Noções básicas de Linguística: o que é uma frase?

22 de Agosto de 2009, por Desconhecido - 0sem comentários ainda

É comum definir-se a frase como "unidade de comunicação linguística dotada de estrutura e significado". Esta definição quer dizer que (1) a frase não é apenas um conjunto de palavras: ela possui uma estrutura; (2) esta estrutura deve ser tal que, se desrespeitada, a frase perde o sentido. Tomem-se como exemplo as seguintes sentenças:

(a) A execução deste trabalho levará vários dias;

(b) *Deste levará execução a trabalho dias vários.

Dizemos que a sentença (a) é gramatical, pois sua estrutura, i.e., a maneira como as palavras estão relacionadas, nos permite entendê-la. A sentença (b), por outro lado, é dita agramatical (indicada por asterisco), e o fato de não podermos entendê-la revela que sua estrutura não foi respeitada.

Dissemos que a estrutura da sentença em português estabelece entre as palavras uma espécie de relação. Podemos dizer que esta relação é de natureza subordinativa, vale dizer, são sentenças dotadas de núcleo e segmentos subordinados. Examinemos mais a fundo a sentença (a). De que modo poderíamos segmentá-la a fim de compreender sua estrutura interna?

(a.1) A / execução / de + este / trabalho / levar + á / vários / dias.

Percebemos que a segmentação (a.1) é bastante insatisfatória, uma vez que falha em mostrar a relação entre as palavras. Novamente, devemos lembrar que a frase não é simplesmente um conjunto de palavras, e sim uma unidade dotada de estrutura e sentido. Vimos ainda que sua natureza é subordinativa, i.e., apresenta núcleos e segmentos subordinados, de modo que não podemos atinar para tal natureza na segmentação acima.

Para identificar, então, a verdadeira relação entre as palavras da sentença (a), devemos, primeiro, encontrar seus núcleos. Que palavras daquela sentença podem ser consideradas núcleos?

(a.2) A execução deste trabalho levará vários dias.

Sendo as palavras destacadas os núcleos da sentença, devemos identificar agora os elementos subordinados a cada um. Perceba que a palavra trabalho é precedida de uma preposição (de) e de um especificador (este). A preposição tem por função indicar uma determinada relação entre duas palavras. Consideremos que, neste caso, sua função é mostrar que a palavra trabalho pertence ao núcleo semântico de execução, ou seja, completa o sentido desta última. Notemos que a palavra execução por si só não é capaz de veicular informação suficiente. Precisamos sempre saber o que será executado, seja explícita ou implicitamente indicado na comunicação. Daí a natureza subordinativa das preposições. Podemos dizer, assim, que o seguinte conjunto de elementos forma uma unidade significativa dotada de estrutura:

(a.2.1) [A execução de + este trabalho]

Unidades significativas desta natureza são ditas sintagmas. Os sintagmas são classificados de acordo com seu núcleo; assim, o sintagma acima pode ser chamado de sintagma nominal (SN). Definimos o sintagma como um conjunto de elementos que constituem uma unidade significativa dentro da sentença, os quais mantêm entre si uma relação de dependência e ordem. "Dependência e ordem" porque a sequência dos elementos na frase determina sua subordinação. Veja-se que "a execução deste trabalho" é diferente de "o trabalho desta execução", por uma simples questão de ordem.

Aprofundando mais nossa análise, perceberemos que dentro do sintagma nominal indicado há outro sintagma, de natureza preposicional (SP), responsável por indicar o que está subordinado a quê. Temos, portanto, as seguintes segmentações:

(a.2.1.1) [SN A execução [SP de + este trabalho /SP] /SN]:

SN = A execução deste trabalho.

SP = de + este trabalho.

Não acabou ainda! Analise bem o Sintagma Preposicional. Será possível encontrar outro sintagma dentro dele? Sim. O especificador este está subordinado ao núcleo trabalho, o que constitui um SN. Assim, a segmentação completa do SN maior, indicando todas as suas subpartes e estrutura, é:

(a.2.2) [SN1 A execução [SP de [SN2 este trabalho /SN2] /SP] /SN1]:

=> [A execução [de [este trabalho]]].

SN1 = A execução deste trabalho.

SP = de + este trabalho.

SN2 = este trabalho.

Agora podemos entender melhor por que a frase não é apenas um conjunto de palavras. Estas encontram-se relacionadas umas às outras, ordenadamente e segundo uma hierarquia, cuja estrutura deve ser respeitada de modo a ter sentido. Deixaremos a você, leitor, o desafio de encontrar os outros sintagmas da oração e chegar, enfim, à estrutura completa da sentença.

No próximo post abordarei a noção de gramática entendida como um sistema de regras sintáticas internalizado pelo falante; regras que possibilitam a este entender e produzir um número infinito de sentenças em sua língua.

Observação: adotamos a notação em colchetes por questão de praticidade. O ideal, para um texto introdutório como este, seria mostrar a hierarquia dos termos numa árvore sintática. Na página do perfil desta comunidade há uma exemplo para "colorless green ideas sleep furiously", célebre exemplo de Chomsky.



Sem Título

13 de Abril de 2008, por Desconhecido - 0sem comentários ainda

Olá pessoal!

Alguém vai apresentar trabalho em painel na SBPC (Soc. Bras. para o Progresso da Ciência) que será neste ano (jul2008) em Campinas?

Um abraço!



Seminários do professor Didier Demolin

8 de Agosto de 2007, por Desconhecido - 0sem comentários ainda

Seminários do professor Didier Demolin

Nos dias 15, 22 e 29 de agosto de 2007, o professor Didier Demolin proferirá seminários acerca de temas como "fonética das línguas indígenas" e "fonologia de laboratório". Os seminários ocorrerão no prédio da Letras, nas salas 270 (dia 15) e 266 (dias 22 e 29), das 14 às 16h.

A seguir, tem-se um texto de apresentação dos seminários (escrito pelo próprio professor Didier), além da programação dos eventos.

Apresentação

Nos seminários serão discutidos alguns estudos e pesquisas que desenvolvi durante o tempo de permanência como professor colaborador no Departamento de Lingüística da USP. Para começar, iremos abordar alguns tópicos centrais da fonologia de laboratório: o desenvolvimento de métodos experimentais em fonologia e o tratamento de sistemas fonológicos como sistemas complexos e adaptativos.

Universais da fonologia vão estar sendo discutidos através de dados provenientes de estudos de fonética das linguas indígenas [Karitiana, Juruna, Kuikuro, Waikhana, Esse Eja, Movima, !xu, Rwanda, Umbundu, Changana, Mangbetu]. Alguns tópicos que serão discutidos são: fenômenos de nasalização, glotalização, aspiração, laterais e descrições de sons novos e raros em línguas ameríndias e africanas.

Falar de adaptação em fonologia é abordar a origem e evolução da fala humana e, por conseqüência, da fonologia. Serão discutidos principalmente aspectos comparativos das vocalizações dos primatas [bonobo, muriqui] e dados de paleontologia.

O ensino da fonética e fonologia, aplicações da fonética e alguns desenvolvimentos futuros (possiveis) da fonética e fonologia serão também discutidos. Isso será feito a partir de assuntos como: descrever e comparar línguas, modelizar e dar um tratamento automático à fala, patologias da fala [electropalatografia e doença de Parkinson], estruturas silábicas e tendências universais.

Finalmente, vamos discutir algumas perguntas de etnomusicologia para a qual a metodologia lingüística é bastante útil: problema de escalas, timbre e canto em músicas dos Karitiana, Kuikuro e Kadiwéu.

Cada seminário terá duas partes. Todas as apresentações serão em power-point com ilustrações e efeitos sonoros.

Programação

Seminário 1 (15 de agosto, das 14 às 16h; sala 270)
Parte 1: Origem e evolução da linguagem e da fala
Parte 2: Complexidade e adaptação em fonologia

Seminário 2 (22 de agosto, das 14 às 16h; sala 266)
Parte 1: Métodos experimentais em fonologia
Parte 2: Fonética das línguas indígenas e universais da fonologia

Seminário 3 (29 de agosto, das 14 às 16h; sala 266)
Parte 1: Ensino de fonética e fonologia, aplicações da fonética e alguns desenvolvimentos futuros da fonética e fonologia
Parte 2: Etnomusicologia: escalas, timbre e canto em músicas dos Karitiana, Kuikuro e Kadiwéu