Sexo, amor… e a natureza humana.

18/12/2009 por Camilo Gomes Jr.

 

Quando escrevi o meu conto “Instinto” (publicado aqui neste blog), a primeira pessoa que o leu foi minha esposa. E, ciente do que já estudei a respeito do tema comportamental a que o conto alude em seu subtexto, não teve dificuldade em notar que eu, agora, colocava na ficção aquilo que já havia discutido num longo artigo, escrito há mais de um ano. Uma vez que resolvi discutir os assuntos abordados neste espaço sempre a partir de uma perspectiva darwinista, senti a necessidade de transpor para cá aquele meu antigo texto sobre o comportamento sexual humano, a fim de fornecer material que possibilitasse uma leitura mais profunda do que subjazia à minha narrativa.

Sei que poucos escritores fazem isso, de revelar as bases que sustentam seu processo criativo. Mas não sou o Dalton Trevisan. Não gosto de fazer mistério sobre a minha vida nem sobre aquilo que penso ou que utilizo para me inspirar a escrever. Logo, segue abaixo o artigo que tinha em mente, quando resolvi trabalhar um texto ficcional e escrevi meu conto. Aos que se interessarem pela leitura, espero que encontrem aqui alguma informação nova e interessante sobre essa coisa complexa e fascinante que é o comportamento de homens e mulheres em face de seus instintos mais primitivos.

De fato, chegou a hora de eu discutir dois temas inegavelmente relacionados (ainda que não necessariamente na medida em que muitos o supõe) e um tanto controversos sobre nossa natureza: o sexo e o amor. Todavia, visto que concisão nunca foi o meu forte, justamente agora, na hora de falar de sexo e de amor, dedicar alguns poucos parágrafos ao tema seria mesmo de uma inutilidade risível, uma vez que nossa espécie já habita o planeta há mais de uma centena de milhares de anos e, até hoje, ainda não conseguimos chegar a uma conclusão consensual sobre esses dois tópicos. E não foi por falta de discussão, hein?

Assim, aos leitores mais preguiçosos, que nem se deram ainda ao trabalho de mover a barra de rolagem para baixo, um aviso: este é o maior texto que já postei aqui, até o momento! E o motivo, como já comecei a justificar, deve-se muito ao fato de que o ser humano não está no mundo desde ontem apenas. Portanto, se quisermos entender um pouco o longo percurso que nos trouxe até aqui, não dá para pegar o livro pelo epílogo, como os mandriões e ignorantes gostam de fazer. Temos que partir do prólogo, da “aurora do homem”, como a tornaram clássica Arthur C. Clark e Stanley Kubrick (lembram-se do ato inicial de 2001: Uma Odisseia no Espaço?). E o prólogo, sobretudo para aqueles que estão sintonizados com os estudos científicos atuais, significa retroceder algumas boas centenas de milhares de anos na história natural deste planeta.

 

"O Gene Egoísta", de Richard Dawkins: um clássico sobre a evolução das espécies.

Para introduzir o assunto, é importante se ter em conta que falar em seres vivos já há um bom tempo significa focar-se no tema dos genes. Afinal, são eles a receita da vida e é em torno deles que ela gira, pelo menos no sentido de que a vida persiste e evolui à medida que o processo autocopiador dos genes de um organismo consegue ser bem-sucedido. E é por esse prisma que devemos entender o que Richard Dawkins quer dizer, em seu famoso livro de 1976, ao falar em gene egoísta, isto é, como uma metáfora inteligente, mas, ainda assim, uma figura de linguagem. (De fato, apesar de ele mesmo ter escrito inúmeros artigos posteriores enfatizando bem esse detalhe — de que o gene não é denotativamente egoísta —, ainda há gente que se finge de desentendida, no intento ridículo de tentar encontrar algum problema na teoria. Um esforço patético e inútil, no entanto, uma vez que a teoria está muito bem amparada em pesquisas posteriores, mais de 30 anos depois do lançamento da obra.)

E quanto à ideia, não há nada muito complexo, em princípio: os genes de todos os seres viventes apresentam um modus operandi “egoísta” — tal como um programa de computador (um vírus eletrônico, por exemplo), eles executam continuamente a programação escrita dentro deles (no caso, em seu DNA), que simplesmente objetiva levar o gene a fazer infinitas cópias de si mesmo e garantir sua dispersão pelo ambiente natural. Se um gene obtém sucesso reprodutivo, é óbvio que cada efeito ou estrutura orgânica que produziu, bem como toda atividade comportamental que desencadeou, são preservados, já que garantiram seu sucesso reprodutivo. Por outro lado, qualquer efeito negativo produzido por um dado gene, que comprometa o processo de autocópia gênica, acaba por levar à extinção o organismo de que faz parte, isto é, aquele que o gene utiliza como veículo e instrumento para sua reprodução e disseminação. A lâmina afiada regulando o que se preserva e o que se extingue é a nossa velha conhecida seleção natural, descoberta no século 19 pela mente genial de Charles Darwin.

Bem, então, a partir do surgimento das primeiras estruturas orgânicas autocopiadoras, há milhões e milhões de anos, eis que adentramos a era dos genes! E, de seu sucesso reprodutivo, chegamos, muito posteriormente, à era dos primeiros primatas, um dos quais tomaria um curso evolutivo que resultaria, no futuro, num seu descendente sentado diante de um computador, digitando estas linhas em que lhe faço uma breve menção. (Afinal, em vez da repulsa com que muita gente ignorante ainda se recusa a admitir a evolução, eu preciso ser grato ao “macaco” que foi meu tataravô — sem ele, eu não estaria aqui!)

Em todo caso, se é neste ponto, no surgimento ancestral dos primatas, que começa a história humana, é onde devemos abrir o livro e começar nossa leitura atenciosa.

O ambiente ancestral

Primeiramente, atentemos para o cenário: um mundo selvagem, desprovido do conforto (tanto quanto do desconforto) da sociedade moderna, onde nossos cérebros em desenvolvimento, numa era muito anterior ao advento das pílulas anticoncepcionais e das camisinhas, obedeciam muito mais passivamente ao impulso instintivo para a procriação que hoje reconhecemos facilmente nos animais, mas temos uma tendência a fingir que inexiste em nós. Ou melhor, para nós ele existe sob outra forma: os animais têm cio, têm instinto para a procriação; nós temos desejo, temos libido, temos vontade de sexo! Tudo bem! Em termos relativos, podemos até admitir que isso seja mesmo verdade, mas não necessariamente uma verdade excludente da realidade anterior, que está na base dos modernos circuitos que subjazem à nossa psicologia comportamental. O “disco” sobre o qual o novo programa foi inscrito é o mesmo de antes de nossos mais remotos ancestrais hominídeos terem vindo habitar as escuras cavernas do Paleolítico.

Logo, é hora de nos determos um tempo avaliando o comportamento sexual de nossos parentes de longa data, a fim de buscar compreender um pouco como eram nossos antigos “eus-primatas”. Para isso, tomemos as três espécies mais aparentadas conosco hoje em dia: os chimpanzés (com os quais, para citar apenas uma das evidências de parentesco, compartilhamos todos os 146 animoácidos presentes na cadeia beta da hemoglobina); os gorilas (que diferem de nós em apenas 1 aminoácido nessa mesma cadeia), e os gibões (em cuja hemoglobina a diferença em relação a nós é de apenas 2 aminoácidos na referida cadeia).

Chimpanzés

Chimpanzés: sexo e traição.

Dentre estes, os machos vivem em combate. Lutam para galgar uma hierarquia masculina que é longa e cujo topo não é muito fácil de alcançar, e aquele que ali consegue chegar torna-se o macho dominante ou alfa, como é mais normalmente conhecido entre os estudiosos. Todavia, se por um lado o macho-alfa goza de prioridade sexual perante as fêmeas, algo de que desfruta com notável vigor quando elas estão ovulando, por outro lado vê-se numa vida sem descanso, em que tem de proteger seu posto o tempo todo, por meio de ataques físicos, de intimidação e de muita astúcia. Detalhe relevante: se o macho-alfa pode possuir qualquer fêmea que queira, isso não quer dizer que ela tenha preferência por ele, mas sim que ele espanta os rivais, mantendo-os à distância. E cito isso porque, embora os machos demonstrem um apetite sexual compulsivo (mui compreensível, em termos biológicos), as fêmeas, por sua vez, mesmo não fazendo tanto esforço quanto eles na busca de sexo, não ficam muito atrás.

Elas adoram sexo e, em alguns momentos, podem até ser aquelas que tomam a iniciativa para começar o ato. Nesse sentindo, as fêmeas também demonstram ser de uma promiscuidade espantosa, sendo muito facilmente atraídas para uma vida sexual desregrada, com variados parceiros — na verdade, o que acontece é que elas costumam passar a perna no macho-alfa de vez em quando, “traindo-o” com outro chimpanzé que espertamente ficou por ali, ao redor, buscando atraí-la sem que o macho dominante notasse. E esse tipo de escapadinhas das fêmeas acontece com notável frequência. Dessa maneira, o que temos no fim é, de um lado, machos sexomaníacos, que fazem o diabo a quatro, muitas vezes botando o pescoço em risco (inclusive aqueles que não são alfa e arriscam-se como “sedutores” nos domínios do outro), para conseguirem sexo, e, de outro lado, as fêmeas: em geral sexualmente “comprometidas” com o macho-alfa, apreciadoras de sexo (e dando suas puladinhas de cerca com considerável frequência), tendo de investir menos na busca deste, uma vez que os machos já fazem o trabalho pesado, vindo até elas.

Gorilas

 

Gorila: o senhor do harém.

Entre os gorilas, a coisa é um pouco diferente. Via de regra, eles se organizam em bandos que vivem isoladamente. E a estrutura do bando é normalmente a seguinte: um macho dominante rodeado de várias fêmeas adultas, além dos filhos destas e, muitas vezes mas não sempre, uns poucos machos jovens. No entanto, a situação é clara: no reino dos gorilas, apenas o macho dominante tem acesso sexual a todas as fêmeas. O possíveis machos jovens que venham se integrar ao bando sabem se comportar direitinho e obedecem a regra — ainda que, na velhice do gorila dominante, quando seu vigor começa a declinar, este aceite compartilhar algumas fêmeas com os mais jovens, como moeda de troca para garantir apoio contra a invasão de seu bando por gorilas intrusos, que tentam vir roubar suas fêmeas. Quando o líder morre, os mais jovens vão disputar a liderança — e assim que ficar firmado o novo dominante, os demais passam a respeitar sua posição no bando. Logo, um detalhe é importante ressaltar: os gorilas vivem numa espécie de regime polígamo, com várias fêmeas limitando-se a relações sexuais com um único macho dominante.

Obs.: Embora tal poligamia, ou mais precisamente poliginia (um macho com várias fêmeas), seja a regra, isso não impede que uma fêmea, no evento de um macho invasor trocar ameaças ou travar uma luta com o líder de seu bando, fique tão impressionada pelo desafiador que acabe decidindo ir embora com ele. Isso acontece, embora não com tanta frequência. Em todo caso, o nível de promiscuidade feminina é menor entre esses primatas.

Gibões

Gibões: fidelidade e cantoria!

 

Caso um tanto curioso é o dos gibões, espécie cujos ancestrais separam-se dos nossos na árvore evolutiva há 20 milhões de anos. Em algum estágio de sua evolução a partir desse ponto, as circunstâncias em tornos dos gibões levaram-nos, por meio da seleção natural, a desenvolver um comportamento sexual monógamo, fiel e devotado à prole, de um jeito jamais visto nas demais espécies primatas. O macho normalmente permanece junto da fêmea com que teve filhos e ajuda-lhe a tratar deles e a protegê-los, investindo fortemente nestes. Numa espécie de gibões, os machos chegam a ficar carregando os filhotes nas costas de um lado para o outro, coisa que simplesmente não se verifica entre outros macacos machos. E um fato interessante por si só é que os casais de gibões costumam ficar cantando em voz alta um longo dueto, toda manhã, só para deixar claro aos possíveis “sedutores, destruidores de lares” que estão muito bem em sua harmonia conjugal, mantendo sua estabilidade familiar. (Já posso até imaginar alguns leitores sussurrando: “Ah, que inveja desses bichinhos!”)

 

Bem… Uma vez que discutimos por alto o comportamento sexual dessas três espécies tão aparentadas conosco, resta fazer uma observação e uma indagação.

A observação é que, tanto entre as fêmeas quanto (mais comumente ainda) entre os machos de todas as três espécies acima, não são raros, muito menos inexistentes, os atos homossexuais. De fato, já foram observados os seguintes comportamentos dessa natureza nessas espécies, principalmente entre os machos: macho sendo montado por outro (chimpanzés); monta com penetração anal levando à ejaculação (gorilas); masturbação recíproca podendo levar à ejaculação (gibões). Isso, além de algumas carícias genitais mútuas praticadas por suas fêmeas. No fim, o fato certamente se deve, como eu discuti no mencionado texto, a um provável componente genético na definição da orientação sexual dos seres vivos, em especial na criatura de sexualidade mais complexa de todas: nós, humanos, os únicos que têm um comportamento sexual submetido a um cérebro equipado com um aparato mental de moralidade desenvolvida.

Em todo caso, a pergunta que devemos fazer agora é: com qual das três supracitadas espécies de primatas aparentados a nós temos maior identificação, em termos de nossa própria natureza comportamental em relação ao sexo? Para pensarmos na resposta, precisamos observar mais detidamente os seres humanos, em termos biológicos.

Hoje sabemos que todos os organismos, inclusive nós, são simplesmente veículos para a transmissão dos genes que os desenvolveram. Em virtude disso, as características físicas e comportamentais de um organismo apresentam-se atualmente como um conjunto de elementos bem-sucedidos neste propósito, haja vista terem sobrevivido à inexorabilidade da afiada lâmina da seleção natural. Assim, não há dúvida de que favoreceu nossa reprodução genética o sucesso de genes que, por exemplo, resultaram, por meio de gradações lentas ao longo das gerações, no efeito cumulativo que fez evoluir em nós nossos admiravelmente complexos olhos, inegavelmente úteis e vitais. Do mesmo modo, os genes que atuam fazendo desenvolverem-se características no âmbito de nossa sexualidade obviamente obedecem a uma programação básica equivalente: como somos seres de reprodução sexuada, somos programados para gostar de sexo e correr atrás dele. Mas como essa programação se deu de fato no ambiente ancestral?

O sexo e o Homo sapiens

Bem, pensemos no seguinte: quantas mulheres um único homem poderia engravidar por ano, caso não houvesse nada que o impedisse de transar com qualquer uma que visse à sua frente? Bem, considerando que ele poderia transar com mais de uma por dia (conheço um cara que, em nosso tempo e com todas os empecilhos existentes, transou com quatro mulheres num só dia), além do fato de que o papel do homem na fecundação termina na ejaculação, não seria nenhum exagero apostar num número ainda acima dos 365 dias que constituem um ano. Potencialmente falando, não seria impossível que um homem engravidasse mil mulheres no prazo de um ano. É óbvio que este é um cálculo em termos estritamente potenciais.

Antes de prosseguir, deixe-me abrir um parêntese para uma nota importante: como já disse, a programação básica de nossos genes visam à reprodução genética. Nossos genes não têm consciência; eles têm, sim, um conjunto de comandos programados para executar, cujo objetivo é promover a autorreplicação do programa original e sua disseminação no meio genético. É claro que a linguagem computacional aqui é metafórica, mas ela serve para nos dar uma ideia de que nossos genes não são bichinhos amiguinhos, felizes e saltitantes dentro de nós. Nossos genes visam executar um programa inscrito em seu DNA de forma eficiente; portanto, isso equivale a dizer que eles não estão nem aí para a felicidade pessoal do organismo que os carrega. Em outras palavras: nossos genes não se importam se estamos sorrindo ou não; sua única meta é nos ver procriando, isto é, passando adiante nossos genes!

Feita essa observação que julgo ser de extrema relevância aqui, continuemos a pensar na programação básica do homem. Não é difícil concluir que, levando-se em conta o interesse dos genes e a potencialidade do macho para fertilizar inúmeras fêmeas, seria muito condizente com o interesse genético masculino que ele tivesse um comportamento tanto promíscuo quanto pouco seletivo — afinal, quanto mais mulheres um único deles conseguir engravidar, tanto maior será seu legado genético sobre a terra. E podemos de fato constatar ainda hoje os resquícios de tal programação primordial, quando vemos homens não raro bem dispostos a transarem com qualquer mulher (gorda ou magra, feia ou bonita, alta ou baixa, velha ou jovem, etc.), quando ficam excitados. Isso é ocorrência comum principalmente em festas ou boates, quando já está tarde da noite e o sujeito ainda não conseguiu “pegar ninguém”. Um ditado jocoso, naturalmente aceito entre os homens em suas conversas em mesa de bar, pois é descritivo de um comportamento normal entre eles, é: “Depois da meia-noite, meu chapa, a gente chama até urubu de meu louro!” E o pior é que chama mesmo!

Mas e a mulher? Como são as coisas em relação à ela?

Ora, é conveniente adotarmos um critério parecido para começar a avaliar o comportamento sexual feminino e sua programação original. Logo, a pergunta se volta agora para ela: quantas vezes uma mulher pode engravidar ao longo de um ano? Resposta indiscutível: uma vez!

Pesados os fatos, fica óbvio o ônus muito maior que a natureza depositou por sobre os ombros da mulher em seu papel reprodutivo. Enquanto o homem vem, transa, goza e parte para outra, cabe a ela enfrentar nove longos e penosos meses de gestação — para não falar do fato de que dá à luz uma criança que nasce a mais frágil dentre todos os filhos de primatas, em virtude de ser expelida precocemente por força de nosso recém-ajustado posicionamento ereto na natureza, que tornou a anatomia feminina mais complicada para a saída de um bebê com o grande volume craniano que os humanos adquirem já no primeiro ano de vida (aliás, é por isso que nossos nenéns têm uma cabecinha tão frágil quando nascem: ela ainda não estava no ponto ideal para sair de dentro da mãe; mas, por outro lado, mataria esta no parto caso a gestação aguardasse uma melhor formação do filho). Além disso, fica para a mãe a incumbência natural de amamentar o filho recém-nascido e de lhe prover os cuidados necessários para sua sobrevivência, sobretudo nos primeiros anos de vida.

No passado de nossa espécie, se a mãe fazia tudo isso de forma bem-sucedida, a criança crescia, chegava à fase fértil e reproduzia-se. Sucesso genético garantido: missão cumprida!

Nesse sentido, os genes, bem como sua dinâmica interativa com o ambiente sociocultural — considerados todos os papéis supracitados, desempenhados pelas mulheres no processo reprodutivo — parece ter feito desenvolver na mulher um comportamento sexual um tanto diferente da atitude do tipo qualquer-buraco-me-serve, que muitas vezes guia o instinto sexual masculino. Aparentemente a mulher desenvolveu uma sensibilidade muito mais seletiva para com seus possíveis parceiros sexuais. E de fato, se por um lado um homem de razoável beleza muito possivelmente transaria sem hesitar com aquela mesma mulher que ele chamou de “baranga” assim que chegou à festa, tão-somente porque mais tarde não lhe restaram alternativas, por outro lado eu, se fosse aquele velho, careca e barrigudo, com cara de pobre, com um copo de cerveja na mão, não me encheria tão facilmente de esperanças de “papar” a loira vistosa, de semblante entediado, que sobrou na festa, e está num canto apenas esperando a amiga com quem veio. Ela pode ter saído de casa com o intento de transar aquela noite, mas acredite, meu chapa: entre “dar” para você e voltar para casa no zero a zero, ela, pelo menos na maioria dos casos, não vacila nem por um segundo em optar pela segunda alternativa.

Verdade é que, como o investimento que a natureza cobra da mulher na reprodução é muito maior do que aquele que exige do homem, é a ela que é dado um certo poder de seletividade sexual quanto aos parceiros com quem deseja gerar um filho — embora a precisa dimensão desse poder de escolha da mulher seja debatido entre os especialistas. (Em todo caso, creio que seja um tanto oportuno lembrar que, embora eu fique remetendo intermitentemente a exemplos hodiernos de resquício comportamental condicionado por nossa programação genética original, é sempre válido enfatizar: nossos cérebros foram programados para incitarem comportamentos sexuais viáveis e vitais num ambiente natural completamente distinto das sociedades que construímos ao longo dos últimos poucos milhares de anos — ou seja, nosso comportamento sexual original não foi projetado para o mundo civilizado que edificamos e em que vivemos hoje, mas sim para um ambiente muito mais parecido com o de algumas tribos de caçadores-coletores que vivem num mundo quase primitivo, em algumas regiões do planeta, principalmente no continente africano.)

Em seu comportamento seletivo, a mulher normalmente se pauta por dois critérios, com que avalia, não necessariamente de forma consciente, um possível parceiro: 1) uma carga genética promissora, e 2) seu potencial de investimento em benefício dos filhos gerados. É normalmente assim, mas nem sempre; o que leva mesmo alguns darwinistas a discutirem o quanto é realmente natural esse padrão avaliativo feminino e o quanto ele é moldado pela cultura patriarcal em que nos desenvolvemos, quase que via de regra. Seja como for, numa frequência notadamente regular, com esses cálculos em mente, que a mulher não precisa fazer, pois a seleção natural já teria feito por ela, e que portanto ela só precisa seguir em sua “intuição” — seu impulso subconsciente para fazer o que seus genes querem — é possível racionalizar a coisa da seguinte maneira: é óbvio que, se meu filho tiver bons genes, suas chances de crescer e reproduzir serão maiores.

Logo, um parceiro que me transmita (visualmente) a impressão de ter genes saudáveis e de elevado potencial reprodutivo me interessam mais do que aquele outro que me passe justamente uma impressão oposta. Ao mesmo tempo, uma vez que me cabe o imenso ônus de gerar, parir e criar os filhos, é importante levar em conta um parceiro que me passe segurança no sentido de investir na prole, bem como no de prover certa segurança material que favorecerá a sobrevivência dos filhos. Se ele passar segurança, no sentido de fidelidade e devoção aos filhos, tanto melhor ainda. Este marcaria pontos elevadíssimos! Mas, se esperar por isso já for contar com sorte demais, que pelo menos me passe segurança material no sentido de garantir que não me vá faltar o básico, enquanto ele irresponsavelmente me deixa cuidando dos filhos que tivemos e cai na farra. Ou simplesmente cai fora! (Bem, não custa enfatizar novamente que o quanto desse tipo de comportamento é inato e o quanto é influência da cultura patriarcal ainda é debatido.)

Todos esses cálculos seriam, mais ou menos inconscientemente, levados em conta pelo complexo maquinário instalado no cérebro feminino. Como eu disse, não quero dizer que isso seja a base do comportamento atual, mas sim o que parece ter estado na programação original, quando nossos órgãos mentais foram desenhados, em nossas sociedades primitivas.

 

Henri Castelli: o que diabos tantas mulheres veem nele?

Entretanto, os ecos disso ainda são fortemente audíveis hoje. Afinal, para citar um exemplo, se o galã de novelas, Henri Castelli, ao declarar o seu amor pela mulher grávida num programa de televisão, com emoção estampada na face, faz você suspirar no sofá da sala, enquanto pensa “Esse é o homem que eu queria para mim!”, a verdade reside um pouco abaixo da camada linguística mentalmente manifesta. E nem é tão difícil traduzi-la: “Esse é o homem” (bonitão e de físico em forma = impressão visível de genes saudáveis que poderiam gerar características que aumentassem o potencial reprodutivo dos filhos que tivéssemos); “o homem que eu queria” (que sabidamente goza de confortável situação financeira = podendo garantir meu lado em termos materiais, enquanto eu crio nossas crianças potenciais, mesmo que ele me deixe um dia; afinal, a pensão não seria nenhum prêmio da Mega Sena, mas tampouco seria das piores), e “para mim” (porque é notavelmente carinhoso e explicitamente devotado à mulher = ótimo sinal de possível futuro investimento afetuoso em mim e nos filhos, aliviando meus receios de acabar sozinha, criando a prole).

Em outras palavras: sim, o Henri Castelli (assim, como o David Beckham ou qualquer outro bonitão de boa situação financeira e carinhoso para com a mulher) parece mesmo um perfeito exemplo de macho para acasalamento para uma mente feminina que segue os impulsos de seu desenho original! Agora, confessem: ele não faz o seu tipo? Tenho certeza de que ele não é uma unanimidade — daí, a recorrente discussão sobre o grau de determinação genética na seletividade feminina. Mas, por outro lado, pode-se apostar que a maioria das mulheres acharia que sim.

Mais uma vez: dizer que as mulheres podem ter sido projetadas ao longo da evolução para terem esse tipo de comportamento inconsciente diante de um exemplar de características tão positivas do ponto de vista dos interesses genéticos não é o mesmo que dizer que é assim que todas agirão e reagirão! Como eu insisto em enfatizar: nossa programação original remonta a um tempo em que não havíamos desenvolvido o senso de moralidade de que dispomos hoje e com que emitimos julgamentos morais sobre nossa própria conduta, e em que os fatores ambientais influentes sobre nós eram bem distintos.

Mas voltemos a pensar nos homens e mulheres daquele mundo ancestral em que nossos cérebros modernos foram projetados.

Os homens, já falamos, apresentam um comando genético original que manda o tempo todo: “Transe com o maior número possível de mulheres! Se as mulheres forem lindas e de corpo exuberante, tanto melhor! Mas, se não forem, não importa — melhor várias feias reproduzindo seus genes do que nenhuma beldade grávida de você, enquanto espera e o tempo passa.” Transcrevi a ideia dessa forma não apenas pelo fato de que é assim mesmo que a coisa funciona (ou funcionava, no ambiente ancestral), mas também porque ela não deixa dúvidas de que o comando de nossa natureza sexual não está nem um pouco interessado em nossa felicidade plena e duradoura. Nossa natureza quer transar; ela não quer saber se você acaba feliz ou desolado ao longo do processo. Tudo que importa é transar. E, com isso, aumentar as chances de engravidar mais uma. Assim, não restam dúvidas: na origem do homem, eis uma besta promíscua por natureza!

Mas e a mulher? Será que também é naturalmente promíscua?

Bem, a Biologia não é uma ciência fascinante por acaso. Na verdade, seus avanços recentes têm nos colocado em face de uma compreensão atordoante de nossas raízes, daquilo que fomos e somos, enquanto refletimos, com base nesse conhecimento, acerca daquilo que podemos vir a ser pelo bem maior da espécie — ainda que o bem maior da espécie não passe de uma autoilusão que alimenta nosso senso moral, fazendo as coisas terem um ajustamento positivo. Afinal, promover o bem coletivo da espécie beneficia-me individualmente dentro do grupo, o que é meu interesse primário. Seja como for, verdade é que a Biologia nos conta uma história interessante sobre a evolução do comportamento sexual da mulher. Uma história que, por mais estranho que isso possa parecer, pode ser lida nos testículos de um homem.

De fato, um dado curioso que hoje sabemos é que chimpanzés e outras espécies primatas, cujos testículos apresentam um peso relativamente elevado (no que diz respeito à proporção entre o peso médio dos testículos destes animais e o peso de seus próprios corpos), são encontrados em ambientes reprodutivos onde as fêmeas copulam com vários machos, numa alta taxa de promiscuidade. Por outro lado, espécies cujos pesos dos testículos são relativamente baixos são ou monogâmicas (como os gibões, por exemplo) ou poligâmicas (como os gorilas).

Ao que tudo indica, quando as fêmeas normalmente copulam com variados machos, os genes masculinos podem se sair melhor se houver uma produção consideravelmente maior de sêmen que os transporte. Afinal de contas, num ambiente reprodutivo desses (altamente competitivo, em termos de fecundação), o sucesso de um macho em fazer seu DNA ganhar a corrida pelo óvulo pode muito bem depender de uma simples questão de volume de esperma ejaculado, enquanto exércitos de espermatozóides rivais são postos para travar uma verdadeira batalha dentro do corpo da fêmea. Eis o porquê de os gorilas não precisarem de produzir tanto sêmen (o macho vive num ambiente de poliginia reinante, lembra-se?) e, consequentemente, seus testículos são bem mais leves do que deveríamos esperar, em vista de seu imenso porte físico.

Portanto, os testículos dos machos de uma espécie apresentam-se como um tipo de registro das aventuras sexuais de suas fêmeas, ao longo da evolução: testículos de peso médio baixo nos machos de espécies com baixa taxa de promiscuidade feminina (gorilas e gibões, por exemplo) e de peso médio alto nas espécies de hábitos sexuais mais desregrados entre as fêmeas (tais como os chimpanzés). Curiosamente, o peso médio dos testículos do homem está em algum ponto entre o dos chimpanzés e o dos gorilas, o que indica que as mulheres, no passado, mesmo não sendo tão promíscuas quanto as chimpanzés-fêmeas, mantiveram um comportamento sexual um tanto aventureiro.

Não é de surpreender, portanto, o outro dado interessante que um estudo trouxe à tona.

Embora se possa facilmente supor que o número de espermatozóides encontráveis no sêmen de um homem casado comum dependerá apenas do tempo passado desde a última vez em que fez sexo com a esposa (ou seja, a quantidade de espermatozóides deverá ser maior quanto mais tempo levar entre uma transa e outra), a verdade é bem diferente. O que se descobriu foi que a quantidade de espermatozóides produzida depende apenas do tempo em que a mulher ficou longe do alcance de suas vistas. Quanto mais tempo o marido passa longe da mulher (o que significa mais tempo não-monitorado para que ela possa ter dado uma escapadinha e transado com outro cara), mais seu corpo produz novos espermatozóides para reforçarem as tropas. Se a mulher, por outro lado, permanece por perto, a produção segue um ritmo normal, sem a necessidade de reforços para um possível confronto.

Não é difícil perceber o que tudo isso quer dizer: o fato de que a seleção natural fez desenvolver no homem uma arma tão inteligente torna evidente que havia um inimigo real a ser combatido com a utilização dela, ao longo de nossa história reprodutiva. Está claro que as mulheres apresentam em sua natureza um nível de promiscuidade que não pode ser (e não foi) desconsiderado pela evolução humana, sobretudo nas defesas masculinas desenvolvidas contra ela, ao longo da corrida armamentista que a seleção natural fomenta, em benefício primordial da reprodução genética. Para reforçar a teoria, é relevante comentar o que uma outra pesquisa constatou: mulheres que traíam seus maridos com uma elevada frequência sentiam-se excitadas e tentadas a fazê-lo em determinados dias mais do que em outros — e, como se verificou, sem que elas tivessem ideia disso, esses períodos de repentino tesão manifestavam-se precisamente quando estavam ovulando.

Portanto, a mulher também apresenta sua taxa de promiscuidade sexual. E se a do homem serve aos interesses egoístas de seus genes, não devemos supor que a das mulheres tenha surgido por um motivo mais nobre — os genes não são feministas, sinto em lhes dizer! Na verdade, não é difícil nem mesmo suspeitar os motivos que levaram ao desenvolvimento de tal comportamento entre as fêmeas hominídeas ancestrais. Simples questão matemática: procura-se um macho com melhor maquinário genético (que tenha maior chance de gerar descendentes mais eficientes, em termos reprodutivos), bem como procura-se um macho com potencial de investimento na prole. O problema é que a idealização espera que 1 + 1 seja igual a 1, neste caso, isto é, que ambas as qualificações possam ser encontradas num único parceiro. Mas a realidade não é tão generosa.

O macho atraente, que parece ter os genes mais desejáveis para se transmitir a um filho, pode ser um inconsequente que não esteja nem aí para o fato de deixar uma fêmea de barriga cheia, que dirá ter alguma responsabilidade para com a criação do filho. E como a evolução equipou alguns homens com uma curiosa dose de disposição para investir nos cuidados para com os filhos, ainda que num nível de devoção não tão elevado quanto o dos gibões (embora seja importante destacar que algumas fêmeas, mesmo nesta espécie tão “fiel”, costumam dar suas puladinhas de cerca), e podendo ser que, em muitos casos, estes não são os melhores candidatos a pais biológicos do ponto de vista do interesse por melhores genes, não foram raras as vezes em que a soma teve de seguir a lógica matemática, onde 1 + 1 = 2.

Resultado disso, não foram (como hoje não são) raras a vezes em que o pai dedicado devotou-se a criar um filho que não era biologicamente seu. As fêmeas tiveram de desenvolver a tática da malandragem, a mesma que vemos vários animais perpetuando ainda em nossos dias — o que não quer dizer que as mulheres atuais a tenham abolido; muito pelo contrário. Muitas fêmeas até hoje ficam grávidas do macho escolhido, mas, em seguida, fazem outro, com um maior potencial de investimento paterno ou material, acreditar que era o pai, garantindo assim o sucesso reprodutivo nas duas vias: a do melhor pai do ponto de vista genético e a do melhor pai do ponto de vista do investimento no filho ao longo da vida.

Analisadas as programações originais para o comportamento sexual de homens e mulheres, parece ser o momento de se fazer uma pergunta importuna.

A sociedade monogâmica ocidental é apropriada para nós?

Em vista do que já analisamos até aqui, a resposta não parece tão difícil: de um lado, homens promíscuos, que são programados para transarem com várias mulheres; de outro, mulheres seletivas, mas nem por isso muito menos afins de curtir suas transas variadas. Uma sociedade poligâmica aparentemente seria o ideal — embora, neste caso, ideal mesmo talvez fosse a poliginia para os homens e a poliandria para as mulheres, isto é, os homens achariam o máximo ter várias mulheres para um só, ao passo que as mulheres não veriam com piores olhos a possibilidade de ter vários homens para uma só. É… Pensando bem: já teríamos um primeiro problema aí para enfrentar!

 

Regina Navarro: a defensora do "poliamor". Será que isso dá certo?

Mas e o poliamor? Essa palavra encantadora, que tenta nos convencer de que sua proposta não é algo voltado a ter muitos parceiros sexuais — não, imagina! Quem pensaria num absurdo desses com relação aos sempre tão apaixonados seres humanos, não é mesmo? A nova proposta se apresenta como algo saudável e de uma filosofia superior. Por isso, acho válido até mesmo citar as palavras da psicanalista e sexóloga, Regina Navarro, numa entrevista que deu ao jornal mineiro Hoje em Dia, publicada na edição de 16 de setembro de 2007:

O amor romântico é calcado na idealização do outro e traz a ideia de que você tem que procurar alguém que o complete: sua alma gêmea. Propõe que os dois vão se transformar num só. Entretanto, a busca da individualidade caracteriza a época em que vivemos. A grande viagem do ser humano é para dentro de si mesmo. Cada um quer saber quais são suas possibilidades, desenvolver seu potencial. O amor romântico propõe o oposto disso, na medida em que prega a fusão de duas pessoas. Portanto, ele começa a deixar de ser sedutor. Um amor baseado na amizade e no companheirismo está surgindo. Não haverá mais idealização do outro e você vai poder se relacionar com a pessoa do jeito que ela é. Sem a ideia de encontrar alguém que o complete, abre-se um espaço para outros tipos de relacionamento, com a possibilidade de se amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo. O amor romântico está saindo de cena e levando com ele a exigência de exclusividade.

Bem, aí temos uma boa ideia do que a tal filosofia de vida do poliamor está propondo. E posso dizer que de fato concordo, pessoalmente falando, com algumas das afirmações e leituras sociais feitas acima, mas, por outro lado, tenho bem fundamentados motivos para não simpatizar muito com esse tal de poliamor. E direi por quê. Apenas precisarei fazer mais uma digressão antes disso.

Voltemos à reflexão sobre a questão apresentada mais acima.

Entendendo a natureza sexual dos homens (de uma forma geral e ignorando-se algumas particularidades que serão discutidas num pós-escrito a este texto), concluímos que eles adorariam curtir uma sociedade polígina, onde um gostosão poderia se esbaldar com todas as mulheres que tivesse condições de trazer para debaixo de seu teto e comer um prato variado a cada dia, certo? Pois bem! Não é preciso ser nenhum especialista em História das Civilizações para saber que todas as sociedades humanas construídas até aqui, tiveram suas leis e seus códigos morais (que regem o comportamento social admissível em cada contexto) estabelecidos exclusivamente por homens. Os legisladores e chefes do poder, ao longo da história, foram quase invariavelmente homens. Eles determinavam tudo! Não admira, portanto, que as leis sempre fossem menos favoráveis às mulheres, inclusive as leis religiosas (já que a religião é outra criação humana e, na imensa maioria dos casos, masculina — até Deus é homem!).

Diante disso, parece estarmos contemplando um paradoxo: afinal de contas, por que diabos os homens, que sempre detiveram o poder e as leis em suas mãos, não criaram aqui, ali e acolá apenas sociedades políginas? Ou pelo menos, acho que tais sociedades deveriam ser aquelas que encontraríamos em maior número, sendo as monogâmicas, poliândricas e outras apenas variações atípicas, exemplos isolados.

Por que os homens, tendo todo o poder, escolheriam na maior parte do planeta construir sociedades regidas por uma moral monogâmica que vai de encontro a sua própria natureza sexual promíscua? Se a pergunta lhe parece um enigma agora, talvez seja hora de voltarmos a nos concentrar nos nossos primos primatas.

Sabemos que as mulheres, em sua história evolutiva, ao contrário das fêmeas gorilas e mais ainda das fêmeas de gibões, não tiveram exatamente o que se poderia chamar de um comportamento recatado e virginal! Elas apreciavam e cultivavam uma “puladinha de cerca”, vez e outra (normalmente quando estavam ovulando, é bom lembrar!). Ao mesmo tempo, elas aparentemente têm uma tendência maior a selecionar os parceiros com quem estão dispostas a fazer sexo, pautando-se, ainda que inconscientemente, num duplo critério de portador de melhores genesmaior potencial aparente de investimento paternal, neste segundo caso, visando a garantir tanto a sua segurança material quanto à dos filhos.

Juntemos a isso alguns dados coletados por estudos de psicologia evolutiva. O psicólogo estadunidense, David Buss, por exemplo, publicou, em 1989, um estudo pioneiro sobre as preferências matrimoniais em 37 diferentes sociedades do mundo. O resultado que impressionou o mundo acadêmico, e que continua não refutado até hoje, é de que as mulheres em geral davam muito mais importância às perspectivas financeiras de um parceiro em potencial do que os homens em relação a elas.

 

 

É o amor (?): A modelo e atriz erótica Anna Nicole Smith (morta em 2007), que aos 26 anos casou-se com o bilionário J. Howard Marshall II, então com 89 anos. Menos de um ano depois do casamento dos "pombinhos apaixonados", já era a viúva do bilionário, brigando com o filho do marido pela herança, na justiça.

É claro que isso não quer dizer que as mulheres primitivas, naquelas ancestrais tribos de caçadores-coletores que fomos, começaram a escolher parceiros ricos, de preferência. Mas o fato é que, numa sociedade onde todos têm mais ou menos as mesmas condições materiais, como era o caso então, verdade é que a posição social do homem não raro se traduzia em poder — como, por exemplo, a influência sobre a divisão dos recursos conseguidos, tais como a carne a ser partilhada após uma grande caçada. E outro fator inegável é que, nas modernas sociedades humanas, riqueza, posição social e poder são coisas que andam lado a lado; daí, a possível explicação do ajuste adaptativo do cérebro feminino, desenvolvendo uma forte atração pela riqueza.

Compare-se a isso o fato de que o mesmo estudo, nas mesmas sociedades, comprovou que há uma predileção geral dos homens pelos traços de beleza nas mulheres para investimento a longo prazo, o que não surpreende ninguém, tenho certeza. Eles podem ser menos seletivos do que as mulheres mas, na hora de explicitarem o tipo de mulher com quem poderiam aceitar passar um longo tempo se relacionando, ocupa o topo da lista de requisitos o item beleza física. Dado curioso, a mulher de “beleza ideal” tem olhos grandes e nariz pequeno, na preferência da maioria. E por quê?

Ora, os olhos de uma mulher tornam-se aparentemente menores sob o efeito do envelhecimento facial, assim como o nariz tende a parecer ligeiramente maior, ao longo dos anos. Portanto, a “beleza ideal” desejada pelos homens traduz-se na forma de uma mulher jovem, ou, em outras palavras, uma mulher com elevado potencial de fertilidade — que, ainda que apenas inconscientemente, significa uma forte candidata a me dar vários filhos (lembrando que nossa programação ancestral não contava com nossas engenhosas invenções contraceptivas atuais, e, por isso mesmo, incita-nos a algo em nível inconsciente, no nível do instinto, que nossa mente consciente sabe não ser realizável). Este segundo dado, sobre os homens, indica-nos o quanto nosso comportamento atual, tanto de homens quanto de mulheres, desenvolve-se por sobre a programação ancestral que tivemos.

Outra coisa que demonstra o outro lado da situação é que, se o homem quer uma mulher fértil, de preferência uma beldade, principalmente para um investimento a longo prazo, a mulher faz uma opção semelhante, não necessariamente pelo mesmo motivo, como já discutimos aqui. Mas a verdade é que ninguém pode negar um dado óbvio em praticamente todas as sociedades, sobretudo ocidentais: os homens mais bonitões encontram mais parceiras sexuais do que os homens de aparência comum. E estudos confirmaram que, diferente do que ocorre com os homens, as mulheres costumam dar muito mais importância à beleza física do parceiro sexual quando sabem que é uma relação passageira ou casual do que quando têm segurança de que o relacionamento pode ser mais duradouro. (Já mencionamos aqui que os homens costumam fazer o oposto e transarem casualmente com mulheres não muito rigorosamente selecionadas.)

Diante de todas essas diferenças, o que estudos têm comprovado é que, ao contrário do que muita gente poderia acreditar (principalmente as feministas radicais e os machistas ingênuos), é que uma sociedade polígina acabaria não sendo um negócio de todo ruim para as mulheres, ao passo que poderia ser um desastre para os homens. Por quê?

Bem, como Robert Wright bem apontou em seu livro O Animal Moral (onde desenvolve a maior parte dos tópicos que já discuti até aqui), há várias razões concebíveis contando a favor da monogamia nas sociedades humanas, mesmo que ela, em princípio, pareça ir de encontro aos instintos humanos primordiais.

"O Animal Moral", de Robert Wright: um olhar darwinista sobre o comportamento humano.

A alternativa irônica, que Wright cita, é que no nosso modelo atual de sociedade estamos menos sujeitos aos ataques ensandecidos de feministas filosóficas (com pouco ou nenhum conhecimento de Biologia ou de Psicologia Evolutiva), que simplesmente não se convencerão jamais de que a poliginia poderia liberar muitas mulheres de uma situação de miséria opressora. Afinal, algo que pode até surpreender algumas pessoas, mas não a muitos homens à procura de uma futura esposa, alguns estudos confirmaram que um grande número de mulheres pobres preferiria ser a décima esposa de um homem rico, numa sociedade poligâmica, gozando de seu quinhão de riqueza e segurança material (sem falar de investimento nos cuidados aos filhos) igual ao de todas as demais esposas, a ser a única esposa de um homem pobre, numa sociedade monogâmica, sofrendo todas as privações materiais que tal vida acarretaria, tendo de criar os filhos com dificuldade e muita luta diária.

Além disso, a monogamia é o único sistema que, justamente por conta da realidade exposta no parágrafo anterior, pode garantir que praticamente todo homem acabe encontrando uma mulher. Haja vista o fato de que, se na sociedade polígina mesmo as mulheres mais pobres poderiam encontrar um homem relativamente mais rico que aceitasse tomá-las por segunda ou décima esposa, e assim conseguiriam melhorar sua própria condição financeira, por outro lado, os homens mais pobres não teriam sorte semelhante: acabariam sozinhos, rejeitados como potenciais parceiros sexuais pela maioria das mulheres, que teriam mais vantagens sendo mais uma esposa de um homem relativamente mais rico do que sendo a única mulher de um homem sem muitas condições materiais — ainda que estivessem sendo apenas instintivamente movidas a agir assim. O contingente de homens sozinhos na sociedade seria enorme, muito provavelmente.

Todavia, o motivo que parece ser o mais forte a pesar em prol da sociedade monogâmica é aquele que nos indica que deixar um monte de homens sem esposa nenhuma nem filho algum não é só algo terrivelmente desigual: na verdade, considerada a programação genética original do homem e o que ela instintivamente exige que ele faça (“procrie, procrie, procrie, procrie…”), é bem provável que tal situação se revelasse perigosadestrutiva.

Vejam bem: desde sempre, na história evolutiva humana, os homens vêm competindo de forma acirrada e muitas vezes violenta para ter acesso às mulheres e aos recursos sexuais que ela representam. Qual o preço a ser pago no caso de perder essa luta? Simplesmente seu apagamento genético da história terrestre — o que, convenhamos, é um preço alto demais! Não é à toa, portanto, que a seleção natural fez com que essa competição entre os machos se desse de forma tão feroz.

Qualquer aluno de escola secundária que preste atenção às aulas de História sabe aquilo que muitos estudos ainda se dão ao trabalho de confirmar: em todas as culturas do planeta, são os homens, e não as mulheres, os autores da imensa maioria dos atos de violência, inclusive assassinatos. Mesmo naquelas situações em que a violência praticada não parece ter tido uma motivação relacionável a essa primitiva disputa entre rivais sexuais, basta uma observação mais atenta para logo se ver o que se ignorou antes: dois caras que começam a discutir sobre política trocam socos e pontapés, até que um saca de uma faca e mata brutalmente o oponente — por trás de tamanha bestialidade, jaz o impulso para salvar as aparências, manter a honra máscula (algo que, pessoalmente falando, minha racionalidade moral julga como uma extrema idiotice, mas que, no ambiente ancestral, era uma atitude que poderia ter levado a conquistar o respeito na tribo e elevado a posição social, aumentando as chances de se obter mais recompensas sexuais).

Para a sorte geral de todos e pelo bem da civilização atual, há circunstâncias que conseguem aplacar essa primitiva violência masculina, essa fúria assassina do macaco dentro de cada homem moderno. Uma delas é uma parceira. Verdade é que a visão darwinista da natureza humana prevê que homens solitários competiriam com particular ferocidade por alguma mulher. E tanto os estudos a esse respeito quanto os noticiários estão aí para nos mostrar repetidamente que, quando isso acontece, eles de fato competem assim. Se precisamos de dados: hoje, um homem entre 24 e 25 anos tem três vezes mais probabilidade de matar outro homem do que um sujeito casado de mesma idade. Embora uma parte desses dados sirva para nos dar uma ideia de quem é o tipo de homem que acaba se casando e mantendo um casamento em comparação com o tipo que não para com mulher nenhuma, não se pode negar que um percentual considerável dessas criaturas de índole menos violenta encontra-se sob o “efeito pacificador do casamento”, como o chamaram Martin Daly e Margo Wilson, num seu trabalho a respeito.

Outra coisa: os dados apontam que um homem solitário e “inquieto” tem maior probabilidade de roubar (muito provavelmente para melhorar sua situação e conseguir atrair melhor as mulheres), estuprar (e o objetivo explícito do ato dispensa explicações), e, num efeito em cadeia, seu cotidiano pode acabar se tornando uma vida criminosa, o que, por sua vez, acaba levando não raro ao abuso de álcool e drogas, que pode enfim piorar a situação, diminuindo suas chances de ganhar dinheiro e aumentar sua atratividade em relação às mulheres. O resultado desse dominó desastroso, não precisava nem dizer, não promete ser o de uma sociedade muito bela e feliz, como está na cara!

Portanto, o argumento mais persuasivo em favor da sociedade monogâmica, tal como os homens a construíram na maior parte do mundo, provavelmente intuitivamente movidos pelos efeitos positivos que causava, no somatório geral, é o de que a desigualdade entre os machos (nos termos expostos acima) é socialmente mais destrutiva — de uma forma que causa danos tanto aos homens quanto às mulheres e às crianças, no final das contas — do que a desigualdade entre as mulheres.

Em outras palavras: uma nação polígina, em que as mulheres acabem preferindo migrar para a companhia de homens mais abastados, ainda que na condição de apenas mais uma de suas esposas, deixando um bando de homens pobres sem nenhuma companheira muito possivelmente, a médio e longo prazos, não seria a Disneylândia sexual que muita gente tem imaginado. E duvido que seria o tipo de país onde a maioria de nós gostaria de estar vivendo, pode apostar nisso!

Em todo caso, há que se chamar a atenção ainda para a avaliação crítica da antropóloga evolucionista e feminista, Sarah B. Hrdy, quanto às dimensões exatas desses dados concernentes à decisão de ingresso da maioria das mulheres em relações políginas, caso a sociedade as tornasse possíveis, visto que as evidências colhidas geralmente se apoiam nos modelos patriarcais de sociedade que ploriferaram mundo afora, ao longo da história.

A antropóloga Sarah B. Hrdy: Não de deve ter tanta certeza de que já sabemos qual é “a natureza inata ou ‘universal’ dos critérios femininos na escolha de parceiros”.

As mulheres (e sua prole) não apenas dependem de que os maridos tratem delas, mas como é típico em sociedades patriarcais, o status de uma mulher é definido de acordo com o fato de ser ou não casada e de com quem o é. Apenas se essa situação mudasse, seria possível esperar que os critérios para a escolha de parceiro gradualmente mudassem também. (Traduzido de: HRDY, Sarah B. “Raising Darwin’s Consciousness”. In: Human Nature, Vol. 8, Nº. 01, 1997, pág. 30.)

E, na opinião de Hrdy, justamente por conta dessa situação, não se deveria afirmar com tanta segurança “que sabemos qual é de fato a natureza inata ou ‘universal’ dos critérios femininos na escolha de parceiros” (ibidem).

Agora, quanto ao poliamor…

Eu retomo a visão oba-oba de Regina Navarro sobre um possível advento de uma sociedade poliamorosa e ponho-me a refletir sobre ela. E, para começar, sejamos sinceros. Quando Regina diz “abre-se um espaço para outros tipos de relacionamento, com a possibilidade de se amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo”, o texto tem de ser mais franco para com as pessoas: não estamos falando de amor aqui, estamos falando sobretudo de sexo. Ou será que me enganei? Por acaso o que ela está querendo dizer aqui é que viveremos relacionamentos inocentes e pueris, onde poderemos sair com outras pessoas, fazer um lanche na padaria da esquina, bater um papo, ir ao cinema e comer pipoca, e depois seguir cada um para sua casa, para enfim deitar na cama e suspirar que nem pré-adolescentes platonicamente apaixonados? Claro que não! Ora, faça-me um favor: se é para criticar o romantismo que não seja então com esse discurso de tom ingênuo-romântico (e maquiavelicamente enganador) de múltiplos amores transbordando em nossos corações. E despeja amor para cá, despeja amor para lá! Se é para discutir o tema com seriedade, que não o venha defender com essa mistura ridícula de Sex and The City com roteiro de novela das seis!

O chamado poliamor, tirando-se o besteirol, não passa de polisexo bem convenientemente maquiado, como o George Bush passando pó na cara, antes de aparecer na televisão para anunciar que derrubaram as torres gêmeas e agora o mundo estava ferrado com eles! Então, sejamos claros quanto à afirmação acima: abre-se um espaço para outros tipos de relacionamento, com o objetivo claro de conseguir transar com mais de uma pessoa ao mesmo tempo, gozando de outros benefícios extras de caráter não-sexual no processo aventureiro (isso sim podemos admitir). Fim de papo! A falta de franqueza na hora de defender os interesses individualistas que a bandeira do poliamor tenta esconder é facilmente compreendida por um psicólogo evolucionista, que entende o mecanismo da autoilusão funcionando a pleno vapor ali.

Aliás, chega a ser risível que uma psicanalista — principalmente porque Freud foi o primeiro a detectar espertos propósitos escondidos em nosso inconsciente por debaixo do manto de nossos atos mais aparentemente inocentes — acabe nos fornecendo um perfeito exemplo da autoilusão num esforço patente de convencer. E com respeito a isso, talvez seja relevante dizer que as ciências evolucionistas têm descoberto dados que favorecem princípios preciosos na teoria freudiana, embora também tenham acabado de enterrar de vez outros aspectos da psicanálise que as psicologias comportamentais já haviam abalado faz tempo, mas que agora, com as descobertas das bases genéticas de nossa natureza, podemos descartar por completo como puro lixo especulativo e sem base de sustentação científica; para citar um exemplo: mulheres atormentadas por uma inveja inconsciente do pênis é pura viagem na maionese!

De fato, voltando à Drª. Regina Navarro, quando esta define o termo citado acima, a coisa chega a soar como se ela estivesse tendo uma viagem alucinógena, de tão fantasioso que é o quadro pintado: nas palavras dela, poliamor é uma nova perspectiva de sociedade onde “uma pessoa pode amar seu parceiro fixo e também as pessoas com quem tem relacionamentos extraconjugais ou até mesmo ter relacionamentos amorosos múltiplos em que há sentimento de amor recíproco entre todas as partes envolvidas”. E haja tanto amor, hein!

Talvez seja importante salientar que a visão de Regina Navarro apoia-se em uma abordagem ainda muito em voga nas ciências sociais, e não numa consideração das perspectivas atuais nas ciências biológicas e naturais. Ela tende a compartilhar da mais do que refutada visão mítica de Jean-Jacques Rousseau, de que o homem é um bom selvagem, que nasce puro sendo a sociedade que o corrompe posteriormente. Assim, como ela mesma vai defender na citada entrevista, os sentimentos humanos, quaisquer

1Um comentário

  • 14-08-09_1509_minorJOCAX
    13 de Março de 2012, 16:48

     

    continuaçao:
    ---------------Talvez seja importante salientar que a visão de Regina Navarro apoia-se em uma abordagem ainda muito em voga nas ciências sociais, e não numa consideração das perspectivas atuais nas ciências biológicas e naturais. Ela tende a compartilhar da mais do que refutada visão mítica de Jean-Jacques Rousseau, de que o homem é um bom selvagem, que nasce puro sendo a sociedade que o corrompe posteriormente. Assim, como ela mesma vai defender na citada entrevista, os sentimentos humanos, quaisquer sentimentos, seja o amor seja o ciúme, por exemplo, são todos produtos do meio cultural em que vivemos, e não algo de nossa natureza ancestral ou um ajuste adaptativo nesta, em face das alterações ambientais (leia-se: socioculturais) à nossa volta.Gostaria que ela me explicasse que tipo de influência cultural faz com que primatas machos que desconfiam da infidelidade da fêmea, como muitos chimpanzés-alfa, para citar um caso observado com frequência, não apenas ataquem a parceira e a espanquem com violência, saltando como loucos por sobre ela, além de, em alguns casos, chegarem ao cúmulo de matarem os filhotes — que podem não ser seus —, estripando-os com uma ferocidade insana e assassina. Por acaso chimpanzés também têm uma cultura? E mais: que engraçado que essa cultura daninha seja tão parecida com a nossa, não é mesmo?Aliás, Regina chega a afirmar, com a segurança autoilusória já comentada, que a origem do ciúme masculino ocorreu há exatos 5 mil anos atrás, ou seja, logo após a invenção da escrita e, pela data que ela aponta, em algum ponto dos primeiros quinhentos anos da Idade Antiga. Com isso, a sexóloga nos ensina duas novidades: 1) a escrita deve ser o fator responsável por nossos mais mesquinhos e violentos sentimentos; 2) alguns primatas, como os chimpanzés, já aprenderam a escrever e estão escondendo isso de nós; precisamos ficar de olho neles!Vejam bem: muita coisa que ela diz — principalmente com relação à ideia ingênua e enganosa de que devemos esperar que outra pessoa (o verdadeiro amor) nos complete, faça-nos sentir seres inteiros, perfeitos, extasiados de felicidade plena, gozando setenta e cinco vezes por dia — é relevante sim. Porque de fato temos essa vocação para o autoengano que, se muitas vezes nos ajuda a lidar com as adversidades da vida, por outro lado, não raro nos leva a buscar numa pessoa muito mais do que ela é humanamente capaz de trazer para nossas vidas. Isso faz sentido! A ideia de que a felicidade plena será encontrada sempre na próxima relação traz muito desse ingrediente autoenganador.Também entendo, por outro lado, as razões levantadas em defesa do poliamor — digo, o fato de que nem sempre será possível ver nossos requisitos de um parceiro ideal convergirem todos numa única pessoa. Isso é óbvio! É bem normal que a mulher que o mata de tesão na cama, que o excita só de olhar para ela, seja também a figura mais intelectualmente desinteressante do universo — embora eu esteja apenas ilustrando uma situação, e não dizendo que isso seja uma regra —, capaz de o incomodar imensamente com sua presença fútil e vácua, tão logo tenham consumado mais uma transa, levando-o a querer despachá-la pela porta quase no minuto seguinte ao gozo. De fato, a monogamia impõe uma escolha. E uma escolha que não é fácil de fazer.Por isso mesmo, somado à ignorância que a maioria das pessoas tem com relação à programação genética básica em sua natureza sexual, que dirá à uma séria reflexão sobre o que isso significa, não duvido que muita gente num futuro próximo acabe mesmo seduzido pela filosofia de vida poliamorosa, como a regra de ouro da felicidade. Mas acho que não preciso nem dizer que tenho cá minhas dúvidas quanto aos resultados benéficos disso à longo prazo. Sobretudo porque estou pronto para apostar todas as minhas economias (que não são muitas, já vou logo avisando!) no fato de que a seletividade sexual feminina não tenderá a baixar o padrão de qualidade, embora possa ampliar consideravelmente seus quesitos avaliativos.O que implica dizer que, pelo menos com relação à maioria delas, é bem provável que continuarão sem vontade de dar para o gordo feioso na festa. Isso inclui as gordas e feias que, por outro lado, tenham alguma bagagem intelectual interessante que lhes garanta uma noite de sexo prazeroso (mas sem compromisso) com aquele cara bem mais atraente, que também está na festa, e que tem um quê de fissura por mulheres inteligentes, ou ainda aquelas que, mesmo sem o trunfo da intelectualidade atraente, sabem que o boa-pinta ali não pegou ninguém ainda, e o relógio está avisando que já é hora de começar a dar tiro em qualquer coisa que se mova. E o resultado de uma dinâmica assim, como já discutido, pode ser um contingente nada desejável de homens solitários, frustrados e inquietos.Além disso, se numa sociedade poligâmica as mulheres teriam pelo menos seus direitos de esposa garantidos por lei, numa sociedade poliamorosa não há tampouco alguma previsão nesse sentido. Tudo bem que algumas feministas radicais não-evolucionistas, a Regina Navarro entre elas, poderão responder a isso dizendo: “E quem disse que as mulheres de hoje precisam de um homem para garantir seu sustento ou a criação dos filhos que resolverem ter sozinhas? Hoje, somos independentes, vamos à luta, temos nosso próprio dinheiro e disputamos com os homens um lugar de destaque no mercado de trabalho. Que se danem os direitos da esposa!”Porém, esse tipo de argumentação, quase adolescente em seu tom pirracento, não leva em conta o fato de que a imensa maioria das mulheres não está brigando (nem tem condições socioeconômicas de estar) por um posto de destaque no mercado de trabalho. No mais, é um discurso alienado e alienante, que fecha os olhos de seus entusiastas para o fato lógico de que as mulheres que criam os filhos sozinhas, à custa do próprio trabalho, mesmo que tenham uma boa posição, enfrentam alguns probleminhas: 1) sentem na pele que investir sozinha em seu próprio bem-estar e no de um filho sai muito caro; 2) isso atrapalha seu crescimento financeiro em relação à sua amiga, em mesma posição, que no entanto divide o investimento financeiro nos filhos e nas despesas do lar com o marido; 3) como se não bastasse, os homens, que não ficam grávidos e conseguirão suas transas sempre sem compromisso (pelo menos é o que acontecerá aos que passarem pelo crivo seletivo das mulheres), poderão concentrar-se apenas em suas carreiras, sem se preocupar com deveres cíveis para com alguma mulher (já que o descompromisso poliamoroso não prevê obrigações contratuais entre os múltiplos parceiros) e limitando seus deveres a ter de pagar pensão pelos filhos que acabar tendo esta, o que no fim só trará aos homens vantagens em sua luta direta com as mulheres, no mercado de trabalho.Talvez, diante desses fatos, os poliamoristas ainda tentem uma última justificativa: “E quem precisa ter filhos? Transaremos pelo prazer de transar, mas sem ficar enchendo o mundo de gente.” Isso! Aí sim temos uma solução para o problema… Pelo menos, para o problema do planeta. Afinal, nada seria melhor para a Terra hoje do que a extinção da humanidade. Faríamos um bem tão grande ao meio-ambiente com o nosso suicídio genético que o planeta, se pudesse falar, seria eternamente grato. 
    [imagem: "http://avozdaespecie.files.wordpress.com/2009/12/islam_religion_of_terrorism001.jpg?w=300&h=211"] avoz​daes​peci​e.fi​les.​word​pres​s.co​m/20​09/1​2/is​lam_​reli​gion​_of_​terr​oris​m001​.jpg​Radi​cais islâmicos: dentre estes, muitos homens sem mulheres aceitam o autosacrifício sangrento do "homem bomba" ou do piloto suicida porque creem que, no paraíso, serão recompensados com 72 virgens.Vejam bem! Essa coisa de poliamor como regra universal para a felicidade deveria ser pensada melhor! Em todo caso, só para chamar a atenção para um detalhe referente a um pequeno problema de se deixar homens solitários zanzando por aí virgens ou apenas sem sexo, enquanto veem outros sortudos com várias mulheres, acho que não custa nada lembrar: no mundo muçulmano, onde a poliginia é praticada, há um considerável contingente de homens solteiros e sem muitas chances de arrumar uma mulher. Adivinhem só aonde muitos acabam indo parar? Isso mesmo! Nos grupos terroristas islâmicos. Para fazer o quê? Nada menos que o glorioso papel de homens-bombas que entram em festas de casamento com explosivos amarrados ao corpo e… bum! Viram tripas, sangue e carne despedaçada, enquanto tiram também a vida de várias outras pessoas, movidos sem dúvida alguma por suas crenças religiosas doentias, isso não se discute. No entanto, a grande promessa que advém de sua fé disparatada é a de que, no paraíso, cada um desses suicidas terá 72 virgens para seu gozo (e o termo aqui tem duplo sentido) por toda a eternidade.Conclusão No fim, essa longa reflexão começou com a simples questão: vivemos hoje num tempo em que tudo é bem diferente do ambiente ancestral em que nossos cérebros foram desenhados? Em muitas coisas, sim. Em tudo, não. De forma alguma!Atualmente, graças à tecnologia contraceptiva, podemos transar e aproveitar o prazer que isso nos proporciona, sem que resulte qualquer gravidez de nosso ato. A natureza não contava com isso! E o interessante é que, uma vez que temos gozado, e muito, talvez muito mais do que nunca antes, nossos instintos têm reforçado nosso impulso para o sexo. É possível os ajustes de botões de nossa programação genética esteja operando como se estivéssemos tendo um excelente aproveitamento de replicação de nossos genes, com tanto esperma jorrando por nossas uretras.Por outro lado, nosso comportamento promíscuo tem ganhado um status mais aceitável na sociedade hodierna. Hoje, é comum mulheres se reunir num bar para tomar uns drinques e comentar, às gargalhadas, suas últimas aventuras sexuais. Se isso é certo ou errado, se é bom ou ruim, não passa de um julgamento moralista que qualquer um pode fazer, de acordo com seus interesses pessoais, que normalmente fica para os padres e pastores fazerem. Agora, de um ponto de vista mais analítico, poderíamos nos perguntar se isso é positivo ou negativo em termos de ganho social a médio ou longo prazo (ainda que pensar no bem do grupo social não deixe de ser um interesse individualista em princípio, como já discuti em outro texto).Em todo caso, por mais que estejamos agora num curso praticamente inalterável, como o Titanic rumo ao iceberg, se continuarmos adotando filosofias de vida ao bel-prazer, sem edificá-las sobre a pedra fundamental mais do que relevante da Biologia, há grande chance de que estejamos espalhando sementes de um lamentável futuro desequilíbrio sexual, com boas chances de resultar na colheita de um destrutivo caos social ao fim do processo.Torço para que uma luz (que ainda não avistei) no fim do túnel possa trazer uma solução eficaz, em que pelo menos poucas sejam as perdas inevitáveis. Eu, apesar de saber por experiência que muitas relações não tem mesmo como dar certo, ainda assim preferiria viver num mundo monogâmico (e, aliás, sou feliz numa vida monogâmica, embora não queira fazer de minha vida modelo para a felicidade terceiros). E sei que muitos homens e mulheres se beneficiariam num mundo assim também. Todavia, entendo que os impulsos que fervilham em algumas outras pessoas, nesse caráter heterogêneo que chamamos de diversidade humana, fariam com que fossem frustradas numa sociedade que impusesse a monogamia como regra geral. Elas não conseguem ser felizes assim. Simplesmente não dá!Talvez o ideal fosse que conseguíssemos construir um mundo em que monogamia e poliamor pudessem coexistir em bases mais ou menos equilibradas. Um mundo um pouquinho menos idealizador de fórmulas dogmáticas de comportamento sexual e de modelos impecáveis de relacionamentos amorosos que poderão trazer a felicidade de forma equânime a todos (porque a verdade é que nem todos são iguais, na forma como os ajustes entre seus impulsos e sentimentos naturais e sua racionalidade moral delineiam seus reflexos à realidade sociocultural ao seu redor). Um mundo onde se entendesse que, tal como é simplesmente ridícula a questão sobre qual comportamento sexual faz alguém mais feliz, se o heterossexual ou o homossexual, não faz sentido achar que há uma fórmula única para todos.A nossa natureza de nossos ancestrais, de homens e mulheres, é sem dúvida promíscua. E a questão é que aparentemente alguns só encontrariam a felicidade mantendo tais impulsos mais sob controle e investindo nos benefícios específicos de uma relação longeva a dois, ao passo que outros só conseguiriam encontrar realização na aproximação maior de seu lado mais instintivo. Aliás, a propósito disso, a própria feminista Sarah Hrdy, que citei aqui, apesar de ter ideias revolucionárias sobre a sexualidade feminina e sobre o fato de que não existe o notório “instinto materno” — que ela afirma ser um mito cultural —, fez uma opção pessoal racional por um casamento sólido e três filhos, e se diz feliz e realizada em sua escolha. E a própria Regina Navarro também vive um casamento duradouro, embora eu ainda não tenha entendido o que ela quis dizer quando, comentando o assunto, falou que era casada só porque ela e o marido tinham uma relação “sem posse” de um sobre o outro — há de se convir que há mais de um jeito de se interpretar isso!Por sua vez, os resultados de um interessante estudo (comentado no “post scriptum 2” deste artigo) laçam novas e intrigantes luzes sobre a questão de porque alguns se sentem mais confortáveis com a monogamia e outros não.Tudo isso, por fim, faz concluir que o ideal fosse que vivêssemos num mundo mais misto e sem superestimação de um modelo de relacionamento em relação ao outro, tal como o ideal seria tratar a sexualidade humana sem estabelecer a primazia de uma orientação sobre a outra. Um mundo onde, no caso dos predispostos à monogamia, demoraríamos um pouco mais para fazer nossas escolhas amorosas (e neste caso refiro-me a algo mais duradouro e escolhido racional e sentimentalmente, que visasse a persistir até mesmo na velhice, quando a impotência geralmente impera sobre a vida sexual do homem, ou seja, algo de fato fundamentando num sentimento que se pautasse pela necessidade compreendida da companhia do outro).E, é claro, o ideal seria um mundo onde os monogâmicos, sendo humanos, poderiam errar, num caso ou outro, vindo então a se separar. E o fato é que ambos os lados, tão distintos nas escolhas que podem trazer a felicidade pessoal, precisam entender que vão ter sempre sua cota do que sacrificar e do que ganhar.Se sexo faz bem — e faz mesmo! —, e nisso os poliamorosos teriam muito mais a ganhar com a variação, por outro lado, alguns estudos já comprovaram que uma vida monogâmica estável e mutuamente leal também melhora todos os indicadores vitais no corpo de um casal, em especial numa notável estabilização dos níveis de estresse do homem. Enquanto um lado implica o sacrifício da fidelidade (isto é, controle racional de um impulso primitivo), o outro implica o sacrifício do controle dos ciúmes (igualmente, o domínio da razão sobre os instintos animais). E do lado positivo: entre a segurança, o apego sentimental e a cumplicidade cotidiana de um tipo de relacionamento, de um lado, e as múltiplas possibilidades de satisfação sexual e diversificação de experiências, do outro, deveria existir apenas a possibilidade de ponderação e escolha de qual lado da balança é o seu.Ainda que houvesse um mundo assim, não seria perfeito, isento de frustrações nos relacionamentos. E tampouco seria o mundo que nossos genes querem que construamos — um ambiente de orgias selvagens, onde machos engravidem o maior número possível de fêmeas. Como já disse mais de uma vez: o interesse de nossos genes, e, num certo sentido, de nossa natureza, não é a nossa felicidade, mas sim garantir a autorreplicação, mesmo que à custa de nossa dor e frustração. Ao mesmo tempo, um mundo como o que penso ser utopicamente ideal seria um lugar onde um cara ou uma garota não teriam de ter quase que uma obrigação social de transar com alguém que se acabou de conhecer numa boate e com quem se resolveu trocar uns beijos, nada mais — como aconteceu há alguns dias a uma amiga, que reclamou comigo da pressão sofrida, e a quem dedico tudo o que escrevi neste longuíssimo texto. Um mundo sem fórmulas únicas para pessoas diversas faz muito mais sentido e teria muito menos chance de fracassar. 
    [imagem: "http://avozdaespecie.files.wordpress.com/2009/12/john_stuart_mill.jpg?w=500"] avoz​daes​peci​e.fi​les.​word​pres​s.co​m/20​09/1​2/jo​hn_s​tuar​t_mi​ll.j​pgJo​hn Stuart Mill: “É melhor ser um ser humano insatisfeito do que um porco satisfeito.”Por fim, vou ser um pouco parcial aqui e, como já há muitas Reginas Navarros por aí, defendendo que todos nasceram para ser felizes no poliamor, vou fazer um pouco de merchandising para os homens e mulheres que não se enquadram no grupo, que sem dúvida existe, de pessoas que só seriam realizadas em relacionamentos poliamorosos. Acho muito válido citar nesta conclusão algumas palavras de John Stuart Mill, que foi um grande pensador libertário e defensor do direito humano de buscar o prazer e esquivar-se da dor, mas fez todavia uma coerente distinção entre “prazeres superiores” e os “prazeres inferiores”, ao passo que argumentava que os seres humanos, em condições normais, tinham muito mais chance de tirar utilidade para suas vidas dos prazeres superiores e do exercício de suas capacidades mais elevadas do que se devotando ao segundo caso. Num de seus famosos textos, hoje reunidos no volume intitulado Utilitarismo, ele diz:Poucos humanos aceitariam ser transformados numa criatura inferior diante da promessa do mais pleno desfrute dos prazeres de um animal; nenhum homem inteligente aceitaria ser um idiota, nenhuma pessoa culta seria um ignorante, nenhuma pessoa de sentimento e consciência seria egoísta e desprezível, mesmo que lhes tentassem convencer de que o idiota, o burro e o mau caráter vivem muito mais contentes com sua sina do que os primeiros com sua sorte. (…) Quem quer que suponha que tal preferência ocorre às custas da felicidade (…) confunde as duas ideias: de felicidade e de satisfação. (…) É melhor ser um ser humano insatisfeito do que um porco satisfeito; é melhor ser Sócrates insatisfeito do que um idiota satisfeito. E se o porco e o idiota têm uma opinião diferente, é porque eles só conhecem seu próprio lado da questão. A outra parte da comparação está consciente dos dois lados.Termino este texto com estas palavras que convidam à reflexão. É óbvio que há um certo radicalismo, não no que Mill disse, mas na forma de se interpretar suas palavras. Como já salientei aqui, alguns só seriam mesmo felizes se não se vissem laçados num relacionamento a longo prazo, que demandasse fidelidade sexual — seria uma tortura para essas pessoas. Mas há outros que sentem que querem algo estável e longevo, algo cúmplice e mantido dia a dia. E, neste último time, há gente sendo praticamente forçada a aceitar a ideia de que ninguém pode ser feliz assim. A minha amiga que reclamou da pressão sofrida sentiu isso na pele — e ela era livre para escolher transar com o fulano se quisesse. Mas não quis! Deveria ter sido ponto final na discussão, mas foi apenas o começo de uma ladainha equivocada sem fim. Algo quase como uma tentativa de catequização por compelle intrare. Para ela, tal “escolha” imposta seria fazer a estúpida opção por ser um porco satisfeito. E como ela pode ter tanta certeza? Porque, em virtude do efeito de seus sentimentos sobre ela, está bem consciente dos dois lados da questão.  POST SCRIPTUM:Creio ser muito importante para este artigo acrescentar-lhe alguns dados dos interessantes estudos realizados pela antropóloga Helen Fisher, uma das maiores especialistas do mundo no estudo da atração romântica interpessoal. Fisher ajudou a derrubar o antigo mito (que Regina Navarro e alguns outros adoram pregar) de que o amor romântico é uma invenção cultural bem recente na história do Ocidente. Os trabalhos de Fisher provaram que tal afirmação está redondamente equivocada:Num estudo de 166 sociedades, Jankowiak & Fischer (1992) encontraram evidências de amor romântico em 147 delas. Nenhum dado negativo foi encontrado; nas 19 culturas restantes, os antropólogos não haviam feito as perguntas apropriadas; todos eram casos de negligência etnográfica. Jankowiak & Fischer (1992) concluíram que o amor romântico constitui um ‘universal humano ou um quase-universal’. Além disso, o amor romântico encontra-se associado a um conjunto específico de traços fisiológicos, psicológicos e comportamentais (Tennov 1979; Hatfield & Sprecher 1986; Shaver et al. 1987; Hatfield et al. 1988; Harris & Christenfeld 1996; Fisher 1998; Gonzaga et al. 2001); e a maioria destes traços são também característicos da atração para o cortejar entre mamíferos, incluindo aumento de energia, atenção focada, seguir obsessivamente o outro, gestos afiliativos, vigia possessiva do parceiro, comportamentos e motivação voltados para alguma meta a fim de ganhar um parceiro para acasalamento preferido (Fisher et al. 2002a,b; Fisher 2004). O amor romântico começa quando um indivíduo passa a considerar um outro indivíduo como sendo especial e único. O apaixonado então foca sua atenção no amado, engrandecendo seus traços de valor e deixando passar ou minimizando seus defeitos (Traduzido de: FISHER, Helen et al. “Romantic love: a mammalian brain system for mate choice”, in: Philosophical Transactions of the Royal Society B, 2006, nº 361, pág. 2175).Trabalhando com uma equipe de psicólogos e neurocientistas, Fisher descobriu que um intenso amor romântico, um universal que ultrapassa fronteiras culturais, na verdade é uma forma desenvolvida de um sistema de atração entre mamíferos:A fim de começar a determinar os mecanismos neurais associados com a atração romântica nos humanos, utilizamos escaneamento de imagens por ressonância magnética funcional (fMRI) para estudar 17 pessoas que estavam intensamente ‘apaixonadas’. Uma ativação específica para os que amam ocorria na área tegmental ventral direita do tronco cerebral e no corpo posterodorsal direito do núcleo caudado. Estes e outros resultados sugerem que um sistema de recompensa dopaminérgico e vias de motivação contribuem para os aspectos do amor romântico. Também utilizamos o fMRI para estudar 15 homens e mulheres que haviam acabado de ser rejeitados no amor. Uma análise preliminar mostrou uma atividade específica para os que amam em regiões relacionadas do sistema de recompensa associadas com jogos de apostas monetárias que podem resultar em grandes ganhos e perdas incertos, bem como em regiões do córtex orbitofrontal lateral associadas com a teoria da mente, comportamentos obsessivos/compulsivos e com o controle da raiva. Estes dados contribuem para nossa visão de que o amor romântico é um dos três sistemas cerebrais primários que evoluíram em espécies aviárias e mamíferas para direcionar a reprodução. O impulso sexual evoluiu para motivar os indivíduos a buscar uma variedade de parceiros para cópula; a atração evoluiu para motivar os indivíduos a preferir e a ir em busca de parceiros específicos; e o apego, o afeiçoamento evoluiu para motivar os indivíduos a permanecer juntos por tempo o suficiente para completar os deveres de pais específicos da espécie. Estes três repertórios comportamentais parecem estar baseados em sistemas cerebrais que são amplamente distintos porém interrelacionados, e interagem de maneiras específicas a fim de orquestrar a reprodução, usando tanto hormônios quanto monoaminas. A atração romântica nos humanos e seu antecedente em outras espécies mamíferas desempenham um papel primário: este mecanismo neural motiva os indivíduos a focar sua energia para o cortejo em outros indivíduos específicos, conservando assim um tempo valioso e energia metabólica, e facilitando a escolha de parceiro (Ibid., pág. 2173). 
    [imagem: "http://avozdaespecie.files.wordpress.com/2009/12/helen-fisher.jpg?w=300&h=264"] avoz​daes​peci​e.fi​les.​word​pres​s.co​m/20​09/1​2/he​len-​fish​er.j​pgA antropóloga Helen Fisher: o amor romântico é biologicamente real.Em suas pesquisas, Fisher e seus colegas chegaram a avaliar a atividade metabólica nos cérebros de casais que já estavam juntos fazia décadas e ainda se diziam tão apaixonados como quando se casaram. Nos exames de fMRI, a ativação das áreas correlatas em seus cérebros acabaram pondo por terra a visão pessimista de muitos críticos do amor romântico, que insistem em que este é apenas uma ilusão cultural que força as pessoas a uma atitude extremada (o casamento) e depois as obriga a viverem juntas por convenção, o que, agora está provado, nem sempre é verdade: esses casais estudados continuavam de fato tão apaixonados como quando se conheceram, mesmo depois de mais 25 anos juntos. Como disse Fisher em uma palestra recente: “Eles não estavam mentindo”. POST SCRIPTUM 2: Somando-se aos dados apresentados acima, cumpre citar o estudo realizado com os arganazes, um tipo de roedor parente do esquilos e pertencentes à família Gliridae. Curiosamente, os machos da espécie de arganazes que vive nos campos são fiéis monogâmicos. Porém, os machos da espécie que vive nas montanhas têm um comportamento promíscuo, adorando trocar de parceiras. Estudando o genoma das duas espécies de arganazes, um grupo de cientistas descobriu que havia uma interessante diferença genética entre elas.
    [imagem: "http://avozdaespecie.files.wordpress.com/2009/12/mn-love08_ph1_vo_0499630961.jpg?w=300&h=227"] avoz​daes​peci​e.fi​les.​word​pres​s.co​m/20​09/1​2/mn​-lov​e08_​ph1_​vo_0​4996​3096​1.jp​gCas​al de arganazes-do-campo e sua prole: genes que presdispõem à fidelidade conjugal.Nos roedores de hábitos polígamos, a vasopressina — o hormônio antidiurético que é secretado pela neurohipófise e produzido pelos neurônios do hipotálamo cujos axônios se estendem até esta; hormônio este que é liberado durante o ato sexual —, não exerce efeito sobre a região do cérebro que é associada ao sistema de recompensa. A ação da vasopressina nesta área, que por outro lado ocorre nos machos monógamos, é que contribui para que se crie vínculos afetivos com a parceira, e é por isso que os polígamos não formam tais vínculos com nenhuma em especial, estando sempre dispostos a ir atrás de mais uma.A fim de testarem as implicações da diferença genética encontrada nas duas espécies de arganazes, os pesquisadores realizaram uma manipulação no DNA dos roedores polígamos, tornando a área de recompensa de seu cérebro sensível à vasopressina, tal como ocorre nos roedores monógamos por natureza. O resultado, como disse a neurocientista Suzana Herculano-Houzel, da UFRJ, foi o seguinte: “Transformamos aquele animal que, até então, era polígamo, em animal monógamo”.Na Suécia, pesquisadores já começaram a fazer estudos com humanos. Como foi recentemente demonstrado, os homens também apresentam diferenciação genética determinante da sensibilidade da área de recompensa a esse hormônio, e alguns deles, que têm uma certa variação do gene em questão, são menos propensos a casarem-se, mais propensos a se divorciar e a ser infiéis.Se é óbvio que os fatores genéticos não respondem por 100% do nosso comportamento — e isso seguramente se aplica também no caso de nossa fidelidade conjugal —, o que os estudos têm demonstrado é que seu peso é altamente relevante, não podendo jamais ser ignorado, como muitos o fazem propositalmente, apenas porque tal fato colide com suas crenças ideológico-filosóficas (e até mesmo religiosa, no caso de alguns).Não há nada de errado em admitirmos que somos heterogêneos: que há na população humana aqueles que são mais geneticamente propensos à monogamia e aqueles que o são para o comportamento polígamo. Na verdade, se houvesse menos tradicionalismo monogâmico condenando os que são polígamos e menos presunçosas ideologias poligâmicas vendo com desdém os que são monógamos, todos poderiam deixar de ser personagens inventados para se ajustarem melhor a este ou àquele papel que seu grupo de sociabilização valoriza mais, e poderíamos ser simplesmente humanos! BIBLIOGRAFIA CONSULTADA E RECOMENDADA:FISHER, H. “Lust, attraction, and attachment in mammalian reproduction.” Human Nature 9, pp. 23–52, 1998.FISHER, H. Why we love: the nature and chemistry of romantic love. New York, NY: Henry Holt, 2004.FISHER, H., ARON, A., MASHEK, D., STRONG, G., LI, H. & BROWN, L. L. “The neural mechanisms of mate choice: a hypothesis.” Neuroendocrinol. Lett. 23 (Suppl. 4), pp. 92–97, 2002a.FISHER, H., ARON, A., MASHEK, D., STRONG, G., LI, H. & BROWN, L. L. “Defining the brain systems of lust, romantic attraction and attachment.” Arch. Sexual Behav. 31, pp. 413–419, 2002b.GONZAGA, G. C., KELTNER, D., LONDAHL, E. A. & SMITH, M. D. “Love and the commitment problem in romantic relations and friendship.” J. Pers. Soc. Psychol. 81, pp. 247–262, 2001.HARRIS, C. R. & CHRISTENFELD, N. “Gender, jealousy, and reason.” Psychol. Sci. 7, pp. 364–366, 1996.HARTFIELD, E., SCHMITZ, E., CORNELIUS, J. & RAPSON, R. L. “Passionate love: how early does it begin?” J. Psychol. Hum. Sex. 1, pp. 35–51, 1988.HARTFIELD, E. & SPRECHER, S. “Measuring passionate love in intimate relations.” J. Adolesc. 9, pp. 383–410, 1986.JANKOWIAK, W. R. & FISHER, E. F. “A cross-cultural perspective on romantic love.” Ethnology 31, p. 149, 1992.SHAVER, P., SCHWARTZ, J., KIRRSON, D. & O’CONNOR, C. “Emotion knowledge: further exploration of a prototype approach.” J. Pers. Soc. Psychol. 52, pp. 1061–1086, 1987.TENNOV, D. Love and limerence: the experience of being in love. New York, NY: Stein and Day, 1979.-----------------------------http://avozdaespecie.wordpress.com/2009/12/18/sexo-amor-e-a-natureza-humana/  


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