Após ler a resenha do amigo Arnobio Rocha, resolvi assistir ao Lobo de Wall Street, de Martin Scorsese. Para mim tambem Scorsese é o maior diretor vivo e a grande virtude do filme é conseguir compor personagens com valores tão fortes, mas tão fortes que conseguem mover o mundo e moldar ambientes. Transformar.

Jordan Belfort (Leonardo DiCaprio) é uma dessas figuras carismáticas, agressivas e assustadoras. São 3 horas de cocaína, orgias, dinheiro e trapaças em ritmo alucinante.

Como bem observou o Arnobio em sua resenha, desde o primeiro dia na corretora o Lobo foi amamentado pelo seu mentor Mark Hanna (Matthew McConaughey). No primeiro almoço de ambos, Dicaprio chega cheio de clichês sobre como agregar valor ao cliente e leva a lição que moldará todas as suas posturas nos anos seguintes: “Fuck the clients!” é  o principal mandamento.  "Venda qualquer lixo e mantenha a roda girando. Não interessa se o cara está ganhando dinheiro ou não. Não interessa o que você está vendendo." Este almoço também foi regado por vodka e alguns tiros de cocaína são dados por Hanna.

Lição básica aprendida, chega a hora do Lobo enriquecer. Mas, nem tudo são flores. No dia que ele obteve a autorização para corretar,  Wall Street sofre o maior crash desde 1929 e a corretora em trabalha quebra. Aqui, ainda na linha do Arnobio, o Lobo perde todo freio moral. Sem emprego em Wall Street, ruma para Long Island onde vira protagonista de uma pequena corretora que opera com papéis de startups e empresas obscuras. A Comissão? 50%!!! E é aí que o Lobo descobre ou se aprimora na arte de vender até geladeiras para esquimós. E pouco importa o que a empresa faz. Pouco importa se as ações vão se valorizar. O essencial aqui é vender. Empurrar o papel e levar a comissão é a lei.

Passa-se o tempo e o Lobo começa ganhar envergadura para seu vôo solo. Junta ao redor de si vendedores de pneus, traficantes e nerds para abrir seu próprio negócio. Contudo engana-se que o core business é comprar e vender ações. O negócio do Lobo é gerir uma seita. Seus discursos para os empregados transformam-se em verdadeiras pregações religiosas. O Lobo transforma-se em um pastor-corretor. E as preces  são pela acumulação sem fim e o individualismo onde seus clientes são meros meios para um fim maior: cocaína, orgias, dinheiro e trapaças em ritmo alucinante.

Mas não tome a película como moralista. Ela não é. O Lobo de Wall Street é uma reapropriação de Cassino, outra ópera de 3 horas dirigida por Scorses em meados dos anos 90. Em Cassino, um homem rígido, Sam "Ace" Rothstein (Robert DeNiro), é escolhido pela máfia de Chicago para administrar um cassino em Las Vegas. O andamento dos dois filmes é o mesmo. Tudo muito rápido. Em Cassino há um choque de personagens com valores fortíssimos: "Ace" Rothstein, o funcinário padrão, Ginger (Sharon Stone), a prostituta junkie e o espetacular Nicky Santoro (Joe Pesci) como mafioso violento e barra pesada. Os três se completam e conflitam no filme inteiro.

Porém entre Cassino e O Lobo de Wall Street há uma sinalização que algo mudou. Cassino mostra uma imoralidade controlada. "Ace" Rothstein tenta manter o negócio e separar o naco dos mafiosos de Chicago sem que eles intervenham ou se preocupem. E para isso impõe sua visão de mundo modeladora ao ambiente, mas fracassa. Já o Lobo mostra que existe apenas um valor intrínseco no negócio, o ganho individual. O sistema precisa funcionar para garantir cocaína, orgias, dinheiro e trapaças em ritmo alucinante. Tem um fim em si. Não há mais big bosses esperando dividendos. Não há mais máscara entre o ilegal e o legal. É cada um por si e este é o valor fundamental.

 

Eu terminei o filme com a seguinte pergunta: o que esses caras estão fazendo com meu dinheiro?