Cometário enviado ao texto da Reitora Suely Vilela no site da Revista Espaço Aberto N99, "USP: uma universidade de classe mundial":

A USP nestes 75 anos acumulou muitos méritos, mas ainda é falha em aspectos fundamentais.

O primeiro deles é que não superou o seu histórico de formação a partir de unidades já existentes. A USP hoje está mais para uma coleção desconexa de faculdades e institutos do que para uma Universidade propriamente dita. A integração interna é mínima. O conhecimento e as carreiras são extremamente segmentadas. Os estudantes pertencem às unidades e não à universidade. Não há liberdade acadêmica nos currículos, que são verdadeiras camisas de força para os alunos. Um estudante de uma unidade não pode tirar livros de uma biblioteca de outra. Há pouco espaço para a individualidade, para a criatividade, para a experimentação, para o risco. Prefere-se fórmulas conservadoras e massificantes. Há uma hierarquização excessiva, um culto à autoridade em detrimento da dialética e do debate.

O conhecimento na USP não é internalizado, não é posto a serviço próprio. Por exemplo, temos escolas de engenharia e arquitetura que são referência nacional, mas a maioria dos prédios da universidade são feios, mal projetados, disfuncionais, desconfortáveis, mal construídos. Temos vários departamentos ligados à computação, mas compramos softwares que poderiam ser facilmente desenvolvidos por estudantes da própria universidade, gerando mais conhecimento, mais experiência, mais excelência.

A USP é uma instituição pública, mas está cada vez mais fechada ao público. Temos museus com acervos importantes, mas os portões ficam fechados nos finais de semana. Não há espaços adequados para receber o público ou abrigar encontros e convivência. Os espaços comuns são mínimos, perpetuando um isolacionismo humano contraditório com a natureza de uma Universidade.

Diante dessas falhas prosaicas (dentre outras), vejo com reservas exercícios de enfatuamento explícito comuns em aniversários. É preciso fazer uma avalição crítica da universidade para que possamos superar nossos atrasos e a partir daí pensar em traçar planos ambiciosos para o futuro. Do contrário o discurso se torna vazio e inócuo.