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Carla Aurora

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    Carla Aurora

    SATÂNIA .................................... Nua, de pé, solto o cabelo às costas, Sorri. Na alcova perfumada e quente, Pela janela, como um rio enorme De áureas ondas tranqüilas e impalpáveis, Profusamente a luz do meio-dia Entra e se espalha palpitante e viva. Entra, parte-se em feixes rutilantes, Aviva as cores das tapeçarias, Doura os espelhos e os cristais inflama. Depois, tremendo, como a arfar, desliza Pelo chão, desenrola-se, e, mais leve, Como uma vaga preguiçosa e lenta, Vem lhe beijar a pequenina ponta Do pequenino pé macio e branco. Sobe ... cinge-lhe a perna longamente; Sobe ... – e que volta sensual descreve Para abranger todo o quadril! – prossegue. Lambe-lhe o ventre, abraça-lhe a cintura, Morde-lhe os bicos túmidos dos seios, Corre-lhe a espádua, espia-lhe o recôncavo Da axila, acende-lhe o coral da boca, E antes de se ir perder na escura noite, Na densa noite dos cabelos negros, Pára confusa, a palpitar, diante Da luz mais bela dos seus grandes olhos. E aos mornos beijos, às carícias ternas Da luz, cerrando levemente os cílios, Satânia os lábios úmidos encurva, E da boca na púrpura sangrenta Abre um curto sorriso de volúpia... Corre-lhe à flor da pele um calefrio; Todo o seu sangue, alvoroçado, o curso Apressa; e os olhos, pela fenda estreita Das abaixadas pálpebras radiando, Turvos, que brados, lânguidos, contemplam, Fitos no vácuo, uma visão querida... Talvez as noites tropicais se estendam Ante eles: infinito firmamento, Milhões de estrelas sobre as crespas águas De torrentes caudais, que, esbravejando, Entre altas serras surdamente rolam... Ou talvez, em países apartados, Fitem seus olhos uma cena antiga: Tarde de outono. Uma tristeza imensa Por tudo. A um lado, à sombra deleitosa Das tamareiras, meio adormecido, Fuma um árabe. A fonte rumoreja Perto. À cabeça o cântaro repleto, Com as mãos morenas suspendendo a saia, Uma mulher afasta-se, cantando... E o árabe dorme numa densa nuvem De fumo... E o canto perde-se à distância... E a noite chega, tépida e estrelada... Certo, bem doce deve ser a cena Que os seus olhos estáticos ao longe, Turvos, quebrados, lânguidos, contemplam. Há pela alcova, entanto, um murmúrio De vozes. A princípio é um sopro escasso, Um sussurrar baixinho... Aumenta logo: É uma prece, um clamor, um coro imenso De ardentes vozes, de convulsos gritos. É a voz da Carne, é a voz da Mocidade, - Canto vivo de força e de beleza, Que sobe desse corpo iluminado... Dizem os braços: “-Quando o instante doce Há de chegar, em que, à pressão ansiosa Destes laços de músculos sadios, Um corpo amado vibrará de gozo?-“ Olavo Bilac
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