No dia 12/12, em nosso último encontro do ciclo de seminários públicos de 2017 na USP, abordaremos Jonathan Crary - especialmente o conjunto de problemas trabalhado nos livros "Techniques of the observer" (1992) e "Suspensions of perception" (1999). Crary configura um importante quadro conceitual, pensando os processos de subjetivação de Foucault em diálogo com o campo do marxismo (especialmente Marx, W. Benjamin e Guy Debord), de modo que oferece uma ampla investigação sobre a gênese da modernidade, no século XIX, acompanhando as formas de descentramento do sujeito clássico e a emergência do observador moderno entrelaçadas às profundas transformações do período. Basicamente, para o autor, o tempo das massas urbanas e dos mecanismos de governo da população é também o momento de modernização da subjetividade.

Diversos problemas, então, são considerados a partir dessa "démarche" fundamental. O conjunto de transformações técnicas do período implica uma nova racioanlidade do mundo da vida, conformando novos tipos de posições do sujeito, de modo que a correspondência entre a produção de saberes sobre os sujeitos e as mudanças socioeconômicas (decorrentes, sobretudo, do arranque industrial nos centros do capitalismo) implicam práticas representacionais relacionadas ao nascimento de uma nova cultura visual articulada pelo espetáculo. A lanterna mágica, o cinema e a fotografia, ao passo que configuram novos campos e lógicas de visualidade (o problema da "Anschaulichkeit", da toria estética de Adorno, parece bastante caro a Crary), também significam uma ampla racionalização das formas de atenção e de percepção na modernidade capitalista. A rigor, as transformações são subjacentes a uma profunda reconfiguração das estruturas sociais, em contextos de disciplinarização das formas de trabalho e de organização dos critérios sociais da atenção no nascimento das sociedades industriais.

Crary desenvolve uma longa jornada teórica e temática, passando pelos ambientes urbanos da modernidade e por seus discursos, do "pointillisme" de Seurat a uma insólita leitura de Durkheim, da pedagogia de Herbart e dos experimentos fotográficos de Muybridge à "Lebensphilosophie" de Bergson. Enfim, na conjuntura em que o capital e sua reprodução dissolvem qualquer estabilidade nas formas de vida, o estético, a produção da atenção e os processos sociais são articulados a fim de demonstrar os intrincados nexos sociais que tecem a cultura moderna.

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