhecer que há sempre correntes em disputa na cultura popular e na sociabilidade cotidiana – e que desesperadamente precisamos de uma aposta política mais forte e um apego às correntes alternativas, que já percorrem o popular e o cotidiano, a fim de elaborar uma visão política diferente.

 

Tradução: Felipe Ziotti Narita

 

[1] https://www.patreon.com/posts/behead-those-who-29103421

[2] https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/13537110490900331

[3] https://www.nytimes.com/2011/02/06/world/europe/06britain.html

[4] https://www.theguardian.com/world/2010/oct/17/angela-merkel-german-multiculturalism-failed

[5] https://www.france24.com/en/20110210-multiculturalism-failed-immigration-sarkozy-live-broadcast-tf1-france-public-questions

[6] https://populismobserver.com/2015/09/30/zombies-in-fortress-europe-the-migrants-as-a-metaphor/

[7] https://www.amazon.co.uk/Crises-Multiculturalism-Racism-Neoliberal-Age/dp/1848135815

[8] https://www.theguardian.com/commentisfree/2018/nov/23/hillary-clinton-populism-europe-immigration

[9] https://www.lrb.co.uk/v41/n16/the-state-were-in/how-bad-can-it-get#meek

[10] https://www.theguardian.com/commentisfree/2018/jul/10/denmark-ghetto-laws-niqab-circumcision-islamophobic

[11] https://www.nytimes.com/2018/07/01/world/europe/denmark-immigrant-ghettos.html

[12] https://www.catranslation.org/shop/book/they-will-drown-in-their-mothers-tears/

[13] http://www.historicalmaterialism.org/blog/notes-late-fascism

[14] https://politicalquarterly.blog/2019/04/04/review-authentocrats-culture-politics-and-the-new-seriousness-by-joe-kennedy/

[15] https://www.theguardian.com/commentisfree/2019/sep/06/working-class-voters-culture-war-quality-of-life

[16] https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/09502386.2018.1546334

[17] https://populismobserver.com/2019/09/23/interview-34-populist-parties-are-the-new-normal/

[18] https://extremism.hypotheses.org/399

[19] https://www.theguardian.com/politics/2019/jun/30/jeremy-hunt-i-would-tell-bust-businesses-no-deal-brexit-was-worth-it

[20] https://www.ft.com/content/48d782da-890e-11e9-a028-86cea8523dc2

[21] https://www.theguardian.com/commentisfree/2019/sep/02/britain-brexit-chaos-nigel-farage-boris-johnson

[22] https://pdfs.semanticscholar.org/b7f0/80f74757a56adc317d7b1e3f8af1d9e0ba73.pdf

[23] https://www.versobooks.com/blogs/3665-a-logic-of-dehumanisation-gracie-mae-bradley

[24] https://journals.sagepub.com/doi/abs/10.1177/0038038517702599

[25] https://www.theguardian.com/media/2017/apr/19/crush-the-saboteurs-british-newspapers-react-to-general-election

[26] https://populismobserver.com/2019/07/16/interview-33-nationalism-and-populism-between-culture-and-economy/

[27] https://populismobserver.com/2018/04/30/populism-or-neo-nationalism/