FHC tenta agora conciliar dois desafios quase mutuamente excludentes. Seu trabalho sobre as drogas e sua atuação como principal líder do PSDB.

Pode-se falar muita coisa FHC, menos de que ele não tenha idéias próprias. Senador, Chanceler, Ministro da Fazenda e Presidente do Brasil por duas vezes. Sociólogo formado e professor universitário, cumpriu um script de vida raro e respeitoso. Talvez por isso, decidiu junto com outros senhores, na melhor acepção da palavra, estudar questões de interesse através do grupo “The Elders” ou “Os Senhores”.

De acordo com o site do grupo, “"Os Senhores" é um grupo independente de líderes globais eminentes, reunidos por Nelson Mandela, que oferece sua influência coletiva e experiência para suportar  a construção da paz, ajudar a endereçar causas importantes do sofrimento humano e promover os interesses compartilhados da humanidade.”

Tudo bem que a missão descrita acima poderia perfeitamente ser proferida por uma candidata a Miss, contudo  seus membros, dentre os quais estão Kofi Annan, Nelson Mandela e o próprio FHC, estão bem acima disso. É um pessoal de peso, com credibilidade e conhecimento de causa.

A iniciativa é interessante, pois  no universo político (que engloba economia e sociedade) muitas discussões de interesse são travadas de maneira bastante simplista e até maniqueísta, pois os partidos hoje em dia miram muito mais o “mercado eleitoral” do que propriamente programas e idéias.

Portanto, os Senhores podem trazer uma luz nova e consistente aém de peso para causas e discussões complexas, pois estão afastados das querelas partidárias, correto? Não.

Esta semana a mídia deu grande visibilidade ao documentário “Quebrando o tabu”, onde FHC, em sua vida de “Senhor”  defende a mudança de abordagem com relação à maconha. Claro que este é um tema quente, onde a carga emocional da discussão é certamente maior do que a discussão do próprio problema. Debater drogas traz à tona todo tipo de sentimento e é o típico assunto que os partidos políticos, se pudessem escolher, simplesmente excluiriam de sua pauta.

Por outro lado, o ex-Presidente, na sua vida de líder político, ainda atua de maneira bastante efetiva dentro do seu partido, o PSDB. Talvez por ser o maior ativo do partido, ou talvez, por ser o ativo que resta desde o afastamento e falecimento do melhor do PSDB. Gente como Bresser-Pereira, Bolívar Lamounier, José Arthur Giannotti, Boris Fausto entre outros grandes intelectuais estão longe do ninho tucano e grandes lideres, como Montoro e Covas,  deixaram saudades e jamais foram substituídos.  

Portanto FHC é o que resta do velho PSDB de 1988.

E é aí que mora o perigo. A dupla vida de FHC pode tirar a eficácia de seu importante trabalho de “Senhor”, uma vez que sua imagem e presença ainda estão completamente ligados ao PSDB. Talvez esse seja um dilema difícil de entender e um nó quase impossível de desatar. Ao se propor a tratar de questões impopulares, espinhosas e de difícil digestão, FHC pode não ter o peso necessário para alavancar os Senhores, mas pode ser tomar um peso inconveniente (eleitoralmente falando) para o PSDB.