Começo comentando a frase do cosmólogo Hoyle, utilizada para argumentar a favor da incompatibilidade entre religião e ciência,
"É contra o espírito científico investigativo atribuir causas desconhecidas pela ciência a efeitos observáveis (KRAGH, Helge Cosmology and Controversy: The Historical Development of Two Theories of the Universe. Princeton, Princeton University Press, 1996.)", que expressa muito bem uma noção muito comum entre os cientistas. Como ela pode ser interpretada de várias formas, convém colocar primeiro em evidência as possíveis suposições necessárias para completar o seu verdadeiro sentido. É possível destacar duas suposições distintas: a de que ou todas as causas dos efeitos observáveis são observáveis também, ou existem algumas causas que não são observáveis, mas hipotéticas. Nesse último caso, seria necessário esclarecer quais são os critérios para que causas hipotéticas sejam consideradas ou não científicas.

Se o autor da frase acima fez a primeira suposição, isto é, que a ciência só é capaz de conhecer diretamente o que é observável, conclui-se facilmente da sua variação lógica, "O espírito científico somente atribui a efeitos observáveis causas conhecidas pela ciência", que ela expressa a noção de que as causas também são observáveis. Nesse caso, não seria lícito colocar a teoria atômica, por exemplo, entre as causas conhecidas da ciência, posição muito difícil de sustentar e que provavelmente não representa o que realmente pensava o autor da frase.

Por outro lado, considerando a suposição de que de fato existem conhecimentos hipotéticos científicos, faz-se necessário esclarecer quais são os critérios para que uma hipótese possa ser considerada conhecimento científico. Em geral e sem exceção, as hipótese científicas fazem enunciados restritos ao plano das entidades físicas, pois caso contrário seus efeitos não poderiam ser medidos, e, portanto sujeitas ao critério de falseabilidade. Em outras palavras, nenhuma hipótese científica é válida a não ser que seus enunciados façam referência ou a entidades materiais ou às suas propriedades e qualidades mensuráveis. Nesse ponto, já se pode responder se a divindade pode ou não ser incluída dentro do plano das hipótese científicas. Como a divindade é uma realidade que transcende a realidade material -Afirmação válida no contexto da tradição das religiões judaico-cristãs, mas não opinião das religiões imanentistas ou panteístas.- de fato não pode ser incluída dentro do domínio do conhecimento científico, pois essa é uma realidade que não pode estar sujeita ao método científico, notadamente a experimentação, pois não é uma realidade material, e a matematização, pois não é uma realidade quantificável.

Seria então de fato contra o espírito científico investigativo atribuir a origem do Universo à divindade, como quis dar a entender Hoyle? Sim, de fato seria, no caso em que a "expressão espírito científico investigativo" implica em acreditar que o conhecimento científico esgota todo o conhecimento da realidade. Chega-se portanto à conclusão de que o autor está na realidade imbuído dessa crença, a qual pode-se chamar de crença pois ironicamente não pode ser provada cientificamente, mas supõe antes de quem a defende uma profissão de fé, isto é, crer sem ter evidências científicas. E nisso o autor erra grosseiramente, pois o espírito científico investigativo, de acordo com a sua concepção, não pode fazer uma profissão de fé!  

Embora o autor não afirme categoricamente e nem mesmo seja possível depreender tal conclusão lógica, tem o intuito implícito de dizer que todos os efeitos observáveis somente podem ter suas causas conhecidas pela ciência e que ainda podem ter todas as suas causas conhecidas pela ciência. Em outras palavras, que a ciência esgota todo o conhecimento das realidades observáveis. Não o afirma categoricamente, com esse grau de generalização, mas o afirma no caso particular do campo do "espírito científico investigativo". Mas será que o autor admite outro campo de investigação da realidade válido além do científico?