Comprovado: há um verdadeiro oligopólio de grandes editoras que dominam a publicação científica!

12 de Junho de 2015, por Sibele Fausto

Este ano marca os 350 anos do surgimento da revista científica - em 1665 foram publicadas pela primeira vez a Journal des sçavans, na França e a Philosophical Transactions of the Royal Society, na Inglaterra, inaugurando meios mais seletivos e breves para disseminar as novidades científicas entre os cientistas, antes baseadas na troca de correspondência pessoal através de cartas, nas atas das reuniões das sociedades científicas e nos livros - que demoravam muito para ser publicados. Os periódicos representaram um avanço na comunicação da ciência na medida em que estabeleceram uma nova forma, mais estruturada e regular, para a disseminação dos resultados da ciência, evitando a duplicação desses resultados e estabelecendo os princípios da prioridade científica e a revisão por pares, além de permitir o registro sistemático do conhecimento.

Desde então a importância das revistas científicas só aumentou, transformadas na mídia mais rápida e conveniente para divulgar novidades da ciência, e essa posição foi consolidada no século 20, em especial nas Ciências Naturais e Médicas. Se nos seus começos as revistas eram publicadas majoritariamente por sociedades científicas, a partir da II Grande Guerra entram novos atores nesse cenário: as editoras comerciais, que consolidaram a assim chamada indústria da publicação científica - que tem despertado muito debate dentro e fora da comunidade científica, especialmente em relação às suas altas margens de lucro.

Mas até o momento nenhum estudo havia se debruçado sobre a real parcela da produção científica publicada pelas editoras comerciais, assim como sua evolução ao longo do tempo e em várias disciplinas. Ontem foi publicado na revista PLOS ONE um estudo da Universidade de Montreal (Canadá) que aborda a questão.

O estudo analisou quase 45 milhões de documentos indexados na base Web of Science (WoS) no período entre 1973 e 2013, verificando as publicações de editores como a American Chemical Society, American Institute of Physics, American Physical Society, Cambridge University Press, Emerald, IEEE, Institute of Physics, Karger, Nature Publishing Group, Optical Society of America, Oxford University Press, Reed-Elsevier, Royal Society of Chemistry, Sage Publications, Springer, Taylor & Francis, Thieme Publishing Group, Wiley-Blackwell, e Wolters Kluwer.

Os resultados mostraram que as maiores editoras controlam mais da metade do mercado de publicações científicas de revistas das Ciências Naturais e Médicas e nas Ciências Sociais – sendo que nessas áreas apenas 5 grandes editoras concentram mais de 50% de toda a publicação científica atual: Reed-Elsevier, Wiley-Blackwell, Springer, Wolters Kluwer e Taylor & Francis. A participação dessas cinco editoras comerciais no mercado de publicações científicas saltou de apenas 20% em 1973 para 30% em 1996, alcançando 50% em 2006 e mantendo esse nível até 2013, quando então atingiu os atuais 53%, crescendo graças a fusões e aquisições de revistas de outras editoras menores.

Algumas disciplinas, porém, escapam do domínio dessas editoras, como a Física, a Química e as disciplinas de Artes e Humanidades, devido principalmente à atuação das Sociedades Científicas (a exemplo da American Chemical Society e da American Physical Society, que continuaram detendo a publicação de suas revistas na Química e na Física, respectivamente) e pelo maior peso da publicação em livros, no caso das Artes e Humanidades, além dessas últimas áreas experimentarem uma transição mais lenta para o formato de revista digital, e também por seu forte escopo local.

O artigo mostra ainda que essa concentração foi acompanhada também de um crescimento exorbitante nos lucros dessas editoras, inclusive comparando essas elevadas margens de lucro - por exemplo, das editoras Springer (35,0% de lucro em 2013), John Wiley & Sons (28,3%) e Taylor & Francis (35,7%) - com as mais rentáveis empresas dos ramos farmacêutico, bancário e automobilístico: a Pfizer (42% de lucro em 2013), o Banco Industrial e Comercial da China (29%) e a Hyundai Motors (10%).

Comentando sobre essas margens de lucro tão altas, o artigo indica alguns fatores que explicam a incrível rentabilidade desta indústria, entre os quais o fato de que os editores não precisam pagar pelos artigos ou por seu controle de qualidade (na revisão por pares), que são livremente fornecidos pela comunidade científica. Além disso, os editores detém o monopólio sobre o conteúdo das revistas (através da cessão dos direitos autorais), as quais, em formato digital, podem ser publicadas como um único exemplar, cujo acesso é então vendido para vários compradores, sem custos adicionais.

Os autores traçam questionamentos pertinentes sobre esses achados:

- A crescente redução dos custos da publicação digital não justifica os altos valores das assinaturas e nem das taxas de processamento de artigos (Article Processing Charges – APCs) que as editoras cobram por suas revistas de acesso aberto (por exemplo, os US$ 5.000 que a revista Cell Reports, da editora Elsevier, cobra de APC).

- A comunidade científica começou a protestar contra as práticas comerciais agressivas das grandes editoras, a exemplo da campanha "Custo do Conhecimento” (The Cost of Knowledge), que incentiva pesquisadores a parar de participar como autores, editores e revisores de periódicos da editora Elsevier. Algumas universidades também deixaram de negociar com essas editoras e ameaçaram boicotá-las, enquanto outras simplesmente cancelaram suas assinaturas de revistas. No entanto, a extensão do movimento é limitada porque as revistas ainda são uma forte fonte de capital científico para os pesquisadores.

- Segundo os autores, enquanto a publicação em revistas de alto Fator de Impacto (FI) for um requisito para que os pesquisadores obtenham posições, financiamento de pesquisa e reconhecimento de seus pares, as grandes editoras comerciais manterão seu domínio sobre o sistema de publicação acadêmica.

- Os autores também questionam a vantagem de uma revista ser publicada por tais editoras, uma vez que seria de esperar que a aquisição de uma revista por uma grande editora teria o efeito de aumentar a sua visibilidade, já que oferecem toda a infraestrutura e recursos necessários para publicar e divulgar revistas científicas. No entanto, o estudo mostra que não há um aumento claro em termos de citações após a mudança de uma pequena editora para uma maior. Assim, os autores questionam o verdadeiro valor agregado pelas grandes editoras e se seus serviços prestados à comunidade científica justificam a crescente participação dos orçamentos das universidades nos altos custos de suas assinaturas.

- Embora seja verdade que os editores têm desempenhado historicamente um papel vital na divulgação do conhecimento científico na era da impressão, é questionável se eles ainda são necessários na era digital de hoje.

O estudo tem uma limitação: a análise teve como fonte apenas a WoS, base de dados reconhecidamente restrita em termos de indexação de revistas, e portanto, a análise não abrange todo o ecossistema da publicação científica mundial mas sim o subconjunto de revistas que são mais citadas e mais visíveis a nível internacional. Mas é um estudo importante por finalmente analisar e documentar o que todos nós desconfiávamos: as grandes editoras são verdadeiros tubarões da comunicação científica. Predadoras.

Confira o artigo:

Larivière V, Haustein S, Mongeon P (2015). The Oligopoly of Academic Publishers in the Digital Era. PLoS ONE 10(6): e0127502. doi:10.1371/journal.pone.0127502.

Crédito da imagem

 



Captcha nos CVs Lattes???

4 de Maio de 2015, por Sibele Fausto

 

 

 

Segundo a Wikipédia, “CAPTCHA é um acrônimo da expressão ‘Completely Automated Public Turing test to tell Computers and Humans Apart’ (Teste de Turing público completamente automatizado para diferenciação entre computadores e humanos)”.

Utilizado como ferramenta anti-spam, o captcha é um teste de desafio cognitivo, onde o usuário deve identificar letras e/ou números de uma imagem distorcida, provando que não é um robô e assim validar seu acesso a um determinado site.

A novidade é que o CNPq, que gerencia a Plataforma Lattes, adotou o captcha na quarta-feira da semana passada para acesso aos Currículos Lattes, alegando que foi uma "demanda dos usuários”, “para evitar a extração de informações e a sua publicação indevida por sites não autorizados”.

 

 

Mas as informações não são públicas?

Segundo comentários nas redes sociais, essa decisão foi devido ao compartilhamento de dados do Lattes por sites como o Escavador.  É um site comercial e usa dados públicos, acenando para a Lei de Acesso à Informação.

É discutível que uma lei pensada para promover a transparência governamental possa servir de justificativa para o uso de dados públicos com fins lucrativos (embora não seja diferente da prática de diversas empresas virtuais, que fazem uso comercial massivo de dados dos internautas).

Mas o que quero discutir aqui é a validade do uso do captcha na Plataforma Lattes, prejudicando o trabalho de pesquisadores que se valem dos dados ali registrados para análises as mais diversas. Já existem várias pesquisas exploratórias utilizando dados da plataforma na caracterização de diferentes aspectos de disciplinas, áreas e temáticas da produção científica brasileira. Uma busca apenas na base SciELO retorna 76 artigos com diferentes estudos sobre a plataforma ou usando dados da plataforma.  E isso sem considerar outros trabalhos que não estão indexados na SciELO.

Eu mesma comecei a analisar dados extraídos da Plataforma Lattes em 2010, e desde então já foram 8 publicações - a mais recente será apresentada na próxima Conferência da ISSI (International Society for Scientometrics and Informetrics).

A Plataforma Lattes, criada e mantida pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), órgão do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), integra três fontes relacionadas à pesquisa no país, reunidas em um único Sistema de Informações:

  1. a base de dados de Currículos;
  2. o Diretório dos Grupos de Pesquisa; e
  3. o Diretório de Instituições.

"Sua dimensão atual se estende não só às ações de planejamento, gestão e operacionalização do fomento do CNPq, mas também de outras agências de fomento federais e estaduais, das fundações estaduais de apoio à ciência e tecnologia, das instituições de ensino superior e dos institutos de pesquisa. Além disso, a Plataforma Lattes tornou-se estratégica não só para as atividades de planejamento e gestão, mas também para a formulação das políticas do MCTI e de outros órgãos governamentais da área de ciência, tecnologia e inovação" (CNPq, s/d).

Por tudo isso, a Plataforma Lattes é uma fonte basilar e valiosa sobre a ciência brasileira, registrando informações da pós-graduação, das instituições de pesquisa, seus quadros de pessoal e sua produção. Uma das fontes da Plataforma Lattes, o Currículo Lattes, "se tornou um padrão nacional no registro da vida pregressa e atual dos estudantes e pesquisadores do país, e é hoje adotado pela maioria das instituições de fomento, universidades e institutos de pesquisa do Brasil" (CNPq, s/d). Em 2012 a Plataforma Lattes contava com mais de 2 milhões de currículos (ALVES; YANASSE; SOMA, 2012).

Através dos Currículos Lattes é possível obter informações que não estão disponíveis em nenhuma base referencial, tais como projetos de pesquisa submetidos, composição de grupos de pesquisa, orientações realizadas e em andamento, artigos em jornais e revistas de divulgação científica, produção em produtos e processos, etc. Por sua riqueza de informações e sua crescente confiabilidade e abrangência, a Plataforma Lattes se tornou elemento indispensável e compulsório à análise de mérito e competência dos pleitos de financiamentos na área de ciência e tecnologia, inclusive reconhecida internacionalmente, com Lane (2010) comentando e elogiando essa fonte.

Mas é sabido que a extração de dados da Plataforma Lattes não é uma tarefa simples. Embora seja de acesso livre, a plataforma está hospedada no que se conhece como deep web, ou web invisível, e a procura e extração de dados é possível apenas através de ferramentas especiais. Existem 3 ferramentas que possibilitam a extração de informações diretamente da plataforma Lattes:

  • Lattes Extrator
  • LattesMiner (ALVES; YANASSE; SOMA, 2012)
  • ScriptLattes (MENA-CHALCO; CÉSAR JUNIOR, 2009).

O Lattes Extrator é uma ferramenta desenvolvida pelo próprio CNPq, e apenas instituições previamente cadastradas podem utilizá-la para extrair informações relacionadas ao seu corpo docente, discente e demais colaboradores. Portanto, o Lattes Extrator é uma ferramenta de uso restrito.

O LattesMiner por sua vez é uma ferramenta automatizada desenvolvida em Java, que permite a extração de informações da Plataforma Lattes com relação aos indicadores de desempenho dos Docentes, Pesquisadores, alunos e programas de Pós-Graduação (ALVES; YANASSE; SOMA, 2012). Segundo os autores, a versão beta da linguagem LattesMiner estará disponível em breve para testes.

Já o ScriptLattes, disponível desde 2009, é uma ferramenta sob uma licença de uso público (General Public License - GPL) baseada num script desenvolvido em Python que não apenas  extrai dados da produção acadêmica registrada na plataforma Lattes, mas também gera relatórios e gráficos diversos, disponibilizando-os livremente em uma página na web que pode ser facilmente acessada tanto pelos avaliadores da CAPES quanto pelo público em geral (MENA-CHALCO; CÉSAR JUNIOR, 2009).

Porém, com a adoção do captcha na Plataforma Lattes, a extração de dados mesmo por essas ferramentas específicas ficou comprometida. Em 2011 o CNPq também adotou este tipo de validação para o acesso aos CVs Lattes, mas foi por pouco tempo.

E agora? Será que esse captcha será definitivo? O que será dos pesquisadores de dados? /o\

 

Referências

ALVES, A. D.; YANASSE, H. H.; SOMA, N. Y. LattesMiner: uma linguagem de domınio especıfico para extração automática de informações da Plataforma Lattes. In: XII WORKSHOP DE COMPUTAÇÃO APLICADA, 12., 2012, São José dos Campos. Disponível em: http://mtc-m18.sid.inpe.br/col/sid.inpe.br/mtc-m18/2013/01.15.16.10/doc/worcap2012_submission_61%20-%20Alexandre%20D.%20Alves.pdf.

CONSELHO NACIONAL DE DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO E TECNOLÓGICO (CNPq). Sobre a Plataforma Lattes. Brasília: CNPq, s/d. Disponível em: http://www.cnpq.br/web/portal-lattes/sobre-a-plataforma;jsessionid=79EA0A22A8E2107A0623F0CADA2E0444

LANE, J. Let's make science metrics more scientific. Nature, v. 464, p. 488-489, mar. 2010. Disponível em: http://www.nature.com/nature/journal/v464/n7288/full/464488a.html.

MENA-CHALCO, J. P.; CÉSAR JUNIOR, R. M. ScriptLattes:  an open-source knowledge extraction system from the Lattes Platform. Journal of the Brazilian Computer Society, v. 15, n. 4, p. 31-39, 2009. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-65002009000400004&script=sci_arttext.

 



Twitter Works!

24 de Abril de 2015, por Sibele Fausto

 

Hoje foi o último dia de um evento voltado totalmente para o Twitter – a Twitter for Research Conference, que aconteceu de 22 a 24 de abril em Lyon, França. É o primeiro evento de que tenho notícia que trata apenas dessa mídia social, demonstrando o interesse e importância que o Twitter alcançou em seus 9 anos de existência. Mesmo a literatura científica publicada sobre ou com dados do Twitter cresceu consideravelmente desde seu surgimento, conforme o gráfico abaixo.

 

Crescimento da literatura publicada sobre o Twitter (2006-2014)

Fonte: Base de dados Scopus

(Fausto & Aventurier, 2015)

Criada em 2006, essa plataforma de mídia social se expandiu rapidamente, e apesar de ficar atrás de outros serviços como o Facebook (com 1,3 bilhão de usuários ativos) e WhatsApp (500 milhões), o Twitter tem atualmente cerca de 288 milhões de usuários ativos em todo o mundo, com 500 milhões de mensagens (os “tuítes”) sendo enviadas todos os dias, em mais de 30 línguas diferentes.

A dinâmica do Twitter, onde os usuários desenvolvem uma comunidade virtual composta por um público identificado por interesses comuns, os seguidores (followers), que compartilham e replicam livremente conteúdos entre si numa intensa interação através de mecanismos como o “retuíte” (RT), gera afiliações em torno de temas, tópicos e identidades (ZAPPAVIGNA, 2011). Desde seu lançamento o Twitter vem incorporando crescentes facilidades para o compartilhamento de conteúdos, com opções para acrescentar links, imagens e vídeos até mecanismos eficientes de agregação de temáticas específicas através de hashtags - etiquetas atribuídas a um termo, precedido do símbolo cerquilha (#), transformando o termo num link ativo que permite a recuperação de todos os tuítes com a hashtag, além de torná-los passíveis de monitoramento por ferramentas online que registram e tabulam as interações em torno do termo.

Essas funcionalidades tornam o Twitter (e também outras ferramentas de mídia social) fonte de extração dos mais diversos dados (METAXAS; MUSTAFARAJ, 2014), subsidiando pesquisas de diferentes áreas e temas como o Jornalismo, Saúde, Ativismo Político e Social, entre outras. Na Academia, o Twitter, por suas características inerentes, mostra-se especialmente promissor para a Comunicação Científica informal online. E para Ross et al (2011), os eventos científicos são o cenário ideal para o uso acadêmico do Twitter, mostrando enorme utilidade como um backchannel, entendido como o processo através do qual acontecem conversações em mídias sociais online no entorno do evento, atuando como um canal de comunicação paralelo à comunicação real desenvolvida durante suas atividades.

As interações desses backchannels geram informações sobre o evento em si, amplificando sua visibilidade e alcance e inclusive possibilitando o engajamento, a colaboração e a construção de conhecimento em comunidades acadêmicas (ROSS et al, 2011; MCKENDRICK, CUMMING; LEE, 2012). Além de permitir o monitoramento dessas conversações, a exemplo do registro da atividade online no entorno da 4ª edição da Conferência Luso-Brasileira sobre Acesso Aberto (CONFOA), que aconteceu na USP em 2013.

Mesmo com todas as vantagens aparentes do twitter e de outras mídias sociais, é notável que os acadêmicos em geral são refratários a se engajarem nelas. Mahrt, Weller e Peters (2014) apontam algumas pesquisas que mostram que a adoção e engajamento de cientistas nas diferentes mídias, entre elas o Twitter, ainda é relutante e varia muito entre as diversas disciplinas.

Sou suspeita para falar do Twitter, que chamo carinhosamente de Tuitópolis :). Considero-me uma usuária ativa, e reconheço que participar dessa mídia social é muito útil para minhas atividades profissionais e de pesquisa. Obtenho muitas informações pertinentes da minha área, conheço várias pessoas e amplio meu networking – inclusive, pelo menos 8 dos meus coautores de trabalhos publicados nos últimos 5 anos conheci no Twitter - alguns deles estrangeiros.

Em compensação não frequento o Facebook, e embora tenha uma conta lá, esta está às moscas, criando teia de aranha. Creio que realmente é difícil participar de todas as mídias sociais existentes. Meu conselho é experimentar algumas e se dedicar à que mais você se identificar, tanto em dinâmica como em conteúdo. Mas participe de uma mídia social. É imprescindível para continuar atualizado e antenado com os temas de seu interesse!  

 

Referências

FAUSTO, S.; AVENTURIER, P. Scientific literature on Twitter as subject research: preliminary findings based on bibliometric analysis. In: TWITTER FOR RESEARCH CONFERENCE, Lyon, 2015.

MAHRT, M.; WELLER, K.; PETERS, I. Twitter in Scholarly Communication. In: WELLER, K.; BRUNS, A.; BURGESS, J. et al (Eds.). Twitter and Society. New York: Peter Lang Publishing, 2014. p. 399-410.

MCKENDRICK, D. R. A.; CUMMING, G. P.; LEE, A. J. Increased Use of Twitter at a Medical  Conference: A Report and a Review of the Educational Opportunities. Journal of Medical Internet Research, v. 14, n. 6, e176, 2012.

METAXAS, P.; MUSTAFARAJ, E. Sifting the sand on the river bank: Social media as a source for research data. IT-Information Technology, v. 56, n. 5, p. 230–239, 2014.

ROSS, C.; TERRAS, M.; WARWICK, C. et al. Enabled backchannel: conference Twitter use by digital humanists.  Journal of Documentation, v. 67, n. 2, p. 214-237, 2011.

WELLER, K.; BRUNS, A.; BURGESS, J. et al (Eds.). Twitter and Society. New York: Peter Lang Publishing, 2014. [pdf da versão CC-BY-NC-SA]

ZAPPAVIGNA, M. Ambient affiliation: A linguistic perspective on Twitter. New Media & Society, v.3, n. 5, p. 788-806, 2011.



Como a academia pode usar apropriadamente as Mídias Sociais: recomendações da EAU

21 de Abril de 2015, por Sibele Fausto

Artigo da EAU sobre uso dequado de mídias sociais

Postando, pois achei sensacional!

A revista da Associação Europeia de Urologia (European Association of Urology - EAU) publicou um artigo com suas "Recomendações para o uso apropriado de Mídias Sociais". E em acesso aberto. :)

Mais: na lista de autores, ao invés de seus respectivos endereços de email, constam as @s de seus perfis no Twitter! Muito bacana!

As Mídias Sociais são plataformas de serviços na web que se transformaram em novos canais de comunicação científica informal. Grosso modo, os canais formais referem-se à comunicação científica escrita – predominantemente em livros e artigos; e os informais, à oral – tanto públicos, por meio de reuniões e eventos científicos, participação em associações profissionais e em colégios invisíveis; como particulares/privados, através de conversas, telefonemas, e-mails (MEADOWS, 1999). 

Mas com a evolução das Tecnologia de Comunicação e Informação, tanto os canais formais como os informais foram impactados com o advento da web, aqueles transformando-se com as crescentes facilidades da publicação científica online, e esses com as novas tecnologias interativas e dinâmicas proporcionadas pelas mídias sociais. Para Weller e Strohmaier (2014), a web social promove notáveis transformações no ambiente científico, influenciando e modificando amplamente as práticas tanto na metodologia da pesquisa como na comunicação dos seus resultados, na sua avaliação e certificação, na colaboração entre pares e mesmo no ensino e aprendizado, abrindo espaço para novas possibilidades no empreendimento da ciência.

No caso das mídias sociais, elas representam uma nova roupagem para o colégio invisível, onde ocorrem as interações entre os pesquisadores através de trocas informais por canais de comunicação oral e escrita (por telefone ou emails, ou em conversas entre pares e pequenos grupos em situações sociais ou relacionadas à pesquisa — encontros, eventos, visitas a laboratórios, reuniões, etc). E essa dinâmica de comunicação dos colégios invisíveis foi alterada pelas novas tecnologias virtuais em plataformas da Web,  em uma lógica de redes – multidirecionada, associativa e interativa por natureza, intensificando a dinâmica dessas relações de troca e de participação dos pares e de outros públicos, favorecendo tanto a multiplicidade e o debate de ideias como o compartilhamento e disseminação de conteúdos científicos, além de aumentarem a visibilidade dos pesquisadores com sua presença online.

A própria Associação Americana para o Avanço da Ciência (American Association for the Advancement of Science - AAAS) recomenda uma maior presença online dos pesquisadores para que atinjam melhor seu público. Bik e Goldstein (2013) afirmam que os pesquisadores devem explorar o uso das mídias sociais pois, quando usadas de forma orientada e adequada, essas ferramentas podem complementar e melhorar suas carreiras, sugerindo alguns usos:

  • criar uma presença online através de um blog ou de perfis em plataformas de mídias sociais;
  • localizar pares e conversações online de seu interesse;
  • filtrar informações pertinentes;
  • interagir com diversos participantes;
  • atingir seu público.

Há mídias sociais que se caracterizam como acadêmicas, como o ResearchGate; profissionais, como o LinkedIn; e não-acadêmicas, como o Facebook, o Twitter e os blogs, entre outras. Mas mesmo as não-acadêmicas se prestam a fins científicos dependendo de seu perfil e conteúdos, a exemplo dos perfis de entidades científicas como o Cern no Twitter (@CERN) e blogs como o Research Blogging e Scienceblogs (que inclusive tem uma versão em português, o Scienceblogs Brasil).

Ainda não se convenceu da importância de se engajar nas mídias sociais? Então saiba que em breve a presença online em mídias sociais pode ser levada em conta para a promoção acadêmica, tanto quanto as citações que o pesquisador recebe por suas publicações científicas formais.

E então? Já cadastrou um perfil no Twitter? Já tem um blog aqui no Stoa? :)

 

Referências

BIK, H. M.; GOLDSTEIN, M. C. An Introduction to Social Media for Scientists. PLoS Biology, v.11, n.4, e1001535, 2013. DOI: 10.1371/journal.pbio.1001535.

MEADOWS, A. J. A comunicação científica. Brasília: Briquet de Lemos, 1999.

ROUPRET, M.; MORGAN, T. M.; BOSTROM, P. J. et al. European Association of Urology (@Uroweb) Recommendations on the Appropriate Use of Social Media. European Urology, v. 66, p. 628-632, 2014.

WELLER, K.; STROHMAIER, M. Social media in academia: How the Social Web is changing academic practice and becoming a new source for research data. IT-Information Technology, v. 56, n. 5, p. 203–206, 2014.

 



O bazar do Acesso Aberto - registrando analogias mal elaboradas

18 de Abril de 2015, por Sibele Fausto

Grande Bazar de Istambul, TurquiaImagem: Grande Bazar de Istambul, Turquia

 

Em 1999, a O’Reilly Media publicou um ensaio de Eric S. Raymond, “A Catedral e o Bazar” (The Cathedral and the Bazaar), comparando dois modelos de desenvolvimento de software – o modelo “Catedral”, com uma estrutura de planejamento centrada numa equipe especializada, hierarquizada e remunerada, trabalhando no objetivo de desenvolver aplicativos com código fonte proprietário e com fins comerciais; e o modelo “Bazar”, com uma estrutura descentralizada e horizontal de contribuições vindas de uma  grande comunidade de voluntários – característica de softwares abertos como o Linux. Para Raymond, o modelo do software livre assemelha-se a um bazar, com sua variada e heterogênea comunidade de desenvolvedores compartilhando erros e acertos, e assim potencializando as possibilidades de crescimento da capacidade de desenvolvimento do aplicativo, ao contrário do modelo Catedral.

Mas um post recente do Filipe Saraiva mostrou que mesmo no modelo “bazar” as relações comerciais subjazem à sua diversidade. Lembrei-me então de um outro fascinante ensaio, dessa vez do antropólogo Clifford Geertz, descrevendo a etnografia do suq  (bazar) de Sefrou, no Marrocos, em “A Economia do Bazar” (The Bazaar Economy). Geertz aponta que, apesar de sua diversidade, da profusão de povos e de todo tipo de pessoas que frequentam o bazar – um espaço público, essa heterogeneidade é fundamentalmente correlacionada aos negócios e ocupações promovidas no bazar.

Assim, o bazar é abundante de opções e relações, mas é sobretudo um mecanismo social para a produção e troca de bens e serviços: um sistema econômico. Para Geertz, o bazar existe, em primeiro lugar, para unir proveitosamente multidões de ofertas a multidões de demandas.

Sim, mas e o acesso aberto nisso tudo? :)

Como a publicação do ensaio de Raymond, foi também em 1999 que uma cidade chamada Santa Fé abrigou o primeiro evento que estremeceria os alicerces de uma outra “Catedral”. A partir da Convenção de Santa Fé, foi criada a Iniciativa dos Arquivos Abertos (Open Archives Initiative - OAI), levando a um intenso engajamento da comunidade científica internacional no Movimento do Acesso Aberto (Open Access Movement), repudiando as práticas da "Catedral" da comunicação científica, dominada pelos grandes editores comerciais,  restringindo o acesso aos textos completos de revistas científicas a dispendiosas assinaturas.

A evolução do Acesso Aberto, paralela à evolução das tecnologias de comunicação e informação para o ambiente de uma web 2.0 (O’Reilly, 2005) fez surgir possibilidades diferenciadas para a publicação científica formal e informal, com novas alternativas de produção e acesso vislumbradas pela publicação digital online. O Acesso Aberto impulsionou uma verdadeira dinâmica no cenário dominado pela Catedral da publicação científica, dando nova sobrevida ao seu centenário substrato – as revistas científicas – que, renovadas, continuam aí como formato preferencial para comunicar os resultados da ciência.

Essa intensa dinâmica induzida pelo acesso aberto movimentou iniciativas variadas com novas tecnologias para a produção, armazenamento, disseminação, visibilidade e acesso dos conteúdos científicos, inclusive com novas propostas produtivas que garantissem o livre acesso aos artigos, surgindo novos modelos de negócio onde os custos editoriais são bancados pelos próprios autores, através de uma taxa de processamento de publicação (Article Processing Charge – APC). E a diferenciação de opções de tecnologias e serviços focando o acesso aberto prospera, como um verdadeiro bazar. Apenas para o workflow editorial já surgem diferentes alternativas, tanto integradas como em módulos únicos apenas para fases específicas, como o gerenciamento de submissões.

Se Raymond via o Bazar como um modelo libertário pleno de possibilidades para o avanço do software livre, a diversidade de soluções estimulada pelo acesso aberto foi vislumbrada como uma mudança paradigmática revolucionária para a comunicação científica. Mas lembrando Geertz,  é no bazar que atua a mbadla (a "troca"), como poderosa força organizadora da vida social. E troca, no bazar, é a troca comercial, de relações econômicas.

Não à toa, recentemente uma consultoria internacional lançou um relatório analisando o potencial de negócios em publicações em acesso aberto para o período de 2014 a 2017, direcionado aos mais diversos serviços especializados providos por empresas e profissionais de tecnologias da informação. Esse é o grande bazar em que se transformou o acesso aberto.

Quais as implicações dessa tendência para aquela ideia revolucionária inicialmente imaginada para o acesso aberto? Reck (2005), analisando o bazar de Geertz (embora em um outro contexto de análise – o do trabalho), forneceu  algumas pistas: ao comentar a descrição de Geertz de que, apesar de sua diversidade de opções, no bazar há uma tendência muito marcada de “fidelização” das relações, de compradores repetitivos de certos bens e serviços, ao invés de procurar por todo o mercado a cada ocasião de necessidade, independentemente das várias opções que se apresentam, Reck destaca de Geertz que "Cada aspecto da economia de bazar reflete o fato de que o problema principal em relação a seus participantes (...) não é balancear opções, e sim encontrar quais elas são".

Preciso entender e elaborar melhor essa colocação de Reck, porque, como ele mesmo diz, “O que está por detrás disto ainda está por ser visto”:

“O bazar revela formas híbridas de ritmos temporais e expectativas de uso, uma montagem de interesses heterogêneos e auto-projetos. Diversos ciclos coexistem, entrelaçam-se, penetram-se e quebram-se novamente, por exemplo, estável e instável, constantes e singulares reversíveis, ofertas e demandas permanentemente localizadas e seletivamente deslocadas. Dados ou conhecimentos pouco claros são as condições e estipulações. O único conhecimento disponível é a da principal incapacidade de saber de estipulações concretas. A qualidade do produto, as relações de valor e economia de preços, a diversidade de ofertas do dia com produtos similares e os limites de estoque de produtos não-similares: todos esses fatores mudam em questão de dias, e freqüentemente, horas.

As possibilidades de mercado estão ligadas ao constante posicionamento de todos os envolvidos no negócio e nas negociações. Eles estão localizados em um sistema de turbulência comparável ao dos mercados de ação de hoje. O bazar funciona de forma a reduzir, na verdade, o não-conhecimento para uma pessoa, aumenta-o ponto a ponto para outra e o torna permanentemente defensável para ainda outra. A informação não é trocada, mas uma base que permitirá a negociação é procurada. É na busca à informação que o etnologista Clifford Geertz identifica a experiência central do bazar. (...) Comércio e negociação são multi-dimensionais e intensivos. O caso individual é mais importante que a regra geral, que falha em tornar-se concreta. O bazar não funciona por meio de uma lista resumida de opções apresentada por um grande número de pessoas, e sim o contrário, com um grande número de questões nevrálgicas apresentadas apenas a um punhado de pessoas.

Conceitualmente, esta forma de avaliação subjetiva de modelos abstratos ainda não foi usada para realidade virtual porque representa uma entidade de um número de tamanhos singulares e heterogêneos em controle, que não podem ser facilmente padronizados ou programados. Acredito que deveríamos considerar a demanda pela subjetividade, refletida por estes modelos, como uma moeda corrente na habituação cultural ao digitalizado em detrimento do tempo. A vivacidade do bazar (...) é análoga e oposta aos valores propagados da sociedade da Internet. O que está por detrás disto ainda está por ser visto.” (Reck, 2005).

 

Referências

GEERTZ, C. The Bazaar Economy: Information and Search in Peasant Marketing. The American Economic Review, v. 68, n. 2, p. 28-32, 1978.

O'REILLY, T. What is Web 2.0? Design Patterns and Business Models for the Next Generation of Software. San Francisco: O’Reilly Media, 2005.

RAYMOND, E. S. The Cathedral and the Bazaar. San Francisco: O'Reilly Media, 1999.

RECK, H.-U. Trabalho, Tempo e Desperdício: Perspectivas da Crítica à Economia Política da Nova Mídia. Revista Ghrebh, n. 7, out. 2005.