Este blog tem por objetivo apresentar opiniões, reflexões e interpretações acerca de alguns textos. Além disso, escrevo aqui, pois é quase impossível escrever em plataformas maiores. Portanto, o blog é também uma espécie de armazenamento dos meus textos para o futuro (se houver um).

Política para não ser idiota, de Mario Sérgio Cortella e Renato Janine Ribeiro

11 de Fevereiro de 2020, por Paulo Ricardo da Silva Borges Batista

Resumo

 

            O livro de Mario Sergio Cortella e Renato Janine Ribeiro está organizado em formato de pequenas conversas, onde ambos discutem sobre assuntos políticos e qual o significado destes termos em nossos dias, e no cotidiano do brasileiro. Ademais, o livro pretende desmistificar as ideias de discussão política e ampliar estes debates em todas as esferas sociais.  A linguagem em pequenos diálogos é fluída e suas proposições nas conversas dos autores, envolvem o leitor de uma forma única e profunda nos debates. Por fim, a obra é um convite a participação da vida pública brasileira e salienta acerca importância dos debates políticos.

 

Palavras-chave: Política. Diálogos. Cotidiano. Convite.

 

            Simples, fluído, acessível e inovador é como podemos definir os diálogos entre os professores Mário Sérgio Cortella e Renato Janine Ribeiro nesta resenha. Na obra, os autores pretendem levar o leitor ao campo do conhecimento político, e colocá-lo para debater assuntos sérios e importantes descartando o velho jargão popular, presente no país, que diz que “religião e política” não se discute. Professor, autor e palestrante, Cortella é filósofo por formação (PUC-SP), seus feitos lhe colocam como um dos principais pensadores do país e lhe rendem fama na ágora digital de nossos dias. Janine Ribeiro também é professor e filósofo (USP), foi ministro da educação (2015) e atualmente é um dos professores honorários do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo. O livro tem 112 páginas e está composto em doze capítulos, que apresentam reflexões dobre os desafios diários de se fazer pensar democraticamente em diplomacia.

            “Política não é coisa de idiota” é o capítulo que inicia os diálogos entre ambos os autores. Nele, Cortella e Janine Ribeiro pretende discutir o uso e etimologia da palavra idiota e como essa é usada para inferir uma atitude de ignorância por parte de quem comenta os assuntos de esfera pública. Os espaços de público e privado são colocados sob questão, e seu aprofundamento de ideias e imagens se dão através de inúmeros exemplos do cotidiano, que visam aproximar o leitor de uma perspectiva mais próxima de sua realidade. Cortella defende, que devemos pensar sempre coletivamente para que até mesmo nossas individualidades sejam preservadas pela lei, e que outros indivíduos se beneficiem do mesmo direito. Janine Ribeiro problematiza a conversa e expõe um caso onde a lei poderia obrigar alguém a fazer algo que vá contra sua vontade, contudo ressalta a importância das ideias de Cortella de se pensar no coletivo, e valorizar as relações de todos os indivíduos como cidadãos é função primária. O exemplo utilizado para esta cena é de um tabagista, onde a lei o impede de fazer uso do cigarro em locais públicos, Janine provoca Cortella, e lhe pergunta se a lei poderia impedir alguém de fazer a mal a si mesmo, dado a toxicidade do tabaco e sua inalação. Cortella responde, que a proibição visa evitar que não fumantes sejam constrangidos pelos fumantes, e salienta que a política é o ato da convivência coletiva. Em “Conviver: O mais político dos atos” traz consigo um pensamento iniciado por Janine, que revela a atitude de um homem em tentar passar na alfândega de um aeroporto com algumas malas e não pagar pelo imposto devido. Janine, infere ao mesmo que ele poderá fazê-lo, contudo terá de pagar. Neste mesmo sentido, eles debatem acerca das reuniões de condomínio e sobre a importância da nossa participação em compromissos públicos, conforme Cortella “os ausentes nunca têm razão”. Janine, encerra o capítulo, relatando sobre o “esgotamento” com a cidadania, uma ideia de cansaço daquilo que nem chegou em sua plenitude democrática. E ressalta, que este cansaço pode estar atrelado aos inúmeros casos de corrupção que vemos neste meio.

 

*O texto/resenha/descrição está incompleto.

 

Ficha Técnica

 

Título: Política Para Não Ser Idiota;

Autores: Mario Sergio Cortella & Renato Janine Ribeiro;

Editora: Papirus 7 Mares;

Ano de Publicação: 2012;

Versão: 10ª Reimpressão, 2016.

 



100 Mágoas

5 de Fevereiro de 2020, por Paulo Ricardo da Silva Borges Batista

100 mágoas é um dos livros do educador, professor e ativista social Rodrigo Ciríaco, o livro de pouco mais de 110 páginas está repleto de contos, que narram histórias de pessoas comuns esquecidas pela metrópole paulistana. A abordagem do texto parece concentrar-se principalmente na relação sujeito-sociedade e as implicações que podem decorrer desta relação. As histórias são, em suma, de personagens encarnados que jamais veríamos em um livro, manifestando com todas as revoltas possíveis suas mágoas e tristezas para com a sociedade e o mundo.

O primeiro conto, (V)irado (p. 19), narra a vida dos moradores de rua em São Paulo, e como essa relação com a cidade paulistana torna essas pessoas invisíveis perante os trabalhadores da metrópole e os governos vigentes. Maria (p. 25) é uma história um pouco mais crítica, e conta de forma breve a revolta de uma mulher acusada de matar a própria filha colocando cocaína em sua mamadeira, na trama, Daniela Toledo, a mãe, que foi torturada de todas as maneiras possíveis, e transformada em “monstro da mamadeira” pela opinião pública e autoridades de justiça no ano (2008), é personificada e revela sua indignação perante todas essas injustiças sofridas. Em Pratos limpos (p. 41), a revolta fica por conta de uma funcionária operacional de escola que está cansada de limpar a sujeita alheia, e da indiferença que as pessoas têm para com ela.

“Eu não me importo por ter sido trancada pela revolta das mães presas e por isso ter sido agredida justiçada surrada a cara marcada e ter uma caneta enfiada dentro da minha vagina.” (CIRÍACO, R. p. 25)

Vitória (p. 49) aborda a temática da gravidez na adolescência, e a esperança que algumas meninas acabam depositando em seus parceiros, a ponto de não usar preservativo. Sem mágoas :) (p. 51) é praticamente a encarnação da voz de uma mulher que xinga, quase respirar seu parceiro (ou ex) por conta de uma traição. Prestando contas (p. 53), transforma uma relação monótona de casal numa relação quase empresarial, e implica criticas as relações extremamente entediantes entre marido e mulher, e os relacionamentos amorosos que não conseguem sobreviver por muitos anos. Amor compartilhado (p. 57) é o oposto da história anterior, e traz consigo a tensão sexual em seu maior ápice, revelando o amor entre um homem e uma mulher casada, que na impossibilidade de se amarem em casa, se amam em todo lugar. Seria uma crítica a instituição do casamento?

“A fome e a vontade de comer. Juntas. À luz de velas. Sobre a mesa da sala...” (CIRÍACO, R. p. 57)

Vai um dedinho (p. 61) é o mais surpreendente dos contos, pois revela com acidez os motivos profundos, pessoais e financeiros que levaram uma professora para o caminho da prostituição. Como dois animais (p. 67) é surpreendente e igualmente cômico, pois não é possível determinar quem são as personagens retratadas no texto, somente sabemos que ambas se amam. Se eu te contar você não vai acreditar (p. 77), foca na reação emocional que pessoas brancas em uma espécie de ONG têm ao se deparar com um rato correndo pelos espaços, e como eles tratam a empregada, que passa invisível diariamente quando ela pega o rato e coloca no lixo com frieza.

“O ratinho apareceu, botou todo mundo pra corrê, depois morreu. Mas não foi em vão. Fez eles sentir na pele um pouquinho do nosso veneno”. (CIRÍACO, R. p. 79)

Tudo bem, tudo certo (p. 93) aborda de forma cômica e desesperadora a ligação de um homem para que a polícia ajude a tirar seu irmão que é dependente químico do meio da rua, no entanto, a policia alerta que como o individuo não está atrapalhando o trânsito, ele não pode ser removido da rua, e solicitam para que ele ligue para o SAMU (192), pois trata-se de um caso de saúde pública. Quando ele consegue ligar para o SAMU, a atendente informa que o caso não é de saúde pública, pois o homem não está desmaiado, nem machucado, apenas no meio da rua. Nesse tempo perdido das ligações, o irmão que está deitado na rua, é chamado para beber, e finalmente se levanta. A questão crítica está na forma em que o estado trata as pessoas doentes ou saúde delas. Para a polícia, o homem só seria retirado da rua, caso ameaçasse a vida de alguém ou atrapalhasse o trânsito. Já o SAMU consideraria ajudar se o homem estivesse desmaiado ou inconsciente. Dessa forma, a culpa é alocada sobre a própria vítima e sua família, restando a estes lidar com o problema como algo pessoal e que jamais será solucionado sem ajuda de terceiros ou profissionais específicos.

“- Senhor , me desculpe, mas vou interromper esta ligação. Infelizmente não podemos fazer nada.

- Como não? Não, não, não, não. NÃO!

- Desculpe, o que foi, senhor? O que aconteceu?

- Como o que aconteceu? Ele saiu da rua. Foi pra dentro do bar. Agora que eu na consigo levá-lo embora mesmo.

-Entendi. Bom, pelo menos saiu da rua. Agora tá tudo bem, tudo certo. Correto?”

(CIRÍACO, R. p. 99)

 

*Nem todos os contos estão descritos neste texto, ou seja, não escrevi sobre todos, apenas aqueles que me chamaram mais atenção.

 

Livro à venda na FiloCzar Livraria

CIRÍACO, Rodrigo. 100 Mágoas. In: FiloCzar Livraria. Disponível em: <https://editorafiloczar.shopping.marketup.com/produto/100-magoas-1833>. Acesso em: 29 de janeiro de 2020.

Referências Bibliográficas

CIRÍACO, Rodrigo. 100 Mágoas. São Paulo: Edições UM Por TODOS, 2011.

CÍRIACO, Rodrigo. Rodrigo Ciríaco. In: Editora Nós. Disponível em: < http://editoranos.com.br/nossos-autores/rodrigo-ciriaco/>. Acesso em: 29 de janeiro de 2020.

BRITO, Luciana. Daniele Toledo: A mulher que se tornou infanticida pela opinião pública. In: Opinião Huffpost. Disponível em: < https://www.huffpostbrasil.com/luciana-brito/daniele-toledo-a-mulher-que-se-tornou-infanticida-pela-opiniao_b_12146272.html>. Acesso em: 29 de janeiro de 2020.

 

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O fardo do fracasso e o contentamento descontente

26 de Janeiro de 2020, por Paulo Ricardo da Silva Borges Batista

Lançada em 1976, a música Quando Você Crescer, do Álbum “Há Dez Mil Atrás”, é pouca conhecida do grande público de Raul Seixas, no entanto, a canção parece dialogar com questões essencialmente modernas e atuais. Entre elas: os sonhos, as tentativas de ter algum tipo de sucesso na vida, o fracasso das tentativas e mediocridade da aceitação de uma vida comum. Neste breve texto, separarei em tópicos, as ideias e excertos da canção, a fim de sistematizar e esclarecer melhor minha interpretação.

O que você vai ser quando você crescer?

“O que que você quer ser quando você crescer? Alguma coisa importante Um cara muito brilhante Quando você crescer Não adianta, perguntas não valem nada É sempre a mesma jogada”

A pergunta que inicia o texto a música de Raul nunca foi tão atual, dividida entre o que é o ser hoje, e o que ele pretende ser amanhã, o cantor simula um campo de possibilidades a seu interlocutor, que responderá de acordo com a possibilidade dos desejos e utopias que lhe ajudem a alcançar alguma relevância na sociedade. O trecho em si revela que o campo do desejo está amplamente configurado para as noções de trabalho e profissionalização do sujeito, ou seja, não é uma pergunta que se faz se ele será feliz ou triste, mas o que garantirá a ele, enquanto ser profissional, numa sociedade capitalista um status de relevância e/ou sucesso (também financeiro). Projetando-se no futuro, podemos pensar também que a personagem vive um presente de mais jovialidade ou pouca idade em relação ao que virá (o futuro, a vida adulta). Seus anseios, outrora, parecem ser cessados pela voz de um narrador interno, que sequer ouve seus anseios, mas logo a nega como ideia de alguma fala ou expressão de dúvida. Na frase “é sempre a mesma jogada” podemos notar uma certa negação dessas possibilidades (desejos para a vida adulta), e um entendimento por parte do próprio cantor, que ainda que haja sonhos ou vontades, o caminho já está trilhado. Esse final que não é feito pelo próprio eu-lírico pode ser compreendido em uma relação em que tem desde de seu início as cartas da reação sujeito-mundo já estão dadas e estão pré-determinados os vencedores e os vencidos.

Vida adulta e o inicio do fim ou daquilo que nunca irá começar

“Um emprego e uma namorada Quando você crescer E cada vez é mais difícil de vencer Pra quem nasceu pra perder Pra quem não é importante”

A vida amorosa parece ser um aspecto importante e valorizado na formação do sujeito a quem Seixas dirige a narrativa. Neste trecho cessam-se os desejos e possibilidades, e entramos na narrativa da vida romântica e do emprego, cada vez mais distanciando-se de qualquer utopia da vida jovem, e se aproximando daquilo que de fato poderá ser e será. As possibilidades também são cerradas devido à falta de “importância” do sujeito, que não nasceu numa família de igual importância e pudesse repassar esse status, que provavelmente seja financeiro. A hereditariedade da importância ressalta ainda mais os aspectos da impossibilidade do querer, pois seria impossível querer ou ser algo a que você não está predestinado.

É melhor sonhar do que conseguir?

“É bem melhor Sonhar, do que conseguir Ficar em vez de partir Melhor uma esposa ao invés de uma amante Uma casinha, um carro à prestação Saber de cor a lição, que no Que no bar não se cospe no chão, nego Quando você crescer”

Nesse trecho, podemos notar que já começa haver uma plena aceitação do sujeito acerca do seu fracasso e da não realização dos seus sonhos. Desta forma, também é ressaltado que é melhor sonhar do que de fato conseguir ser algo. Assim, o aspecto mais valorizado é aquele da tentativa e não do feito. É interessante notarmos também, que o aspecto da vida amorosa é diminuído, e o destaque se dá para uma vida monogâmica, uma casa pequena e uma vida monogâmica. Todos esses aspectos são permeados pelo rebaixamento do sujeito e do seu querer, restando a ele uma vida comum, e não uma vida com dinheiro e poder, que lhe permitiria ter amante, uma casa maior, carros e até mesmo desacatar ordens.

A felicidade na vida comum

“E no subúrbio, com flores na sua janela Você sorri para ela E dando um beijo lhe diz Felicidade É uma casa pequenina E amar uma menina E não ligar pro que se diz Belo casal que paga as contas direito Bem comportado no leito Mesmo que doa no peito”

No aspecto da vida adulta, o equilíbrio é dado quando este sujeito que almejava ser algo ou acreditava ser alguém (ao menos, as perguntas suscitam a isso), se alegra com a situação que está e acaba aceitando sua condição de um proletário, em uma casa pequena, casado e bem-comportados. A monotonia dessa vida sugere tristeza na felicidade, e um contentamento do que não foi e não será. Evidentemente, ele não está rico e com carros na garagem, nem com amantes em uma casa grande, mas ao menos está casado e minimamente saudável. No entanto, ainda há dores presentes, que são ressaltadas na última linha da estrofe.

Sozinho no sucesso e no fracasso

“E o futebol te faz pensar que no jogo Você é muito importante Pois o gol é o seu grande instante Quando você crescer Um cafézinho mostrando o filho pra vó Sentindo o apoio dos pais Achando que não está, só”

Nesse último excerto podemos notar que a aceitação dos fracassos se tornam uma possibilidade, e uma via de sobrevivência do sujeito ante suas vontades. A aceitação entra em sua vida também como válvula de escape e permite a ele poder sobreviver em sua realidade distante daquilo que ele queria. Os grandes momentos da vida desse sujeito são de fato coisas pequenas e estranhamente momentâneas, como um jogo de futebol, e seu ápice com um gol futebolístico. A dimensão familiar também é proeminente aqui, talvez, poderíamos pensar que se este sujeito tivesse dinheiro ou mesmo estivesse em uma situação de poder, ele estaria justamente pensando em si próprio e investimento e sua própria diversão, outrora, como nada disso acontece, a dimensão do eu é diminuída e quase apagada, restado a ele juntar-se a multidão (a família), e firmar com estes um pacto social de aceitação dos fracassos em comum, vide que os avós e pais já estão em idade avançada, e sem grandes pretensões. Ademais, é possível que todos possam encontrar uma zona de conforto na multidão e até mesmo possam se sentir superiores entre si devido a aceitação do endogrupo e as baixas pretensões de todos eles. Preciso destacar, que em algumas versões dessa mesma música, inclusive a que está no Spotify (aplicativo de música), o próprio cantor acrescenta a versão algumas frases que dizem: “Tudo igual”, “Vai ser exatamente o mesmo”; desta forma, reforçando o sentido da análise apresentada.

Recalque do sujeito e pessimismo sem fim

A vida do personagem comum acaba por ser determinada pela linhagem de sua família, e seus desejos de infância não parecem ter qualquer significado ou importância no mundo e na sociedade, como podemos notar nos versos musicais. Apesar de parecer que ele será alguém na vida ou mesmo conseguirá alcançar grandes feitos, tudo sugere que a história repita com ele, aquilo que aconteceu com seus pais e seus avós, ou seja, nada.

Sendo assim, é preciso que este sujeito encontre mecanismo que possam refrear os seus desejos mais pessoais e controlar-se a si. A letra mostra que o fracasso nem sempre é aquilo que imaginamos que ele seja, mas que ele pode ser simplesmente a aceitação de uma vida comum para aqueles que desejavam ser algo. Não há uma mensagem positivista aqui, mas um diálogo sobre o fracasso e o próprio pessimismo que ajuda a legitimar aos poucos sua vontade.

Por fim, ressalto que esta música do Raul é uma das que eu acho mais legais e que esta é apenas uma interpretação dessa letra, que leva em consideração as palavras e o sentimento do sujeito. Sendo assim, espero que consiga contribuir com as possíveis versões interpretativas e a vontade de entendimento de cada leitor, e dos ouvintes de Raul Seixas.

Referências Bibliográficas

Raul Seixas. Quando Você Crescer. Acesso em: 31 de dezembro de 2019. Disponível em: .



Os super-heróis brasileiros e quem os cria: o poder, o povo e a alienação

26 de Janeiro de 2020, por Paulo Ricardo da Silva Borges Batista

Diferente da criatura aterradora do médico Frankenstein, que punha medo nas pessoas e ainda assim se tornou um anti-herói, os genuinamente heróis são sempre vistos com muita receptividade e tratados como grandes mocinhos e capazes de fazer tudo e salvar a todos. Talvez a visão utópica sobre esses poderes afastem muitos adultos da ficção dessas criaturas, no entanto, outros se aproximam ainda mais deles por enxergar na personagem uma possibilidade de um mundo melhor e mais belo.

Diferente dessa visão positivista, Raul apresentou em 1974, a música “Super-Heróis”, em seu álbum “Gita”. Diferente das personagens com super-poderes e queridas pelo público de quadrinhos e da cultura norte americana, o cantor começa a música com o que parece ser uma crítica dirigida as pessoas que dão mais importância aquilo que vêm na televisão do que a sua própria vida.

No breve excerto, o cantor comunica a insatisfação com a falta de leitura e falta de concentração para fazer essa atividade. Porém, toda sua revolta está atrelada a cultura de massa, que é o futebol, e a preocupação manifestada com uma partida de jogo, que o faz ficar perplexo em todos os ambientes de sua casa.

“Como é que eu posso ler Se eu não consigo concentrar minha atenção Se o que me preocupa no banheiro ou no trabalho É a seleção”

Se faz importante notarmos que apesar do título ser “Super-heróis”, esses personagens na letra são pessoas da televisão e queridas pelo público brasileiro, ou seja, elas são comunicadores, pensadores, músicos e até mesmo jogadores de futebol, em comum a todos eles temos a televisão como uma vitrine para seus trabalho e a faceta mais bonita de cada personalidade representada.

“Hoje é segunda-feira e decretamos feriado Chamei Dom Paulo Coelho e saímos lado e lado Lá na esquina da Augusta quando cruza com a Ouvidor Não é que eu vi o Sílvio Santos Não é que eu vi o Sílvio Santos Sorrindo aquele riso franco e puro Para um filme de terror”

Os poderes dessas personalidades, tratadas como heróis pelo grande público, não está em mover objetos, salvar meninas em apuros ou mesmo em ajudar alguém, mas reside no poder que eles detém da consciência (ou falta dela) pelo povo da época. Em todos os trecos da música a população não parece deter conhecimento ou consciência crítica suficiente para perceber que as personalidades da televisão e do futebol não são grandes astros ou mesmo heróis de nada, mas simplesmente estão ganhando dinheiro e poder com a alienação das massas.

“Como é que eu posso ler Se eu não consigo concentrar minha atenção Se o que me preocupa no banheiro ou no trabalho É a seleção”

“O povo confundiu pensando que era o carnaval”

Em ambos os trechos, Raul parece adotar uma postura de quem está participando da ação, talvez esse aspecto evidencie que ele também já foi mais alienado e vise encontra nessa ação mais identificação com o público, onde ele (o público) perceba a crítica do cantor). Já o segundo trecho revela maia confusão na cabeça do grande público que não percebe bem os atos (políticos, culturais e sociais) que se passam dentro do próprio país e dão maior relevância para o carnaval.

“Lá em Nova York todo mundo é feliz Vi o Marlon dançando o último tango de Paris”

Separei esse excerto para que pudéssemos observar a influência norte-americana em todo esse aspecto de alienação, e é possível notar (mais uma vez), que a alienação aqui critica advém e é mediada pelos dispositivos de transmissão de imagem ou som (rádio e televisão). Esses dispositivos são fundamentais para proporcionar aos governantes e pessoas que possuem maior poder de decisão uma certa legitimidade em seus atos, pois a população sequer está incomodada ou mesmo capacitada para vigiar os atos dos governantes, pelo contrário, a preocupação está em ver o futebol (copas e campeonatos) e em festivais de rua.

“E duma cobertura no Leblon Quelé acena dando aquela Enquanto o povo embaixo grita”

Neste penúltimo excerto, o cantor parece salientar a miséria em que se encontra o povo, ou seja, o ídolo está encima, numa cobertura de um grande prédio, e no chão da rua, está o povo gritando e saudando o aspecto de suas próprias ilusões. A promoção dos ídolos na sociedade brasileira parece ter sido fundamental para a ilusão e cortina de fumaça da época.

“Vamos dar viva aos grandes heróis Vamos em frente, bravos cowboys Avante! Avante! Super-heróis”

Por fim, o último trecho destaca essa rendição mental e o desdobramento desses atos, que apresentam o cantor (objeto da mídia), como uma voz poderosa que ajuda a puxar o coro popular e elevar não só a ilusão momentânea de poder do grupo e de histéria coletiva, mas ajudar a construir uma narrativa de grandes heróis brasileiros, que manipulam, controlam e movem o povo em prol dos que detém o poder. Portanto, a observação que se faz da música é justamente uma abordagem mais crítica e interpretativa das palavras e ações que pude encontrar na letra.

Referências Bibliográficas

Raul Seixas. Super-Heróis. Acesso em: 31 de dezembro de 2019. Disponível em: .



O fracasso da leitura obrigatória

26 de Janeiro de 2020, por Paulo Ricardo da Silva Borges Batista

Estava refletindo esses dias sobre as leituras na escola, aliás, as leituras que tive na minha escola, e como isso enchia de ódio não só a mim como a todos os meus colegas, que não tinham a seu alcance livros que realmente os interessassem ou mesmo oferecessem algo de sua realidade. A leitura ao contrário do que se pensa, não deve ser utilizada para afastar as pessoas ou mesmo marginalizar e criar um obstáculo enorme com a realidade de quem não possui certos graus de letramento ou não se identifica com um livro do século passado que é “leitura obrigatória” no vestibular.

Esse ódio pela falta de livros realmente interessantes causa nas pessoas não só um desalento perante o livro lido, mas uma morte e um decantamento gradual do autor, que some ao longo do tempo da vida do jovem, e ganham o rancor eterno devido as inúmeras obrigações que são impostas pelos seus professores e os inúmeros vestibulares universitários. A morte do autor é uma das piores coisas que pode acontecer na vida de alguém, pois o apagamento deste (autor) faz com que não voltemos nunca mais as páginas de um livro que lhe pertence e guardemos eternamente as memórias de fracasso com sua leitura e o pouco entendimento com as palavras rebuscadas e longes do coloquial.

Essa imposição gera também a construção de cadeias que aprisionam a liberdade da leitura (livre) e não ajuda a emancipar o sujeito, pelo contrário, o aprisiona em conceitos ultrapassados do que é considero “bom e do bem” pelos professores e sociedade letrada. Solicitar a um aluno com pouca familiaridade que se leia um cânone da literatura brasileira é não somente uma imposição ao seu modo de vivência, mas uma violência a seu direito de escolha e um desrespeito a sua cultura. Não estou dizendo que não se deva ler os cânones, mas antes de mais nada, é preciso explicar o porquê dessa leitura, e fundamentar seu uso para além dos vestibulares e das leituras obrigatórias.

Uma leitura que emancipa, prepara e cria uma sociedade crítica deve ser desenvolvida, programada e feita em conjunto com os estudantes. Uma bibliografia que ajude a pensar a realidade de hoje, o ontem e o amanhã. Essas reflexões precisam ser feitas inclusive pelos docentes, que precisam entender as novas realidades e aprender a respeitá-las, para que assim, se crie uma sociedade viva, ativa e plenamente interessada nos livros, não só no cânone, mas no regional, no marginal e no real que está longe da “Academia” (entenda academia como espaço de poder letrado), e próximo das pessoas comuns. Desta forma, será possível pensar um futuro mais inclusivo, democrático e de maior grau de leitura e letramento em todos os níveis possíveis. Não abandonemos a leitura, mas deixemos que as pessoas entendam o propósito de ler o cânone e incluam sua leitura, sua escrita, sua vivência, sua escrevivência.