Hoje, eu estava revisando um capítulo de livro sobre cultura e IT (Information Technology) e me deparei com a seguinte afirmação: estudantes que recebem educação utilizando métodos convencionais de ensino, onde o professor é o centro da atenção e o aluno apenas assimila o conhecimento passado no quadro-negro, fica dependente de instrução (ou ser instruído) ao longo da vida (Reinecke, 2005).

 Isso me fez lembrar de muitos Brasileiros que reclamam do sistema de graduação e pós-graduação no Japão. As crianças de até 12 anos no Japão recebem uma educação baseada em participação. A criança precisa estar engajada no que está aprendendo. Dando opniões e discutindo com professores e colegas. O colegial no Japão é mais no estilo professor (the boss) e o aluno (empregado), mas a aprendizagem em grupo é constante.

 Nós Brasileiros recebemos uma educação bem antiquada. Pare para pensar: você aprendeu do mesmo jeito que seu pai aprendeu; e seu pai aprendeu do mesmo jeito que o pai dele aprendeu (seu avô) e assim por diante. São mais de 100 anos de avanços na área de educação (Pedagogia, Psicologia, etc) e de computação aplicada à educação que não são utilizadas de forma efetiva em sala de aula.

O problema: as universidades no Japão tem a seguinte filosifia "aluno deve aprender por si".Ou seja, na universidade você vai assitir uma aula onde o professor fala de um conteúdo complicado sem explicar muito ... e, portanto, cabe ao aluno estudar a fundo o conteúdo para realmente entender a matéria. As provas também não são difícieis, então mesmo um aluno que dorme todos os dias nas aulas consegue passar com um "C" no currículo.

 Particularmente, eu acho ruim esse sistema na graduação (já que também estudei de forma antiquada) e concordo com muitos Brasileiros que querem largar a graduação. Mas, na pós-graduação esse sistema é muito bom para gerar inovação.

 A Pós-graduação no Japão, principalmente doutorado,é extramemte forte. Ao invés do aluno de doutorado "perder tempo"assitindo aulas, que muitas vezes ele já assistiu na graduação, ele está tentando resolver problemas e criando novo conhecimento. Sim, no meu ponto de vista e de muitos pesquisadores (veja o currículo dos alunos da Carnegie Mellon's Entertainment Technology Center), alunos de mestrado e doutorado, não devem ter muitas aulas. Eles devem é trabalhar para criar, inovar e produzir resultados que podem ser aplicados para resolver problemas reais da sociedade. E isso as universidades Japonesas sabem fazer muito bem. Principalmente na área de tecnologia.

Os resultados de pesquisa de alunos de mestrado/doutorado na área de computação e engenharia são rapidamentente absorvidos pelas empresas gerando resultados de impacto na sociedade. Por isso o Japão é um dos países com maior inserção de tecnologia no cotidiano.

Nós Brasileiros temos grande dificuldade de gerar conhecimento por causa do sistema de ensino primário e secundário antiquados. E quando nos deparamos numa situação onde precisamos, por sí só, inovar, temos um deadlock mental.

O orientador no Japão, muitas vezes não diz o que você deve fazer, as vezes ele te dá um problema e desaparece do mapa. Cabe ao aluno tentar descobrir a solução do problema. Pior, as vezes o professor nem dá o problema e você precisa identificá-lo. Aqui no Japão, o aluno precisa gerar resultados e ir falar com o professor ... o professor apenas analisa o que você fez e te dá dicas, dizendo o que está certo e o que está errado. Se você não fizer nada, provalmente seu orientador não vai nem notar sua existência já que ele tem outros 10 alunos para orientar.

  Ou seja,para o Brasil crescer não adianta tentar mudar apenas as universidades. Temos que investir na educação básica. E principalmente no Brasil ainda existe uma forte resistência em conseguir auxílio financeiro para se fazer pesquisa na área de educação e computação. 

Veja o exemplo da Revista Brasileira de Informática na Educação (RBIE) e do Simpósio brasileiro de Informática na Educação (SBIE), ambos apoiados pela Sociedade Brasileira de Computação (SBC). O SBIE reuni todos os anos entre 500 à 700 participantes, provavelmente é um dos maiores eventos relacionado com computação no país. O processo de aceitação dos paper é de altíssima qualidade e os trabalhos publicados têm resultados que podem gerar grande impacto no sistema educacional Brasileiro. Mesmo assim, por não ser um evento de impacto "Internacional" (o que ao meu ver está relacionado com o propósito do evento que é gerar conhecimento que possa ser aplicado no sistema educacional Brasileiro) o qualificação deste evento no QUALIS da CAPES é baixa na área de computação (mas não na área de Educação ou na área multidisciplinar). Isso é extramamente ruim já grande parte dos pesquisadores nesta área estão trabalhando em departamentos de computação.

 De modo similar a RBIE, apesar da qualidade dos trabalhos publicados e de ter uma história de duas décadas de publicações ininterruptas, o Qualis na área de computação é baixa (de novo na área de Educação e na área multidisciplinar é ao contrário). A RBIE é a única revista da SBC que pertence a um comitê específico e o processo de revisão dos trabalhos é realmente forte e competitivo. De novo, a RBIE falha em ser mais "internacional", segundo o comitê de computação.

Será que assim, ao invés de ajudar a Educação no Brasil a comunidade de computação está puxando o pé da sociedade Brasileira? Veja como universidades de renome em computação estão desenvolvendo programas de suporte a Educação (How computer science serves the developing world)

 Nós da computação Brasileira não deveríamos fazer de tudo para incentivar a aplicação da computação no ensino? Será que já não deu pra perceber que o número de alunos em computação está diminuindo porque a a comunidade de computação não está "enxergando" os problemas e desafios da sociedade no âmbito educacional?

 A Comunidade de Informática na Educação vem lutando a anos para ser mais valorizada perante ao comitê de computação, contudo este desafio ainda parecer estar longe de ser resolvido. Enquanto isso quem sofre é o Brasil, que poderia estar muito a frente da India ou China, mas continuamos andando a passos de tartaruga. Enquanto o comunidade de computação não abraçar a comunidade de informática na Educação e, juntos, lutar pela modificação no ensino, será dificil mudar o quadro educacional Brasilero. E nesse caso não é culpa do governo !!

 Resumindo, fazer doutorado no exterior sem ter uma formação boa dificulda no aproveitamento dos Brasileiros que estudam no exterior. E nesse contexto a computação pode fazer a diferença trazendo melhorias no ensino e fazendo com que a socidade Brasileira cresça em todos os níveis sociais.

 

 

 References:

Reinecke, K., & Bernstein, A. (2007). Culturally Adaptive Software: Moving Beyond Internationalization. Paper presented at the HCI International 2007, Beijing, China.

Dias, M. B. and Brewer, E. 2009. How computer science serves the developing world. Communications of ACM 52, 6 (Jun. 2009), 74-80.