O argumento moral a favor da existência de Deus de William Lane Craig

31 de Março de 2012, por Desconhecido - 2020 comentários


Alguém já ouviu falar em William Lane Craig? É um filósofo que ficou conhecido do grande público pelo excelente desempenho como apologista da fé em debates com ateus e agnósticos. Costuma deixar os seus adversários sem respostas para os seus argumentos. Christopher Hitchens amargou uma desastrosa derrota em debate com ele promovido pela Biola University em 4 de abril de 2009. Dawkins se recusa a debater com ele, alegando que "o que poderia ser excelente para o seu CV, talvez não seja tão bom para o meu" (ref http://www.guardian.co.uk/commentisfree/2011/oct/20/richard-dawkins-william-lane-craig). E ao contrário do que se costuma imaginar a respeito de apologistas, sabe expor seus argumentos de maneira clara e perfeitamente lógica, sem deixar transparecer nenhum sinal das paixões pessoais ou fazer uso de argumentos sentimentalistas e fideístas.

Sua estratégia é utilizar um enfoque filosófico-analítico para as questões em debate. Esse enfoque é muito simples e extremamente eficaz. Consiste em apresentar os argumentos a favor do seu ponto de vista expondo claramente todas as premissas de modo que a conclusão deriva delas como necessidade lógica. Então convida o oponente a rebater as suas conclusões através da invalidação das premissas. Dessa forma, a defesa fica concentrada nas premissas, pois se as premissas permanecerem intactas, então a conclusão permanece irrefutada.

Os argumentos que William Craig utiliza são bem conhecidos, pois estão todos completamente expostos em seu site http://www.reasonablefaith.org. Mesmo assim, ainda não vi nenhum oponente que tenha sido capaz de invalidar uma de suas premissas. Em vez disso, costumam expor os argumentos a favor do seu ponto de vista, geralmente sem a mesma clareza e objetividade. E, ainda assim, não vi nenhum caso em que William Craig tenha se saído mal na refutação dos argumentos contrários. Tampouco o vi perder a calma e a serenidade no decorrer do debate, o que não ocorreu nos casos de Hitchens e Stephen Law. A transcrição dos debates mostra claramente isso, pois nota-se claramente como os seus oponentes vão perdendo a capacidade de concatenar coerentemente as suas idéias.

Ao ver dois de seus debates, cuja questão em discussão era "Does God exist?" (Deus existe?), um com Stephen Law e outro com Christopher Hitchens, chamou-me a atenção um dos argumentos que ele apresentou para defender racionalmente a resposta afirmativa. É um argumento moral, que pode ser resumido no seguinte silogismo:

1. Se Deus não existe, valores morais objetivos não existem.
2. O mal existe.
3. Portanto, valores morais objetivos existem.
4. Portanto, Deus existe.

Esse argumento é tão eficaz pois toca no senso moral que existe em nós e que precisa necessarimente ser abandonado para que as premissas possam ser refutadas. Então vamos lá, analisemos cada uma das premissas.

Primeira premissa: de fato, se Deus não existe, como podemos afirmar que valores morais objetivos existem? Com base em que critério pode-se afirmar a existência de valores morais objetivos? Muito bem, quando falamos em valores morais objetivos estamos dizendo que existem atos humanos objetivamente maus e atos humanos objetivamente bons. Mas como então determinar quais atos são bons e quais são maus se Deus não existe? Se estabeleço que o critério de objetividade sou eu, então tenho que explicar por que o meu critério é objetivo e o do outro que julga diferente não é. Esse argumento não se sustenta, pois seria necessário um terceiro juízo para discernir a objetividade entre opiniões opostas. Se esse terceiro juízo não é absoluto, então a objetividade desse juízo também poderia ser questionada. Também é possível estabelecer como critério o consenso social. Isso também é difícil de sustentar, pois é preciso provar que o consenso social sempre é objetivo. Outra possibilidade é estabelecer como critério a natureza biológica humana, isto é, aqueles atos que correspondem aos costumes naturais e instintivos do homem, assim como corresponde à natureza dos cachorros e lobos viverem em matilha e dos tigres viverem sozinhos. Mas primeiro é necessário identificar qual é essa natureza. Isso é impossível, pois uma das diferenças dos homens com relação aos animais é não ter todas as suas ações condicionadas pela sua natureza biológica. Há quem acredite nisso, mas então forçosamente terá que  negar o livre-arbítrio, pois todas as suas ações estariam condicionadas pela sua natureza biológica, e além disso explicar como atos contrapostos podem ter a mesma origem biológica.

Se alguém tem algum outro argumento para refutar a primeira premissa, ficaria muito contente de conhecê-lo. Vamos então para a segunda premissa. Negar essa premissa é o que há de mais comprometedor em todo o argumento. Dizer que o mal não existe impede que qualquer ateu utilize o tão frequente argumento de que havendo tanto mal no universo então é pouco plausível que Deus exista. Pois negando a existência do mal, então não pode dizer que há mal no universo. A grande "sacada" desse argumento é mostrar que o mal pesa mais a favor do que contra a existência de Deus. Mas negar que o mal existe é comprometedor por outros motivos. Por exemplo, o que autorizaria então um ateu afirmar que as ações dos nazistas foram más? O que autorizaria um ateu a afirmar que um crime hediondo - por favor, imaginem o crime que quiserem, não vou dar exemplos - é um mal?

Uma possível saída desse problema consiste em afirmar que aquelas ações são más na medida em que põe em risco a minha própria segurança, ainda que não sejam más em sentido objetivo. Especificando mais, podem dizer que se uma pessoa fere a outra, autoriza então que outras façam o mesmo com ela. Como não quer ser ferida, então é preferível não ferir a outra. Essa atitude é bem representada pela regra de ouro, que ensina "a agir com os outros do mesmo modo como gostaria que os outros agissem comigo". Mas para um ateu que nega a objetividade do mal, esse princípio está baseado apenas na necessidade pessoal de salvaguardar a própria segurança. Mas basta propor uma situação em que uma atitude má - matar, por exemplo - não colocaria em risco a própria segurança. Por exemplo, alguém poderia ser esperto o suficiente para construir uma sociedade em torno de si que lhe daria segurança e ao mesmo tempo lhe daria apoio para cometer qualquer crime que desejasse contra outras. Era por exemplo o que faziam muitas tribos nômades no passado. Viviam em grande número, muito bem armadas e soltas pelas terras ermas. Estavam seguras portanto. Ao mesmo tempo, sobreviviam do saque e da destruição das sociedades sedentárias. Para essas sociedades nômades era errado matar, estuprar e saquear? Não. Se essa tribo nômade encontrasse um grupo de pessoas indefesas trabalhando no campo, o princípio da garantia da segurança própria poderia ter algum efeito sobre a decisão desses nômades? Não, pois aniquilar essas pessoas não diminui a sua segurança. Diria até que aumenta sua segurança, pois quanto mais fracos e amedrontados estiverem os povos sedentários, maior será a sua dificuldade para fazer frente às suas invasões.

Agora, sendo você ateu, imagine-se na posição de líder desses nômades. Imagine também que em uma certa ocasião você e seu grupo encontram em lugar isolado uma única pessoa portando um diamante extremamente valioso disposta a defendê-lo até a morte, mesmo sabendo que será facilmente derrotada. Nessa situação, qualquer ateu coerente com os seus próprios princípios não encontraria outra solução a não ser matar o sujeito. Por que não o faria? Em primeiro lugar, realizando esse ato, não coloca em risco sua segurança. Se não o realiza, sabe que provavelmente outro de seu grupo o fará e talvez queira apenas para si o diamante. Isso poderia gerar disputas, colocando em risco a unidade do grupo e a sua autoridade. Do ponto de vista da segurança pessoal, o melhor nesse caso é unir todos para a conquista do diamante e depois dividir os bens do espólio de acordo com o código do grupo.

Esse exemplo é apenas ilustrativo. Poderia tratar-se também de um grupo de cavaleiros templários do tempo das cruzadas que se encontram na mesma situação. Quis apenas mostrar que há situações em que uma escolha objetivamente má é a melhor escolha do ponto de vista da segurança pessoal e dos próprios interesses. Agora, convido-o a responder a seguinte questão: quem tem a maior chance de respeitar a vida e propriedade daquele sujeito, um homem que não acredita na objetividade do valor de seus atos, ou um homem que acredita, e que além disso sabe que seus atos estão sujeitos ao julgamento e à condenação por parte de Deus?

Todo esse raciocínio tinha como objetivo mostrar como é extremamente comprometedor negar a objetividade dos valores morais. Há ainda outros argumentos muito fortes para mostrar isso. Por exemplo, com que autoridade alguém que nega a objetividade dos valores morais poderia condenar a atitude dos nazistas? Afinal de contas, eles não estavam agindo de acordo com os seus próprios valores? Como posso julgá-los e até condená-los à morte com base nos meus valores? Se o faço, o faço pois acredito que os meus valores são melhores do que os deles. Mas se eles não tinham os meus valores, qual é o fundamento da sua culpabilidade? Por outro lado, se admito a objetividade dos valores morais, então o seu julgamento é possível, pois existe uma base de valores objetivos que poderia ser reconhecido pelos nazistas e que torna culpável as suas atitudes, pois tinham a possibilidade de reconhecer a maldade de seus atos. Portanto, se não existe mal objetivo, tampouco existe culpabilidade e qualquer julgamento é inviável. Apenas na condição de existência do mal objetivo, um julgamento é viável.

Enfim, para concluir, digo que o que faz forte o argumento moral de William Lane Craig não é a sua irrefutabilidade, mas o mal estar profundo que qualquer refutação às suas premissas necessariamente provoca.



Uma crítica ao post A FÉ da CIÊNCIA, de Helder Gonzáles

17 de Outubro de 2009, por Desconhecido - 0sem comentários ainda

Esse post contem uma crítica às idéias essenciais do post  A FÉ da CIÊNCIA de Helder Gonzales.

Helder,

Fiquei extremamente interessado pelo assunto abordado no seu post e gostaria de fazer uma crítica das suas idéias essenciais, muito bem resumidas na sua primeira resposta.  Comentarei uma por uma:

1) A ciência e a religião nascem para responder às dúvidas do homem quanto à realidade na qual estão inseridos.

Falso. A religião não nasce para responder às dúvidas do homem quanto à realidade, mas para colocá-lo em relação com a divindade.

No que diz respeito à ciência, é necessário pelo menos entender a que nos referimos quando usamos o termo ciência. Constantemente se cai no erro de definir ciência tomando como modelo uma ciência particular, geralmente a física, excluindo automaticamente outras ciências particulares, cujos métodos são distintos. É o caso da definição do Abdo.

Uma definição geral de ciência é a clássica, dada por Aristóteles: conhecimento certo pelas causas (Anal. Post. I 2, 71 b 9). É verdade afirmar que a ciência nasce para responder às dúvidas dos homens, mas é necessário matizar essa afirmação. A ciência tem caráter prático e especulativo. As dúvidas não são apenas quanto à realidade, mas também quanto ao melhor modo de agir nessa realidade. A ética, a engenharia, o direito são exemplos de ciências práticas, ao passo que a matemática pura e a metafísica são ciências especulativas.

2) Ciência e Religião postulam a existência de uma ordem que não pode ser demonstrada, mas que serve de ponto de partida para seus enunciados.

Concordo inteiramente.

3) A existência da tal ordem não é construída pela razão, mas, sim, pela experiência. O costume cria em nós uma crença. “Princípio da uniformidade da natureza”.

Formulo de outra forma. A razão humana é capaz de captar pela experiência a ordem inerente à própria natureza. É falso afirmar que a ordem é imposta pelo cognoscente ao conhecer; ao contrário, conhecer significa captar a ordem da natureza tal como ela é(correspondência veritativa).

4) Ciência e Religião se valem da imaginação para inventar explicações. A diferença é que a ciência tem (ou é) um método para testar suas explicações e descartar as que são contrariadas pela experiência. A verdade nunca pode ser comprovada. Já a falsidade pode.

Ciência e Religião se valem da imaginação para encontrar as explicações. Uma explicação inventada não é explicação, mas invenção.

A ciência é mais do que um método; ela se vale de vários métodos, dependendo da ciência particular, para testar suas explicações. Nem toda ciência precisa da experiência para ter as suas conclusões "testadas"; é o caso da matemática. Ela tem um método próprio para testar as suas conclusões. Nem todas as ciências são experimentais. 

De fato a verdade nunca poderá ser comprovada, mas pode ser conhecida.

Isso é tudo. Estou ansioso por receber críticas ferozes; mas que estejam centradas nas idéias e não no envólucro. Argumentos do tipo "Aristóteles já está superado", "o que você fala é besteira, ninguém mais pensa assim" ou "leia tal coisa e esqueça tudo o que você disse", são manifestações claras de preguiça mental e ignorância.

Abraço!

Marco A. Ridenti



"I don't see any God up here"

7 de Outubro de 2009, por Desconhecido - 0sem comentários ainda

Em 12 de abril de 1961, plena guerra fria, Yuri Gagarin teria pronunciado essa frase ao vislumbrar o espaço de dentro da sua nave orbitando o planeta terra. No entanto, tal frase não aparece nas gravações de sua comunicações com a terra (ver, por exemplo, no artigo Iury Gagarin, Wikipedia, Inglês, acessado em 27/06/09).

Qual seria então a causa da difusão dessa informação aparentemente falsa? O artigo citado anteriormente fornece uma resposta. Mas o meu objetivo não é especular a respeito do que realmente aconteceu. Já não há fontes que possam fornecer respostas definitivas, pois Yury Gagarin, morto a 41 anos, já não pode mais ser consultado. Talvez exista algum documento de autenticidade comprovada registrando a sua versão a respeito da sua própria frase, mas não tenho informação a respeito de qualquer documento desse tipo.

Meu objetivo é investigar o conteúdo da frase e as suposições que poderiam levar alguém a pronunciá-la
em tais circunstâncias. A primeira suposição, sem a qual ninguém em sã consciência poderia fazer tal comentário, é a de que Deus estaria localizado no céu físico. Se Deus está no Céu, e o homem vai para o Céu, logo o homem que vai para o Céu deveria ve-Lo, a não ser que Ele estivesse se escondendo. Uma mente brilhante capaz de fazer tal raciocínio imagina Deus com as mesmas propriedades de uma criatura qualquer, limitada em extensão e com localização bem definida no tempo e espaço. Mas ignora algo importante a respeito de Deus: é Criador, distinto das criaturas, e portanto não pode estar sujeito à nenhum tipo de limitação.

Alguém poderia objetar argumentando que só faz sentido falar em criatura se há Criador. É bem verdade; se não há Criador, não há por que esperar que esteja no céu físico. O que quero mostrar é que se há Criador, também não há por que esperar que esteja no céu físico.

Acreditar que Deus estaria localizado no céu físico é uma postura análoga à de todos os que afirmam que não acreditam em Deus por que nunca o viram. O que é que nós vemos? Naturalmente, o homem não pode ter experiência de nada que não lhe é impresso aos sentidos. Essa impressão aos sentidos tem como ponto de partida algum tipo de interação física. Por exemplo: as células da retina dos nossos olhos contém substâncias que interagem com os fótons refletidos pelos objetos do mundo exterior. O conhecimento do mundo exterior só é possível quando as coisas são capazes de provocar diretamente ou indiretamente efeitos físicos passíveis de serem detectados por nossos sentidos. Portanto, pensar que Deus poderia ser conhecido dessa forma, isto é, como se fosse uma criatura material, com a propriedade de refletir a luz, por exemplo, para que nós a pudéssemos enxergar, conduz necessariamente à uma óbvia contradição; pois se assim fosse, Deus não seria Criador, mas criatura. Está claríssimo que Deus não pode ser conhecido do mesmo modo como conhecemos as criaturas materiais.

Isso significa dizer que Deus transcende às criaturas. Qualquer investigador, antes de encontrar uma solução a um problema, busca também os métodos pertinentes ao seu campo de estudo. O investigador conhece a natureza do seu método: por essa razão, um matemático, por exemplo, sabe que não chegará a provar nenhum teorema utilizando um método empírico. Imaginem por exemplo, Pitágoras construindo triângulos retângulos de diversas dimensões, medindo-os, e depois concluindo por indução o Teorema de Pitágoras! É análogo ao caso do sujeito que pretende ter a prova de que Deus existe pela experiência sensível! Antes deveria procurar conhecer mais a respeito da natureza do seu campo de estudo. Então qual será o método mais pertinente à ciência que pretende estudar Deus?



É contra o espírito científico investigativo atribuir causas desconhecidas pela ciência a efeitos observáveis?

14 de Maio de 2009, por Desconhecido - 1010 comentários

Começo comentando a frase do cosmólogo Hoyle, utilizada para argumentar a favor da incompatibilidade entre religião e ciência,
"É contra o espírito científico investigativo atribuir causas desconhecidas pela ciência a efeitos observáveis (KRAGH, Helge Cosmology and Controversy: The Historical Development of Two Theories of the Universe. Princeton, Princeton University Press, 1996.)", que expressa muito bem uma noção muito comum entre os cientistas. Como ela pode ser interpretada de várias formas, convém colocar primeiro em evidência as possíveis suposições necessárias para completar o seu verdadeiro sentido. É possível destacar duas suposições distintas: a de que ou todas as causas dos efeitos observáveis são observáveis também, ou existem algumas causas que não são observáveis, mas hipotéticas. Nesse último caso, seria necessário esclarecer quais são os critérios para que causas hipotéticas sejam consideradas ou não científicas.

Se o autor da frase acima fez a primeira suposição, isto é, que a ciência só é capaz de conhecer diretamente o que é observável, conclui-se facilmente da sua variação lógica, "O espírito científico somente atribui a efeitos observáveis causas conhecidas pela ciência", que ela expressa a noção de que as causas também são observáveis. Nesse caso, não seria lícito colocar a teoria atômica, por exemplo, entre as causas conhecidas da ciência, posição muito difícil de sustentar e que provavelmente não representa o que realmente pensava o autor da frase.

Por outro lado, considerando a suposição de que de fato existem conhecimentos hipotéticos científicos, faz-se necessário esclarecer quais são os critérios para que uma hipótese possa ser considerada conhecimento científico. Em geral e sem exceção, as hipótese científicas fazem enunciados restritos ao plano das entidades físicas, pois caso contrário seus efeitos não poderiam ser medidos, e, portanto sujeitas ao critério de falseabilidade. Em outras palavras, nenhuma hipótese científica é válida a não ser que seus enunciados façam referência ou a entidades materiais ou às suas propriedades e qualidades mensuráveis. Nesse ponto, já se pode responder se a divindade pode ou não ser incluída dentro do plano das hipótese científicas. Como a divindade é uma realidade que transcende a realidade material -Afirmação válida no contexto da tradição das religiões judaico-cristãs, mas não opinião das religiões imanentistas ou panteístas.- de fato não pode ser incluída dentro do domínio do conhecimento científico, pois essa é uma realidade que não pode estar sujeita ao método científico, notadamente a experimentação, pois não é uma realidade material, e a matematização, pois não é uma realidade quantificável.

Seria então de fato contra o espírito científico investigativo atribuir a origem do Universo à divindade, como quis dar a entender Hoyle? Sim, de fato seria, no caso em que a "expressão espírito científico investigativo" implica em acreditar que o conhecimento científico esgota todo o conhecimento da realidade. Chega-se portanto à conclusão de que o autor está na realidade imbuído dessa crença, a qual pode-se chamar de crença pois ironicamente não pode ser provada cientificamente, mas supõe antes de quem a defende uma profissão de fé, isto é, crer sem ter evidências científicas. E nisso o autor erra grosseiramente, pois o espírito científico investigativo, de acordo com a sua concepção, não pode fazer uma profissão de fé!  

Embora o autor não afirme categoricamente e nem mesmo seja possível depreender tal conclusão lógica, tem o intuito implícito de dizer que todos os efeitos observáveis somente podem ter suas causas conhecidas pela ciência e que ainda podem ter todas as suas causas conhecidas pela ciência. Em outras palavras, que a ciência esgota todo o conhecimento das realidades observáveis. Não o afirma categoricamente, com esse grau de generalização, mas o afirma no caso particular do campo do "espírito científico investigativo". Mas será que o autor admite outro campo de investigação da realidade válido além do científico?