Em Julho de 2009 fui contratado como pesquisador (pós-doutor) na universidade de Carnegie Mellon em Pittsburgh, PA, USA. Apesar de estar trabalhando a pouco tempo gostaria de compartilhar algumas das minhas impressões sobre o processo de seleção de um pós-doutor aqui nos EUA. E também contar um pouco da vida de um pesquisador por aqui.

No Brasil posição de pós-doutorado ainda é uma posição temporária que normalmente não passa de 1 ano ou no máximo 2. O pós-doutor, não possui vículo empregatício com a universidade, mas é afiliado a ela. O grande problema é que por causa disso, o pós-doutor no Brasil não é considerado um membro do corpo doscente da universidade e perde as regalias como sala própria, possibilidade de dar aulas ou ser orientador de alunos de graduação, mestrado ou doutorado como qualquer outro professor.

No Japão são poucas as vagas de pós-doutorado na área de computação/engenharia. Normalmente um doutor sai da faculdade e consegue um emprego em uma empresa (a maioria das empresas possui setor de pesquisa) ou uma vaga de professor assistente. Contudo, para estrangeiros existem diversas vagas de pós-doutorado. Essa é uma das táticas utilizadas pelo governo Japonês para atrair pesquisadores de alto nivel e criar parcerias e novos projetos.

Nos EUA um pós-doutor é considerado um membro do corpo doscente tendo vículo empregatício com a universidade. A diferença é que o dinheiro para pagar o salário do pós-doutor vêm de fundos que não são da universidade (projetos de pesquisa, parceria com empresas, etc). Assim, um pós-doutor no EUA não é necessariamente uma posição temporária e dependendo do currículo do pesquisador a posição recebe nomes diferentes. Os níveis são os seguintes: (a) pós-doutor; (b) cientísta pesquisador; (c) cientísta pesquisador senior. Ou seja, para manter uma das posição mencionadas o pesquisador precisa estar sempre enviando projetos de pesquisa ou fazendo parceira com empresas, pois o salário depende disso.

Ser um pós-doutor aqui na Carnegie Mellon está sendo um privilégio para mim. O processo para conseguir a vaga foi super rigoroso. Primeiro foi a análise de currículo e recomendações. Graças a cartas de recomendação dos meus orientadores (Prof. Brandão, USP, e Prof. Mizoguchi, Osaka, JP) e um bom nível de publicações de qualidade (ainda bem que aqui no USA eles não usam o QUALIS) acabei sendo chamado para segunda fase. 

A segunda fase foi uma entrevista via Skype que durou mais ou menos 3 horas. O professor que me entrevistou apresentou o projeto no qual eu teria que trabalhar em detalhes!! E também fez diversas perguntas sobre a minha pesquisa de mestrado e doutorado. Nessa fase eu tive que convencer ele por A+B que eu era o melhor candidado e que meu background era perfeiro para a pesquisa que seria realizada (em Inteligência Artificial aplicada à Educação). 

A terceira fase foi uma entrevista pessoal onde o principal objetivo era verificar se o candidato conseguia achar as soluções para o projeto apresentado. Nessa fase, mostrar a forma de raciocínar foi fundamental. Copiando as palavras da vice-presidente do google Marissa Meyers: "what's important is not what Zeng knows, but how Zeng thinks" ... ou seja o importante não é mostrar o que você sabe, mas como você pensa. Segundo os pesquisadores que me avaliaram aqui na Carnegie Mellon: "We are sick of smart people! We don't want someone who knows everything, but we do want someone who can find solutions for the unknown. That's what research is about." ... Ou seja, para fazer pesquisa não adianta muito saber tudo o que esta escrito nos livros ou acertar 100% em uma prova, pois a solução para um problema não resolvido não está nos livros e sim na capacidade de inovar e achar novos caminhos que vão produzir novas soluções. Pra mim foi muita sorte eles terem este ponto de vista (no Brasil é ao contrário(?)), pois eu acho que meu cérebro é muito bom para achar novas soluções, mas terrível pra memorizar datas, nomes, etc ... acho que minha memória de longa duração não é das melhores Chorão

Estou apenas no inicio do projeto e eles já me pressionam bastante. Foi contratado para trabalhar em 1 projeto e, atualmente, já participo de reuniões de 3 projetos diferentes (apesar de terem alguma relação com meu projeto). O mais engraçado foi quando um dos professores que é o lider do projeto me disse: "Well ... this problem nobody could solve thus far, but it will be a good exercise for you to solve it, so you can learn our approach and tools.  And plus, if you can solve this one, you can probably solve any other problem in our list". Hahahaha ... Inacreditável ... tava mais pra piada de mau gosto ... se não fosse a pura verdade. Vamos ver o que acontece ... alguma solução eu encontro pra esse maledito problema Fixe

Eu poderia dar aulas, mas me disseram que pós-doutorado é o tempo que o pesquisador possui para só fazer pesquisa e tentar publicar resultados excelentes (alguns dizem que é o tempo para publicar em quantidade ... ai vai a briga quantidade vs. qualidade). Como também sou membro do corpo docente, tenho várias regalias, como por exemplo, uma sala própria, equipe de apoio para o projeto, ônibus de graça, academia de graça, etc. Mas também preciso tentar conseguir fundos para novos projetos de pesquisa, ter idéias para orientar alunos nos cursos de verão/inverno, etc. Welll ... it is a lot of fun Riso

No Instituto onde estou chamado Human-Computer Interaction Institute os professores e pesquisadores trabalham de forma bem unida. É uma sinergia muito forte entre todos. São pesquisadores de diferentes áreas e, por causa disso, as discussões são muito interessantes. Diferentes pontos de vistas são apresentados e os resultados são excelentes. Pra mim, pesquisa muitidisciplinar é a ferramenta mais poderosa pra resolver problemas reais da sociedade.

Atualmente trabalho com sistemas tutores inteligentes para ensino de matemática. Estão envolvidos no projeto, cientístas da computação, engenheiros, pedagógos, psicólogos, professores de matemática e educadores. Essa união realmente é a chave pra resolver os problemas no ensino.

Espero um dia poder retornar ao Brasil e continuar a realizar pesquisas nesta área para ajudar a educação das crianças no ensino fundamental e médio, principalmente nas escolas públcas. E o projeto em que trabalho na Carnegie Mellon segue esta direção, pois cria tutores inteligentes em larga escala para ajudar o máximo de alunos possíveis. Os resultados de pesquisa obtidos nesta área por professores da Carnegie Mellon criaram as bases de uma empresa chamada Carnegie Learning (http://www.youtube.com/watch?v=hl2eaQB2FuU) que já ajuda mais de meio milhão de alunos nos EUA e têm lucro líquida de aproximadamente 100 milhões de doláres anuais.

A idéia principal do projeto no qual estou trabalhando, chamado MathTutor é oferecer tutores que têm se mostrado eficientes no suporte ao ensino de forma gratuita na Web. O site do projeto está no endereço:www.wemathtutor.org. Caso alguém esteja interessado em produzir tutores inteligentes em larga escala para auxiliar alunos em escolas (seja em matemática, física, química, etc), podem me contatar (sisotani [at] cs.cmu.edu  -- substituta [at] por @ ) que ficarei muito feliz em tentarmos inserir esses resultados de pesquisa no Brasil. Mesmo morando nos EUA, espero ter a possibilidade de criar parcerias com pesquisadores, universidades e escolas Brasileiras. 

abrax,

Seiji