Uma reflexão. Participei ativamente do Movimento dos Caras Pintadas. Fui desde a primeira manifestação na Praça da Sé - com meia dúzia de gatos pingados - até a derradeira onde, mesmo após a renúncia de Collor, o Congresso votou seu impeachment. 

Foi um movimento bacana, onde as manifestações eram atos políticos e sociais ao mesmo tempo. Acima de tudo, era um momento para as pessoas caminharem no meio da Paulista em plena luz do dia e, mais do que qualquer outra coisa, usufruir da cidade. 

Me lembro bem da reação dos mais velhos. Pessoas que àquela época tinham seus 40 anos de idade. Todos eram pragmáticos, céticos e um pouco medrosos. O Brasil havia recém saído da ditadura militar e Collor foi o primeiro presidente civil eleito pelo povo em mais de 20 anos. Portanto, este medo justificava-se.

Muito dos ideais daquela geração perderam-se. Como na transição para a democracia (Diretas Já!), não soubemos reverter os modos políticos gerais. Seja porque a grande “missão”já havia sido cumprida, seja porque as lideranças do Movimento, sabidamente a UNE, virou uma burocracia infernal e deu origem a um dos grandes males do Brasil: as Carterinhas de Estudante. 

Alem disso, o político que assumiu a Presidência, Itamar Franco - mesmo ridicularizado - fez uma transição excepcional e garantiu uma paz institucional que de certa forma garante a Democracia até hoje. Por outro lado, embora com um volume imenso de jovens, os Caras Pintadas não era um movimento popular. Ou seja, havia estudantes de classe média e não a maioria, ou o povo miserável em suas fileiras.

Olhando com a cabeça de hoje para o passado, não me arrependo de sair às ruas. Talvez hoje cobrasse mais consistência e visão de longo prazo de mim mesmo, afinal de contas os Caras Pintadas foi um movimento tão míope que simplesmente acabou no pós-Collor. Hoje para mim o grande aprendizado é perceber que Renan, Collor, Sarney, FHC, Dirceu etc somos nós. Seja porque fazemos as mesmas merdas em escala menor, seja porque não somos politizados seja porque só lemos besteiras e investimos mais em TV a Cabo e Academias de Ginástica do que em Educação. Sim, nós a classe média e não o governo. 

Neste sentido, não me iludo com o MPL. Creio que é interessante ver jovens sair às ruas e se apropriar da cidade. Portar cartazes e gritar palavras de ordem é um baita exercício de cidadania, de verdade. Mas não vejo no volume de gente a massa critica necessária para modificar o rumo da Nau Brasilis. Enfim , pode ser pessimismo de quem viu sua geração fracassar. E eu espero que seja isso mesmo.