"Por que a escola, ao invés de alterar, pode até confirmar a reprodução das desigualdades? As crianças chegam às escolas 'capitalizadas' ou não: herdam capital cultural (tipo de literatura, manipulação de instrumentos digitais, artísticos, etc., uso da linguagem 'correta' inculcados por suas famílias), incorporam-no e constituem-no para si, cristaliza-se um habitus orientador das formas de se aprender.

Diante disso, as crianças de classes menos favorecidas ficam em dupla desvantagem: primeiramente porque, na ordem de importância dos saberes, no olhar do supervisor, na arquitetura, na disciplina corporal exigida, na escolha do currículo escolar, nas manifestações do corpo do professor, os critérios de avaliação escolar ocultam as significações ligadas ao capital cultural das classes dominantes (violência simbólica), universalizados; em segundo lugar, chegam sem a herança desse capital cultural.

Essas crianças encaminham-se para o fracasso escolar legitimado por discursos que incorporam os modos de percepção, de pensamento e de corpo das classes que detêm o capital econômico (bens, serviços, etc.) e cultural (valores, habilidades, etc.). Como lentes oculares que aderem profundamente aos olhos a ponto de não serem percebidas, a violência simbólica é a introjeção de valores da classe social ou segmento dominante, de forma que o dominado vê-se com os olhos dos dominantes. Julgando-se por esses 'óculos', as classes sociais inferiores assumem rótulos e aprofundam perversos mecanismos de exclusão escolar, social, econômica, sexual e religiosa. Os mecanismos de exclusão nunca estão isolados, mas em conjunto. Para desarticular esses mecanismos, por conseguinte, é necessário um vasto repertório de medidas sociais, culturais e econômicas, bem como a mobilização da sociedade e dos políticos."

Emerson Sena da Silveira - Bourdieu Delivery: traços quase sagrados, in revista Sociologia, nº33