Admito que parece idiota estabelecer uma comparação entre a experiência dos mais velhos e a paixão da juventude: além de a maioria das pessoas não poder ser definida como apenas “experiente” ou apenas “apaixonada”, havendo muitas posições intermediárias, cada um dos lados do espectro possui suas vantagens e desvantagens – nenhum é absolutamente bom ou ruim. Muitos dirão até que os dois lados da moeda são complementares por suas características, auxiliando-se mutuamente. A experiência sem a curiosidade e paixão da juventude parece vazia e sem propósito, e a paixão e o espírito de descoberta dos jovens é muito desperdiçado quando na ausência absoluta da experiência para direcioná-los apropriadamente.

Mesmo assim, arrisco-me a elaborar algumas comparações. Tive experiências, como todo mundo, tanto com pessoas mais jovens e apaixonadas, quanto com baluartes de sabedoria, que haviam adquirido massivos conhecimentos em sua luta cotidiana. Encantei-me com os dois lados; a paixão dos jovens é contagiante, e parece ser a essência da própria existência humana. Sedentos em provar seu valor a si mesmos e à sociedade, os jovens apaixonados dedicam-se às suas atribuições com uma vontade sincera, até mesmo agressiva - embora, muitas vezes, de modo ingênuo e pouco focado. 

Mais velhos, por sua vez, sempre têm algo a nos ensinar - mesmo quando já perderam boa parte de sua paixão juvenil, calejados pelo enfrentar de duros obstáculos. Podem não se dedicar às tarefas com tanta vontade quanto os mais jovens, mas utilizam todo o conhecimento adquirido para realizá-las com maior perfeição técnica. E, mais importante, em geral são capazes de transmitir sua sabedoria aos jovens, que sempre podem recheá-la com a sua paixão  peculiar.

Voltemo-nos, porém, aos principais problemas que encontramos quando levamos os dois lados da moeda ao seu extremo: a juventude apaixonada absoluta, de um lado, e a máxima sabedoria dos mais experientes, de outro. O que pode haver de pior em um e noutro caso? O que existe no “experiente desapaixonado” e no “inexperiente apaixonado”?

Ao meu ver, a pior conseqüência, no último caso, é a ignorância – a ausência de sabedoria que ocasiona em tomadas de decisão equivocadas. Embora esse seja um problema irritante, não é insolúvel; muito pelo contrário, é o pressuposto de todo o aprendizado: errar para aprender, desenvolver-se a partir dos próprios erros. É claro que a paixão pode obscurecer a necessidade de admitir os próprios erros (alguma sabedoria é necessária para isso, aliás), mas, em geral, esse grande “defeito” dos inexperientes é a própria solução para a superação de sua condição de ignorância. Com um mínimo de experiência que o tempo fornece, um jovem pode rapidamente aprender a minimizar sua ignorância, admitindo seus próprios limites.

É o oposto, porém, que me incomoda mais: os "experientes" que perderam qualquer intenção de aprender, apegando-se e isolando-se naqueles conhecimentos que a vivência lhes trouxe. Convencidos de sua superioridade prática, pelo tanto que viveram e pela relevância de suas experiências, vêem os jovens, heróis do presente, como idiotas pretenciosos; qualquer argumento que os últimos exponham pode ser rechaçado como “ignorância juvenil”, como um efeito colateral de sua falta de experiência. Por mais que muitas vezes possam ter razão nesse tipo de crítica, o simples fato de sempre se protegerem com ela é sintoma de seu fechamento para o mundo e suas novidades. Não reconhecendo o valor dos mais jovens, desprezam o próprio presente, deixando-o de compreendê-lo, para idealizar um passado que dominavam. São velhos desapaixonados pelo presente, dominados por um puro saudosismo.

É comum encontrar indivíduos dessa espécie por aí – nem sempre velhos, mas sempre com ferrugem em suas mentes -, nos mais variados ambientes. Profissionalmente, acreditando já deter pleno conhecimento de sua área, repetem frases de efeito e impõe sua perspectiva para compreender o mundo que o cercam - em um exercício com uma alta dose de narcisismo; aquilo que não se enquadra em seu modo de pensar é sumariamente ignorado, tal como a realidade em si. É cego perante a profundidade da existência alheia, já que acredita que dela nada mais pode aprender, afundado na ilusão de que já está cansado de conhecê-la. Desprovido da paixão e da necessidade por reconhecimento (muitas vezes já conquistado em lutas pregressas), torna-se relaxado. Sua experiência, acredita, já valida suas ações, a ponto de viver do “improviso” – entre aspas, pois não se trata de agir com espontaneidade, mas apenas repetir o que disse e fez mil vezes seguidas.

Uma associação interessante pode ser estabelecida com a ocorrência de acidentes de trânsito: os piores, que redundam em mortos e feridos graves, são ocasionados, em geral, por aqueles mais seguros na direção - e não por “neuróticos”, medrosos, que vão pensar mil vezes antes de pisar fundo em alguma rodovia. Aqui, entramos novamente na questão da idade: é óbvio que há muito mais jovens que se acham “bons de volante”, muito experientes e habilidosos, e acabam se matando por esse excesso de segurança na própria habilidade, do que pessoas de idade mais avançada. O “fechamento para o mundo”, decorrente de uma ilusória confiança nos próprios conhecimentos, aflige quase todas as idades (a exceção, talvez, seja a primeira infância). De modo similar, o conceito de “juventude” deve ser relativizado – não se trata de uma fase temporal determinada da vida, mas sim de uma forma de encará-la, que requer uma abertura ao mundo, uma curiosidade e uma humildade para sempre estar disposto a aprender (sem nunca de apegar profundamente aos conhecimentos que adquire, como se fossem absolutos e irrevogáveis).

Vale apontar que, pelas características próprias da sociedade contemporânea, pautada pela inovação constante, a "filosofia de vida" juvenil se torna ainda mais fundamental; os tempos em que a mera experiência e o apego às tradições provinham as melhores características pessoais para uma boa vivência social ficaram nos séculos passados, entre as chamadas “sociedades tradicionais”. Na era das redes sociais, dos smarthfones e iPads,  o papel do apego à experiência pregressa pode se limitar ao de verdadeiro grilhão para a adaptação social.  

Pedro Mancini