Resolvi sair de meu recesso auto-imposto por um instante para emitir minha opinião sobre o protesto ocorrido na Avenida Angélica, no último sábado


Muitos já escreveram sobre as razões dessa mobilização: o recuo do Governo do Estado de São Paulo da decisão de construir a Estação Angélica, supostamente devido à pressão de um grupo de moradores do bairro de Higienópolis (em meio a alguns comentários altamente preconceituosos). Mas hoje quero dar ênfase à  outra questão: as formas que a intolerância e o preconceito se revestem, camuflando-se com argumentos que, quando postos à prova, se dissolvem facilmente. 

Isso pode ser percebido não somente quando alguns dos contrários à estação do metrô insistem sobre a falta de necessidade da mesma, alegando, erroneamente, que há estações suficientemente próximas a serem utilizadas (se visitarmos qualquer metrópole européia que esses mesmos indivíduos provavelmente elogiam, veremos estações separadas por distâncias  muito menores do que as presentes). Podemos notar a transmutação do preconceito, igualmente, quando analisamos os discursos contrários à própria manifestação organizada pelo Facebook

Como se sabe, vários jovens revoltados com o recuo do Estado organizaram, via redes sociais, uma manifestação inusitada para protestar tanto junto às autoridades, quando contra os posicionamentos de representantes de moradores do bairro. Veio daí a idéia do "Churrascão da Gente Diferenciada", em referência às declarações de uma senhora moradora de Higienópolis que demostrava medo em imaginar seu bairro coberto de "drogados, mendigos" e afins

Algumas manifestações tímidas na internet condenaram essa atitude espontânea dos organizadores do evento, imediatamente taxando-os de "vândalos" que queriam causar "baderna" em um bairro nobre de São Paulo. Muitos dos contrários ao "Churrascão" quiseram deixar claro não ser contrários à implantação do metrô, considerando injusto serem "responsabilizados" pela manifestação preconceituosa de alguns moradores azedos; outros apareceram com o argumento de sempre, segundo o qual "o espaço público não deve ser ocupado por manifestantes"; outros, por fim, insistiam que apenas os habitantes do bairro tinham o direito de decidir sobre o futuro dos arredores, devendo ser sua opinião respeitada e acatada pelos demais. 

Bem, a própria forma como a manifestação decorreu já anula os receios desesperados dos que acusaram-na de "puro vandalismo": absolutamente nenhuma ocorrência violenta foi registrada, em uma manifestação bem-humorada, que contou com bem menos adeptos do que o esperado (menos de 1.000 estiveram presentes), a maioria composta por jovens das classes média e alta. É claro que não acho que as características da mobilização desqualificam suas intenções ou mesmo seu sucesso: é sabido que o número de pessoas que confirmam presenças em eventos pelo Facebook sempre é bem maior do que as que comparecem de fato. Além disso, a manifestação foi programada para um sábado, dia em que os trabalhadores do bairro, que  seriam os principais beneficiados pela construção da estação, por lá não trafegariam. E uma grande parte da população das classes mais baixas ainda não utiliza o Facebook e outras redes sociais como o Twitter com tanta frequência para participar em massa de um evento por lá arquitetado. De todo modo, foi um pequeno, porém firme passo, de forte conteúdo simbólico, em direção a um futuro pautado por mobilizações e protestos coletivos pela cidade, organizados via Internet.


Mas voltando às argumentações contrárias à referida mobilização.Qualquer um com um mínimo de senso crítico pode detectar algumas contradições graves nesses discursos. De alguns, vi partir tanto o argumento de que cabe aos moradores de Higienópolis decidir sobre a construção da estação, quanto a idéia de que a via pública não deveria ser ocupada por manifestantes. Mas vejam: ou consideramos Higienópolis uma região privada, ou pública! A contradição é evidente quando reivindicamos se tratar de uma via pública, mas que detém autonomia para tomar suas próprias decisões, indiferente à opinião de moradores de outros bairros que frequentam, por motivos profissionais ou pessoais, a região do entorno da Avenida Angélica. Higienópolis não é um feudo, meus caros.

E é evidente que cada um dos argumentos em isolado também pode ser desmantelado. Em primeiro lugar, a Cidade de São Paulo não pode ser vista como um conjunto de pequenos reinos independentes entre si, do mesmo modo que não podemos falar, em tempos de globalização, de uma nação absolutamente isolada das demais. Estamos falando de um emaranhado urbano complexo, em que moradores de um bairro distante precisam se deslocar por quilômetros para alcançar seus locais de trabalho, onde nos deslocamos para comparecer a consultas médicas, e para muitos outros fins. Assim, nenhum bairro é "propriedade" de seus moradores, sendo apenas uma parcela de um espaço públicouno e indivisível.  A decisão a respeito da construção do metrô não concerne apenas aos moradores de Higienópolis, portanto (que também seriam beneficiados, obviamente), tampouco a um conjunto pouco representativo dos mesmos (apenas cerca de 6% dos moradores do bairro assinaram a petição contrária ao Metrô), mas ao conjunto de habitantes da cidade. 

Com isso, resolvemos a questão de a Avenida Angélica constituir-se como espaço público ou como ambiente privado dos moradores do entorno. Mas, considerando que falamos de um espaço público e de interesse social, como avaliar uma mobilização que interrompe o seu fluxo, prejudicando a livre circulação de moradores e trabalhadores pela região? Como espaço público, a Avenida poderia ser apropriada dessa forma por um punhado de manifestantes inconformados?

Novamente, entramos em uma falácia sustentada por fraquíssimos alicerces. Se retomarmos o conceito fundamente da noção de espaço público, veremos que a ele concerniam os interesses coletivos da cidade, sendo ele indissociável da noção de política. Desse modo, não faz nenhum sentido reclamar da apropriação política do espaço público: é para isso que ele serve! No caso específico que discuto, para viabilizar uma manifestação por melhores condições de transporte para o conjunto da população paulistana. Trata-se de um movimento com uma autenticidade e legitimidade evidentes, não se resumindo à defesa de interesses privados, seja de empresas, seja de categorias profissionais - sendo que mesmo elas, já aproveito para afirmar, também têm o direito de se manifestar pela defesa de seus direitos. Uma democracia não deve se resumir à atividade eleitoral, corrompida e relativamente deslegitimada há tempos; para se aproximar de forma mais efetiva de seu tipo-ideal, mobilizações como a que ocorreu no sábado último são fundamentais, possibilitando a expressão efetiva - e não meramente formal - de anseios da sociedade, e a pressão produtiva das autoridades competentes. É claro que moradores de Higienópolis têm o direito de manifestar-se contra a instauração do Metrô em seu bairro (pois mais torpe e preconceituoso que seja o motivo); mas igual direito possuem outros indivíduos moradores de São Paulo. 

Com isso, volto à questão original: boa parte dos argumentos contrários à mobilização pelo Metrô na Angélica, oriundos de alguns moradores da própria região de Higienópolis, não passam de mecanismos para mascarar seus reais posicionamentos, muitas vezes pautados por um bairrismo tacanho ou por um  preconceito puro, fundado em uma idéia fabricada de usuários do transporte público como miseráveis e "delinquentes" (digo fabricada, pois a heterogeneidade dos usuários desse transporte é gritante, perpassando todas as classes sociais). Se ao menos  mais moradores preconceituosos e bairristas (vejam que não generalizo, pois sei que se trata de uma minoria) fossem como aquela suposta senhora que assumiu seu repúdio à "gente diferenciada", ao menos teríamos uma elite mais sincera, que não esconderia seu lado obscuro pelo uso de argumentos tão dissolúveis. 

Pedro Mancini