A partir do dia 14/11, nosso seminário sobre teoria social iniciará uma discussão (feita em duas partes) sobre Michel Foucault. Para nossos propósitos teóricos, em meio à vasta produção do filósofo/historiador francês, no ciclo de seminários de 2017 decidimos dedicar especial atenção ao Foucault do fim dos anos 1970. Nesse sentido, analisaremos, nesse primeiro momento, o conjunto de problemas ilustrados em "Il faut défendre la société" de 1976 ("Em defesa da sociedade", conforme a tradução brasileira).

No último seminário, debatendo a teoria de James Scott sobre a simplificação institucional do Estado moderno, discutimos a construção do Estado a partir de da institucionalização de uma "legibilidade" do espaço social, conformando "sistemas fechados" de interpretação e intervenção sobre a população e a sociedade. Com Foucault, analisaremos um contraste teórico fundamental em relação à abordagem de Scott: a possibilidade de fundamentar uma análise concreta de relações de poder pensadas para além do modelo jurídico da soberania e da institucionalização estatal. O poder, então, não é entendido como um direito original que pode ser concedido ou retirado (uma matriz de soberania), mas como formações de poder a partir de mecanismos e de relações de sujeição ("assujetissement") produzindo sujeitos e subjetividades (vale lembrar, aqui, os estudos de 1972-1975 dedicados à "sociedade punitiva", ao poder psiquiátrico, a uma história do direito penal, à insólita abordagem de "Les anormaux" etc.). Trata-se de uma análise sobre as tecnologias de poder em sua multiplicidade e especificidade, ou seja, uma investigação capaz de situá-las no entrecruzamento de práticas e de saberes por meio de uma analítica do poder - um deslocamento da centralização institucional do poder e sua legitimidade, como "efeitos de conjunto", para uma decomposição de sua capilaridade em técnicas de gestão e intervenção.

A questão de método (ou de tática, conforme o próprio autor sublinha) subjacente a essa "démarche" - a saber, o problema da genealogia desenhado por Foucault, pelo menos, desde a efetiva incorporação do vocabulário nietzschiano em 1971 - implica uma abordagem capaz de, por assi dizer, desubstancializar o entendimento do poder. Em vez de examiná-lo a partir de sua natureza ou de seus fundamentos, Foucault propõe uma materialidade capaz de apreender os poderes a partir de sua incorporação em processos que sujeitam corpos, desejos, comportamentos e sentimentos. Se o debate com Hobbes e a potência da multidão como conformadora de uma vontade única estruturada na soberania é fundamental, o deslocamento sugerido por Foucault é instigante, na medida em que destaca a produtividade dos "corpos periféricos e múltiplos" como constituídos por "efeitos do poder" (retomando, agora em chave analítica, a dinâmica das relações de sujeição).

Duas questões podem ser consideradas à luz das linhas gerais acima esboçadas. A primeira diz respeito às técnicas de sujeição e contenção ("contrainte"): se a analítica do poder está próxima dos corpos periféricos, as relações de poder não são aplicáveis sobre os indivíduos, mas transitam entre eles. O indivíduo e o processo de individualização são, antes, efeitos das relações de poder. A segunda consideração decorrente do empreendimento metodológico de Foucault diz respeito ao emprego e à manifestação de relações de força, produzindo uma gramática da guerra e do enfrentamento como o "afrontamento belicoso de forças". Afinal, decompondo as relações de poder em seus "mecanismos infinitesimais", a autonomização das redes de sujeição implica uma estrutura de operadores e mediações materiais capazes de mobilizar dispositivos ("dispositifs") de saber, afastando-se do "homem artificial" do "Leviatã", na medida em que Foucault posiciona sua abordagem fora do campo da soberania jurídica da instituição do Estado.

Tematizando o conjunto de dispositivos, técnicas e mediações, essa analítica da materialidade do poder conduzirá nossos seminários a outro conjunto de problemas: a gestão da população e o tema da governamentalidade moderna (temáticas que serão exploradas no próximo encontro). Os seminários são públicos e não há necessidade de inscrição. Todos(as) estão convidados(as)!

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