Desde 2005, a Cátedra Jaime Cortesão desenvolve pesquisas em torno do tema Movimentação de pessoas, ideias, instituições e riquezas no mundo de língua portuguesa: história e historiografia, com ênfase nos séculos XIX  e  XX. Com efeito, na tradição de seus estudos sobre a colonização, o intuito é articular e ampliar reflexões sobre as transferências de populações, como elemento de articulação de sociedades, economias e culturas, desde o século XVI.

Os deslocamentos populacionais massivos têm sido, ao longo da história da humanidade, uma de suas principais driving forces. Por isso mesmo, o fenômeno migratório preenche integralmente os requisitos de um fato social total, na conceituação dos sociólogos, que o historiador François Hartog, invocando Pierre Nora, denomina evento monstro, acontecimento de grande significado, cuja compreensão exige um referencial muito mais complexo do que aqueles providos por uma confraria de especialistas. Naturalmente, os motivos que embasam esses movimentos populacionais são historicamente referenciados e as possibilidades dessas transmigrações são tributárias do desenvolvimento das tecnologias de comunicações e de transportes, que oferecem os meios para a realização das viagens, viabilizando o conhecimento de outras terras, alimentando o sonho de se construir um novo destino.

As volumosas movimentações de pessoas entre continentes passaram a ser a regra com o advento da Época Moderna, como condição mesma do empreendimento colonizador. A partir do século XIX, dirigiram-se, normalmente, para países politicamente autônomos e economicamente dinâmicos; do lado dos migrantes, o impulso de mudança tinha como companhia  o desejo de se construir uma vida mais digna em outras plagas e a crença na sua exequibilidade, a tal ponto que não hesitaram em romper com as suas raízes. A profundidade desses processos sociais, tanto objetivos quanto subjetivos, construiu todo um novo campo de estudos voltados para o entendimento desse fenômeno de massas, levando à criação de noções que pudessem conter as particularidades de que se revestia.

Pelo impacto econômico, social, político, cultural e demográfico que teve, nos dois lados do Oceano, o movimento emigratório de Portugal para o Brasil assume-se como campo de investigação alargado e multidisciplinar de grande relevância, que, sobretudo ao longo dos últimos anos, tem merecido a atenção dos investigadores portugueses e brasileiros. Nesse âmbito, foram desenvolvidos diversos projetos de investigação que, individual ou coletivamente, debruçam-se sobre  as várias vertentes dessa emigração, desde a identificação e a quantificação dos fluxos migratórios, do âmbito sociodemográfico dos emigrantes e das suas regiões de origem, da comparação dos ritmos migratórios com a evolução econômica, até ao seu impacto sociocultural e reflexo migratório, passando pelo associativismo como forma de integração nos países de destino.

A transmigração da Família Real portuguesa para o Brasil diferencia o processo migratório em relação ao momento imediatamente anterior, quando os deslocamentos populacionais enquadravam-se nos ditames da colonização regida pelo sistema colonial moderno, que dava aos portugueses privilégios exclusivos, bem como em relação aos processos coetâneos, na América e no mundo. A diferenciação, contudo, não ocorreu apenas em função de regramentos jurídicos em que tais deslocamentos estavam inseridos. Diferenciavam-se, também, em relação  aos níveis sociais dos contingentes deslocados, figuras da elite metropolitana, não apenas despossuídos ou perseguidos, mas componentes de estratos sociais mais elevados, tanto do ponto de vista de sua formação educacional, quanto de suas posses materiais.

Inquestionavelmente, a continuidade política luso-brasileira no século XIX foi fator decisivo no estímulo à imigração portuguesa para o Brasil, contrariando os próprios desígnios do governo português que preferia ver seus cidadãos deslocando-se para os territórios coloniais africanos. Por outro lado, o incremento da economia cafeeira no Brasil e o agravamento da situação política e econômica em Portugal incentivaram o deslocamento massivo de populações, resultando na sua inserção definitiva como imigrantes. 

Nessa perspectiva, estudos integrados de pesquisadores brasileiros e portugueses apresentam-se como essenciais para analisar a dinâmica migratória e suas interrelações nos dois lados do Atlântico. Cabe destacar, também, que as recentes levas migratórias internacionais provocaram o estabelecimento de novas ordens demográficas e, consequentemente, têm reavivado o interesse sobre o tema. Assim, é importante favorecer a revelação dos conflitos e das crises que caracterizam tais processos, e reavivar as questões em torno do problema. Como resultado, a proposta de estudo amplia-se enfocando, para além do tema da emigração portuguesa destinada ao Brasil, o amplo processo de transferência de europeus, da colonização à imigração.