Este blog tem por objetivo apresentar opiniões, reflexões e interpretações acerca de alguns textos. Além disso, escrevo aqui, pois é quase impossível escrever em plataformas maiores. Portanto, o blog é também uma espécie de armazenamento dos meus textos para o futuro (se houver um).

O fracasso da leitura obrigatória

26 de Janeiro de 2020, por Paulo Ricardo da Silva Borges Batista

Estava refletindo esses dias sobre as leituras na escola, aliás, as leituras que tive na minha escola, e como isso enchia de ódio não só a mim como a todos os meus colegas, que não tinham a seu alcance livros que realmente os interessassem ou mesmo oferecessem algo de sua realidade. A leitura ao contrário do que se pensa, não deve ser utilizada para afastar as pessoas ou mesmo marginalizar e criar um obstáculo enorme com a realidade de quem não possui certos graus de letramento ou não se identifica com um livro do século passado que é “leitura obrigatória” no vestibular.

Esse ódio pela falta de livros realmente interessantes causa nas pessoas não só um desalento perante o livro lido, mas uma morte e um decantamento gradual do autor, que some ao longo do tempo da vida do jovem, e ganham o rancor eterno devido as inúmeras obrigações que são impostas pelos seus professores e os inúmeros vestibulares universitários. A morte do autor é uma das piores coisas que pode acontecer na vida de alguém, pois o apagamento deste (autor) faz com que não voltemos nunca mais as páginas de um livro que lhe pertence e guardemos eternamente as memórias de fracasso com sua leitura e o pouco entendimento com as palavras rebuscadas e longes do coloquial.

Essa imposição gera também a construção de cadeias que aprisionam a liberdade da leitura (livre) e não ajuda a emancipar o sujeito, pelo contrário, o aprisiona em conceitos ultrapassados do que é considero “bom e do bem” pelos professores e sociedade letrada. Solicitar a um aluno com pouca familiaridade que se leia um cânone da literatura brasileira é não somente uma imposição ao seu modo de vivência, mas uma violência a seu direito de escolha e um desrespeito a sua cultura. Não estou dizendo que não se deva ler os cânones, mas antes de mais nada, é preciso explicar o porquê dessa leitura, e fundamentar seu uso para além dos vestibulares e das leituras obrigatórias.

Uma leitura que emancipa, prepara e cria uma sociedade crítica deve ser desenvolvida, programada e feita em conjunto com os estudantes. Uma bibliografia que ajude a pensar a realidade de hoje, o ontem e o amanhã. Essas reflexões precisam ser feitas inclusive pelos docentes, que precisam entender as novas realidades e aprender a respeitá-las, para que assim, se crie uma sociedade viva, ativa e plenamente interessada nos livros, não só no cânone, mas no regional, no marginal e no real que está longe da “Academia” (entenda academia como espaço de poder letrado), e próximo das pessoas comuns. Desta forma, será possível pensar um futuro mais inclusivo, democrático e de maior grau de leitura e letramento em todos os níveis possíveis. Não abandonemos a leitura, mas deixemos que as pessoas entendam o propósito de ler o cânone e incluam sua leitura, sua escrita, sua vivência, sua escrevivência.



Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá?

31 de Dezembro de 2019, por Paulo Ricardo da Silva Borges Batista

Augusto Monterroso (1921-2003) é o autor responsável pelo micro conto mais famoso do mundo. Composto por somente 37 letrinhas, o guatemalteco que viveu no México foi o responsável por uma revolução na área da escrita que levou as pessoas a repensarem o modo de escrever o conto, e criar s micro contos, onde a breviedade das palavras dessem conta de captar o sentido e o motivo nele contido.

Não se sabe até hoje se o micro conto deste autor tem algum significado, fato é, que ele ficou conhecido em todo o mundo por tê-lo produzido. Vez ou outra a literatura e o mercado têm dessas coisas, valorizar um texto e descartar outro, inteligência ou sorte, não saberemos o porquê da eleição do micro relato, e quais outros ficaram para trás com a manifestação e ascensão mundial de Monterroso. No entanto, este pequeno conto deixa o leitor intrigado justamente por sua pequeneza, e talvez, a riqueza de detalhes nele contidos.

Afinal, quem disse que o dinossauro ainda estava lá? E que diabos de dinossauro é este. Será que Augusto fala desses dinossauros que precedem a evolução humana, e estavam aqui, na terra, bem antes de nós nos desenvolvermos como seres pensantes ou outros dinossauros por aí. Me questiono ainda do que foi que ele acordou, seria de um coma, um despertar intelectual ou mesmo de alguma ideia que o fizesse pensar acerca da possibilidade dessas criaturas. Vai ver o miniconto tem disso mesmo, nos fazer pensar, e refletir minimamente acerca de cada palavra ali colocada, as vírgulas fazem toda a diferença e até mesmo a frase mais curta gera um sentido catastrófico que suscita a dúvida, a pergunta, e finalmente o pensar; a árdua atividade de pensar.



Resenha do documentário SOMOS1SÓ

31 de Outubro de 2019, por Paulo Ricardo da Silva Borges Batista

Ficha Técnica

Título: SOMOS1SÓ Gênero: Documentário País de origem: Brasil Ano: (?) Diretor: Toni Venturi(?) Duração: 52 min

O documentário pretende discutir as relações humanas de uma forma muito simples. Ademais falará de cultura e dispõe de filósofos, antropólogos e professores que se lançaram neste desafio de comentar os tópicos. No início do episódio a trama irá seguir os rastros de um macaco e um homem em uma conversa quase que paranoica acerca de grandes questões da humanidade (ainda) não decifradas e que geram debates até os dias de hoje. Além disso, essa comunicação entre as personagens é interrompida para que os entrevistados possam salientar seu ponto de vista, e também para apresentações pitorescas, daquilo que seriam grandes personagens de nosso tempo (por exemplo, Freud) que em uma função metalinguística falam de si mesmo e se auto explicam. Três planos são apresentados, outrora nem sempre estão em simbiose e podem apresentar-se como uma peça quebrada ou até mesmo incrementada de uma forma violenta na narrativa.

O início do documentário aponta para questões de evolução entre os homens e os animais, e em amplos diálogos há sempre uma intervenção de algum estudioso ou de personagens históricas supracitadas aqui. Inicialmente, é possível perceber que o homem se depara com um macaco (gorila?) em uma jaula, neste momento ele resolve fotografar a criatura e falar com ela. Neste diálogo o homem diz que ele (macaco) não é capaz de falar e não é evoluído, sem cultura e assim por diante. O macaco sai da jaula e juntamente com o homem vai conversando e pensando o mundo a seu redor. O animal em muitos momentos parece ser muito mais inteligente que o homem, e talvez, a proposta do documentário seja justamente essa, colocar o homem como a espécie humana e o macaco como toda a raça animal, porém o animal na trama tem voz e parece ser muito superior a raça humana.

Neste sentido, há um desprezo a raça humana na narrativa, sem deixar de considerar que é uma raça importante para a evolução e que conseguiu alcançar grandes feitos através de um pensamento estruturado, e uma prática predatória, que possibilitou a espécie dominar outros seres e domesticá-los para a servidão eterna. Ademais, os comentaristas na série pretendem introduzir não só questões que duvidem as práticas humanas, mas projetos que visam pensar novas formas de viver, e até mesmo de respeitar as demais espécies e pensar a própria natureza humana dominante.

Alguns dados científicos são apresentados através de uma narradora. Eles falam a respeito da destruição de nosso planeta e como estamos lidando com tais causas. As pessoas também têm voz na série e podem falar sua opinião sobre o mundo e os debates propostos. Passado a metade do documentário, uma das principais questões levantadas é a do consumismo e como lidamos com isso. Nesta etapa teremos a participação de uma psicóloga que vai falar sobre o vazio humano e como ele funciona na sociedade. Sendo assim, ela explica que quanto mais vazio somos internamente, mais temos desejos de compra e menos valorizamos aquilo que temos internamente.

O macaco e o homem também falam sobre essas relações e a essa altura do documentário (mais da metade do filme) ambos já conseguem falar de igual pra igual e até mesmo compartilham comidas e telefones móveis em uma relação de respeito e igualdade que transcende qualquer naturalidade humana.

Por fim, gostaria de evidenciar que o documentário começa de uma forma extremamente fraca e vai se desenvolvendo ao longo da narrativa. Inicialmente parece até pitoresco e ridículo a relação homem-animal no filme, e isso se torna extremamente secundário quanto aos especialistas que irão comentar uma série de assuntos. A película também peca por não abordar somente um assunto, mas tentar abarcar uma série de narrativas deixando todas elas com pontas soltas, incompletas e muito superficiais. Os assuntos são de interesse bastante comuns e podem ser vistos pelas mais diversas pessoas, no entanto não se aprofunda nenhuma questão e não há referências que nos leve a buscar algo além do que ali está sendo tratado.

Referências Bibliográficas

Instrumental SESC Brasil. A Cultura e a Casca de Banana – Somos 1 Só | Episódio Completo. Acesso em: 23 de outubro de 2019. Disponível em: .

Olhar Imaginário. Documentários. Acesso em: 23 de outubro de 2019. Disponível em: .

Sesc TV. Filosofia POP. Acesso em: 23 de outubro de 2019. Disponível em: .

TV Cultura. TERRADO1S. Acesso em: 23 de outubro de 2019. Disponível em: .

TV Brasil. Retratos de Fé. Acesso em: 23 de outubro de 2019. Disponível em: .



Resenha do documentário João Gonçalves: Forte e Poderoso

31 de Outubro de 2019, por Paulo Ricardo da Silva Borges Batista

Ficha Técnica

Título: João Gonçalves: Forte e Poderoso Gênero: Documentário País de origem: Brasil Ano: (?) Diretor: Toni Venturi Duração: 26 min

João Gonçalves Filho foi um nadador e jogador de polo-aquático brasileiro. Ele nasceu em Rio Claro (SP) em 07 de dezembro de 1934 e morreu em 27 de julho de 2010. Participou de diversas competições esportivas, entre elas os Jogos Olímpicos de 1952 e 1956, ambas edições como nadador; e também atuou em 1960, 1964 e 1968 como jogador de polo aquático. João também atuou como técnico da seleção de judô do Brasil nos Jogos de Barcelona em 1992.

Para o documentário do esportista diversos parentes próximos a ele são convidados para homenagear a pessoa que ele foi e contar detalhes da sua vida que são pouco conhecidos. A trajetória dele é narrada pelos irmãos e diversas fotografias pessoais são apresentadas, a fim de autenticar ainda mais a história contada. O narrador do filme ressalta principalmente o lado do esportista que o aproxima das pessoas comuns e revela que Gonçalves tinha uma vida muito simples e teve de trabalhar muito quando jovem. Ademais, seu irmão, Nivaldo Gonçalves, conta que desde pequenos eles iam para um rio (chamado de curvinha), onde eles podiam nadar. Sua irmã Antonieta Gonçalves confirma a história com uma risada tímida e eles dizem que até saltavam o muro da escola porque lá tinha uma piscina. O Horto Florestal de Rio Claro foi o principal local de aprendizado de todas as práticas esportivas.

Quando pequeno recebeu o apelido de “peixinho”, claramente identificado pelo seu amor pelos esportes aquáticos. Manoel do Santos relata que quando via o colega de profissão nadar percebia que ele não estava competindo com os outros nadadores e sim com ele próprio. Farid Zablith e Wilma Gonçalves complementam o documentário dando detalhes exclusivos da vida de atleta de João, e ressaltando que ele tinha grandes habilidades como nadador e era um homem muito bonito e assediado. Wilma conta que jamais deixaria um homem daqueles só e por isso se casou com ele.

Os participantes do documentário são todos atletas, ex-atletas e familiares do nadador. Um dos aspectos importantes a ser contado é que ele havia feito um curso de Jiu-Jitsu por cartas e levou essa modalidade esportiva para o interior de SP, onde podia mostrar aos seus amigos e incentivar homens a apostarem e ganhar dinheiro com isso.

O documentário se divide em algumas partes. Sendo a primeira a apresentação de João, a segunda relata o João – Aquapolista, onde é apresentado o lado dele futebolista nas piscinas, com muitas odes e elogios por parte de seus parentes e conhecidos. A terceira parte mostra Gonçalves no Judô, e os treinadores ressaltam que ele já tinha uma certa idade, no entanto era alguém muito forte e bem preparado fisicamente.

Por fim, é importante ressaltar que todas as imagens apresentadas no filme são belíssimas e até mesmo as reproduções são muito bem elaboradas. Recortes de jornais e os esportes praticados são colocados como plano de fundo para a fala dos parentes e ajudam a dar veracidade aos depoimentos prestados. Outrora, os grandes elogios por parte dos amigos e parentes e os relatos que contam de superação do atleta acabam por deixar o filme algo muito meloso e extremamente chato e cansativo. Pois, em alguns momentos parece que João sequer era humano e sim um deus. Os relatos parecem querer colocar o atleta em um pedestal, que não existe. Entretanto, se o documentário tivesse focado em uma parte mais biográfica do autor, revelando as nuances e contradições dele, talvez teríamos paciência e vontade para pesquisar e acreditar na história de um grande atleta e alguém que também tem aprendizados através de suas perdas e fracassos, no entanto o que nos resta no documentário de João é um lugar comum, falas bestiais e simplórias que não são e nunca colocarão esse atleta em um nenhum pódio. Também ressalto as falas que João tem em alguns momentos do filme, entre elas um grito de guerra: “EU SOU FORTE E PODEROSO”, repetido inúmeras vezes por um de seus alunos, e no final do filme ele fala que somente os melhores irão para a Olimpíada. Todas essas falas são ditas com um sorriso no rosto e um certo ufanismo.



Resenha do documentário Paulo Freire Contemporâneo

31 de Outubro de 2019, por Paulo Ricardo da Silva Borges Batista

Ficha Técnica

Título: Paulo Freire Contemporâneo Gênero: Documentário País de origem: Brasil Ano: (?) Diretor: Toni Venturi Duração: 52 min

Paulo Reglus Neves Freire, nasceu no Recife no dia 19 de setembro de 1921. Ganhou fama no Brasil e no mundo pelo Método Paulo Freire . Na década de 70 teve de sair do país e se exilou no Chile, Bolívia, Suíça, Tanzânia e Guiné-Bissau. Freire era católico e formou-se inicialmente em direito. Recebeu cerca de 39 títulos de Doutor Honoris Causa em faculdades do mundo todo.

O Diretor Toni Venturi nasceu em 21 de novembro de 1955. É cineasta e morou no Canadá de 1976 a 1984, onde se formou bacharel em artes fotográficas pela University of Ryerson em 1984. Também se graduou em Comunicação social, na modalidade cinema, na Universidade São Paulo, em 1987. (ALVES, B. J. 2017, p. 1)

No documentário de Toni Ventura o educador é apresentado como um grande intelectual e contribuinte da educação brasileira, principalmente nas classes mais oprimidas da sociedade. Além disso, Venturi convida para compor seu filme pessoas que pudessem contribuir com sua experiência para ajudar a remontar a trajetória do professor. Entre eles: as filhas do educador, alunos que tiveram contato direto com o método e principalmente amigos e professores da educação básica que pudessem falar acerca das dificuldades que tiveram com essa forma de educação e como ela contribuiu para que o professor pudesse enxergar o discente de uma forma igual e respeitar aquilo que ele tem como trajetória de vida. Dentro dessa perspectiva, o que podemos notar é uma revolução que se fez na educação, e um entendimento por parte dos novos professores de que a bagagem cultural e os aprendizados da vida de um aluno também é fundamental para compreender tudo aquilo que ele pode aprender, suas dificuldades e as melhores formas de colaboração para a troca de conhecimentos. Desta forma, nada deveria ser descartado ou repreendido, não existia a concepção de que o professor era o ser que detinha todo o conhecimento acerca de tudo e todos.

Nesta perspectiva podemos observar o relato de um dos estudantes que salienta para as novas formas de aprendizado que adquiriu na escola e como elas foram importantes para a aplicação e aquisição de uma nova forma de plantio na horta de sua casa. Neste depoimento podemos notar que a mãe do aluno também foi afetada pelo aprendizado em sala de aula e diz que aprende novas formas de ensino através de seu filho e educação que ajuda a agregar novas formas de pensar o mundo e mudar a realidade social de cada educando.

O depoimento dos professores é imprescindível para compreender a relação em sala de uma e como a observação e respeito por parte deles é recebida pelos estudantes, neste sentido os professores que educam alunos de classes sociais mais pobres e em estados desconhecidos do Brasil relatam que inicialmente tinham dificuldade em entender o porquê muitos alunos da roça não sabiam sequer usar o banheiro de sua escola e como isso estava totalmente relacionado com a educação e a relação desses indivíduos com uma sociedade mais urbana onde isso sequer era questionado, sendo assim, estes professores se debruçam sobre as teorias freirianas e suas obras para que pudessem aprender a lidar com essas situações e superarem as dificuldades através do mútuo entendimento. Os alunos de Paulo Freire relatam que suas aulas foram fundamentais para criar um pensamento crítico e autonomia para que eles pudessem aprender a ler e escrever da forma que liam e escreviam seu mundo através da relação de trabalho.

Por fim, o filme nos relata a influência que o brasileiro conseguiu ter em países como a Suíça e Portugal. Neste sentido, foram criados eventos, cátedras e grupos de estudo que facilitam um novo olhar sobre a educação brasileira e novas formas de educação que visam a inclusão de todos em amplas realidades possíveis. Ademais, a produção faz questão de revelar alguns depoimentos de Freire que complementam as falas e mesmo o depoimento de todos os presentes na gravação. Alguns programas do educador São citados brevemente para contemplar suas atividades culturais. Um dos principais é o MOVA , que surge junto as camadas mais populares da sociedade em busca de uma nova visão educacional. Freire também foi convidado para ser secretário de educação em São Paulo durante os anos de 1989 – 1991, no mandato de Luiza Erundina (PT) , no período de 1989 – 1992.

Referências Bibliográficas

PLÁCIDO, L. R; SOUZA, T. B. O método Paulo Freire: primeiras aproximações. Pedagogia: Garça, Ano XVI – Número 28 – janeiro de 2017.

REIS, P. J. F. M. Paulo Freire – análise de uma história de vida. Minas Gerais. Promel, p. 18 – 21, junho de 2012.

ALVES, B. J. Paulo Freire contemporâneo sob as lentes de um documentário. E-Mosaicos, Rio de Janeiro, V.6 – N.13, dezembro de 2017.