Em outras ocasiões, já escrevi sobre como as novas formas de sociabilidade online estimulam uma percepção de fragmentação das identidades pessoais. Precisando administrar inúmeros perfis virtuais, com suas redes de contato específicas, o indivíduo inserido em relações sociais intermediadas pela internet precisa demonstrar grande competência na arte de administrar papéis e ferramentas interativas: Facebook, Twitter, OrkutSkype, MSN, e-mail - várias formas de comunicação são utilizadas simultaneamente, cada  qual com seus instrumentos particulares.A autora Sherry Turkle já estabeleceu um paralelo entre essa fragmentação do self e a própria dinâmica do sistema operacional Windows, daMicrosoft: de forma similar a esse último (e, em partes, para adaptar-se a ele), o indivíduo precisa administrar várias "janelas" autônomas, com diferenças de micro-segundos de troca entre elas.

Há dois anos, porém, a revista Wired previu que a fragmentação da internet em várias redes sociais estava condenada: apostou que os muros que separam essas redes seriam diluídos em pouco tempo. Até hoje, essa previsão não se cumpriu: a maior promessa feita nesse sentido, o Google Wave, foi um fiasco e, por mais que o Facebook  disponibilize vários aplicativos de integração com outras redes (como o Twitter), essa relação não parece "natural", estando sujeita a bugs e imprecisões (re-twitadas, por exemplo, não são reproduzidas pelo aplicativo do Facebook). Reportagens, blogs e sites de vídeos também disponibilizam ferramentas de compartilhamento entre redes, mas ainda há um considerável caminho a percorrer. Continuamos a administrar redes sociais quase em isolado, preenchendo nossos dados em cada uma, dialogando com pessoas diferentes, e refazendo o procedimento de postagem de  fotos, textos e vídeos.

Talvez todo esse trabalho estimule o ciclo "ascenção-queda-estagnação" das redes sociais: sendo tão difícil administrar todas ao mesmo tempo, opta-se por priorizar apenas uma, a rede "do momento", e passa-se a desprezar as demais. Orkut, Second Life e Twitter, pelo menos, já passaram por esse processo - e ainda não há evidências de que o Facebook não terá o mesmo destino, decaindo e estagnando após um período de sucesso absoluto. Hoje, embora o Twitter continue a manter muitos adeptos, vislumbra-se um processo de evasão, e as vozes dos que ficam não parecem superar a muralha que cerca essa rede. Ainda há pouco diálogo entre tal micro-universo virtual e todos os demais.

Mesmo assim, acho que a previsão da Wired nunca esteve tão perto de se cumprir. A eclosão de aplicativos de compartilhamento mostra que a exigência por integração continua a crescer - partindo tanto de usuários, que utilizam tais aplicativos com maior freqüência,  quanto das próprias empresas, que melhor poderiam administrar as informações de seus usuários se essas fossem absolutamente integradas, ao invés de fragmentadas em comunidades independentes.

Enfim, acredito que a destruição dessa muralha trará grandes conseqüências para o papel da internet na constituição e experimentação de identidades. O estímulo ao exercício de modos diferentes de ser sofrerá limitações, uma vez que o indivíduo não mais falará para públicos diferentes em plataformas distintas, mas sim para a mesma rede de contatos - que terá ligações cada vez mais explícitas com os contatos do mundo físico. Assim, enquanto em um universo virtual repleto de redes sociais particulares podemos assumir papéis variados (um personagem para o Twitter, outro para o Facebook, e assim por diante), em um contexto em que o que escrevemos ecoa em todos os locais, inclusive no próprio ambiente físico, tendemos a assumir um único papel, o mais coerente possível com o assumido nas relações face a face. É impossível prever o quanto relações virtuais baseadas no anonimato ainda deterão importância nesse contexto, mas acredito que elas não representarão um grande contraponto à tendência pela "unificação" das identidades virtuais.

De toda forma, difícil crer que esse movimento resultará em uma redução do uso das redes, ou em uma banalização desse uso, com a eclosão de uma sensação de mesmidade e tédio entre os usuários: creio, pelo contrário, que disso resultará um novo patamar do uso da internet, onde os indivíduos serão tentados a produzir muito mais informações a respeito de si mesmos, e com mais freqüência. Já vemos, principalmente no Facebook e no Twitter, esse tipo de pressão, em que a exibição de informações pessoais, o compartilhamento de vídeos, fotos e notícias, as re-twitadas de trend topics e o uso da própria ferramenta "curtir" (do Facebook) são usadas para medir o grau de participação pessoal na rede e a popularidade individual do sujeito. Com o fim da necessidade de gerenciar mil comunidades concomitantemente, acredito que sobrará mais tempo e disposição para muitos entrarem nesse engalfinhamento competitivo por mais "produção pessoal" e popularidade, resultando em um aumento massivo na participação virtual.

É claro, aos meus olhos, que mesmo que esse movimento represente uma redução do fomento  à multiplicidade identitária no uso da internet, ainda há uma compatibilidade entre ele e o processo de difusão de identidades plásticas entre os indivíduos imersos na sociedade contemporânea (de acordo com argumentação presente nos textos mais recentes do filósofo Vladimir Safatle). Em outras palavras, embora menos múltiplas, as identidades exercidas na internet tenderão a se tornar mais flexíveis do que nunca, adaptando-se com grande velocidade às tendências e modismos globais e locais, por meio da alimentação contínua de informações, tanto nos perfis quanto nas caixas de diálogo público das contas dos usuários das redes.

Obs: Lendo algumas análises, uma outra possibilidade me ocorreu, além da simples "queda do muro" que separa as diversas redes sociais: seu exato oposto, ou seja, o FORTALECIMENTO desse muro, mediante uma segmentação de públicos específicos em novas redes virtuais de sociabilidade e troca de informações. 

Há uma tendência, ainda difícil de ser plenamente avaliada, de proliferação de redes sociais voltadas a públicos determinados. O Stoa é um exemplo, mas existem muitos outros em ascensão. Não se trata de redes que almejam a inserção de um público genérico, mas antes, de usuários com pretensões bem específicas, ou que compõem uma comunidade determinada do mundo físico (no caso do Stoa, a comunidade de estudantes e acadêmicos da USP).

Desse modo, é possível que adentremos em uma era de "tribalização" virtual, em que nos fecharemos em redes sociais voltadas para aqueles que possuem interesses equivalentes aos nossos. Mas creio que essa tendência não anula outras observações da postagem, como o privilégio de uma rede perante todas as demais e um provável aumento da participação virtual de todos os usuários da internet. E ainda podemos refletir sobre o aumento do caráter flexível das identidades virtuais, com a necessidade de renovação constante de informações pessoais postadas nas redes.


Pedro Mancini