[Especial Copa] FIFA, uma empresa de marketing esportivo

23 de Fevereiro de 2014, por Alexandre Simionato Bueno

Adminirada por muitos, demonizada por outros tantos e conhecida por todos, a FIFA hoje desempenha um papel de destaque no mundo esportivo. É ela quem organiza o maior evento de um esporte individual na face da Terra: A Copa do Mundo.É curioso perceber o papel da entidade em um mundo onde a publicidade e o marketing desempanham um papel cada vez mais central.  

O futebol tem se transformado de maneira frenética e tornado-se cada vez mais profissional. Assim, a Copa do Mundo vem acompanhando este movimento e a FIFA, responsável por sua organização, posiciona-se cada ve mais enquanto uma empresa de marketing e a Copa como um evento onde você pode ver Messi, Neymar e, principalmente os logos dos chamados parceiros FIFA.

De acordo com a Interbrand, entre 1999 e 2002 a Copa do Mundo (incluindo aí suas eliminatórias) gerou U$584 milhões em receitas com patrocínios. Entre 2007 e 2010, ou seja, em um período de 3 anos,U$1,6 bilhões. Um expressivo aumento de 136% em 10 anos. 

Aumento da receita = aumento da exposição

Adidas, Coca-Cola, Hyundai/Kia, Emirates, Sony e  Visa pagam entre U$24 milhões e U$44milhões anualmente à FIFA para serem seus parceitos. Já o patrocínio da Copa do Mundo Budweiser, BP Castrol, Continental, MTN, McDonald's, Mahindra Satyam and Seara gera para entidade entre U$10 milhões e U$25 milhões. 

E neste jogo, não já almoço grátis. Para o patrocinador, o importante é potencializar a exposição de sua marca. Não obstante o valor intrínseco que existe em patrocinar um evento como a Copa do Mundo, tudo que os patrocinadores querem é maximizar 

 


 

 

 

 

 



[O Lobo de Wall Street] Um novo valor. Sem nenhuma moral

5 de Fevereiro de 2014, por Alexandre Simionato Bueno

Após ler a resenha do amigo Arnobio Rocha, resolvi assistir ao Lobo de Wall Street, de Martin Scorsese. Para mim tambem Scorsese é o maior diretor vivo e a grande virtude do filme é conseguir compor personagens com valores tão fortes, mas tão fortes que conseguem mover o mundo e moldar ambientes. Transformar.

Jordan Belfort (Leonardo DiCaprio) é uma dessas figuras carismáticas, agressivas e assustadoras. São 3 horas de cocaína, orgias, dinheiro e trapaças em ritmo alucinante.

Como bem observou o Arnobio em sua resenha, desde o primeiro dia na corretora o Lobo foi amamentado pelo seu mentor Mark Hanna (Matthew McConaughey). No primeiro almoço de ambos, Dicaprio chega cheio de clichês sobre como agregar valor ao cliente e leva a lição que moldará todas as suas posturas nos anos seguintes: “Fuck the clients!” é  o principal mandamento.  "Venda qualquer lixo e mantenha a roda girando. Não interessa se o cara está ganhando dinheiro ou não. Não interessa o que você está vendendo." Este almoço também foi regado por vodka e alguns tiros de cocaína são dados por Hanna.

Lição básica aprendida, chega a hora do Lobo enriquecer. Mas, nem tudo são flores. No dia que ele obteve a autorização para corretar,  Wall Street sofre o maior crash desde 1929 e a corretora em trabalha quebra. Aqui, ainda na linha do Arnobio, o Lobo perde todo freio moral. Sem emprego em Wall Street, ruma para Long Island onde vira protagonista de uma pequena corretora que opera com papéis de startups e empresas obscuras. A Comissão? 50%!!! E é aí que o Lobo descobre ou se aprimora na arte de vender até geladeiras para esquimós. E pouco importa o que a empresa faz. Pouco importa se as ações vão se valorizar. O essencial aqui é vender. Empurrar o papel e levar a comissão é a lei.

Passa-se o tempo e o Lobo começa ganhar envergadura para seu vôo solo. Junta ao redor de si vendedores de pneus, traficantes e nerds para abrir seu próprio negócio. Contudo engana-se que o core business é comprar e vender ações. O negócio do Lobo é gerir uma seita. Seus discursos para os empregados transformam-se em verdadeiras pregações religiosas. O Lobo transforma-se em um pastor-corretor. E as preces  são pela acumulação sem fim e o individualismo onde seus clientes são meros meios para um fim maior: cocaína, orgias, dinheiro e trapaças em ritmo alucinante.

Mas não tome a película como moralista. Ela não é. O Lobo de Wall Street é uma reapropriação de Cassino, outra ópera de 3 horas dirigida por Scorses em meados dos anos 90. Em Cassino, um homem rígido, Sam "Ace" Rothstein (Robert DeNiro), é escolhido pela máfia de Chicago para administrar um cassino em Las Vegas. O andamento dos dois filmes é o mesmo. Tudo muito rápido. Em Cassino há um choque de personagens com valores fortíssimos: "Ace" Rothstein, o funcinário padrão, Ginger (Sharon Stone), a prostituta junkie e o espetacular Nicky Santoro (Joe Pesci) como mafioso violento e barra pesada. Os três se completam e conflitam no filme inteiro.

Porém entre Cassino e O Lobo de Wall Street há uma sinalização que algo mudou. Cassino mostra uma imoralidade controlada. "Ace" Rothstein tenta manter o negócio e separar o naco dos mafiosos de Chicago sem que eles intervenham ou se preocupem. E para isso impõe sua visão de mundo modeladora ao ambiente, mas fracassa. Já o Lobo mostra que existe apenas um valor intrínseco no negócio, o ganho individual. O sistema precisa funcionar para garantir cocaína, orgias, dinheiro e trapaças em ritmo alucinante. Tem um fim em si. Não há mais big bosses esperando dividendos. Não há mais máscara entre o ilegal e o legal. É cada um por si e este é o valor fundamental.

 

Eu terminei o filme com a seguinte pergunta: o que esses caras estão fazendo com meu dinheiro?



Reflexões acerca da minha vivencia com os Cara Pintadas. E o MPL

16 de Junho de 2013, por Alexandre Simionato Bueno - 0sem comentários ainda

Uma reflexão. Participei ativamente do Movimento dos Caras Pintadas. Fui desde a primeira manifestação na Praça da Sé - com meia dúzia de gatos pingados - até a derradeira onde, mesmo após a renúncia de Collor, o Congresso votou seu impeachment. 

Foi um movimento bacana, onde as manifestações eram atos políticos e sociais ao mesmo tempo. Acima de tudo, era um momento para as pessoas caminharem no meio da Paulista em plena luz do dia e, mais do que qualquer outra coisa, usufruir da cidade. 

Me lembro bem da reação dos mais velhos. Pessoas que àquela época tinham seus 40 anos de idade. Todos eram pragmáticos, céticos e um pouco medrosos. O Brasil havia recém saído da ditadura militar e Collor foi o primeiro presidente civil eleito pelo povo em mais de 20 anos. Portanto, este medo justificava-se.

Muito dos ideais daquela geração perderam-se. Como na transição para a democracia (Diretas Já!), não soubemos reverter os modos políticos gerais. Seja porque a grande “missão”já havia sido cumprida, seja porque as lideranças do Movimento, sabidamente a UNE, virou uma burocracia infernal e deu origem a um dos grandes males do Brasil: as Carterinhas de Estudante. 

Alem disso, o político que assumiu a Presidência, Itamar Franco - mesmo ridicularizado - fez uma transição excepcional e garantiu uma paz institucional que de certa forma garante a Democracia até hoje. Por outro lado, embora com um volume imenso de jovens, os Caras Pintadas não era um movimento popular. Ou seja, havia estudantes de classe média e não a maioria, ou o povo miserável em suas fileiras.

Olhando com a cabeça de hoje para o passado, não me arrependo de sair às ruas. Talvez hoje cobrasse mais consistência e visão de longo prazo de mim mesmo, afinal de contas os Caras Pintadas foi um movimento tão míope que simplesmente acabou no pós-Collor. Hoje para mim o grande aprendizado é perceber que Renan, Collor, Sarney, FHC, Dirceu etc somos nós. Seja porque fazemos as mesmas merdas em escala menor, seja porque não somos politizados seja porque só lemos besteiras e investimos mais em TV a Cabo e Academias de Ginástica do que em Educação. Sim, nós a classe média e não o governo. 

Neste sentido, não me iludo com o MPL. Creio que é interessante ver jovens sair às ruas e se apropriar da cidade. Portar cartazes e gritar palavras de ordem é um baita exercício de cidadania, de verdade. Mas não vejo no volume de gente a massa critica necessária para modificar o rumo da Nau Brasilis. Enfim , pode ser pessimismo de quem viu sua geração fracassar. E eu espero que seja isso mesmo.



A dupla vida de FHC

3 de Junho de 2011, por Desconhecido - 0sem comentários ainda

FHC tenta agora conciliar dois desafios quase mutuamente excludentes. Seu trabalho sobre as drogas e sua atuação como principal líder do PSDB.

Pode-se falar muita coisa FHC, menos de que ele não tenha idéias próprias. Senador, Chanceler, Ministro da Fazenda e Presidente do Brasil por duas vezes. Sociólogo formado e professor universitário, cumpriu um script de vida raro e respeitoso. Talvez por isso, decidiu junto com outros senhores, na melhor acepção da palavra, estudar questões de interesse através do grupo “The Elders” ou “Os Senhores”.

De acordo com o site do grupo, “"Os Senhores" é um grupo independente de líderes globais eminentes, reunidos por Nelson Mandela, que oferece sua influência coletiva e experiência para suportar  a construção da paz, ajudar a endereçar causas importantes do sofrimento humano e promover os interesses compartilhados da humanidade.”

Tudo bem que a missão descrita acima poderia perfeitamente ser proferida por uma candidata a Miss, contudo  seus membros, dentre os quais estão Kofi Annan, Nelson Mandela e o próprio FHC, estão bem acima disso. É um pessoal de peso, com credibilidade e conhecimento de causa.

A iniciativa é interessante, pois  no universo político (que engloba economia e sociedade) muitas discussões de interesse são travadas de maneira bastante simplista e até maniqueísta, pois os partidos hoje em dia miram muito mais o “mercado eleitoral” do que propriamente programas e idéias.

Portanto, os Senhores podem trazer uma luz nova e consistente aém de peso para causas e discussões complexas, pois estão afastados das querelas partidárias, correto? Não.

Esta semana a mídia deu grande visibilidade ao documentário “Quebrando o tabu”, onde FHC, em sua vida de “Senhor”  defende a mudança de abordagem com relação à maconha. Claro que este é um tema quente, onde a carga emocional da discussão é certamente maior do que a discussão do próprio problema. Debater drogas traz à tona todo tipo de sentimento e é o típico assunto que os partidos políticos, se pudessem escolher, simplesmente excluiriam de sua pauta.

Por outro lado, o ex-Presidente, na sua vida de líder político, ainda atua de maneira bastante efetiva dentro do seu partido, o PSDB. Talvez por ser o maior ativo do partido, ou talvez, por ser o ativo que resta desde o afastamento e falecimento do melhor do PSDB. Gente como Bresser-Pereira, Bolívar Lamounier, José Arthur Giannotti, Boris Fausto entre outros grandes intelectuais estão longe do ninho tucano e grandes lideres, como Montoro e Covas,  deixaram saudades e jamais foram substituídos.  

Portanto FHC é o que resta do velho PSDB de 1988.

E é aí que mora o perigo. A dupla vida de FHC pode tirar a eficácia de seu importante trabalho de “Senhor”, uma vez que sua imagem e presença ainda estão completamente ligados ao PSDB. Talvez esse seja um dilema difícil de entender e um nó quase impossível de desatar. Ao se propor a tratar de questões impopulares, espinhosas e de difícil digestão, FHC pode não ter o peso necessário para alavancar os Senhores, mas pode ser tomar um peso inconveniente (eleitoralmente falando) para o PSDB.

 



A energia nuclear no mundo e no Brasil após Fukushima

12 de Maio de 2011, por Desconhecido - 0sem comentários ainda

Valor 13/05/2011

O acidente de Fukushima arrefeceu o aquecimento que a indústria nuclear experimentava em anos recentes, nos países industrializados. Partidos ligados ao movimento verde ganham espaço e políticos que apoiavam as usinas nucleares estão revendo suas posições.

 

Na Alemanha - supridora da tecnologia das usinas de Angra - a expansão do parque nuclear foi cancelada e a chanceler Angela Merkel já declarou que as usinas existentes "serão desativadas o mais cedo possível".

No Brasil, entretanto, os políticos não têm mostrado sensibilidade para rever posições equivocadas. No dia seguinte ao acidente de Fukushima, o ministro de Minas e Energia declarou que "as usinas de Angra são 100% seguras e o plano de construir outras não será revisto".

Angra está perto dos centros mais densamente povoados e industrializados do Brasil. Um acidente nuclear ali provocaria perdas humanas e paralisaria grande parte da economia, como está acontecendo no Japão pós-Fukushima. Não precisamos correr esse risco. Apesar das conhecidas questões ambientais, a alternativa mais racional para se expandir o sistema elétrico é aproveitar o potencial hidráulico, em combinação com parques eólicos e com biomassa, complementados por térmicas flexíveis.

De acordo com a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), o potencial hidrelétrico brasileiro é de 267,8 GW, dos quais 188,5 GW não estão em aproveitamento, aí incluído o potencial das pequenas hidrelétricas, que é de 17,5 GW, como se vê na tabela.

A região norte (essencialmente a Amazônia) detém 65% do potencial não aproveitado.

Se, por motivos de caráter social e ambiental, os planos de expansão do sistema elétrico forem reformulados, limitando-se em 80% o potencial a aproveitar na Amazônia - e se as hidrelétricas amazônicas forem projetadas para inundar 0,3 km2 /MW, a área alagada pelos reservatórios será de aproximadamente 27 mil km2, incluindo a área já ocupada pelos rios nas estações chuvosas. Isso equivale a 0,5% da área da região - uma alteração perfeitamente assimilável pela natureza.

É indispensável que se faça um inventário dos aproveitamentos hidráulicos e eólicos, ordenando-os por mérito econômico, social e ambiental; e que se institucionalize um processo decisório submetido a controle público, para organizar a sequência das usinas a serem construídas e descartar as que apresentarem problemas insuperáveis.

Se esse processo já estivesse em vigor em 2003, é possível que um aproveitamento como o de Belo Monte tivesse dado lugar a hidrelétricas com reservatórios pequenos, escalonados ao longo dos rios, com melhores atributos sociais e ambientais.

Mediante uma política energética que respeite o mérito dos projetos, as empresas públicas e o empresariado do setor de geração elétrica deverão se transformar nos maiores defensores do ecossistema amazônico, pois alterações causadas por desmatamentos comprometerão a vazão dos rios, inviabilizando as próprias hidrelétricas.

De acordo com um levantamento feito pelo Centro de Pesquisas de Energia Elétrica da Eletrobrás, em conjunto com as firmas Camargo-Schubert e True Windows Solutions há dez anos, o potencial eólico brasileiro para ventos com velocidade média superior a 7 m/s é de 143,47 GW. Em razão da evolução tecnológica, como a maior altura das torres dos aerogeradores, e do avanço nas medições de inventário, há indicações de que esse potencial poderá dobrar.

A interligação dos sistemas hidrelétrico e eólico permitirá que parte da energia gerada nos parques eólicos seja acumulada na forma de água nos reservatórios hidrelétricos - de modo semelhante às malhas termo-eólicas de alguns países europeus, nas quais a energia eólica permite que se economize gás natural ou óleo combustível.

Esse sistema hidroeólico poderá operar em sinergia com usinas termelétricas a biomassa, pois a frota automotiva brasileira é em grande parte alimentada com etanol, forçando a produção de bagaço em escala suficiente para alimentar termelétricas de pequeno porte, totalizando uma capacidade da ordem de 15 GW a partir de 2.012, segundo a Única.

Portanto, o sistema interligado hidroeólico-térmico teria uma capacidade global de 425 GW. Como reserva de segurança, esse sistema teria um pequeno parque de usinas a gás, flexíveis, que somente operariam em períodos hidroeólicos críticos. Essa solução tem custos de investimento inicial significativamente inferiores aos da alternativa nuclear equivalente, sem exigir os custos e cuidados das gerações futuras, por séculos, para o combustível nuclear irradiado, de cerca de 1 mil toneladas por reator.

Portanto, o sistema interligado hidroeólico-térmico teria uma capacidade global de 425 GW. Como reserva de segurança, esse sistema teria um pequeno parque de usinas a gás, flexíveis, que somente operariam em períodos hidroeólicos críticos. Essa solução tem custos de investimento inicial significativamente inferiores aos da alternativa nuclear equivalente, sem exigir os custos e cuidados das gerações futuras, por séculos, para o combustível nuclear irradiado, de cerca de 1 mil toneladas por reator.

Por outro lado, segundo o IBGE, a população brasileira deverá se estabilizar em 215 milhões de habitantes por volta do ano 2.050, de modo que daí em diante o referido sistema integrado poderá oferecer continuamente cerca de 8.650 kWh firmes por habitante por ano, superior a muitos países de alta qualidade de vida. Com isso, o Brasil seria o primeiro grande país a ter um sistema elétrico de fato sustentável, econômica e socioambientalmente.

 

Joaquim Francisco de Carvalho é doutor em Energia pela USP, pesquisador do programa de pós-graduação em Energia da USP (PPGE/USP), ex-diretor industrial da Nuclen, primeiro presidente do IBDF (precursor do Ibama)

Ildo Sauer é diretor do Instituto de Eletrotécnica e Energia da Universidade de São Paulo, Coordenador do PPGE/USP, Ph.D. em Engenharia Nuclear pelo MIT, ex-gerente de projeto do circuito primário do reator nuclear da Marinha (1986-89).